
EU, CHRISTIANE F., TREZE ANOS,
DROGADA, PROSTITUDA...
Kai Hermann e Horst Rieck
Ttulo original: Wir Kinder vom Bahnhof Zoo
Traduo de: Maria Celeste Marcondes
Crculo do Livro
Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap
Prefcio
Este livro nos fala de uma desgraa que nossa
sociedade recalca em sua conscincia. Pelo que revela,
ele me parece mais importante que numerosas
anlises sociolgicas ou trabalhos de especialistas.
Este documento sui generis mostrar, enfim, ao
grande pblico  pelo menos  isso que esperamos 
que a toxicomania e o alcoolismo juvenil, em
constante expanso, e a atrao dos jovens por seitas
no so fenmenos importados, mas gerados por
nossa prpria sociedade.  em nossas famlias, em
nossas escolas, nas discotecas  onde qualquer um
pode entrar  que nasce esse flagelo, geralmente
considerado uma doena extica. O documento que a
jovem Christiane nos fornece (com a ajuda de Kai
Hermann e Horst Rieck) nos ensina ainda outra coisa:
o caminho que leva  droga no  traado pelas
excentricidades de uma categoria particular de crianas
e adolescentes essencialmente marginais, mas por
todo um conjunto de problemas estreitamente
relacionados  condies de habitao subumanas,
impossibilidade de expandir-se por meio de jogos,
crises entre os pais, um sentimento generalizado de
alienao e de isolamento no seio da famlia, na
escola, etc. Ao trmino da leitura deste livro muitos
leitores se perguntaro, e com razo, quem  o mais
"humano": a infeliz Christiane, drogada e delinqente,
ou as pessoas do seu meio que representam a
sociedade dita "normal"  as "pessoas respeitveis".
Desde que a revolta dos jovens contra a autoridade
perdeu sua intensidade, h uma tendncia em
acreditar que tudo entrou novamente em seu lugar e
que, com exceo dos terroristas e seus seguidores, a
juventude de hoje vive uma integrao social sem
conflitos. Essa idia  fruto de um trabalho obstinado
de recalcamento. Como nos anos 70 assistimos 
quase extino da contestao ativista e de suas
penosas provocaes quase cotidianas, tendemos a
minimizar, a negligenciar  porque so menos
ruidosas e menos espetaculares  as novas formas de
contestao. Estas so as novas formas de protesto de
uma parcela considervel da nova gerao.
Felizes por ver cessar o conflito permanente nas
famlias, nas escolas, nas universidades e ver as ruas
desimpedidas das eternas manifestaes, preferimos
no tomar conhecimento de que, sob a fachada de
adaptao, aparecem sintomas inquietantes em um
nmero crescente de jovens: uma estranha apatia,
uma tendncia a se fechar em si mesmos. A grande
massa dos adultos, pessoas bem integradas na
sociedade, adotou uma atitude resignada, essencialmente
defensiva: "Fiquem a com as suas
'contraculturas', suas maneiras excntricas de viver,
desde que no perturbem a 'nossa vidinha'. Vocs
acabaro compreendendo que, para sobreviver na
nossa sociedade hiperorganizada e impiedosa, somos
forados a com ela cerrar fileiras!" A indiferena, as
manifestaes de rejeio de tantas crianas e
adolescentes, ns as interpretamos como "deixe-me
em paz", "deixe-me com meus companheiros". Na
verdade, essa interpretao  apenas uma projeo
dos desejos dos adultos, uma cegueira voluntria. Na
realidade, Christiane e centenas de milhares de
crianas e adolescentes afastaram-se do nosso mundo
somente por decepo, porque os adultos no
souberam dar-lhes a imagem de uma comunidade
humana onde eles tivessem seu lugar,  qual gostariam
de se integrar, onde encontrassem compreenso,
segurana e calor. Christiane, como todos os seus
amigos da turma dos drogados e de prostitutas, tem
pais que passam por grandes dificuldades e que,
inconscientemente, transmitiram aos filhos seu
desespero, sua solido  fsica e moral , seu
amargor e seu ressentimento.
Na maioria das vezes so crianas como
Christiane, particularmente sensveis, vulnerveis e
cheias de dignidade, que, em conseqncia do
fracasso da gerao dos seus pais, refugiam-se na
marginalidade. Isso para escapar s presses da
adaptao, da "normalidade", para se proteger da
despersonalizao em que vivem seus pais.  triste
ver esses seres pequenos e frgeis se reunirem em
bandos para tentar criar, clandestinamente, um
mundo irreal que responda s suas necessidades mais
profundas. E essas tentativas esto,
irremediavelmente, destinadas ao fracasso. O que
busca Christiane no interior do bando? Um pouco de
verdadeira solidariedade, de paz, longe da agitao do
seu meio. Ela procura ser aceita, sem se submeter a
opresses de todos os gneros. "Eu no acho que
entre jovens que no se drogam possa existir uma
amizade como essa que nos une, a ns do bando."
Para ela, o bando  um refgio contra essas prprias
instituies que, teoricamente, deveriam responder s
suas aspiraes  e isso ela exprime, com intenso
desespero, na sua crtica amarga  escola: "O que
quer dizer essa de 'proteo do meio ambiente'? Pra
comear,  ensinar as pessoas a viverem juntas.  isso
a que a gente devia aprender nesta escola fodida, a
se interessarem uns pelos outros, em vez de cada um
querer ser mais que o outro, ser mais forte que o cara
ao lado e passar o tempo a fazer malandragens para
ter uma nota melhor".
No caso de o leitor tentar convencer-se de que as
revelaes contidas neste livro se referem somente s
grandes cidades e que, alm disso, trata-se de um
fenmeno marginal, ns lhe asseguramos: o vcio
precoce da herona, o alcoolismo juvenil e seus efeitos
secundrios  prostituio infantil, delinqncia ligada
 droga  so amplamente disseminados. Mas por
que so to pouco conhecidos? A confisso de
Christiane nos fornece algumas explicaes: raros,
dentre aqueles que sabem  instituies oficiais tais
como a polcia, escolas, entidades mdicas e sociais,
clnicas , so os que vo at o fundo do problema ou
que do o grito de alerta. As coisas acontecem como
se houvesse uma conspirao de silncio, como se
tivesse sido decidido resolver o problema somente
com medidas de rotina. Contentam-se em observar,
registrar e eventualmente isolar em algum estabelecimento.
O sofrimento, o desespero, o universo
dessas crianas, nada transpira para o exterior. Tentase
apresentar o problema da droga unicamente como
conseqncia da atividade criminosa de traficantes e
revendedores. De certa forma, a luta acaba sendo uma
espcie de "operao limpeza".
As instituies responsveis desenvolveriam
certamente mais terapia e preveno se fossem
encorajadas por um maior apoio poltico, mas este
continua a no existir. E a ao poltica, por sua vez, 
pressionada pela opinio pblica, que se caracteriza
por uma tendncia generalizada a recalcar, a no
querer pensar. Essa tendncia  cuidadosamente estimulada
por certas foras polticas que, preocupadas
em no deixar nenhuma sombra, por menor que seja,
sobre a ordem estabelecida, imputam,
sistematicamente, o fracasso ou a inadaptao ao
prprio inadaptado ou ao corruptor annimo.
No se trata pura e simplesmente de aumentar a
informao sobre o problema da droga, mas de uma
mudana de atitude da grande maioria dos adultos:
ns precisamos ter a coragem de tomar conscincia de
uma situao deplorvel e da nossa responsabilidade
em relao a ela. De certa forma, o problema da droga
 apenas um sintoma chocante da incapacidade dos
adultos  falo de maneira geral  de convencer a
gerao jovem de que ela tem oportunidade de
encontrar, na sociedade da qual ns somos a imagem,
um verdadeiro desenvolvimento humano. Na
realidade, se as crianas se entregam  droga ou aos
braos de seitas duvidosas, no  por puro capricho,
surgido do nada;  porque os pais, involuntria e
inconscientemente, lhes recusam ajuda, possibilidade
de crescer na sua relao com os outros.  isso que
eles vo buscar nessas subculturas. Escutar os filhos,
ter conscincia de seus problemas, eis uma coisa que
no se faz mais. Ao contrrio, so os pais que
transferem para os filhos seus prprios problemas,
encarregando-os, muitas vezes, de resolv-los. O
problema de Christiane ilustra perfeitamente este
mecanismo psicolgico: pode-se analisar a maneira
como esta criana assume inconscientemente os
ressentimentos e as insatisfaes de seus pais. Ela
fracassa nessa difcil tarefa. Um fracasso que se
expressa de forma diferente do de seus pais.
De qualquer forma,  um erro fundamental
pensar que o incio do isolamento irremedivel dos
jovens foi seu mergulho na marginalidade. Esse
isolamento era anterior. No podemos, portanto,
atribu-lo  m vontade ou  recusa das crianas em
se comunicarem. O motivo  a privao de uma
relao slida e confiante com aqueles que tm por
misso dar a eles amor e apoio. Seria muito simplista
acusar este pai ou aquela me. Outros fatores interrelacionados
exercem uma influncia nociva.
Christiane descreve, com rara perspiccia, os dados de
um urbanismo que contribui para a deteriorao da
comunicao entre as pessoas. Os desertos de
concreto de muitas das "zonas de saneamento"
modernas encerram as pessoas em um ambiente
totalmente artificial, frio, mecnico, que agrava em
propores catastrficas todos os conflitos que as
famlias j tinham antes de nele se instalarem. O
conjunto residencial Gropius  apenas um exemplo: h
muitos desses grandes conjuntos residenciais construdos
unicamente dentro de uma perspectiva
funcional, tcnica, esquecidas as necessidades afetivas
dos seres humanos. Transformam-se em um excelente
meio para o desenvolvimento de problemas
psicolgicos. No  por acaso que os casos mais
graves de alcoolismo e toxicomania juvenil a esto
implantados. Alm disso, as escolas so semelhantes a
grandes fbricas, onde reina o anonimato, a solido
moral e uma concorrncia desenfreada e brutal.
Nessas condies, crianas cheias de vida, incapazes
de se submeter, de se curvar ao nivelamento de rigor,
refugiam-se secretamente em um mundo paralelo,
adornado pelos seus sonhos. E s participam
exteriormente dos rituais familiares e escolares, e disso
dificilmente nos damos conta. A maneira pela qual
Christiane pde levar durante tanto tempo uma vida
dupla, sem que sua famlia percebesse, e atravs de
uma aparente adaptao enganar aqueles que
poderiam, talvez, dando-lhe um firme apoio, impedir
sua queda e degradao total,  bem caracterstica.
Esta  a primeira lio deste documento
impressionante: a decadncia  quase sempre longa e
lenta. Ela pode ser constatada por certos indcios que
permitem aos pais e professores intervirem e darem
assistncia aos jovens em perigo. Em todo caso, 
preciso tomar conscincia e atentar se uma criana
parece no estar "presente", quando participa superficial
e automaticamente da vida familiar.  preciso
tentar compreender o que acontece com a criana
quando, pouco a pouco, ela se torna um corpo
estranho s pessoas que a cercam. E depois? Tudo
depende, certamente, daquilo que desejam os pais,
professores e educadores: ou reconhecer como sinal
de perigo essa maneira de a criana se fechar em si
mesma ou ver nisso, sobretudo, a vantagem de no se
ser incomodado por suas exigncias.
Segunda lio: seria preciso poder dispor de
possibilidades de intervenes teraputicas precoces
 o mais precoce possvel , rpidas e profundas.
Quando se pode conseguir um trabalho de equipe,
uma boa colaborao dos pais, se possvel tambm de
professores, com o terapeuta, um tratamento do tipo
terapia familiar pode ter boa chance de sucesso se
iniciada a tempo, antes que a dependncia fsica se
consolide.
Naturalmente, a terapia  ainda mais necessria
quando o jovem j est consumindo drogas pesadas,
mas neste caso ela  muito mais difcil.  realmente
uma irresponsabilidade negligenciar o apoio aos meios
teraputicos j existentes e a no criao de novos
centros. Contentar-se em encarcerar os drogados,
mtodo preconizado por certos segmentos polticos e
atualmente amplamente utilizado,  simplesmente
abandonar de vez, com cinismo, os jovens  sua
prpria sorte.
Uma sociedade que quer ser humana tem como
nica escolha a mobilizao de todas as formas
possveis de ajuda, por menos que elas paream
eficazes, para o tratamento da toxicomania. Ns
temos conhecimentos suficientes no que diz respeito 
maneira de reforar a motivao dos interessados e,
uma vez motivados, ajud-los a sair do fundo do
abismo graas a essas terapias de longa durao,
desenvolvidas em alguns centros ou comunidades
teraputicas. Trata-se, muitas vezes, de apoiar e
acompanhar um jovem na longa caminhada que vai de
uma total desagregao interior a uma verdadeira
reconstruo do seu ser. Um empreendimento
extremamente custoso e uma tarefa difcil de realizar
num mundo onde reina o egosmo e a indiferena. Um
mundo que, por exemplo, procura vtimas muito
jovens para colocar no mercado institucionalizado da
prostituio infantil.
 lgico que a soluo do problema no est s
na multiplicao do nmero de terapeutas e no
aumento de subvenes aos centros de tratamento.
Enquanto coisas como o Baby-Tapin se beneficiarem,
como Christiane mostra claramente, da tolerncia
geral, a terapia estar em oposio aos interesses
aberta ou secretamente reconhecidos queles que
reclamam, em nome de sua liberdade, o direito de
"consumir sexualmente" jovens drogados. No caso de
crianas como Christiane, so os prprios cidados, os
do "outro lado", os "bem-adaptados" da sociedade,
que querem medic-las na qualidade de seres
humanos, de utiliz-las e consider-las mercadoria.
Essa contradio  uma caracterstica geral de nossa
situao scio-cultural. A jovem Christiane nos impe
a imagem das profundezas de sua desgraa. Ela nos
permite avaliar melhor a decadncia dessa sociedade
que "os outros" exaltam, sem cessar, a pleno vigor. O
testemunho de Christiane  bem mais eficaz que o
silncio dos reputados institutos de pesquisas.  a
razo profunda pela qual este livro extraordinrio , e
deveria ser, quase insuportvel.
Horst-Eberhard Richter
A acusao
Resumo da pea de acusao do procurador no
Tribunal de Instncia Superior de Berlim, em 27 de
julho de 1977.
Christiane Vera F., colegial, menor noresponsvel,
acusada de ter comprado em Berlim, a
partir do dia 20 de maio de 1976 e de maneira
contnua, substncias e misturas proibidas pela lei
sobre estupefacientes, sem autorizao do Ministrio
da Sade.
A acusada  consumidora de herona desde o ms
de fevereiro de 1976. Ela tem tomado injees  no
incio de maneira espordica e, em seguida,
diariamente  de aproximadamente um quarto de
grama por dia. Ela  penalmente responsvel desde 20
de maio de 1976.
A acusada foi interrogada e passou por um
controle de identidade em duas oportunidades, nos
dias 1. e 13 de maro de 1977, no hall da Estao do
Zoo e na estao de metr Kurfrstendamm. Na
primeira vez ela estava com 18 mg e na segunda, com
140,7 mg de uma substncia contendo herona.
No dia 12 de maio de 1977, foi encontrado, nos
bens pessoais da acusada, um saco de folha de
estanho com 62,4 mg de uma substncia contendo
herona. Foram encontrados com ela instrumentos que
servem para injetar a droga. Exames de laboratrio
mostraram que esses instrumentos apresentavam
vestgios de herona.
A anlise da urina revelou a presena de morfina.
No dia 12 de maio de 1977, a me da acusada, a Sra.
F., encontrou nas coisas pessoais de sua filha 62,4 mg
de uma substncia contendo herona. Ela a entregou 
polcia judiciria.
Ao ser ouvida, a acusada declarou consumir
herona desde o ms de fevereiro de 1976. Por outro
lado, durante o inverno de 1976 ela se entregou 
prostituio para juntar o dinheiro necessrio para
comprar herona. Conclumos que a acusada no parou
de consumir droga.
O julgamento
Resumo do julgamento feito pelo Tribunal de
Instncia de Neumnster, em 14 de junho de 1978,
em nome do povo.
No caso Christiane Vera F., colegial, inculpada por
infrao  lei sobre estupefacientes.
A acusada  culpada pela aquisio contnua de
estupefacientes e cumplicidade de dissimulao fiscal.
A Corte adia a deciso de pronunciar uma condenao
penal para menores.
Motivos: O desenvolvimento da acusada foi
normal at os treze anos. Sua inteligncia  superior 
mdia e estava plenamente consciente de que a
compra de herona constitua um ato passvel de
sano. Entretanto, temos indcios suficientes para
pensar que a acusada se encontrava antes de 20 de
maio de 1976 (data de sua maioridade penal) em
estado de dependncia para com a droga. Isso,
entretanto, no exclua nem sua responsabilidade
penal nem sua capacidade de ter conscincia de sua
culpabilidade. Nesse meio tempo, a acusada deu-se
conta de sua situao e se esforou, por sua prpria
conta, para se desintoxicar. Ela estava, portanto, em
perfeitas condies de compreender o carter
repreensvel de seu comportamento e agir
corretamente.
Para o futuro, o prognstico , ao menos
atualmente, favorvel, apesar de no podermos
excluir a eventualidade de uma recada. A evoluo da
acusada dever ser seguida com ateno ao menos
durante o prximo perodo.
***
Era uma excitao louca. Minha me passava os
seus dias a empacotar, a encher caixotes e malas. Eu
percebia que amos comear uma vida nova.
Acabava de completar seis anos, e depois da
mudana entraria para a escola primria. Enquanto
minha me, cada vez mais nervosa, se dava ao
trabalho de empacotar tudo, eu ficava quase o dia
inteiro na casa de Vlkel, o fazendeiro. Esperava as
vacas voltarem para o estbulo para serem
ordenhadas, dava comida aos porcos e s galinhas,
rolava no feno com meus amigos e passeava com os
gatinhos no colo. Um vero maravilhoso, o primeiro do
qual tive plena conscincia.
Sabia que logo iramos partir para muito longe,
para viver em uma grande cidade chamada Berlim.
Minha me partiu antes de ns para arrumar o
apartamento. Algumas semanas depois, minha
irmzinha, meu pai e eu fomos de avio ao seu
encontro. Para ns, as crianas, foi o primeiro vo.
Tudo era apaixonante.
Meus pais nos tinham contado histrias
maravilhosas. Ns iramos morar em um imenso
apartamento de seis cmodos. Eles ganhariam muito
dinheiro. Minha me disse que teramos um quarto s
para ns. Iramos comprar mveis sensacionais. Ela
descrevera com detalhes a decorao de nosso quarto.
Eu me lembro porque, durante toda a minha infncia,
nunca deixei de pensar neles. E, mais os anos
passavam, mais minha imaginao os embelezava.
E tambm no me esqueci de como era o
apartamento, quando l chegamos. Deve ser porque,
de cara, me provocou um verdadeiro sentimento de
horror.
Era to grande e to vazio que eu tinha medo de
me perder. Quando se falava um pouco mais alto, as
vozes ressoavam de maneira inquietante.
Apenas trs cmodos estavam mobiliados. No
quarto das crianas, duas camas e um velho armrio
de cozinha onde minha me guardava nossos
brinquedos. No outro quarto, a cama de meus pais. No
terceiro cmodo, o maior, um velho div e algumas
cadeiras. Assim era nosso apartamento no bairro de
Kreuzberg, na marginal Paul Lincke.
Alguns dias depois, peguei minha bicicleta e me
aventurei sozinha pela rua. J tinha visto brincando ali
crianas um pouco mais velhas do que eu, e l no
nosso vilarejo as mais velhas brincavam com as
menores e at tomavam conta delas. As crianas de
Berlim gritaram: "Qual  a dela?", e se apoderaram da
minha bicicleta. Quando a recuperei, estava com um
pneu furado e um pra-lama amassado. Meu pai me
deu um tapa, porque minha bicicleta estava arreada.
Da em diante eu s a usava nos seis cmodos.
Trs desses cmodos estavam reservados para
servir de escritrio. Meus pais queriam abrir uma
agncia matrimonial, mas as escrivaninhas e as
poltronas anunciadas por eles nunca chegaram. E o
velho armrio de cozinha ficou no quarto das crianas.
Um dia, o div, as camas, o armrio foram
colocados em um caminho que os transportou at um
prdio do conjunto residencial Gropius. Ali nos
instalamos em um apartamento de dois cmodos e
meio, no dcimo primeiro andar. O meio cmodo era o
quarto das crianas. Todas as coisas bonitas de que
minha me nos falara jamais caberiam ali.
O conjunto Gropius abriga, em suas torres,
quarenta e cinco mil pessoas. Entre os prdios,
gramados e centros comerciais. De longe, tudo isso
tem um ar de novo, tudo parece muito bem-cuidado,
mas, quando se est dentro, entre os prdios, fede a
xixi e a coc.  por causa de todos os cachorros e
crianas que vivem nesse conjunto. E no vo da
escada, fede ainda mais.
Meus pais ficavam furiosos, diziam que era culpa
dos filhos dos proletrios, que eram eles que sujavam
as escadas. Mas no era culpa dos filhos dos
proletrios. Aprendi isso na primeira vez quando,
brincando l fora, tive, de repente, vontade de ir ao
banheiro. O tempo de esperar o elevador e de chegar
ao dcimo primeiro andar j me tinha feito mijar nas
calas. Meu pai me bateu. Depois de trs ou quatro
experincias do mesmo gnero  no subir a tempo e
receber uma bofetada , fiz como os outros: procurei
um cantinho discreto para me agachar. Mas, como dos
prdios se enxerga praticamente tudo, o lugar mais
seguro ainda era a escada.
As crianas do conjunto me consideravam uma
pequena retardada: no tinha os mesmos brinquedos
que elas, nem a mesma pistola de gua. Eu me vestia
e falava de outra forma e no conhecia as suas
brincadeiras. Eu tambm no gostava delas.
No meu vilarejo amos sempre de bicicleta ao
bosque, at um riacho que passava sob uma pequena
ponte. A se construam castelos e barragens de gua.
. . Todos juntos ou cada um por si. E quando
demolamos nossas obras, era com acordo geral. Era
bem divertido. Alm disso, ningum era dono da lei.
Cada um podia sugerir brincar disso ou daquilo.
Depois, conversvamos. Algumas vezes os mais velhos
concordavam com os mais jovens, e ningum
reclamava. Era uma verdadeira democracia infantil.
No conjunto Gropius tnhamos um chefe. Era o
menino mais forte e o que tinha a pistola de gua mais
bonita. Brincvamos sempre de bandido. O chefe dos
bandidos, naturalmente, era ele. E a principal regra do
jogo consistia em obedecer-lhe cegamente.
Na maior parte do tempo no se brincava junto,
mas uns contra os outros. Na verdade, tratava-se,
sobretudo, de um maltratar o outro. Por exemplo,
pegar seu brinquedo novo e quebr-lo. A brincadeira
toda consistia em humilhar o outro e obter alguma
vantagem para si mesmo. A de conquistar o poder e
exibi-lo.
Os mais fracos apanhavam mais. Minha irmzinha
no era muito forte, era um pouco medrosa. Eles
faziam o diabo com ela, e eu no podia socorr-la.
Chegou o incio das aulas. Eu estava me sentindo
felicssima por ir  escola. Meus pais tinham dito que
era preciso ser sempre comportada e obediente ao
professor. Eu achava isso muito natural. No vilarejo as
crianas respeitavam os adultos. E eu, creio, pensava
que os outros tambm seriam obrigados a obedecer ao
professor.
Mas no foi assim. Passados alguns dias, os
alunos zanzavam e brigavam dentro da sala de aula. A
professora, totalmente desarvorada, no parava de
gritar: "Sentem-se!" Com isso s conseguia fazer uns
rirem e outros bagunarem ainda mais.
Desde pequenina eu j gostava muito de animais.
Na nossa famlia, todo mundo gostava. Uma
verdadeira paixo. Eu me orgulhava disso: nenhuma
outra famlia, que eu saiba, gostava tanto de animais.
Eu sentia pena das crianas cujos pais no queriam
animais em casa.
Nosso apartamento de dois cmodos tornou-se,
pouco a pouco, um verdadeiro zoolgico. Tinha quatro
ratinhos, dois gatos, dois coelhos, um canrio, alm de
Ajax, nosso cachorro pardo, que trouxemos da roa.
Ajax ficava sempre ao lado de minha cama.
Quando eu dormia, deixava um brao para fora das
cobertas para me assegurar de sua presena.
Conheci crianas que tambm tinham cachorros.
Com essas eu me dava muito bem. Descobri que em
Rudow, no muito longe da cidade, ainda restava um
pouco de natureza pura. Desde ento, era para l que
amos com nossos ces. Brincvamos em antigos
depsitos de lixo, agora recobertos com terra. Nossos
ces brincavam sempre com a gente. Nossa
brincadeira preferida era a de ''caador": um se
escondia enquanto os outros seguravam seu cachorro.
A o animal devia encontrar seu dono. Era o meu Ajax
que tinha o melhor faro.
Meus outros bichinhos, eu os levava ao monte de
areia ou mesmo  escola. A professora usava-os como
material de observao para o curso de biologia. s
vezes eles me deixavam at ficar com o Ajax na sala
de aula. Ele ficava deitado aos meus ps, imvel, sem
perturbar, at que a campainha anunciasse o recreio.
Graas aos meus bichos, eu seria bastante feliz se
as coisas no andassem de mal a pior com meu pai.
Minha me trabalhava. Ele ficava em casa. O projeto
da agncia de matrimnios foi por gua abaixo. Meu
pai esperava que algum lhe propusesse um trabalho
 sua altura. E suas exploses de raiva eram cada vez
mais freqentes.
 noite, quando voltava do seu trabalho, minha
me me ajudava a fazer os deveres da escola. Durante
certo tempo, tive dificuldades em distinguir a letra H
da letra K. Minha me me explicava com uma santa
pacincia, mas eu mal conseguia ouvi-la, pois sentia
que a raiva de meu pai aumentava. J sabia o que iria
acontecer: ele iria at a cozinha, pegaria uma
vassoura e me bateria. Depois era preciso que eu lhe
dissesse a diferena entre H e K.  claro que eu ficava
confusa, misturava tudo, conquistava o direito a uma
bofetada suplementar e, em seguida, me mandavam
para a cama.
Essa era a sua maneira de me ajudar a fazer os
deveres escolares. Ele queria que eu fosse boa aluna,
que fosse "alguma coisa na vida". Afinal de contas,
seu pai tinha muito dinheiro e, entre outras coisas, era
proprietrio de uma grfica e de um jornal. Aps a
guerra fora expropriado pela
RDA (Repblica Democrtica Alem). Por tudo
isso, meu pai ficava furioso quando percebia que na
escola as coisas no estavam indo bem.
At hoje eu me lembro de certas noites nos seus
mnimos detalhes. Certa vez, a lio era desenhar
umas casinhas no caderno de clculo: seis quadrinhos
de largura e quatro de altura. Eu j tinha feito uma e
sabia muito bem como me virar. De repente, meu pai
sentou-se ao meu lado. A ele me perguntou o
tamanho da prxima casinha. Tinha tanto medo que
nem contei os quadrinhos e respondi sem pensar. Errei
e recebi uma bofetada. Em seguida, chorando, era
incapaz de responder a uma pergunta. Ele se levantou
para buscar o chicote de borracha. Sabia o que isso
significava. Ele segurou o cabo de madeira e pimba na
minha bunda, at que fiquei em carne viva.
Comeava a tremer quando ele se sentava 
mesa: se eu fazia qualquer sujeira, era um drama; se
derrubava qualquer coisa, cuidado com a bunda. Eu
mal conseguia engolir um copo de leite. Em quase
todas as refeies tinha muito medo de que me
acontecesse alguma desgraa...
Todas as noites perguntava, com muito jeito, ao
meu pai se ele iria sair. Ele saa sempre, e ns, as trs
mulheres, respirvamos aliviadas. Essas noites eram
maravilhosamente tranqilas.  verdade que, quando
ele voltava, aconteciam coisas que estragavam tudo.
Na maioria das vezes, ele voltava bbado. Qualquer
pretexto, brinquedos ou roupa fora do lugar, motivava
uma exploso. Uma das expresses favoritas de meu
pai era que o importante na vida  ter ordem. E se,
voltando bem no meio da noite, ele pusesse na cabea
que as minhas coisas estavam em desordem, tiravame
da cama e me dava uma surra. E depois era a vez
de minha irmzinha. Em seguida, jogava tudo no cho
e nos dava cinco minutos para arrumar tudo de forma
impecvel. Em geral no conseguamos faz-lo a
tempo, e chovia nova pancadaria.
Na maior parte das vezes minha me assistia 
cena de p, na entrada do quarto, chorando. Era raro
ela tomar nossa defesa, pois ele batia nela tambm.
S Ajax, meu co, intervinha, s vezes. Comeava a
gemer, com um olhar cheio de tristeza. Era ele que
melhor sabia colocar meu pai na linha porque, como
todos ns, gostava muito de cachorro. Podia acontecer
de ele dar uma bronca em Ajax, mas nunca bateu
nele.
Apesar de tudo isso, amo e respeito meu pai. Eu o
acho muito superior aos outros. Tenho medo dele,
mas, somando tudo, seu comportamento parece
normal. As outras crianas do conjunto Gropius no
tinham melhor sorte... Elas tinham cada pai e me
canalhas! Encontrvamos alguns pais cados bbados
no meio da rua ou no terreno em que brincvamos.
Meu pai nunca bebia at este ponto. s vezes
assistamos ao espetculo de mveis voando pela
janela e espatifando-se na rua, as mulheres gritando
por socorro e algum chamando a polcia. No nosso
bairro, isso no era assim to grave.
Meu pai estava sempre dando broncas em minha
me por ela gastar muito, quando, na verdade, era ela
que nos sustentava. s vezes ela respondia; dizia-lhe
que nas bebedeiras, nas farras com as mulheres e nos
gastos que ele tinha com o carro  que ia a maior
parte do dinheiro. E vinha nova pancadaria.
O carro, um Porsche, era a coisa que meu pai
mais amava no mundo. Ele lhe dava brilho todos os
dias. Acho que era o nico Porsche do conjunto
Gropius. Em todo caso, eu no via nenhum
desempregado passeando em um Porsche.
Naquela poca, naturalmente, eu no
compreendia nada do que acontecia com meu pai, a
razo de suas repetidas crises. Somente mais tarde,
quando comecei a conversar mais com minha me,
comecei a sacar um pouco do que se passava.
Simplesmente ele no tinha uma vida que correspondesse
ao seu nvel! A ambio o devorava, e ele
sempre fracassava. Seu pai o desprezava por causa
disso. Vov, antes do casamento, havia feito uma
advertncia a mame por causa disso. Para ele, seu
filho no passava de um malandro. Na verdade, meu
av depositava em meu pai grandes esperanas: meu
pai deveria restaurar o antigo resplendor familiar de
antes da expropriao.
Se ele no tivesse encontrado minha me, talvez
fosse hoje um fazendeiro (quando se conheceram ele
estava se preparando para isso) e teria tido uma
verdadeira criao de dogue alemo. Mas minha me
ficou grvida, e ele, ento, parou de estudar e casouse
com ela. Depois disso ps na cabea que minha
me e eu, que estava no ventre de mame quando se
casaram, ramos as responsveis pelo seu
fracasso. Dos seus sonhos, tudo o que restou foi o
Porsche e alguns amigos muito faroleiros.
No somente odiava a famlia como ainda, pura e
simplesmente, a rejeitava. Isso chegava a tal ponto
que nenhum dos seus amigos deveria saber que ele
era casado e pai de famlia. Quando os encontrvamos
ou quando algum deles vinha busc-lo em casa,
devamos cham-lo de "Tio Richard". Eu, de tanto
apanhar, aprendi muito bem e nunca errava: na
presena de estranhos, ele era meu tio.
Com minha me era a mesma coisa. Ela era
proibida de dizer aos amigos de seu marido que era
sua mulher e, sobretudo, comportar-se como tal. Eu
creio que ele dizia que era sua irm.
Os amigos de meu pai eram mais jovens que ele.
Tinham ainda um futuro pela frente ou, pelo menos,
acreditavam ter. Meu pai queria ser como eles, e no
um homem com responsabilidade de famlia e incapaz
de suprir suas necessidades materiais.
Naturalmente, nessa poca, tendo entre seis e
oito anos, eu no entendia nada de tudo isso. O
comportamento de meu pai era a simples confirmao
da regra de vida que aprendera na rua e na escola:
bater ou apanhar. Minha me, que, em sua existncia,
j havia recebido sua dose de pancada, chegara 
mesma concluso. Ela no cansava de me dizer: "No
comece nunca, mas devolva golpe por golpe e bata o
mais e to forte quanto possa". Mas ela j no podia
mais devolver os golpes que recebia.
Pouco a pouco eu aprendia a lio. Na escola,
comecei agredindo os professores mais frgeis.
Sistematicamente, eu bancava a palhaa nas aulas, e
os outros riam. Quando comecei a perturbar as aulas
dos professores mais temidos, fui objeto de admirao
por parte dos meus colegas.
Esses meus primeiros sucessos me encorajaram a
tentar utilizar tambm a fora fsica. Na realidade, eu
sou do tipo frgil, mas a raiva redobra minhas foras.
Em pouco tempo no temia me envolver com os mais
fortes, ficava quase contente quando algum se
aventurava a me provocar e eu o encontrava na sada
da escola. Na maioria das vezes, no precisava nem
mesmo brigar, tal o respeito que impunha.
Tinha ento oito anos. Meu maior desejo era crescer
logo, ser adulta, adulta como meu pai. Exercer
poder sobre as pessoas. Enquanto isso, ficava
avaliando o que tinha.
Meu pai conseguiu um trabalho. No encontrava
nenhum prazer, mas ganhava dinheiro para manter o
Porsche e seus hbitos de jovem. Aps as aulas, eu
ficava sozinha em casa com minha irm menor, que
tem um ano menos que eu. Sentia-me tambm
orgulhosa por ter arranjado uma amiga dois anos mais
velha. Em sua companhia me sentia mais forte.
Quase todos os dias brincvamos com minha
irmzinha as brincadeiras que aprendramos. No
caminho de volta da escola para nossas casas
remexamos em todos os cinzeiros e latas de lixo para
catar as guimbas de cigarro. Dvamos um jeito nelas e
fumvamos. Quando minha irm pedia uma tragada,
ns lhe dvamos um tapa nas mos. Ns lhe dvamos
ordens: lavar a loua, tirar o p, enfim, fazer todo o
servio domstico de que nossos pais nos haviam
encarregado. Depois disso, pegvamos nossas
bonecas, trancvamos minha irmzinha no
apartamento e amos passear. Ns s a deixvamos
livre quando ela terminava todo o trabalho.
Foi nessa poca (eu tinha ento oito ou nove
anos) que se instalou em Rudow um poney club. A
princpio ficamos furiosos ao ver o ltimo pedacinho
reservado de natureza das redondezas, o lugar onde
nos refugivamos com nossos cachorros, cercado por
barreiras. Mas logo simpatizei com os empregados,
fazia pequenos servios para eles, ajudava-os a
escovar os cavalos e a limpar as cocheiras. Em troca,
tinha direito a montar por uns bons quartos de hora
sem pagar. Achava isso fantstico.
Adorava os cavalos e sentia uma imensa ternura
por um burrico que tambm pertencia ao clube. Mas
uma outra coisa me fascinava: montar, para mim, era
uma demonstrao de fora e de poder. Meu cavalo
era mais forte que eu, mas ele se curvava  minha
vontade. Quando caa, remontava imediatamente, at
que o cavalo me obedecesse.
Um dia me "despediram". Dali em diante, se eu
quisesse montar, era preciso que pagasse. E nem
sempre recebia algum dinheiro para gastar. Ento
cometia pequenos atos desonestos: s escondidas
embolsava os cupons da cooperativa ou os depsitos
das garrafas de cerveja.
Antes mesmo de completar dez anos comecei
tambm a roubar. Eu roubava pequenas coisas em
supermercados. Coisas que no tnhamos em casa,
sobretudo docinhos, chocolates. Todas as outras
crianas podiam comer essas coisas, e ns no. Meu
pai dizia que eram ruins para os dentes.
No conjunto Gropius aprendia-se, por assim dizer,
automaticamente, a desobedecer s proibies. Alis,
tudo ou quase tudo era proibido, principalmente
brincar com aquilo que era divertido. O conjunto era
pontilhado de placas. Os pretensos parques que
separavam os prdios eram verdadeiras florestas de
placas e quase todas essas placas proibiam qualquer
coisa s crianas (alguns anos mais tarde eu copiei
todos os "proibidos" em meu dirio).
Na porta de entrada do nosso prdio se erguia a
primeira placa. Lendo-a, tinha-se a impresso de que
as crianas deviam andar somente nas pontas dos
ps, tanto nas escadas como nos corredores dos
prdios. Era proibido brincar, correr, andar de bicicleta
ou de patins. Em qualquer lugar onde houvesse um
pouco de grama havia tambm placas:  PROIBIDO PISAR
NA GRAMA. No tnhamos nem mesmo o direito de ali
nos sentarmos com nossas bonecas. Em um simples
montinho de rosas, a inscrio: ESPAO VERDE
PROTEGIDO, seguida de uma lista de ameaas a quem
tentasse se aproximar das flores.
ramos relegados ao espao reservado aos jogos.
Havia um para cada grupo de edifcios. O espao para
jogos se resumia a um tanque de areia cheirando a
mijo, algumas barras de ginstica, escorregadores e
outros brinquedos quebrados e, evidentemente, uma
gigantesca placa. Uma placa protegida por slidas
grades de ferro para que ns no pudssemos demolila:
REGULAMENTO PARA O ESPAO RESERVADO AOS JOGOS. L
podamos ler: ESPAO RESERVADO PARA AS CRIANAS, PARA
SUA ALEGRIA E DIVERTIMENTO. S que era impossvel se
divertir quando a gente queria porque "o acesso est
autorizado das oito s treze horas e das quinze s
dezenove horas". Em outras palavras, impossvel ir
brincar na hora da sada da escola, s treze horas.
Na verdade, minha irm e eu nunca deveramos ir
brincar ali, pois, sempre de acordo com a placa,
"pode-se utilizar o espao de jogos somente com o
consentimento e vigiados por uma pessoa encarregada
da educao daquele que brinca". E ainda mais com a
condio de no fazer barulho, pois "deve-se respeitar
o repouso dos locatrios". Tinha-se apenas o direito de
jogar uma bola bem direitinho. Mas os "jogos de bola
organizados como esporte so proibidos". Nada de
queimada, nada de futebol. Para os meninos era muito
difcil, pois, no tendo outra sada, descarregavam sua
energia nas instalaes e,  claro, nas placas. Devia
custar uma grana trocar tudo com tanta freqncia.
Os zeladores dos prdios eram encarregados de
fazer respeitar o regulamento. O nosso h muito
tempo no ia com a nossa cara. Desde que chegamos,
achei chatssimo o espao para os jogos, seu cho
cimentado, seu tanque de areia e seu minsculo
escorregador. Havia coisas muito mais interessantes:
as bocas-de-lobo instaladas no calamento para fazer
escoar as guas das chuvas. Nessa poca elas eram
recobertas por uma grade removvel. A gente se
divertia levantando a grade e jogando no buraco tudo
o que fosse possvel. Certa vez, o zelador viu e nos
levou  fora ao escritrio do gerente, onde fomos
obrigadas a dar nossos nomes e endereos. Isso, da
maneira como ramos capazes de faz-lo aos cinco ou
seis anos. Eles avisaram meus pais, e a meu pai teve
uma boa razo para nos dar uma surra. No
compreendi muito bem por que fora to grave ter
entupido aquele bueiro. Na nossa cidadezinha, quando
a gente brincava  beira do riacho, fazamos muito
mais do que isso e nunca ningum nos disse nada. O
que eu mais ou menos aprendi  que no conjunto
Gropius as nicas brincadeiras autorizadas eram
aquelas previstas pelos adultos. Quer dizer, brincar na
areia e escorregar no tobog. Ter idias prprias era
perigoso.
Meu novo encontro com o zelador foi pior ainda.
Olha s o meu azar. Estava passeando com Ajax e tive
a idia de colher algumas flores para minha me. Na
cidadezinha do interior eu lhe trazia flores de quase
todos os meus passeios. Entre os prdios s cresciam
umas rosinhas. Recolhi umas trs ou quatro,
machucando meus dedos com os espinhos. Eu ainda
no sabia ler o que dizia a placa que proibia aquilo ou
ento no tinha entendido bem o que estava escrito.
Compreendi tudo imediatamente quando vi o
zelador correr em minha direo, gritando, balanando
os braos e atravessando o gramado. Apavorada,
gritei: "Ateno, Ajax!"
Ajax levantou as orelhas, ficou atento, os plos de
sua nuca se eriaram e observou o zelador com um ar
perverso. Ele saiu correndo, apavorado, pisando uma
vez mais na famosa grama. Ficou mudo at chegar 
entrada do prdio, onde recomeou a gritar. Ficara
contente com tudo isso, mas escondi as flores, pois
percebi que, mais uma vez, fizera algo proibido.
Quando cheguei a casa, o gerente j havia
telefonado: segundo ele, eu havia atiado meu
cachorro contra o zelador.
Pelas flores no recebi o beijo maternal, mas uma
boa surra de meu pai.
No conjunto Gropius o calor de vero era s vezes
insuportvel; no havia sombras, pois s tnhamos
rvores raquticas. Os edifcios, muito altos, cortavam
o vento. No havia piscina, nem um laguinho onde as
criancinhas pudessem brincar. Apenas um chafariz no
centro da praa. s vezes brincvamos nele, de jogar
gua uns nos outros.  lgico que isso era proibido, e
fomos obrigados a nos mandar.
Certa poca, tnhamos uma verdadeira paixo
pelas bolas de gude. Onde jogar no conjunto Gropius?
No cimento, no asfalto ou na grama proibida?
Impossvel. No tanque de areia tambm no dava. Era
preciso um cho mais ou menos duro onde se
pudessem fazer uns buraquinhos.
Encontramos um terreno quase ideal: embaixo
dos acerceos. Para que eles respirassem, deixavam
em volta de seus troncos uma abertura circular no
asfalto. Uma rodela magnfica de terra, limpa, sem
folhas. Um sonho para quem gosta de jogar bolinhas
de gude.
Mas, mal a gente comeou, o zelador e o
jardineiro j estavam em cima de ns para nos
expulsar, fazendo terrveis ameaas. Um belo dia eles
tiveram uma idia: em vez de passarem o ancinho,
revolviam a terra com uma p. Adeus aos jogos de
bolinhas de gude.
Quando chovia, o hall de entrada dos prdios se
transformava em fantstica pista de patins. Se ao
menos fosse. . . Como no andar trreo no havia
apartamentos, no incomodaramos ningum se
fizssemos barulho. E foi assim das primeiras vezes.
Ningum reclamou. Um belo dia a zeladora decretou
que arranhvamos o cho. Adeus patins. E eu ganhei
uma surra magistral.
Quando chovia era uma loucura, e a gente ficava
de saco cheio no conjunto Gropius. Ningum tinha
direito de levar amigos para casa. Alis, os quartos
das crianas eram pequenos demais, e a maioria das
crianas dormia em meio cmodo, como eu. Eu ficava
sentada  janela me lembrando de tudo o que a gente
fazia quando morava no interior. Brincvamos com
madeira. ramos bem-organizados: nos dias de sol
trazamos da mata um grande pedao de casca de
carvalho, e nos dias de chuva nela talhvamos
barquinhos. Se a chuva continuava, vestamos nossos
impermeveis e amos ao riacho testar os barquinhos.
Construamos portos e fazamos verdadeiras
competies com nossos brinquedos de casca.
Ficar andando pra l e pra c entre os prdios
enquanto chovia no tinha graa nenhuma. Era preciso
ter uma idia: alguma coisa absolutamente proibida,
por exemplo, brincar com os elevadores.
A primeira coisa a fazer, evidentemente, era
amolar uma outra criana. Pegvamos uma delas,
metamo-la  fora dentro do elevador e apertvamos
todos os botes, enquanto impedamos o outro
elevador de funcionar. Parando em cada andar, o
prisioneiro era obrigado a ir at o ltimo. Comigo
faziam muito isso. Era sempre assim quando eu ia
levar meu cachorro para fazer xixi e voltava apressada
para no me atrasar para o jantar. Isto durava um
tempo e, com isso, Ajax ficava supernervoso.
Essa brincadeira ficava nojenta quando algum
aplicava o "golpe do elevador" a uma criana que
estivesse com vontade de ir ao banheiro. Geralmente
ela no conseguia segurar. O pior mesmo era tirar das
criancinhas a pazinha de brincar na areia. A pazinha
era para elas um acessrio indispensvel, pois com
seu cabo comprido elas alcanavam os botes do
elevador. Sem ela, ficavam na pior, pois tinham que
subir oito, nove ou onze andares a p.
Muitas vezes os elevadores quebravam, e nem
sempre ns ramos inocentes: fazamos corridas de
elevadores. Eles tinham sempre a mesma velocidade,
mas havia uns truques com que se ganhavam alguns
segundos, por exemplo: fechar a porta exterior
depressa, mas com delicadeza, pois se a fechssemos
com um gesto brusco, ela se abria novamente; a porta
interior fechava-se automaticamente, mas a gente podia
apressar o movimento empurrando-a (s vezes
isso quebrava o elevador). Eu era muito boa nas
corridas de elevadores.
Como o zelador estava sempre no nosso p, a
gente logo tinha que deixar de brincar nos treze
andares do nosso prdio. Nos outros prdios a entrada
de crianas era absolutamente proibida. Nos edifcios
havia sempre uma outra porta especial para a
passagem de mveis e outras coisas grandes. Ela era
fechada por uma grade. Eu achei um jeito de passar
pelas grades: primeiro a cabea, virando com jeitinho,
depois o corpo, me espremendo bem. No se podia ser
gordo,  claro. Assim, tivemos acesso a um verdadeiro
paraso para o jogo dos elevadores: um prdio de
trinta e dois andares com elevadores extremamente
sofisticados. A gente ainda no tinha imaginado tudo o
que se podia fazer com um elevador. Um dos nossos
jogos favoritos era o "salto": quando estava em
movimento, todo mundo comeava a pular ao mesmo
tempo. O elevador parava e a porta de segurana se
abria. Era genial. Um outro negcio genial: quando se
vira o puxador de freio de segurana para o lado em
vez de abaix-lo, sabe o que acontece? A porta de
segurana fica aberta mesmo quando o elevador est
andando. Com isso a gente podia ver a velocidade
louca deste troo! A gente via passar, numa
movimentao louca, as lajes de cimento e as portas.
O cmulo da temeridade, a grande demonstrao
de coragem, era tocar o boto que fazia soar o alarme.
Aquele barulho estridente, e depois a voz do zelador
que falava ao microfone. Depois disso, o negcio era
se mandar. Um prdio de trinta e dois andares nos
permitia um monte de alternativas: fugir, se esconder,
etc. O zelador nos procurava por toda parte, mas
raramente conseguia pegar algum.
A brincadeira mais legal, quando chovia, era a da
''cave". Claro que era absolutamente proibida. A gente
encontrou um jeito de entrar no subsolo do prdio.
Cada locatrio tinha um boxe fechado por uma grade
que no chegava at o teto. Dava para passar por
cima dela. Podamos brincar de esconde-esconde. Era
uma delcia o pavor de se encontrar escondido no
escuro no meio de todas aquelas coisas ali guardadas.
Alm disso, tnhamos medo de ser surpreendidos por
algum locatrio. Sabamos muito bem que essa
brincadeira era, pelo menos, duplamente proibida. A a
gente se divertia remexendo nos boxes  procura de
coisas engraadas: brinquedos, roupas velhas para
nos fantasiarmos. Depois, como no sabamos mais de
onde havamos tirado as coisas, jogvamos por cima
da primeira grade que estivesse na frente. Quando
encontrvamos algo muito interessante, no
devolvamos. Logo comeavam a circular rumores de
que o subsolo fora visitado por ladres. Nunca
pegaram ningum.
Assim, no conjunto Gropius aprendia-se,
automaticamente, que tudo o que era permitido era
incrivelmente chato e tudo o que era proibido,
divertido.
O centro comercial ao lado do nosso prdio era o
quarteiro mais ou menos proibido. O zelador, uma
espcie de fera, nos expulsava sem a menor
delicadeza. O que o deixava completamente pirado era
quando eu aparecia com o meu cachorro. Ele dizia que
o centro comercial ficava sujo por causa da gente. As
lojas eram cada uma mais moderna, esnobe, elegante
do que a outra. Nos corredores, as lixeiras estavam
sempre cheias e cheirando mal. Nas caladas a gente
andava pisando em restos de sorvete derretido, merda
de cachorro e tropeando em caixas de cerveja ou de
Coca-Cola.
O zelador devia limpar tudo isso  noite. No era
de se espantar que ele passasse o dia a vigiar os que
sujavam. Acontece que ele no podia dizer nada aos
comerciantes que jogavam o lixo fora das latas. Ele
no ousava tambm enfrentar os bbados que
jogavam as garrafas para todos os cantos. Quanto s
velhinhas que levavam seus cachorros para passear,
elas simplesmente o mandavam pro inferno. Para
passar sua raiva, ele s tinha que descarregar em ns.
Os comerciantes tambm no gostavam de
crianas. Quando um de ns arranjava de uma
maneira ou de outra um pouco de dinheiro, ia  "Loja
do Caf" para comprar docinhos. Como se tratava de
um verdadeiro acontecimento, os outros o
acompanhavam. Quando os vendedores viam meia
dzia de moleques que discutiam durante quinze minutos
antes de comprar algumas balinhas, ficavam
furiosos. Pouco a pouco ns tambm comeamos a ter
raiva dos comerciantes. E achvamos legal enganlos.
No centro comercial havia tambm uma agncia
de viagens. Encostvamos o nariz na vitrina at que
eles nos expulsassem. Havia na agncia cartazes
maravilhosos, alm da maquete de um avio, praias,
palmeiras, negros, animais selvagens  quanto
esplendor! Ns nos imaginvamos a bordo do avio a
caminho daquela praia para depois subir naquelas
palmeiras de onde olharamos os lees e rinocerontes.
Ao lado da agncia de viagens estava o Banco
Comrcio e Indstria. Nessa poca eu ainda me
perguntava o que fazia um banco para comrcio e
indstria no conjunto Gropius, onde viviam pessoas
que no tinham outra relao com o comrcio e a
indstria que a de serem eventualmente assalariados!
Ns gostvamos desse banco. Os senhores que andavam
bem na estica eram sempre delicados com a
gente. Era porque as vendedoras trabalhavam mais
que eles. . . Eu ia ao banco e trocava uma moeda que
afanara da latinha de minha me por dez Pfennige. Na
"Loja do Caf" davam bronca quando no pagvamos
com trocados. Alm do mais, quando a gente pedia
delicadamente, esses senhores nos davam cofrinhos.
Eles deviam pensar que a gente fazia muita economia,
de tanto que pedamos. Na verdade, usvamos esses
porquinhos e elefantinhos para brincar de jardim zoolgico
no tanque de areia.
Quando viram que fazamos cada vez mais
besteiras, resolveram construir um parque infantil,
para as nossas aventuras. Eu no sei o que significa
"aventura" para essa gente que constri esses
negcios. Acho que eles do esse nome para que os
adultos pensem que seus filhos podero ter
experincias extraordinrias e no para que as
crianas possam fazer coisas divertidas. Isso deve ter
custado um dinheiro. Pelo menos eles levaram um
tempo para constru-lo. Autorizados a freqent-lo,
fomos recebidos por amveis educadores: "Do que
vocs querem brincar?"
A aventura ali consistia em se estar sob constante
vigilncia. Havia ferramentas de verdade, pedaos de
madeira e pregos. Tinha-se, portanto, direito a fazer
construes. Um educador vigiava para que ningum
martelasse o dedo. Depois que se pregava um prego,
impossvel mudar! E se voc pensava em mudar de
idia no meio da brincadeira...
Um dia eu contei ao educador como l no interior
as crianas construam verdadeiras cabanas sem
martelos e pregos. Somente com galhos e pedaos de
madeira que se catava pelo cho. E cada vez que se
voltava  "construo", desfazia-se e mudava-se tudo.
E isso  que era divertido. O educador compreendeu.
Mas ele tinha compromissos e regulamentos a
cumprir, no ?
No incio, tnhamos algumas idias prprias. Por
exemplo, propusemos brincar de "crianas da idade da
pedra" e cozinhar uma sopa de verdade no fogo. O
educador achou a idia genial. Infelizmente, disse ele,
no tnhamos o direito de acender uma fogueira e
fazer a sopa! Por que, em vez disso, no construamos
uma cabana? Com martelo e pregos! A idade da
pedra!. . .
Pouco tempo depois, nosso parque novinho foi
fechado. Disseram que construiriam um outro para
brincarmos quando chovesse. Vimos, ento, chegar
um carregamento de estruturas metlicas, caminhes
de concreto e um grupo de pedreiros. Construram um
abrigo de concreto! No era uma caixa ou uma casinha
de madeira ou coisa parecida, era um fortim mesmo.
Os vidros logo estavam quebrados. No sei se os
meninos quebraram as janelas porque esse treco de
cimento os deixou agressivos. .. Ou talvez porque o
abrigo fora construdo para o conjunto Gropius, onde
tudo o que no fosse de ferro ou cimento era destrudo
em dois minutos. A sala de jogos ocupava uma grande
parte do parque de aventuras. Em seguida,
construram, ao lado, uma escola com seu prprio
espao para jogos, equipado de escorrega-dor,
balanos e umas tbuas de madeira boas para mijar
em cima. Esse escondido parque de jogos ocupava um
outro pedao do nosso "parque de aventuras" e era
cercado por uma grade. O jeito era a gente tirar um
lencinho do bolso e enxugar as lgrimas!
O pedao do "parque de aventuras" que nos
deixaram pouco a pouco foi-se tornando um ponto de
encontro de um bando de "grandes" que chamvamos
de rockers. Eles chegavam depois do almoo, j
bbados, aterrorizando as crianas e quebrando tudo.
Sua nica ocupao era o vandalismo. Os educadores
no tinham nenhum contato com eles. Enfim, o
"parque de aventuras" estava fechado a maior parte
do tempo. Ainda bem que ns, as crianas, tivemos
direito a um verdadeiro presente. Uma pista de tren
foi montada no conjunto Gropius. O primeiro inverno
foi sensacional. Podamos escolher livremente as
pistas: a pista simples ou o "anel da morte". Os
rockers eram perigosos: faziam corrente com seus
trens e tentavam o tempo todo nos atropelar, mas
aprendemos depressa a nos defender. Esses dias de
neve foram a melhor lembrana do conjunto Gropius.
Durante a primavera continuamos a nos divertir
nas pistas de tren. Ali saltvamos com os nossos
cachorros, rolvamos nas descidas. Melhor ainda:
descamos de bicicleta! Uma loucura! Mas  menos
perigoso do que parece: a grama amortiza a queda.
A proibio no demorou. Disseram que as pistas
de tren no eram lugar para cambalhotas, nem
veldromo. E que era preciso deixar crescer a grama,
etc., etc. Agora j tnhamos idade para no nos
impressionar com os "proibidos" e no dvamos a
menor bola. . .
Um belo dia apareceu uma equipe do Servio de
Jardinagem: eles simplesmente cercaram o barranco
que servia de pista com uma cerca de arame farpado.
Ns nos demos por vencidos. . . por alguns dias.
Depois algum arranjou uma tesoura dessas
grandes e fizemos uma brecha. . . Era o suficiente
para a passagem de cachorros e bicicletas. Todas as
vezes que consertavam, voltvamos a cortar o arame
farpado.
Algumas semanas mais tarde, l estavam outra
vez os pedreiros. Eles comearam a erguer um muro,
a cimentar e a asfaltar. O nosso "anel da morte" se
transformou em uma escada. A plataforma de sada foi
recoberta com placas de cimento. Ainda bem que
deixaram um pedacinho de grama.
No vero, o lugar no tinha nada de interessante.
No inverno, era muito perigoso. O pior era chegar l
em cima: era preciso subir escadas que passavam por
patamares de concreto. Quando havia uma camada de
gelo fino, e isso acontecia sempre, no dava para
contar os ferimentos e os galos na cabea. Algumas
crianas caam feio e tinham at comoo cerebral.
O conjunto Gropius pouco a pouco chegava 
perfeio. Na maneira de pensar dos urbanistas, ele
devia ser o conjunto residencial modelo, uma
magnfica realizao. Quando ali chegamos, no
estava terminado. Os arredores dos prdios no
estavam terminados, ainda no estava como eles
queriam. . . Andando alguns minutos (at mesmo as
crianas pequenas podiam ir sozinhas), chegava-se a
verdadeiros pedacinhos do paraso. O nosso pedao
preferido estava ao lado do Muro (O Muro de Berlim.
(N. da T.)) (o conjunto Gropius fica perto); ns o chamvamos
de No Man's Land ou Pequeno Bosque. Era
um pedao de terra de apenas vinte metros de
largura, mas pelo menos cem metros de comprimento.
Um emaranhado de mato alto (do tamanho da gente),
de rvores, de arbustos, permeado de poas d'gua e
de velhas madeiras.
Subamos nas rvores, brincvamos de escondeesconde,
ramos exploradores descobrindo, a cada
dia, um novo pedao at ento desconhecido de uma
misteriosa floresta virgem. Podiam-se fazer fogueiras,
enviar sinais de fumaa e assar batatas nas cinzas. At
o dia em que perceberam que as crianas do conjunto
Gropius tinham descoberto esse lugar e a estavam se
divertindo. Era preciso reinstalar a ordem. As placas
pareciam espinhos no nosso pedao. No se tinha
direito a mais nada. Proibio de andar de bicicleta, de
subir nas rvores, de deixar os cachorros livres. A
polcia que, por causa do Muro, andava sempre por
esses lados, vigiava nossa boa conduta. Oficialmente,
nosso No Man's Land tornou-se "zona de proteo dos
passarinhos". Algum tempo depois o lugar era um
depsito de lixo. Sobrava o antigo depsito recoberto
de terra e de areia, onde amos brincar com nossos
cachorros, mas logo foi proibida a entrada, primeiro
com um arame farpado, depois com uma paliada. Ali
eles construram um restaurante panormico. . .
Gostvamos tambm de ir ao campo. Havia
alguns perto dali, sem cultivo. . . mas o Estado
comprou os terrenos para "instalar" neles o lazer.
Nesses terrenos nascia ainda trigo e tambm
escovinhas, urtigas e um mato to alto que a gente
desaparecia dentro dele. Eles o fecharam, pedao por
pedao, um aps outro. Foi a que instalaram um
picadeiro de poney e depois, no pedao que sobrou,
quadras de tnis. J no tnhamos mais nenhum lugar
aonde ir, aonde nos evadir do conjunto Gropius.
Minha irm e eu ramos privilegiadas: pelo menos
amos trabalhar no clube e andvamos a cavalo. A
princpio podia-se passear por toda parte. Depois
construram uma pista de cavalos. Todo o resto, ruas e
caminhos, foi proibido. Uma linda pista de cavalos,
com areia e tudo, como manda o figurino.
Deve ter custado uma nota! Acontece que era
paralela  estrada de ferro, a dois passos dos trilhos.
Que eu saiba, nenhum cavalo suporta a passagem de
um trem e seu rudo de trovo, a alguns metros, sem
reagir. Eles se descontrolavam e tudo o que ns
podamos fazer era rezar para que eles no se
jogassem contra o trem.
Eu tinha mais sorte que as outras crianas: tinha
meus bichos. s vezes levava meus trs ratinhos
hamster ao tanque de areia. Pelo menos os
regulamentos no diziam: "Proibido ratinhos". Ns
construmos tneis para eles correrem dentro. Uma
tarde um dos ratinhos fugiu pela grama. No o
encontrei mais. Fiquei um pouco triste, mas me
consolei ao pensar que ele estava mais feliz que na
gaiola.
Bem, justo nessa noite meu pai veio at nosso
quarto, olhou a gaiola dos ratinhos e gritou: "Mas
como! S dois? No eram trs?" Eu no consegui
pensar, a pergunta me parecia engraada. Ele nunca
gostou dos ratinhos e sempre estava dizendo para a
gente dar um fim neles. Expliquei que o ratinho fugira
l na grama. Meu pai me olhava com um ar de louco.
Compreendi em trinta segundos que ele no iria se
controlar mais. Ele comeou a gritar e a bater. Estava
na cama. Sem sada. Impossvel fugir. E ele bateu.
Nunca batera to forte, pensei que ia me matar.
Quando ele se virou para ir contra minha irm, eu
saltei em direo  janela. Acho que teria pulado do
dcimo primeiro andar... Mas meu pai me agarrou e
me jogou na cama. Minha me, como sempre, de p,
em lgrimas, na soleira da porta. Eu mal a vi quando
ela se jogou entre meu pai e mim. Ela comeou a dar
uns socos nele. Meu pai perdeu as estribeiras.
Arrastou minha me para o corredor sem parar de dar
porrada. De repente, tive mais medo por ela do que
por mim. Ela tentou escapar e se fechar no banheiro.
Mas ele a puxou pelos cabelos. Como todas as noites,
a roupa suja estava de molho na banheira, no
tnhamos ainda dinheiro para comprar uma mquina.
Meu pai mergulhou a cabea de minha me na banheira
cheia d'gua. No sei como ela conseguiu sair,
se foi meu pai que a soltou ou se foi ela mesma que se
libertou.
Meu pai, plido, foi para a sala. Minha me abriu
o armrio, pegou seu casaco e foi embora. Sem dizer
uma palavra sequer.
Um dos momentos mais terrveis da minha
existncia  ainda este minuto, quando vi minha me
sair, sem uma palavra, e nos deixar sozinhas. Durante
algum tempo a nica coisa em que eu pensava era:
ele vai comear outra vez, ele vai recomear a bater. .
. Mas nem um rudo na sala. O nico som era o da TV.
Chamei minha irm para minha cama. A gente se
apertou uma contra a outra. Minha irm tinha vontade
de fazer xixi. Ela no tinha coragem de ir ao banheiro,
mas tinha tambm medo de molhar a cama porque
receberia uma outra surra. Ela tremia. Finalmente, de
mos dadas, fomos juntas ao banheiro. Da sala, a voz
de meu pai: "Boa noite".
No dia seguinte, pela manh, ningum veio nos
acordar. No fomos  escola. L pelas onze horas
minha me voltou. Sem dizer quase nada, ela
empacotou algumas coisas, ps o gato numa sacola e
me pediu para pr a coleira em Ajax. E samos para
tomar o metr. Passamos uns dias na casa de uma
colega de trabalho dela. Mame nos disse que queria
se divorciar.
O apartamento de sua colega era pequeno. Muito
pequeno para acolher minha me, minha irm, o gato,
o cachorro e eu. Em todo caso. .. No fim de alguns
dias, sua colega estava razoavelmente nervosa. Minha
me arrumou as bagagens, ns pegamos nossos
bichos e voltamos ao conjunto Gropius.
Meu pai entrou justamente no momento em que
minha irm e eu estvamos tomando banho. Ele se
aproximou, e, com uma voz normal, como se nada
tivesse acontecido, disse: "Ento.. . por que vocs
partiram assim? Vocs no tm motivo para ir dormir
na casa de desconhecidos. A gente poderia levar uma
vida gostosa, ns trs..." Minha irm e eu nos
entreolhamos de queixo cado. Nessa noite meu pai se
comportou como se minha me no existisse. Depois
ele fez o mesmo conosco. No nos falava nem nos via.
Isso era pior que as pancadas.
Meu pai nunca mais levantou a mo contra mim,
mas o seu jeito de se comportar, como se ele no
tivesse nada mais a ver com a gente, teve para mim
um efeito horrvel. Foi somente ento que senti que
ele era mesmo meu pai. No fundo eu nunca o odiei,
tinha apenas medo. E eu sempre tive orgulho dele
porque ele gostava dos meus bichinhos, porque tinha
um carro possante, seu Porsche 1962. E, de repente,
eis que, de certa forma, ele no era mais nosso pai,
mesmo morando sob o mesmo teto no minsculo
apartamento.
Ainda por cima me aconteceu uma pior: Ajax teve
uma perfurao abdominal e morreu. No havia
ningum para me consolar. Minha me s pensava nos
seus prprios problemas e em seu divrcio. Chorava
sempre e nunca mais riu. Eu me sentia muito s.
Uma noite, bateram  porta. Fui abrir. Era Klaus,
um amigo de meu pai, que viera busc-lo para ir ao
boteco, mas meu pai j havia sado.
Minha me convidou-o a entrar. Ele era bem mais
moo que meu pai. Devia ter vinte e dois ou vinte e
trs anos. De repente ele perguntou a minha me se
ela queria jantar com ele. Ela logo respondeu: "Sim,
por que no?" Foi depressa mudar de roupa, saiu com
o cara e nos deixou sozinhas.
Outras crianas talvez sentissem certa tristeza. Eu
tambm, por uns momentos. Mas logo, logo, comecei
a pensar que estava contente por ela, de verdade. Ela
tinha um ar feliz ao sair, mesmo que no
demonstrasse muito. Minha irm tinha a mesma
opinio. "Mame est bem contente", ela dizia. Desse
dia em diante, Klaus vinha sempre quando meu pai
estava ausente. Um domingo  eu me lembro com
detalhes , minha me me mandou levar o lixo l
fora. Ao voltar, eu no fiz nenhum barulho. Talvez de
propsito. Quando entrei na sala, vi Klaus beijando
minha me.
Foi uma sensao estranha. Fui direto para meu
quarto. Eles no me viram, e no contei a ningum o
que havia visto. Nem mesmo a minha irm, para
quem nunca tive segredos.
Agora o homem estava metido todo o tempo em
nossa casa. Eu o achava antiptico, mas era delicado
com a gente. E com minha me, mais ainda. Ela no
chorava mais e se escutava seu riso. Recomeou
tambm a sonhar. Falava do quarto que teramos,
minha irm e eu, no novo apartamento, quando
fssemos morar com Klaus. E meu pai ainda no
mudara. E nem mudou quando, enfim, o divrcio foi
homologado. Meus pais se odiavam, mas dormiam na
cama de casal. E ns continuvamos a no ter
dinheiro.
Enfim nos instalamos em um outro apartamento
em Rudow, uma estao alm do conjunto Gropius,
mas nem por isso tudo ficou um mar de rosas. Klaus
sempre metido em casa, e isso me amolava. Ele
continuava delicado, mas era um obstculo entre
minha me e mim. No meu ntimo, eu no o aceitava.
No queria obedecer a esse jovem senhor! Passei a
ficar cada vez mais agressiva com ele.
Acabamos por discutir. Por coisinhas. s vezes
era eu quem o provocava. A maioria das vezes, por
causa dos discos. Minha me me deu um toca-discos
quando fiz onze anos.
 noite eu punha discos numa altura de estourar
os tmpanos. Uma noite, Klaus apareceu no meu
quarto e me disse para abaixar o som. Eu no fiz
nada. Ele voltou e tirou o disco. Eu voltei a coloc-lo e
fiquei plantada diante do toca-discos. Klaus me
empurrou. Eu no suportava que esse homem me
tocasse e comecei a berrar.
Minha me, de modo geral, ficava sempre,
prudentemente, do meu lado. Era ruim isso: a histria
sempre terminava numa discusso entre Klaus e ela. E
eu a me sentia culpada. Tinha algum sobrando
naquele apartamento.
Na verdade, havia coisas piores que essas
briguinhas ocasionais. Eram as noites tranqilas em
casa: todos reunidos na sala, Klaus folheando uma
revista ou mexendo nos botes da TV, minha me
tentando estimular a conversa, ora com a gente, ora
com seu amigo. Mas ningum falava, e todos os seus
esforos caam por terra.
Dava pena, realmente. Minha irm e eu nos
sentamos demais na sala. Quando dizamos que amos
dar uma volta, ningum protestava. Klaus, pelo
menos, parecia contente de nos ver sair. Por isso
saamos cada vez mais freqentemente e ficvamos l
fora, tanto tempo quanto fosse possvel.
Atualmente penso que Klaus no merecia nenhuma
crtica. Ele s tinha vinte anos. No sabia o que era
uma famlia. No tinha conscincia do quanto minha
me gostava da gente e ns dela. Que ns tnhamos
necessidade de a ter todinha para ns durante o pouco
tempo que passvamos com ela,  noite e nos fins de
semana. Talvez ele tivesse cimes de ns. E tnhamos,
certamente, cimes dele. Minha me queria estar
disponvel para ns e ao mesmo tempo para seu
amigo. Mais uma vez eu reagia a essa situao me
mostrando cada vez mais barulhenta e agressiva.
Minha irm ficando cada vez mais silenciosa. Ela
sofria, mas sem saber exata mente por qu. Falava
em ir morar com meu pai. Do meu ponto de vista era
uma loucura, depois de tudo o que ele nos havia feito.
E eis que ele nos props voltar a viver com ele. J no
era o mesmo homem. Tinha uma amiga jovem, e cada
vez que o encontrvamos, ele estava de bom humor.
Mostrava-se muito gentil. Deu-me uma cadelinha.
Eu j tinha doze anos, os primeiros sinais de seios
e comecei a me interessar pelos garotos e pelos
homens. Eles me pareciam extravagantes. Todos uns
brutos. Tanto os garotos da rua como meu pai e
mesmo Klaus, a seu modo. Tinha medo deles, mas
tambm me fascinavam. Eram fortes, detinham o
poder. Tinha inveja deles. Em todo caso, sua fora e
sua potncia me atraam.
s vezes usava o secador de cabelos de minha
me. Cortei uma franja e me penteava bem. Cuidava
bem do meu cabelo porque me diziam que era muito
bonito assim comprido. No queria mais usar calas
xadrez como as de criana. Parecia fraco. Queria
jeans. Compraram-me uns jeans. Fiz questo absoluta
de um sapato de salto alto. Minha me deu-me um
dos dela.
Com meus jeans e de salto, andava pela rua
todas as noites, at as dez horas. Tinha a impresso
de que no me queriam em casa, mas, por outro lado,
achava legal ter tanta liberdade.
Encontrava certo sabor nas minhas brigas com
Klaus. Discutir com um adulto dava-me uma espcie
de sentimento de poder.
Minha irm no suportava esse tipo de coisa. Ela
cometeu um ato para mim incompreensvel: foi para a
casa de meu pai. Deixou minha me e, o pior, me
deixou. Eis-me ainda mais s. Mas para minha me o
golpe foi terrvel. Ela recomeou a chorar. Dividida
entre seu amigo e suas filhas, mais uma vez ela
estava cheia de problemas. . .
Acreditava que minha irm no tardaria a voltar,
mas ela ficou muito bem na casa de meu pai. Ele lhe
dava mesada, pagava aulas de equitao e lhe
ofereceu um verdadeiro culote. Era difcil para mim
engolir tudo isso. Tinha recomeado a trabalhar no
poney-club, onde, em troca, me deixavam montar a
cavalo. Mas no era regular. Logo, logo, minha irm,
com aquele culote legal, tornou-se melhor amazona
que eu.
Mas finalmente tive uma compensao. Meu pai
me ofereceu uma viagem  Espanha. Eu consegui um
excelente boletim escolar e estava apta a seguir o
segundo ciclo. Inscreveram-me na Escola Polivalente
Integrada, do conjunto Gropius. E assim, no limiar de
uma nova etapa de minha vida  uma etapa que
logicamente deveria me conduzir at o bacharelado ,
voei para Torremolinos em companhia de meu pai e
sua amiga. Frias geniais. Meu pai mostrou-se
formidvel e constatei que,  sua maneira, ele me
amava. Tratava-me como adulta. E s vezes at me
levava junto com ele quando saa com sua amiga.
Tornara-se um homem razovel. Tinha amigos de
sua idade e no lhes escondia que tinha sido casado.
No o chamava mais de tio Richard. Era sua filha. Ele
parecia orgulhar-se de mim. No quadro, uma sombra:
ele  e isso era bem prprio dele  escolhera a data
das frias em funo do que era melhor para ele e
seus amigos; ao final de minhas frias. De maneira
que cheguei a minha nova escola com duas semanas
de atraso.
Fiquei desorientada. Na minha classe, os colegas
j tinham suas amizades, os grupos j estavam
formados, mas o pior foi que, durante essas duas
semanas em que eu estivera na Espanha, explicaram
como funcionava a escola. Era um sistema muito
complicado para quem vinha da escola primria. Era
preciso que a gente mesmo escolhesse as orientaes
e se inscrevesse em alguns cursos. Os outros alunos
foram aconselhados, eles foram orientados em sua
escolha. Eu tive que me virar sozinha. Fiquei perdida
nessa escola. No havia mais, como na escola
primria, um professor que se encarregasse dos
alunos individualmente. Cada professor dava aula para
vrias centenas de alunos. Se quisssemos alcanar o
bacharelado, era preciso que cada um se responsabilizasse
por si mesmo. Decidir que queria mesmo
estudar. Fazer o necessrio para ser admitido no
grupo de nvel mais elevado. Ou ter pais que
dissessem "faa isso, faa aquilo" e que nos
estimulassem. Quanto a mim, estava perdida.
No me sentia "algum" dentro dessa escola. Os
outros tinham duas semanas a mais. Era muito numa
escola nova. Comecei a testar minha receita do curso
primrio: falava baixo, interrompia e contestava os
professores. s vezes porque em minha opinio eles
erravam, s vezes por princpio. Parti para a guerra.
Contra os professores e contra a escola. Queria ser
algum. Existir. O chefe do bando, em nossa classe,
era uma menina. Chamava-se Kessi, j tinha seios de
verdade. Parecia ter dois anos mais que os outros. Era
tambm mais madura. Todo mundo a respeitava. Eu a
admirava. Meu maior desejo era tornar-me sua amiga.
Kessi tambm tinha um namorado, que era um
cara ''gnio". Ele estudava numa classe paralela 
nossa, mas j era bem mais velho. Chamava-se Milan.
Tinha, pelo menos, um metro e setenta de altura,
cabelos compridos e encara-colados que lhe caam at
os ombros. Calava sempre botas chiqurrimas e
usava jeans apertadssimos. Todas as garotas ficavam
na paquera de Milan. O prestgio de Kessi no se devia
somente ao tamanho de seus seios e ao seu jeito de
adulta, mas sobretudo ao fato de ser amiga ntima de
Milan.
Naquela poca, ns, garotas, tnhamos uma
imagem precisa do cara que nos agradava. No devia
nunca andar com calas de boca larga, mas sim vestir
jeans apertadssimos. Rapazes que usassem tnis,
achvamos simplesmente super caretas. Deveriam ter
sempre sapatos na ltima moda e, se usassem botas
desenhadas, ento, era o mximo. Desprezvamos os
garotos que atiravam bolinhas de papel ou sobras de
ma na sala de aulas. Eram os mesmos que, nos
intervalos, bebiam leite e corriam atrs de uma bola
de futebol. Considervamos bacanas aqueles que, nos
intervalos, desapareciam num canto para fumar
escondido. Tinham, tambm, que saber beber cerveja.
Ainda me lembro de como fiquei impressionada no dia
em que Kessi me contou que Milan havia tomado um
pileque daqueles.
Eu me perguntava o que devia fazer para que um
cara como Milan se interessasse por mim ou ento (e
no fundo era a mesma coisa) para que Kessi me
considerasse sua amiga. S seu apelido, Kessi, j era
"classe". Eu sonhava ter tambm um apelido bacana.
Dizia a mim mesma: voc no tem nada que fazer
com professores que s v uma hora de vez em
quando. Qual  essa de se cansar para lhes agradar? O
importante  ser aceita por gente com quem voc
passa o dia inteiro. E passei a modificar todo o meu
comportamento na sala de aula. No tinha nenhuma
relao pessoal com os professores. Alis, a maioria
deles estava pouco ligando, no tinham mesmo autoridade
e a nica coisa que faziam era berrar.
Aprontei mil e uma. Em pouco tempo, fui capaz de,
sozinha, acabar com uma aula. Naturalmente, por
isso, passei a ser bem considerada por todos os meus
colegas.
Catava moedas no fundo das gavetas para poder
comprar cigarros e ir para o canto dos fumantes. Kessi
ia sempre em todos os recreios. Quando comecei a ir
com mais freqncia, senti que ela se interessou por
mim.
Ns nos encontrvamos  sada da escola. Afinal,
um dia, ela me convidou para ir a sua casa. Bebemos
cerveja: senti uma coisa gozada na cabea e falamos
de nossas famlias. Ela teve as mesmas merdas de
problemas que eu. At pior. . .
Kessi era filha natural. Sua me mudava
constantemente de amigo, e esses homens,
naturalmente, no gostavam muito dela. Ela acabava
de passar por um perodo bem difcil. O ltimo cara
tambm distribua pancada. Um dia quebrou toda a
moblia e para terminar jogou a televiso pela janela.
Mas a me de Kessi no era como a minha. Era mais
severa: a no ser excepcionalmente, Kessi devia estar
em casa todas as noites s oito horas.
As coisas melhoraram tambm na escola. Quero
dizer, consegui ser respeitada pelos meus colegas. Foi
um combate difcil, permanente, que no me deixava
tempo para estudar. Meu dia de glria foi aquele em
que Kessi me autorizou, finalmente, a sentar-me ao
seu lado. Ela me ensinou a cabular aula. Quando no
sentia vontade de ir  aula ela simplesmente se
mandava e ia encontrar-se com Milan ou fazer outra
coisa que lhe desse na cabea. Nas primeiras vezes
tive um medo daqueles. Mas logo reparei que se
podiam cabular uma ou duas aulas por dia, com
segurana absoluta, que ningum notava. A chamada
era feita s na primeira aula. Depois os professores
no tinham mais condies, por causa do grande
nmero de alunos, de ver quem estava l ou no.
Alis, muitos deles estavam pouco ligando.
Kessi, j naquela poca, deixava que os rapazes a
acariciassem e a beijassem. E tambm j freqentava
o Centro de Jovens. Era um lugar em que os jovens se
reuniam sob a orientao da Igreja protestante. No
subsolo havia uma espcie de discoteca, "o clube". A
entrada s era permitida aos maiores de catorze anos,
mas ningum notava que Kessi acabara de completar
treze anos.
Supliquei por tanto tempo  minha me, que ela
acabou por me comprar um suti. Na verdade,
naquela poca eu no precisava dele ainda, mas eles
aumentavam os meus seios. Tambm comecei a me
maquilar. Consegui, assim, que Kessi me levasse com
ela ao clube, que abria sempre s cinco da tarde.
A primeira pessoa que vi foi um menino da nossa
escola. Estava na oitava srie e, para mim, era o cara
mais genial de todos. Melhor ainda que Milan. E mais
bonito. Alm do mais, ele tinha um jeito de estar
sempre super seguro. . . Andava pelo Centro de
Jovens com a naturalidade de um artista. Via-se que
era superior aos demais. Chamava-se Piet. Ele e seus
amigos ficavam sempre  parte. Tinha-se a impresso
de que eles no faziam parte do mesmo universo que
os outros jovens que a gente encontrava no clube.
Toda a turma tinha um ar de superioridade. Todos
tinham aquela "classe": usavam jeans bem justos,
botas de salto alto, coletes, jeans bordados ou ento
camisas estampadas, de um tecido que parecia tapete.
Kessi conhecia esses caras e me apresentou a
eles. Isso me emocionou e achei genial poder me
aproximar deles, graas a Kessi. No Centro de Jovens
todo mundo os respeitava. E ns tnhamos at mesmo
o direito de nos sentar perto deles.
Na tarde seguinte, a turma trouxe um enorme
cachimbo. Eu no sabia mesmo para qu. . . Kessi me
explicou que eles fumavam maconha. Eu no sabia
muito bem o que era aquilo. Somente que era uma
droga, e absolutamente proibida.
Eles acenderam a coisa e a fizeram circular.
Cada um deu uma tragada. At Kessi. Quando
chegou a minha vez, recusei. Eu no tinha inteno de
recusar. Tinha tanta vontade de fazer parte da turma!
Mas era uma droga! Eu no podia ainda! Isso me
causava realmente muito medo.
No me sentia muito  vontade. Queria
desaparecer em algum buraco. Mas no podia sair
daquela mesa: daria a impresso de estar me
separando da turma porque eles fumavam maconha.
Declarei: "Tenho vontade de tomar uma cerveja".
Recolhi as garrafas vazias esparramadas pelos quatro
cantos. Trocavam quatro garrafas vazias por uma
cheia. Eu me embebedei, pela primeira vez na vida,
enquanto os outros continuavam a chupar longa e
delicadamente o cachimbo. Conversavam sobre
msica. Eu no conhecia quase nada e no podia
participar da conversa. Gostei de estar bebum, isso
me tirou um terrvel sentimento de inferioridade. Logo
compreendi o gnero de msica de que eles gostavam
e comecei a imit-los: David Bowie, etc. Esses caras
para mim tambm eram dolos! Pelas costas todos se
pareciam com David Bowie, embora s tivessem
dezesseis anos.
O pessoal da turma era superior e sua maneira
me desconcertava. Eles no gritavam, no brigavam,
no aterrorizavam ningum. Eram bastante
silenciosos. Sua superioridade parecia emanar deles
prprios.
Entre eles tambm eram tranqilos. Nunca havia
brigas. Ao chegar, todo mundo se beijava: um beijinho
na boca. Eram os meninos que mandavam, mas as
meninas eram bem aceitas. Pelo menos entre meninos
e meninas nunca havia brigas idiotas.
Kessi e eu mais uma vez cabulamos aula. As duas
ltimas aulas. Kessi tinha um encontro com Milan no
metr Wutzkyallee. Como ele ainda no chegara,
andamos  toa em volta da estao, sempre com
medo de encontrar algum professor. quela hora, era
realmente arriscado.
Kessi acendia um cigarro quando vi Piet com seu
amigo Charly. Eis chegado o momento que eu tanto
esperava. H tempos que tinha vontade de encontrar,
durante o dia, Piet ou um outro, para convid-los a ir a
minha casa. No queria nada dos rapazes. Ainda no
me interessava pelo sexo oposto. S tinha doze anos e
no havia tido sequer uma menstruao; o que eu
queria era poder contar a todos que Piet estivera em
minha casa. Assim os outros pensariam que ns
havamos sado juntos ou, pelo menos, que eu fazia
parte da turma.
No havia ningum na minha casa. Minha me e o
seu companheiro haviam sado para trabalhar. Disse a
Kessi: "Vamos l falar com os meninos". Meu corao
batia forte. Apesar disso, foi com uma voz bem segura
que alguns minutos depois eu perguntei a Piet: "Que
tal irmos at minha casa? No h ningum l, e o
companheiro de minha me tem alguns discos legais,
como Led Zeppelin, David Bowie, Ten Years After,
Deep Purple e o lbum do festival de Woodstock".
Eu j havia evoludo muito. Familiarizara-me no
somente com a msica de que eles gostavam, mas
tambm com o seu linguajar diferente e tudo o mais.
Tratei de aprender aquele vocabulrio to novo para
mim. E isto me parecia mais importante que a
matemtica e os verbos ingleses.
Piet e Charly aceitaram na hora. Fiquei louca de
alegria, cheia de orgulho. Em casa, grito: "Merda, no
h nada para beber". Fizemos uma vaquinha e fui com
Charly ao supermercado. A cerveja era muito cara, e
era preciso beber muito para ficar um pouco de fogo.
Compramos por dois marcos um litro de vinho tinto,
daqueles que mancham. Esvaziamos a garrafa
enquanto transvamos um papo.
A conversa girou em torno dos tiras. Piet disse
que devamos desconfiar muito deles por causa do
dope ( uma palavra que vem do ingls e que eles
utilizavam para designar maconha). Falaram muito
mal dos tiras e afirmaram que vivamos em um Estado
policial.
Tudo aquilo era novidade para mim. At ento, os
nicos representantes da autoridade que eu conhecera
e que mereciam ser odiados eram os zeladores:
pessoas que caem em cima de ns quando estamos
nos divertindo. Os policiais encarnavam um mundo
ainda fora do meu alcance. No entanto, aprendi que no
conjunto Gropius vivamos num universo de policiais,
que os tiras eram muito mais perigosos que os
zeladores. E se Piet e Charly diziam, no podia ser
nada mais que a estrita verdade.
Uma vez terminada a garrafa, Piet disse que tinha
ainda um pouco de dope em sua casa. Os dois outros
estavam maravilhados. Piet saiu pela varanda (era o
que eu fazia geralmente  vivamos no andar trreo e
isso era genial depois de ter vivido no dcimo primeiro
andar) e voltou com uma placa do tamanho de uma
mo, dividida em pedaos de um grama cada um, uma
dezena de marcos. Ele trouxe tambm um shilom
(Pipa especial para fumar maconha. (N. da T.)), que 
uma espcie de cano de madeira com uns vinte
centmetros de comprimento. Primeiro colocou fumo
para que no fumssemos at a madeira e depois
encheu com uma mistura de fumo e maconha. Fumamos
colocando a cabea para trs e segurando o cano
to vertical quanto possvel, para no deixar cair as
cinzas.
Olhei atentamente como eles faziam. Sabia que
no podia mais recusar, agora que Piet e Charly
tinham vindo  minha casa. Falei com um ar muito
tranqilo: "Fumarei um pouco de dope hoje", como se
j tivesse fumado aos montes.
Baixamos as cortinas. A luz que atravessava pelos
vos revelava espessas nuvens de fumaa. Coloquei
um disco de David Bowie. Eu aspirei e conservei o
fumo nos meus pulmes at ter um acesso de tosse.
Ningum falava nada. Ouvimos msica, olhando para
o vazio.
Esperei que se passasse algo de extraordinrio
comigo. Pensei: agora que estou drogada, algo
diferente deve acontecer. Mas nada. Senti somente
um pouco de sono, que devia ser mais efeito do vinho.
No sabia ainda que na maioria dos casos a maconha
no provoca nada  ao menos conscientemente  na
primeira vez.  preciso tentar algumas vezes para
sentir o seu efeito. O lcool vai muito mais rpido.
Piet e Kessi, sentados no sof, se aproximaram
um do outro. Piet fazia carcias no brao de minha
amiga. Pouco depois os dois se levantaram e foram se
trancar no meu quarto.
Fiquei sozinha com Charly. Ele se sentou no brao
do meu sof e ps seu brao nos meus ombros. Acho
que ele era melhor que Piet. Sentia-me feliz por ele se
interessar por mim. Sempre tive medo de que os
meninos percebessem que tinha doze anos e me
rejeitassem, me considerando um beb.
Charly comeou a me bolinar. No sei mais se
continuava contente. Senti um calor terrvel. De medo,
creio. Estava petrificada. Tentei murmurar alguma
coisa a respeito do disco que estava tocando. Quando
Charly comeou a me amassar os seios, ou seja, o que
no futuro seriam meus seios, dei um salto e fui at a
vitrola para fazer de conta que estava arrumando no
sei o qu.
Piet e Kessi saram de meu quarto. Eles tinham
um ar estranho, perturbado, um pouco triste. No
trocavam olhares. Estavam em silncio. Kessi tinha a
cara avermelhada. Dava a impresso de que vivera
uma m experincia. De qualquer maneira, isso no
lhe acrescentou nada. Deve ter sido horrvel para os
dois.
Finalmente, Piet me perguntou se iria ao Centro
de Jovens. Isto me devolveu a confiana. Ganhei.
Tudo se passou como tinha pensado: convidei pessoas
do bando para ir  minha casa e agora fazia parte do
bando para sempre.
Piet e Kessi partiram pela varanda. Charly
demorou. O pnico me invadiu. No podia ficar s com
ele. Falei claramente que devia arrumar o
apartamento e estudar. De repente, eu no ligava
mais ao que ele iria pensar. Ele foi embora. Joguei-me
na minha cama e, olhando para o teto, tentei pensar
sobre o que se passara.
Charly tinha bastante charme, mas no sei bem
por que ele no me agradava mais. Uma hora, uma
hora e meia depois, tocou a campainha. Olhei pelo
olho mgico. Era Charly. No abri e voltei para meu
quarto na ponta dos ps. Tinha medo de ficar a ss
com ele. Agora ele me repugnava. Alm disso, sentia
um pouco de vergonha. Por causa da droga ou de
Charly, no sabia muito bem.
Sentia-me triste. Finalmente fora admitida no
bando, mas no fundo aquele no era meu lugar. Era
muito jovem para essas histrias de rapazes, e agora
eu me dava conta disso. Quanto ao que eles me
disseram a respeito da polcia, do Estado, etc., isso
no me interessava.
Apesar de tudo, cheguei ao Centro de Jovens no
momento em que ele abria. No fomos ao clube, mas
sim ao cinema. Tentei sentar entre Kessi e um rapaz
que no conhecia, mas Charly ficou ao meu lado.
Durante o filme ele recomeou a passar a mo em
mim. Ele ps sua mo entre minhas coxas. Eu no me
defendi. Estava paralisada. Tinha um medo terrvel.
Tive vontade de sair correndo, mas pensei:
"Christiane,  o preo da tua admisso no bando". No
me mexi nem disse nada. Alm disso, aquele tipo me
impressionava terrivelmente. Quando ele me pediu
que eu o acariciasse e tentou guiar minha mo, no
deixei. Cruzei minhas mos sobre meus joelhos.
Fiquei felicssima quando o filme acabou. Afasteime
o mais rpido que pude de Charly e me dirigi a
Kessi. Contei-lhe tudo o que havia se passado e disselhe
que nunca mais queria rever Charly. Kessi deve ter
contado tudo a ele, pois, pouco tempo depois, todo
mundo j sabia que ela estava vidrada em Charly.
Ento, no clube, ela sempre ficava pelos cantos
chorando, pois Charly j no mais a tratava como fazia
com as outras meninas. Mais tarde, ela mesma me
confessou que estava realmente apaixonada por
Charly e que no conseguia controlar o choro quando
ele estava por perto.
Apesar do ocorrido com Charly, eu fazia parte do
bando.  claro que me apelidaram de "a pequena".
Mas o que era importante  que fora aceita. Nenhum
rapaz tentou me tocar. Sabiam e admitiam que eu era
muito jovem para essas coisas. Tambm nesse ponto
nosso bando se diferenciava dos bbados. Estes eram
os jovens que se dedicavam  cerveja,  cachaa. Eles
eram muito rigorosos com as meninas que so "cheias
das coisas". Riam delas, insultavam-nas e cometiam
violncias contra elas. Entre ns, tudo isso no existia,
e nunca houve violncia. Nos aceitvamos
mutuamente tal qual ramos. Alis, de certa forma
ramos todos parecidos ou ao menos estvamos no
mesmo barco. No havia necessidade de grandes
discursos para nos entendermos. Entre ns ningum
gritava, ningum falava coisas obscenas. As lamrias
dos outros no nos diziam respeito. Estvamos por
cima de tudo isso.
Afora Piet, Kessi e eu, todos tinham um emprego.
Para todos era a mesma coisa: fedia em casa e fedia
no trabalho.
Enquanto os bbados carregavam seu stress ao
Centro e descarregavam sua agressividade, os caras
de nosso grupo eram capazes de se desligar.
Terminada a jornada de trabalho, eles faziam coisas
que lhes agradavam: se drogavam, escutavam msica
agradvel... Era a paz. Esquecamos todas as merdas
da jornada.
No me sentia ainda perfeitamente bem com os
outros. Creio que por ser muito jovem, mas eles eram
o meu modelo. Queria ser como eles e aprendi com
eles a viver tranqila, no dando bola aos idiotas e a
esta merda toda. De qualquer forma, nem pais nem
professores tinham nenhuma influncia sobre mim. A
nica coisa que contava, alm dos meus animais, era
o bando.
Se as coisas chegaram quele ponto, foi porque a
vida l em casa estava insuportvel. O pior era que
Klaus, o companheiro de minha me, detestava
animais. Pelo menos essa era a minha opinio na
poca.
De incio, ele se contentava apenas em reclamar
sem parar, dizendo que o apartamento era muito
pequeno para tudo isso. Depois ele proibiu a entrada,
na sala, do cachorro que eu havia ganho de meu pai.
Tive uma exploso. Nossos ces sempre fizeram
parte da famlia. E eis que aquele cara pretendia
expulsar a minha cadela da sala de estar! Mas isso no
era tudo: ele me proibiu de deix-la dormir ao lado da
minha cama. Ele queria, sem gozao, que eu
construsse uma casinha de cachorro em meu quarto,
que j era minsculo. Naturalmente, no fiz nada.
Depois disso, Klaus me acenou com o golpe fatal.
" preciso se desfazer dos animais", disse ele. Minha
me se colocou do seu lado, dizendo que eu no
cuidava mais deles. Era o cmulo!  verdade que,
voltando muitas vezes tarde da noite, eles eram
obrigados a levar o co para passear, mas, apesar
disso, sempre dediquei todo o meu tempo livre aos
meus animais.
Mesmo tendo chorado e feito um escndalo, o
cachorro foi embora. Deram-no a uma senhora, muito
simptica e de quem eu gostava muito. Mas ela ficou
doente, um cncer, e no pde mais ficar com ele.
Ouvi dizer que ele acabou em um boteco. Era um
animal extremamente sensvel, que no suportava
ouvir gritos. Em um lugar como esse, ele no
sobreviveria, sabia disso. Responsabilizo Klaus e
minha me pela minha sada de casa. No queria mais
saber de gente que no gostava de animais.
Tudo isso se passou quando comecei a freqentar
o Centro de Jovens e a fumar maconha. Restavam-me
apenas os dois gatos.  noite eles dormiam na minha
cama. Durante o dia no tinham necessidade de mim.
Sem meu cachorro, no havia mais nenhum motivo
para eu permanecer em casa. No sentia vontade de
passear sozinha. Esperava, impacientemente, pelas
cinco horas, a hora em que abria o Centro de Jovens.
s vezes encontrava-me com Kessi e com alguns amigos
do bando no incio da tarde.
Fumava todas as tardes. Na turma, os que tinham
dinheiro emprestavam para os que no tinham. Eu no
me preocupava mais em esconder que fumava
maconha. No Centro de Jovens isso no era mais
segredo. Periodicamente, os assistentes sociais nos
faziam sermes. Mas a maioria deles reconhecia que
tambm j fumara. Eles vinham das universidades, do
movimento estudantil, e a era perfeitamente normal
que se fumasse maconha. A nica coisa que nos
diziam era para no exagerar, no us-la como um
meio de fugir da realidade, etc. Principalmente, no
passar s drogas pesadas.
Seus conselhos entravam por um ouvido e saam
por outro. O que esses caras tinham a ver com isso?
Eles mesmos fumavam, no  mesmo? Um dos nossos
disse claramente a um assistente social:  Para
vocs, quando um estudante se droga, tudo bem. Ele
sabe o que faz. Mas se  um aprendiz ou um operrio
 perigoso, no pode. Qual ? Suas histrias no
colam.  O cara no soube o que responder. Isto lhe
deu um peso na conscincia.
Fumar somente j no bastava. Quando no tinha
droga, bebia vinho, cerveja. Comeava desde que saa
da escola ou mesmo pela manh, nos dias em que
cabulava as aulas. Tinha necessidade de estar um
pouco embalada, um pouco voando. Eu tinha essa
vontade para escapar de toda aquela merda, merda na
escola e merda em casa. Da escola, de todas as
maneiras, eu me desliguei completamente. Minhas
notas decaam a olhos vistos.
At fisicamente eu mudei bastante. Emagreci
muito, pois quase no comia. J danava dentro das
calas. Meu rosto afinou. Ficava horas diante do
espelho, admirando minha nova aparncia. Eu me
assemelhava cada vez mais ao resto da turma.
Finalmente perdi meu ar inocente, meu ar de criana.
Fiquei obcecada pelo meu fsico. Obrigava minha
me a comprar calas colantes como uma segunda
pele e sapatos de salto alto. Penteava meus cabelos
repartidos ao meio.
Eles cobriam minha cara. Desejava ter um ar
misterioso, ningum devia me desvendar, ningum
devia duvidar de que eu estava numa boa, como
tentava demonstrar.
Uma noite Piet me perguntou se j havia viajado.
 Claro, meu velho  respondi. Ouvira falar do LSD,
que eles chamam de "uma viagem". Piet sorriu.
Percebi que ele no acreditou. Como ouvira muitas
vezes pessoas me contarem suas ltimas viagens,
tentei, com trechos que lembrava, fabricar minha
prpria histria. Piet ainda no acreditava. No era to
fcil engan-lo. Tive vergonha.
 Se voc quiser provar, terei LSD, dos bons, no
sbado. Eu te darei um pouco.
Impacientemente esperei pelo fim de semana.
Quando j tivesse tomado LSD, seria igualzinha aos
outros. Quando cheguei ao Centro de Jovens, Kessi j
havia comeado a sua viagem. Piet me disse:  Se
voc est decidida, eu te dou metade.  o suficiente
para a primeira vez.  Ele me deu ento um papel de
cigarro enroladinho. L dentro havia um comprimido.
No podia tomar assim, diante de todos. Estava
excitadssima. Alm disso, tinha medo de ser
apanhada em flagrante delito. Eu gostaria, alm do
mais, de dar ao acontecimento certo ar solene.
Finalmente, fui me trancar no banheiro e tomei o dito
cujo.
Quando voltei, Piet afirmou que eu havia jogado o
comprimido no banheiro. Esperei impacientemente que
aquilo fizesse efeito para que os outros vissem que o
havia tomado de fato.
At as dez horas, hora em que o Centro fechava,
eu ainda no sentia nenhum efeito. Acompanhei Piet
at o metr. L encontramos Frank e Pauli, dois
amigos de Piet. Eles tinham um ar tranqilo, uma
calma extraordinria. Gostava deles.  Eles se
dedicam  herona  falou Piet. No prestei, naquele
momento, nenhuma ateno. Tinha que pensar em
mim mesma. O comprimido comeava a fazer efeito.
Tomamos o metr e, a sim, a coisa comeou a
funcionar. Uma verdadeira loucura! Tive a sensao
exata de estar dentro de uma lata de conserva e que
algum remexia l dentro com uma colher gigante. O
barulho do metr, quando no tnel, era de
enlouquecer. Insuportvel mesmo. Pensei que no
fosse agentar. As pessoas, no metr, tinham umas
caras pavorosas. Alis, para dizer a verdade, esses
burgueses tm sempre a mesma cara. S que naquele
momento pude ver seus rostos melhor e constatei
como eram nojentos. Comecei a imaginar que aqueles
gordos burgueses deviam estar saindo de uma merda
de um botequim qualquer ou de uma merda de
trabalho. Agora deveriam, esses porcos, ir para suas
casas dormir e, na manh seguinte, retornar ao
trabalho, e ento comearam a se distanciar da minha
vista. Pensei: "Voc deve se sentir muito feliz por ser
diferente. Voc tem uma turma bacana. Voc est
agora sob o efeito da droga e pode constatar que
merda de burgueses andam no metr". Foi isso, mais
ou menos, que pensei naquele momento e tambm
nas "viagens" futuras. De repente, senti medo
daquelas caretas. Olhei para Piet. Ele tinha uma aparncia
bem pior do que de costume. Seu rosto ficara
muito pequeno, exatamente ao contrrio dos outros.
Mas ainda possua algo de normal.
Chegamos finalmente a Rudow. Estava feliz por
pular fora do vago. Agora sim a coisa era completa.
Todas as luzes tinham uma incrvel intensidade. Nunca
o sol me pareceu to brilhante quanto aquela lmpada
acima de nossas cabeas. No metr eu tinha frio,
agora sentia um calor fortssimo. Eu me imaginava na
Espanha e no mais em Berlim. As ruas se
transformaram em praia, as rvores eram palmeiras
como nos belos cartazes da agncia de viagem do
conjunto Gropius. A luz era deslumbrante. No disse a
Piet que voava. Minha viagem fantstica, queria
aproveit-la sozinha.
Piet, que tambm voava, props que a gente
fosse  casa de sua amiga. Uma menina que ele
curtia. Talvez seus pais no estivessem em casa.
Fomos primeiro ao estacionamento, no subsolo do
edifcio, ver se o carro deles estava l. Tive uma crise
de angstia. O teto da garagem era baixo e descia
cada vez mais. O teto era uma abbada. Os pilares
oscilavam.
O carro dos pais da menina estava l.
Piet gritou:  Meu Deus, como fede esta
garagem!  Depois, pensando que era s ele que
viajava, perguntou-me:  Onde voc jogou o
comprimido aquela hora?  Ele me olhou e depois
exclamou:  Merda, minha filhinha, eu no disse
nada. Voc tem as pupilas dilatadas pra burro.
Fora, o mundo era novamente belo. Sentei na
grama. Uma casa da vizinhana tinha um muro cor de
laranja, berrante. Dir-se-ia que o sol nascente ali se
refletia. As sombras danavam como se elas
quisessem se apagar diante da luz. O muro se
quebrava e parecia que de repente ardia em chamas.
Fomos at a casa de Piet. Ele possua um
surpreendente talento de pintor. Um de seus quadros,
pendurado em seu quarto, representava um esqueleto
armado de uma foice sobre um cavalo enorme. Olhei
para o quadro. No era a primeira vez que o via, e
sempre pensava que ele representava a morte. Agora
ele no me dava medo de maneira nenhuma.
Ocorriam-me pensamentos inocentes. Pensava que
esse esqueleto era incapaz de dominar um cavalo to
vigoroso. Falamos do quadro, longamente. Ao ir
embora, Piet me emprestou alguns discos e me disse:
 Eles so formidveis para aterrissar.  Fui embora.
Minha me me esperava, a bronca habitual. No
estado em que estava. . . "Isso no pode continuar
assim", etc., etc. Achava-a ridcula, gorda, cheia de
banha em sua camisola branca, cara totalmente torta
de raiva. Como as pessoas do metr.
No abri a boca. J no falava mesmo mais com
ela. Somente o indispensvel e algumas pequenas
frases sem importncia. No queria que ela me
tocasse mais. No queria seus beijos. Acreditava, ao
menos algumas vezes, que no tinha mais
necessidade de me ou de uma famlia.
Vivamos agora em dois mundos totalmente
diferentes. Minha me e seu companheiro de um lado
e eu de outro. Eles no tinham a menor idia do que
eu fazia. Pensavam que era uma menina
perfeitamente normal em perodo de puberdade. O
que poderia eu contar-lhes?
De todas as maneiras, eles no compreenderiam
mesmo. A nica coisa que fariam era me bombardear
com proibies. Pelo menos, era o que eu pensava. O
nico sentimento que sentia por minha me era
piedade. Tinha pena quando a via voltar do trabalho,
cansada, nervosa, liquidada e fazer os trabalhos
domsticos. . . Dizia a mim mesma: "Que culpa tm os
velhos se levam esta vida de idiotas?"
A me de Christiane
Como pude no perceber o que estava
acontecendo com Christiane? Por diversas vezes fiz
esta pergunta a mim mesma. A resposta  simples,
mas tive que conversar com vrios pais para suportla:
eu no queria reconhecer que minha filha tinha se
tornado uma viciada.  simples. Enquanto pude, fechei
os olhos para no enxergar.
Meu companheiro  o homem com quem vivo
desde o meu divrcio  suspeitava h muito tempo.
Eu vivia lhe dizendo: "Voc est inventando coisas, ela
no passa de uma criana". O erro mais grave 
imaginar que nossos filhos "ainda no chegaram a tal
ponto". Eu deveria ter comeado a pensar nessas
coisas desde o momento em que Christiane se isolou,
desde que senti que ela evitava, cada vez mais, o
contato com a gente e saa todos os fins de semana
com os amigos em vez de fazer alguma coisa com a
famlia. Eu deveria ao menos me interrogar por que
ela agia assim. No procurei saber nada disso.
No h dvida de que quando trabalhamos no
podemos dar a ateno necessria ao que fazem
nossos filhos. Temos vontade de viver em paz e nos
contentamos em v-los seguir seu prprio caminho. 
claro que Christiane voltava algumas vezes tarde para
casa. Mas ela tinha sempre uma boa desculpa, e eu
estava pronta para acreditar. Sua rebeldia constante
me parecia problema de sua idade e pensava: isso vai
passar.
Eu no queria pressionar Christiane. Eu mesma
tinha sofrido muito com isso. Tive um pai
extremamente severo. No vilarejo de Hesse, onde
cresci, ele era um cidado respeitvel, proprietrio de
uma pedreira. Sua maneira de educar consistia em
estabelecer proibies. Se fizesse a besteira de falar
de meninos  s falar , recebia umas boas palmadas.
Nunca esqueci um certo domingo  tarde.
Passeava com uma amiga. Dois jovens nos seguiam a
uma distncia aproximada de cem metros. Eis que, por
acaso, meu pai nos v. Ele pra, me d uma bofetada
ali mesmo, no meio da rua, me empurra para dentro
do carro e me leva para casa. Tudo isso porque dois
meninos estavam andando atrs da gente. Isso me
revoltou. Eu tinha dezesseis anos na poca e nunca
mais parei de pensar: como fugir?
Minha me tinha um corao de ouro, mas ela
no era ouvida para nada. No me deixaram nem
mesmo escolher minha profisso. Eu sonhava ser
parteira, mas meu pai me forou a ingressar em uma
escola tcnica de comrcio. Depois deveria cuidar da
sua contabilidade. Foi nessa poca que encontrei
Richard, que seria meu futuro marido. Ele tinha um
ano mais do que eu e cursava uma escola
especializada em economia agrcola. Obedecendo a
seus pais, tambm deveria administrar as
propriedades da famlia. No incio ramos somente
amigos.  claro que meu pai quis me impedir de v-lo.
E quanto mais ele insistia, mais eu teimava. Por fim
encontrei a soluo para conquistar a minha liberdade:
ficar grvida e ser obrigada a casar.
Eu tinha dezoito anos quando isso aconteceu.
Richard imediatamente parou de estudar, e em
seguida fomos morar no norte, no vilarejo onde
moravam meus pais. Nosso casamento foi um fracasso
total. Desde o incio. Eu nunca pude contar com meu
marido para nada, nem mesmo durante minha
gravidez ele me fazia companhia  noite. Ele s
pensava no seu Porsche e em seus grandes projetos.
Nenhum trabalho era digno dele. Ele queria, a todo
preo, ser algum importante. Repetia o tempo todo
que sua famlia, antes da guerra, era rica e poderosa:
seus avs eram proprietrios de um jornal, de uma
joalheria, de um aougue e donos de muitas terras.
Ele queria, nica e exclusivamente, ter a sua
prpria empresa. Queria montar um negcio de
transportes, vender carros ou, em associao com um
amigo, estabelecer uma casa de sementes de
horticultura. Na realidade, ele nunca passou dos
contatos preliminares. Em casa ele descontava nas
crianas. Ainda que eu interferisse, as bofetadas choviam.
Eu ganhava a maior parte do dinheiro necessrio
para vivermos. Christiane tinha mais ou menos quatro
anos quando encontrei um bom trabalho numa agncia
matrimonial. Eu era obrigada, s vezes, a trabalhar
nos fins de semana para fazer os contratos, e a
Richard me ajudava. Durante dois anos as coisas
andaram relativamente bem. Quando Richard brigou
com meu patro, perdi o meu emprego. Richard
decidiu abrir sua prpria agncia matrimonial, um
projeto grandioso. Com sede social em Berlim.
Mudamo-nos em 1968. Eu esperava que essa
mudana de ares desse um novo alento ao casal. Mas,
em vez do belo apartamento com suntuosos
escritrios, camos num apartamento com duas peas
e meia do conjunto Gropius, quase no subrbio.
Richard no conseguiu fundos necessrios para
iniciarmos o negcio. Voltvamos ao que ramos
antes. Ele descarregou sua raiva sobre mim e sobre as
crianas. Uma vez, em um dos seus bons perodos,
trabalhou durante certo tempo no comrcio. No fundo
ele era incapaz de se resignar a ser como todos os
outros habitantes do conjunto Gropius, a fazer parte
daquela gentinha.
Diversas vezes pensei em me divorciar, mas no
tinha coragem de ir at o fim. O pouco de confiana
em mim mesma, que meu pai me havia conseguido
infundir, foi totalmente destrudo por meu marido.
Felizmente encontrei rapidamente um trabalho
em Berlim: esteno-datilgrafa num escritrio, mil
marcos por ms, lquido. O sentimento de ser
considerada, de fazer algo, novamente me deu certa
fora. Parei de aceitar tudo o que meu marido queria.
Comecei a achar a sua megalomania bastante ridcula.
Nossas brigas se tornaram cada vez mis freqentes,
cada vez mais violentas. Tnhamos feito vrias
tentativas de separao... Eu estava ainda muito
ligada a ele  talvez pelo fato de ele ter sido o
primeiro. E tambm por causa das crianas. Eu no
tinha encontrado um lugar no jardim de infncia para
as crianas, e mesmo que tivesse encontrado no
poderia pagar. Dessa forma, me tranqilizava saber
que Richard estava s vezes em casa. E assim sempre
adiei minha deciso. Em 1973, finalmente, me senti
bastante forte para reparar o meu erro. Fui consultar
um advogado e pedi o divrcio.
Eu queria preservar Christiane de tudo aquilo que
eu tinha vivido. Tinha feito um juramento, no
momento do seu nascimento: " preciso que ela no
se case com o primeiro que aparecer, somente para
fugir de casa. Ela deve se expandir livremente, sem
represses". Gostaria de ser uma me moderna. Foi
por isso que mais tarde me revelei muito permissiva.
Uma vez realizado o divrcio, tive que procurar
um apartamento para morar, pois Richard se recusava
a mudar. Encontrei um por seiscentos marcos por ms
(a garagem estava includa no preo, apesar de eu no
ter necessidade, pois no tinha carro). Era muito caro
para mim, mas eu no tinha escolha. Queria
finalmente deixar meu marido e queria, a todo preo,
que comeasse uma vida nova para mim e minhas
filhas.
Richard no tinha como pagar penso alimentar.
Eu disse a mim mesma: "H uma s coisa a fazer:
confiar nas prprias foras, fazer horas extras se for
necessrio, mas  preciso que as crianas tenham uma
vida decente". Elas tinham ento dez e onze anos, e
durante toda a sua infncia tinham vivido em um
apartamento mobiliado com o estritamente necessrio
e mais nada. No tnhamos sequer um sof
decente. Meu corao sofria pelo fato de no
poder dar s crianas um lar confortvel.
Agora que estava divorciada, eu gostaria que isso
mudasse. Finalmente, gostaria de ter um apartamento
bonitinho onde ns trs nos sentssemos bem. Eu
trabalhava para realizar esse sonho, para poder
comprar um presente para as crianas, comprar
roupas bonitas e sair alguns fins de semana sem me
preocupar com as despesas.
Esse objetivo, eu o persegui com entusiasmo e
muita garra. Ganharam um belo quarto com o papel
de parede escolhido por elas e mveis ao gosto delas.
Em 1975 pude dar um aparelho de som a Christiane.
Tudo isso me enchia de alegria; estava to alegre de
poder, finalmente, dar-lhes um pouco de bem-estar!
 tarde, ao voltar do trabalho, eu lhes trazia
presentinhos. Pequenas coisas. Comprava umas coisas
em algumas dessas grandes lojas... Geralmente era
algo em liquidao, como um apontador de lpis
engraado, um brinde qualquer, alguma coisa para
comer, etc. Elas pulavam no meu pescoo. Sentia a
sensao de que todos os dias era Natal.
Hoje,  claro, sei que era um meio de aliviar
minha conscincia, uma compensao pelo fato de eu
no cuidar suficientemente delas. Eu no deveria terme
preocupado tanto com o dinheiro, mas sim com
cuidar mais de minhas filhas, em vez de trabalhar
tanto. Hoje no entendo muito bem o porqu da
minha atitude: por que as deixei to ss? Os presentes
no substituem o resto. Como as meninas tinham
necessidade de mim, teria sido melhor que eu tivesse
vivido do auxlio-famlia. Mas isso, para mim, seria
uma derrota: meus pais me ensinaram que isso no se
faz, no se deve ser um parasita do Estado. Talvez eu
devesse ter exigido do meu ex-marido uma penso
alimentar. No sei. De tanto me esforar para ter um
lar arrumadinho, perdi completamente de vista as
verdadeiras prioridades das coisas. Por mais que eu
pense e repense sobre o assunto, no final das contas
sempre chego  concluso de que deixei as crianas
por conta delas mesmas. Christiane tinha necessidade
de ser orientada, receber um slido apoio. Era mais
instvel, mais sensvel que sua irmzinha. Nunca me
ocorreu a idia de que ela pudesse cair no mau
caminho, apesar de saber o que se passava no
conjunto Gropius. Havia brigas todos os dias. Bebia-se
tanto que era freqente ver um homem ou uma
mulher ou at um adolescente bbado de cair pelos
cantos. Pensava que, se dssemos um bom exemplo,
se no nos perdssemos, as crianas nos tomariam
por modelo e tudo iria bem.
Eu acreditava, verdadeiramente, que estvamos
no bom caminho. De manh as meninas iam  escola,
ao voltar preparavam o almoo, e  tarde iam
freqentemente ao poney-club. As duas tm uma
verdadeira paixo pelos animais.
Durante certo tempo tudo caminhava bem apesar
de algumas cenas de cime entre as crianas e Klaus,
meu amigo, que morava conosco. Eu queria estar um
pouco disponvel para ele, alm do meu trabalho, da
casa e das crianas. De certa maneira ele era meu
porto de tranqilidade. Neste caso, tambm, cometi
um erro grave: para me dedicar melhor a ele, permiti
 irm de Christiane retornar  casa de seu pai.
Richard, que se sentia s, a atraa, prometendo-lhe
um monte de coisas.
Christiane voltava sozinha da escola. Comeou a
andar em ms companhias. Eu no percebia nada. Ela
passava freqentemente as tardes com sua amiga
Kessi, que me parecia bastante razovel para a sua
idade. A me de Kessi de vez em quando dava uma
olhadinha nas duas. ramos vizinhas, e s vezes
Christiane ia  casa da amiga e em outros dias era ela
que vinha para nossa casa.
Ela tinha doze ou treze anos, idade em que
comeamos a querer descobrir tudo, queremos fazer
experincias. No encontrei motivo para censur-la
quando passaram a freqentar  noite o Centro de
Jovens organizado pela Igreja protestante. Eu estava
convencida de que, estando l, Christiane estava em
boas mos. Mesmo nos meus piores pesadelos eu no
poderia imaginar que l se fumava maconha.
Tranqilizava-me ver Christiane, to triste depois
da partida da irm, tornar-se uma alegre adolescente.
Desde que se tornou amiga de Kessi, ela recomeou a
rir. s vezes ela dizia besteiras com tanto entusiasmo
que eu no podia deixar de rir. Como poderia
adivinhar que sua alegria, seus sorrisos loucos eram
efeitos de haxixe ou de outra droga qualquer?
***
Minha famlia era a turma. Nela eu encontrava
amizade, ternura e algo parecido com amor. S o
beijinho na chegada j me parecia uma coisa
fantstica. Todos davam e todos recebiam um pouco
de ternura e amizade. Meu pai nunca me beijou assim.
Na turma no havia problemas, no falvamos nunca
de problemas, ningum amolava os outros com suas
merdas pessoais. Quando estvamos juntos, essa porcaria
de mundo exterior no existia mais. Falvamos
de msica e drogas, algumas vezes de roupas e outras
tambm de gente que, de um jeito ou de outro, deu
um pontap na bunda dessa sociedade policialesca.
Achvamos legal quando algum roubava um carro,
assaltava um banco ou um apartamento.
Depois da minha viagem sentia-me igualzinha aos
outros. Foi uma viagem maravilhosa, e tive sorte, pois
para a maioria das pessoas a primeira viagem  ruim,
 aquele pnico. Eu fiquei numa boa. Tive a impresso
de ter passado num exame com sucesso. A partir da,
quando me ofereciam um comprimido de LSD, eu
aceitava. Passei a ver as coisas e as pessoas de uma
maneira totalmente diferente. Reencontrei a natureza.
Antes eu tinha contato com a natureza graas ao meu
cachorro, quando eu ia passear com ele. Agora era
uma nova experincia. Quando no tinha cido,
fumava um baseado antes do passeio. E fui
descobrindo uma natureza desconhecida. Tudo se
dissolvia em cores, formas e sons, refletindo o meu
humor do momento. Achava realmente bacana a vida
que levava. Durante vrios meses senti-me quase
contente comigo mesma.
Algum tempo depois as coisas comearam a se
modificar com a nossa turma. Todos se sentiam
agitados. O fumo e as viagens no nos estimulavam
mais. Acostumamo-nos com isso. Estar baratinado era
mais ou menos nosso estado normal. No havia mais
nada de extraordinrio. . .
Uma tarde, um cara da turma chegou ao Centro
anunciando:  Olha, gente, tenho um negcio novo, 
Efedrina. Um negcio terrvel.  Tomei dois
comprimidos de Efedrina ( um estimulante), sem
saber ao certo o que engolira. Tomei com cerveja,
porque os outros faziam assim tambm... Sempre tive
horror a cerveja, talvez porque tivesse horror das
pessoas que se embriagam com cerveja.
De repente, o Centro foi invadido por plulas de
todos os tipos. Naquela mesma tarde tomei um
Mandrix, que  um sonfero fortssimo. Nessa tarde o
mundo me pareceu realmente maravilhoso e o pessoal
da turma, terrivelmente simptico.
Nas semanas que se seguiram arrasamos com os
estoques das farmcias.
Na escola as coisas iam de mal a pior. Deixei, de
uma vez por todas, de fazer meus deveres. Pela
manh nunca estava desperta. Apesar disso, passei de
ano. Estudava algumas matrias como letras ou
instruo cvica, quando encontrava um tema de
interesse.
Mas foi precisamente nas matrias que no
abandonei que encontrei cada vez maiores
dificuldades. Com os professores e com os alunos. A
maneira como nos tratavam e o relacionamento entre
eles me pareciam abominveis. Lembro-me de como
discuti com um professor que nos queria falar de
proteo ao meio ambiente. A classe toda estava
completamente aptica, ningum se interessava.
Porque no era preciso anotar nada, nem estudar. O
bl-bl-bl do professor me exasperava. Estava certa
de que ele deixava de lado tudo o que era
verdadeiramente importante. Ento explodi e gritei: 
O que significa mesmo proteo ao ambiente? Primeiro
 ensinar as pessoas a viverem com os outros, a se
interessarem uns pelos outros. Em vez disso, cada um
tenta gritar mais alto, ser mais forte que o vizinho e
passar o tempo todo a fazer sujeira para ter melhor
nota que o outro. E os professores deveriam aprender
a ver o que acontece e a julgar com eqidade os
alunos.  E assim prossegui. Era um professor de
quem eu gostava muito; alis, foi por isso que fiquei
com raiva, eu sabia que valia a pena discutir com ele.
Estava realmente de saco cheio dessa escola. No
tnhamos nenhum contato, nenhuma relao pessoal
com os professores. E os laos entre os alunos eram
cada vez mais fracos, porque assistamos a diferentes
aulas. O objetivo era o de superar o vizinho. Ningum
dava uma mozinha, cada um queria ser o melhor. Os
professores massacravam os alunos; eles tinham o
poder, eram eles que davam as notas. E se, ao
contrrio, fosse encontrado um bom professor que no
soubesse se impor, eram os alunos que, em grupo,
testavam o seu poder sobre o dos professores.
Eu percebia tudo, mas isso no me impedia de
continuar a perturbar o curso cada vez que sentia
vontade. A maior parte dos meus colegas s me
compreendia nos momentos em que interrompia o
professor soltando uma bobagem qualquer. Mas eles
no sacavam quando eu falava seriamente, quando
tentava dizer que a escola era uma merda.
No fundo no me importava muito; porque o
importante para mim, dali para a frente, era ser
reconhecida pelos caras da minha turma. E nela, toda
essa merda, competio, stress, etc., no existia mais.
Mas, mesmo assim, eu acabava ficando cada vez mais
isolada, participando cada vez menos das discusses.
O papo era sempre o mesmo: a maconha, a
msica, a ltima "viagem", o preo da maconha, do
LSD e dos diversos comprimidos, que iam ficando
sempre mais caros. Sentia-me to deprimida que no
tinha mais vontade de falar e s queria ficar sozinha
no meu canto.
Entretanto, passei a ter um novo objetivo: o
Sound era uma discoteca. A cidade inteira estava
coberta de cartazes que diziam: SOUND, A DISCOTECA
MAIS MODERNA DA EUROPA. O pessoal da turma ia sempre
l, mas s era permitida a entrada a partir dos
dezesseis anos. E eu acabara de fazer treze. Falsifiquei
a data de nascimento na minha carteira de estudante,
mas mesmo assim tive medo de que no me
deixassem entrar.
Eu sabia que no Sound havia uma "cena" (Lugar
de encontro dos viciados e passadores. (N. do E.)). Ali
se vendia de tudo, desde a maconha at a herona,
includo o Mandrix e o Valium. Pensei que devia estar
lotado de caras realmente descontrados. Era um lugar
fabuloso para a menina que eu era, que de Berlim s
conhecia o trajeto entre Rudow e o conjunto Gropius.
O Sound, eu imaginava como um verdadeiro palcio,
brilhando por todos os lados, um louco efeito de
iluminao e uma msica genial. E sobretudo os caras,
o que de mais descontrado podia haver!
J tentara ir l com amigos vrias vezes, mas no
dera certo. A, eu e Kessi preparamos um golpe, como
um verdadeiro plano de guerra. Um sbado, disse a
minha me que iria dormir na casa de Kessi, que
contou  sua que iria dormir na minha. As duas
"engoliram" nossa histria. Uma amiga de Kessi,
chamada Peggy, era um pouco mais velha que eu e
devia vir com a gente. Ns nos encontramos em sua
casa e a esperamos por seu namorado, Micha. Kessi,
com um ar muito importante, contou-me que Micha se
picava, quer dizer, injetava herona. Fiquei fascinada,
louca para conhec-lo. Porque seria a primeira vez que
ia encontrar algum que usava droga pesada.
Micha chegou. Fiquei impressionada. Eu o achei
ainda mais descontrado que os caras do meu bando.
Mas, logo depois, meu complexo de inferioridade
comeou a agir, Micha nos tratava com muita
condescendncia. Pensei mais uma vez que tinha
apenas treze anos e que este junk (Indivduo que
utiliza drogas pesadas. (N. do E.)) estava muito longe
de mim, j era adulto. Senti-me diminuda.
Alis, Micha morreria alguns meses mais tarde.
Pegamos o metr e fomos at a
Kurfrstenstrasse. Naquela poca, achei o trajeto
bastante longo. Sentia-me muito longe da minha casa.
A Kurfrstenstrasse, no cruzamento com a
Potsdamerstrasse, pareceu-me um lugar deplorvel.
As meninas andavam pelas ruas  toa. Eu no sabia
ainda, naquela ocasio, que o que elas faziam era
trottoir. Observamos, tambm, que alguns caras
passavam pra l e pra c. Peggy ento me contou que
eram os passadores. Se naquela poca algum me
tivesse dito que eu tambm iria andar por ali, quase
todos os dias, certamente o chamaria de maluco.
Chegamos ao Sound. Quando l dentro, por pouco
no caio de costas. No tinha nenhuma relao com o
que eu imaginava. "A discoteca mais moderna da
Europa" era um poro, com o teto bem baixo, sujo e
barulhento. As pessoas, cada uma por si, pulavam na
pista de dana. Uma multido sem nenhum contato
entre si. Cheirava mal. O ventilador de vez em quando
misturava os cheiros...
Sentei-me em um banco e no ousei sair do
lugar. Tinha a impresso de que me olhavam, que
todo mundo via que no tinha nada para fazer ali.
Kessi imediatamente entrou na onda. Corria de um
lado para outro  procura de caras. Ela disse que
nunca vira tantos caras assim de uma s vez. Eu
estava petrificada. Os outros j se haviam abastecido
com comprimidos de no sei o qu e bebiam cerveja.
No quis tomar nada. Passei a noite toda diante de
dois copos de suco de frutas. Se eu me desse ouvidos,
voltaria para casa, mas eu no podia! Minha me
acreditava que eu dormia na casa de Kessi. Esperei
at as cinco horas, at a hora de fechar. Houve um
momento em que desejei que minha me tivesse
descoberto tudo e que viesse me buscar. Se eu pudesse
t-la de repente ao meu lado. . . E adormeci.
Os outros me acordaram s cinco horas. Kessi
disse que ia embora com Peggy. Sentia dor de barriga.
Ningum me ajudou. Sozinha, s cinco horas da
manh, eu subia a Kurfrstenstrasse at a estao do
metr. O metr estava cheio de bbados. Tive vontade
de vomitar.
Fazia muito tempo que eu no ficava to feliz, ao
abrir a porta do apartamento e ver minha me sair do
seu quarto.
Eu lhe disse que Kessi se levantara muito cedo e
que eu viera para casa para dormir at tarde, para
dormir numa boa. Levei meus dois gatos para minha
cama e me enfiei debaixo das cobertas. Um pouco
antes de dormir disse a mim mesma: "Christiane,
estas coisas no so para voc. Voc est no mau
caminho".
Acordei ao meio-dia ainda me sentindo mal.
Sentia necessidade de falar com algum sobre o que
acontecera comigo. Sabia que ningum da turma iria
me compreender. Achei que s podia falar sobre isso
com minha me.
Mas no sabia como comear. Disse-lhe: 
Escute, mame, ontem  noite fomos ao Sound. 
Minha me fez uma expresso de horror. Eu continuei:
 Afinal, no  to ruim. Essa discoteca  enorme.
Tem at um cinema.
Minha me recomeou com suas broncas de
sempre. Eu esperei que ela me interrogasse, mas ela
no perguntou nada. Estava cansada, como sempre,
naquela tarde de domingo: faxina, almoo, problemas
com seu companheiro. E no tinha vontade de ficar
mais nervosa ainda discutindo comigo. Talvez ela no
tivesse mesmo vontade de saber.
Eu no tive coragem de falar. Alis, eu nem sei se
sentia vontade de falar. Naquela poca eu no tinha
conscincia de nada. Eu vivia controlando meu humor,
no pensava no futuro, no tinha projetos. Que
projetos poderia eu ter tido? No falvamos nunca do
futuro.
No fim de semana seguinte, Kessi veio dormir em
minha casa como tinha sido combinado entre nossas
mes. Arrastei-a at em casa. Ela estava
completamente dopada. Eu tambm j havia tomado
alguma coisa, mas ainda me equilibrava. Kessi ficou
plantada no meio da rua, em xtase, vendo dois faris
indo para cima dela. Fui obrigada a pux-la at a
calada para que no fosse esmagada. Eu a empurrei
at meu quarto, mas minha me apareceu. Kessi e eu
tivemos a mesma alucinao: minha me era muito
gorda para entrar no quarto, e ficou presa no batente
da porta. Isso nos fez rir tanto que no conseguamos
mais parar. Vi minha me transformada em drago 
um enorme drago inofensivo com um osso bem
decorativo pregado no meio dos cabelos. Nos
dobrvamos de tanto rir e minha me sorriu
alegremente com a gente. Acho que ela pensou: "Eis
a duas adolescentes louquinhas!"
Da em diante, Kessi passou a me levar quase
todos os sbados ao Sound. No incio, eu a
acompanhava simplesmente porque, se no fosse, no
saberia o que fazer sbado  noite. E, pouco a pouco,
eu me habituei ao Sound. Contei  minha me que a
gente ia ao Sound. Ela me autorizou com uma
condio: que eu voltasse para casa no ltimo metr.
Ia correndo tudo bem at um sbado do vero de
1975. Tnhamos decidido passar a noite no Sound. A,
como sempre, dissemos que dormiramos uma na casa
da outra. Dava sempre certo essa histria, porque no
tnhamos telefone. As duas mes no nos podiam
controlar. Primeiro fomos ao Centro de Jovens, onde
esvaziamos duas garrafas de vinho. Depois
preparamos um daqueles cigarros de maconha. Kessi,
alm disso, ainda engolira uns comprimidos de
Efedrina, que s vezes provocavam crises de
conscincia.
Quando notei que Kessi tinha desaparecido,
pensei: "Merda, e agora?'' Ocorreu-me uma idia do
lugar onde ela poderia estar e fui direto para o metr.
Ela l estava! Dormia, deitada num banco. No cho,
perto de sua mo, um saquinho de batatas fritas.
Antes que eu conseguisse acord-la, chegou um
metr, e dele desceu a me de Kessi. Ela trabalhava
em uma sauna e voltava do trabalho s dez da noite.
Quando encontrou sua filha, que na verdade deveria
estar em minha casa, deu-lhe duas bofetadas, uma 
direita, outra  esquerda. Deu para escutar o estalo.
Kessi acordou vomitando. Sua me agarrou-a pelo
brao, como faz a polcia, e levou-a embora.
Esse par de bofetadas na estao de metr
provavelmente evitou muita coisa. Sem ele, Kessi
teria, sem dvida, e antes ainda que eu, aterrissado
na "cena" e na prostituio de crianas. E no estaria
em condies de fazer o exame para sua formatura.
Kessi ficou proibida de me ver e no mais podia
sair de noite. Durante certo tempo, eu me senti muito
s. A turma j no me oferecia grande coisa.
Continuvamos a nos encontrar no Centro de Jovens,
mas eu no podia suportar a idia de no ir ao Sound
aos sbados. Cada vez mais gostava dos caras
"quentes" que o freqentavam. Eles eram os meus
dolos. . . Eram mesmo muito mais sensacionais que
os carinhas da turma, que nunca punham o nariz pra
fora do conjunto Gropius. O nico problema era que eu
andava sempre "dura". Kessi recebia cem marcos de
mesada, dava para a maconha e para os comprimidos.
Dali em diante era preciso que eu descolasse a grana
sozinha, se preciso, at roubando. No tinha ningum
para me acompanhar ao Sound, ento ia sozinha. Na
sexta-feira seguinte ao par de bofetadas, fui 
farmcia comprar uma caixa de Efedrina (isso se
vende sem receita).
J no tomava dois comprimidos, mas quatro ou
cinco. Ia ao Centro de Jovens para pedir dinheiro para
um baseado e em seguida corria para o metr. No
pensava em Kessi. Alis, no pensava em nada. Vivia
num mundo estranho e fantstico, o dos maconheiros.
Em cada estao eu me divertia procurando entre
as pessoas que subiam aqueles que iam ao Sound.
Via-se logo: um jeito especial, cabelos longos, botas
com salto de dez centmetros. Meus dolos, os dolos
do Sound! J no tinha medo de ir sozinha. Na escada
esbarrei em um rapaz. Ele me olhou e murmurou
alguma coisa. Eu o achei terrivelmente descontrado.
Era alto, magro, com cabelos loiros, compridos, e um
ar extraordinariamente calmo. Ainda na escada
comeamos a conversar. Eu me sentia bem mesmo.
Ns nos entendamos, e cada frase nos aproximava
mais; gostvamos do mesmo tipo de msica, fazamos
o mesmo gnero de "viagem". Ele se chamava Atze.
Foi o primeiro rapaz que achei realmente sensacional.
Pensei ser amor  primeira vista. Pela primeira vez na
vida ficava gamada por um cara.
Atze me apresentou aos seus amigos. Uma turma
bem descontrada. Logo entrei na deles. Falava-se de
drogas e dos melhores mtodos para "voar". E sobre
isso eu j sabia tanto quanto eles. Falaram tambm da
herona. Estavam todos de acordo "que  uma sujeira,
que  melhor dar um tiro na cabea do que se meter
com herona". Dei minha opinio:   preciso ser
completamente dbil para se picar.  Depois falamos
de roupas: como ajustar os jeans. Sobre isso tambm
podia dar a minha opinio: emagrecia to depressa
que necessitava faz-lo quase a cada semana. Os
jeans super-justos eram, alis, uma espcie de marca
de fbrica para os freqentadores do Sound. Eu lhes
ofereci o nico trabalho de costura que sabia fazer:
ajustar calas.
No precisei batalhar para ser aceita pela turma.
Sentia-me to calma, com tanta confiana em mim,
que at me espantei.
Havia um outro rapaz que logo achei muito simptico.
Chamava-se Detlef. Era bastante diferente de Atze,
muito delicado, com um rosto muito meigo, bonito,
ainda com traos infantis. Tinha dezesseis anos. Era
com ele que conversava com mais liberdade. Detlef
tinha uma namorada muito engraada, Astrid. Ela
tinha classe. Dizia cada uma que a gente rolava de
tanto rir. Tinha sempre a palavra exata. Era o que eu
mais admirava nela.
Havia somente um cara, na turma, de quem era
preciso desconfiar: Blacky. Se falssemos qualquer
bobagem, ele dizia coisas que machucavam a gente.
Uma vez contei que, depois de fumar, brinquei no
metr com um beb que era um verdadeiro anjo;
Blacky, imediatamente, fez um comentrio estpido.
Era preciso prestar muita ateno para falar quando
ele estivesse por perto. Havia um outro rapaz de quem
eu no gostava: era um garanho. Depois de minha
aventura com Charly eu no suportava mais esse tipo
de cara, mas ele no ficava todo o tempo com a
turma. . .
Passamos a noite conversando, saindo de vez em
quando para puxar um fumo. Depois que o Sound
fechou, fomos ainda dar uma volta em
Kurfrstendamm. No metr, no caminho de volta, eu
estava invadida pela felicidade! Fui "aterrissando''
devagarinho, sentindo uma agradvel moleza, pois,
pela primeira vez na vida, estava apaixonada.
Dali em diante vivia esperando pelos fins de
semana.
Atze era terno, cheio de cuidados. Na terceira vez
em que nos encontramos no Sound, ele me beijou e
eu retribu seu beijo. Foi um beijo bem inocente, no
queria ir mais longe do que isso. Atze sentiu e
compreendeu, sem que fosse necessrio tocar no
assunto.  a grande diferena entre os drogados e os
alcolatras. A maioria dos drogados  sensvel aos
sentimentos dos outros, pelo menos quando se trata
de um dos membros da turma. Os alcolatras, quando
esto bbados, do porrada nas meninas. Sempre
querem trepar. Ns no, ns tnhamos uma outra idia
das coisas importantes.
Atze e eu ramos como irmos. Ele era o meu
irmo mais velho. Andvamos sempre de braos
dados, o que me dava a sensao de estar protegida.
Atze tinha dezesseis anos, era aprendiz de vidraceiro,
e seu trabalho era, para ele, uma verdadeira merda.
Ele tinha uma idia bem clara sobre aquilo que deve
ser uma moa "legal". Para lhe agradar mudei de
penteado e comprei numa loja de roupas usadas um
casaco (ele adorava casacos). Era um mxi, com uma
abertura que ia at a bunda. No imaginava mais a
vida sem Atze.
Tambm j no voltava para casa s cinco da
manh. Quando o Sound fechava, permanecia com a
turma. Aterrissvamos juntos e passvamos toda a
manh a badalar pela cidade. amos a exposies, ao
Zoo, ou ao Kurfrstendamm.
s vezes ficvamos juntos o domingo inteiro.
Contei  minha me a histria de Kessi, mas inventei
novas amigas na casa de quem ela acreditava que eu
dormia. Tive sempre uma enorme imaginao quando
se tratava de contar  minha me onde e como
passava os meus fins de semana.
Durante a semana continuava a me encontrar
com a antiga turma do Centro de Jovens, mas ficava
sempre de lado, com ares misteriosos. Algumas vezes
contava minhas aventuras no Sound. Eu acho que eles
me admiravam. Que eu j dera mais um passo para
dentro da merda total, ainda no sabia. E muito
menos ainda que, dentro de muito pouco tempo, a
maior parte deles tambm me seguiria.
No Sound havia todo tipo de drogas, e eu tomava
de tudo, menos herona: Valium, Efedrina,
"Mandrakes", etc. E ainda,  claro, fumava maconha
paca. Pelo menos duas vezes por semana, tirvamos o
maior barato. Engolamos estimulantes e barbitricos
aos montes: tudo isso devia provocar uma guerra no
organismo, e assim tnhamos sensaes incrveis.
Podia-se escolher o estado de esprito: bastava tomar
maior ou menor quantidade de estimulante ou de
tranqilizante. Quando queria fazer uma verdadeira
festa no Sound, quando queria mesmo desafogar,
carregava na Efedrina. Se queria ficar tranqila, assim
na minha, ou ver um filme no cinema do Sound, me
enchia de Valium e "Mandrake". Durante algumas
semanas fiquei nas nuvens, feliz. . . Mas isso durou
at aquele sbado horroroso. Estava chegando ao
Sound quando encontrei Uwe, um cara da turma, na
escada. Ele me disse: "Voc sabe que Atze deixou seu
trabalho?" Silncio. E disse ainda: "Agora ele vem aqui
todas as noites". Percebi que Uwe tinha uma maneira
esquisita, e saquei imediatamente: devia haver outra
menina na histria.
Perguntei: "O que est acontecendo?" E Uwe
respondeu: "Ele tem uma noiva, Moni".
Que choque! Ainda tinha uma esperana! Podia
no ser verdade. Desci at a discoteca. Atze l estava,
sozinho. Nada havia mudado, ele me beijou, e depois
foi guardar minhas coisas junto com as dele, na
portaria. No Sound era preciso sempre guardar bem as
coisas, seno nos roubavam. Moni chegou um pouco
mais tarde. Eu nunca tinha prestado muita ateno
nela. Sentou-se, naturalmente, com a gente, pois fazia
parte da turma. Fiquei um pouco de lado e a observla.
Ela era muito diferente de mim, baixinha, gordinha,
sempre sorrindo. Com Atze era assim, maternal...
Comecei a pensar: "No vai me chutar por causa
dessa gorda idiota". Mas fui obrigada a reconhecer que
ela tinha um rosto muito bonito e lindos cabelos loiros
e compridos. Falei comigo mesma: "Talvez ele tenha
necessidade de uma menina assim maternal e sempre
de bom humor". Uma outra suspeita: "Atze tem
necessidade de algum que queira dormir com ele.
Esta Moni...  bem seu gnero".
Estava bem lcida. Alis, nessa noite eu no havia
tomado nada. Quando no suportei mais v-los juntos,
fui para a pista de dana para aliviar o sufoco. Quando
voltei eles tinham desaparecido. Procurei-os por toda
parte correndo como uma louca. Encontrei-os no
cinema abraados... No sei como consegui ir procurar
os outros amigos da turma. Algum entendeu
imediatamente o que estava acontecendo comigo:
Detlef. Ele me abraou. Eu no queria chorar. Sempre
achei terrivelmente idiota chorar na frente do bando.
"Por que idiota?" No sei. . . Mas, quando senti que
no podia mais conter as lgrimas, corri para fora.
Atravessei a rua e fui me esconder no jardim em
frente ao Sound. Chorei como Madalena. De repente,
Detlef estava ao meu lado. Estava muito ocupada
comigo mesma para atinar com o significado de sua
presena. S mais tarde avaliei como foi bonito, da
parte dele, ter sado  minha procura. No queria mais
rever Atze, olh-lo, depois de ter chorado na frente de
todo mundo por causa dele. Mas Detlef me levou de
volta ao Sound. Precisava voltar de qualquer jeito,
pois era Atze quem guardava as minhas coisas. Voltei
a mim, e decidi ir at o cinema reencontr-lo. Mas no
tive coragem. Detlef, que no me largara, se
encarregou de faz-lo.
Eram quase duas horas. Havia perdido o ltimo
metr. Plantada na porta do Sound, no sabia para
onde ir. Morria de vontade de me drogar. Tinha
necessidade, mas no tinha um puto tosto. A passou
um cara do bando do Centro de Jovens, Pantera. Sabia
que Pantera vendia LSD e que tinha sempre boa
mercadoria. Pedi-lhe que me desse o suficiente para
uma "viagem". Ele me passou um comprimido de
excelente qualidade, sem mesmo me perguntar por
que eu tinha tanta necessidade numa hora daquelas.
Engoli a coisa e desci outra vez para danar.
Dancei durante pelo menos uma hora, me
descabelando como uma louca. Mas no senti nenhum
barato. Achei que Pantera havia me enrolado.
Felizmente naquela noite alguns do Centro de Jovens
estavam tambm no Sound. Falei com Piet da minha
histria com Atze. Ele tambm havia tomado LSD e,
naquele momento, pensava em outra coisa.
Contentou-se em me dizer:  Esquece isso, minha
filha, no esquenta  e outras frmulas do gnero.
Enquanto comia um pudim de baunilha, dizia comigo
mesma: "A gente est sempre s. A vida  uma
bosta". Fui levar o potinho do pudim para recuperar o
depsito  no Sound pagava-se depsito por qualquer
recipiente, para evitar roubo , e de repente  isso a,
 como um raio, eu ca levando comigo o banco.
Levantei e voltei a danar at a hora de fechar. L fora
encontrei o bando incluindo Atze e Moni. E nem me
toquei com isso. Atze levou Moni para sua casa. Ns
fomos em direo ao Zoo. Algum sugeriu ir ao
Europacenter, onde acabamos indo  pista de
patinao. A noite estava fresca, chovera e havia
muita gua em cima do gelo. Eu escorreguei nessa
gua imaginando andar sobre o mar. Escutei um barulho
de vidro quebrado: os meninos tinham atacado a
vidraa do caixa. Um deles passou pelo vidro
quebrado, abriu a gaveta e nos jogou pacotes de
moedas. Antes que me tivesse dado conta, todo
mundo comeou a correr. Os meus saltos altos me
atrapalharam. Ca simplesmente deitada sobre o gelo.
Fiquei toda molhada. Detlef me esperou e me deu a
mo. Quando chegamos diante do Caf Kranzler,
dividimos a grana. Cada um tinha direito a uma parte.
Achei genial. Ganhei dois pacotinhos de moedas de
cinco marcos. Todo mundo estava louco de alegria.
No tanto pelo dinheiro, mas porque driblramos os
dois guardas particulares que vigiavam o Europacenter
 noite. Havia muito tempo que eles estavam de olho
na gente. As moedinhas de dez Pfennige a gente no
dividiu. Jogamos todas pro ar. Caiu uma chuva de
moedas de dez Pfennige na frente do Caf Kranzler.
Fomos para a Estao Zoo, onde ainda havia um
boteco aberto. Tive m impresso. Era a primeira vez
que punha os ps na Estao Zoo. Era nojento ver
crianas deitadas no vmito, bbados por todos os
cantos. Eu no imaginava que dentro de alguns meses
tambm fosse passar todas as minhas tardes nesse
lugar.
L pelas seis horas decidi voltar para casa. J na
cama quase tive um freak out (Em ingls no original:
"alucinao". (N. do E.)), pela primeira vez na minha
vida. Na parede eu tinha um pster representando
uma negra fumando um baseado. No canto inferior
direito havia uma pequena mancha azul, que ia se
transformando numa ms cara deformada, num
verdadeiro Frankenstein. Consegui, com muito
esforo, j assim numa pior, concentrar meu
pensamento noutra coisa.
Acordei ao meio-dia, toda dura, insensvel, como
morta. Tudo no que conseguia pensar era: "Como
voc deve ser feia, para o seu primeiro namorado
larg-la assim to depressa". Fui ao espelho, e quando
me vi odiei-me. Ainda no dia anterior achava meu
rosto to legal, to misterioso, exatamente o rosto de
uma menina super descontrada. E agora estava com a
cara abatida, as olheiras negras fundas sob meus
olhos, estava cheia de espinhas. A pensei:
"Christiane, o Sound acabou. Voc no pode mais
aparecer para Atze e seu bando". Nos dias seguintes
me esforcei para matar em mim todos os sentimentos
pelos outros. No tomei mais comprimidos, nem LSD.
Fumava baseados o tempo todo e ainda tomava ch
com maconha o dia inteiro. Depois de alguns dias
estava legal outra vez. Conseguia no amar mais
ningum a no ser a mim mesma. Tive a impresso de
que dominava meus sentimentos. No queria mais
retornar ao Sound.
O sbado seguinte quele foi, talvez, o mais longo
de toda a minha existncia. Fiquei em casa. Era a
primeira noite de sbado que passava em casa havia
muito. No fui ao Sound. No conseguia assistir 
televiso, tampouco dormir. E no tinha droga
suficiente para me dopar. Percebi que j no sabia
mais viver sem o Sound e sem as pessoas que o
freqentavam. Sem elas minha vida tornara-se
completamente sem sentido.
Foi ento que comecei a ficar feliz s em pensar
na sexta-feira que se aproximava, sem me dar conta
de que, na realidade, o que eu queria mesmo era
retornar ao Sound. Passei a semana bolando
penteados diferentes, at que decidi no mais me
pentear. Achava que passando a andar descabelada
isso me daria um ar mais misterioso.
Na sexta, tudo recomeou. Engoli alguns
comprimidos de Valium com cerveja e ainda mandei
uns "Mandrakes" para dentro. Tudo isso antes de
retornar ao Sound. Cheguei  concluso de que assim
no temeria um reencontro com Atze, muito menos
com a turma. Agora nada mais fazia diferena. Peguei
emprestado um grande chapu jeans, sentei-me 
mesa, apoiei a cabea sob o chapu e cochilei durante
quase toda a noite.
Quando acordei Detlef havia levantado o chapu e
acariciava meus cabelos. Ele me perguntou o que eu
tinha.
Respondi:  Nada.  Mostrei-me distante, mas
achei lindo que ele se preocupasse assim comigo. No
fim de semana seguinte ficamos todo o tempo juntos.
Agora tinha um outro motivo para ir ao Sound: Detlef.
No era aquela paixo como foi com Atze. No princpio
s ficvamos juntos no Sound. Batamos longos papos.
Nos entendamos s mil maravilhas, mas era muito
diferente do que vivi com Atze. Nenhum de ns dois
era superior, nem procurava impor seu ponto de vista
ao outro. Com Detlef eu podia falar de tudo sem medo
que ele viesse a se utilizar das minhas fraquezas.
Alis, eu o achei simptico desde o nosso primeiro
encontro, mas no era um tipo como Atze. Detlef era
muito bonitinho, muito beb. Entretanto, percebi,
pouco a pouco, que minha amizade com ele me dava
muito mais tranqilidade do que minhas relaes com
Atze. Defendia-me, pois no queria nunca mais ficar
dependendo de um rapaz. Mas, a cada semana que
passava, amava-o mais. E um dia fui obrigada a
reconhecer que estava apaixonada pra valer.
Tornei-me mais calma. Isso deveu-se tambm ao
fato de no tomar, quase nunca, estimulantes, mas
cada vez mais tranqilizantes. Perdi toda a minha
vivacidade. J quase no danava. S ficava um pouco
agitada quando no conseguia Valium para tomar.
Em casa, as coisas tambm comeavam a
melhorar. O relacionamento com minha me e seu
companheiro tornara-se mais agradvel. No discutia
com eles, no lhes dava respostas malcriadas; enfim,
desistira de brigar. Havia chegado  concluso de que
nada iria mudar mesmo; ento, para que esquentar?
Com isso percebi que as coisas ficavam muito mais
fceis.
No Natal de 1975, com treze anos de idade,
pensei ter, graas  minha resignao, conseguido
estabelecer com minha me relaes suficientemente
descontradas para que ela pudesse engolir pelo
menos parte da verdade. Contei-lhe, ento, que nem
sempre dormia na casa de Kessi. E que, quando perdia
o ltimo metr, passava a noite toda no Sound.  claro
que sua reao foi muito violenta. Deu-me a maior
bronca, aos berros. E eu ento lhe disse que era
melhor passar a noite, de vez em quando, numa
discoteca e voltar em seguida numa boa para casa, do
que fugir de casa e andar por a, como tantas meninas
do conjunto Gropius. E tambm lhe disse que era
melhor ela saber onde eu estava do que escutar
muitas mentiras. Ela engoliu minha histria.
Na verdade, no tinha mais vontade de contar
minha vida para minha me, mas era um saco ter de
mentir o tempo todo e, alm disso, tinha cada vez
mais dificuldades para inventar histrias plausveis. Foi
exatamente por causa disso, por no ter encontrado
nenhum pretexto para passar o Natal e o Ano-Novo no
Sound, que parti para uma "confisso" a minha me.
Ela permitiu que eu sasse todas as noites no perodo
das festas de fim de ano. Fiquei at surpresa. 
verdade que lhe falei que o Sound era um lugar
bastante conveniente, que um adolescente no corria
nenhum perigo e, alm disso, que todos os meus
amigos estariam l, etc., etc., etc. Alm do mais, eu a
fiz compreender que seria bom para ela me deixar
desabafar uma vez por semana, porque assim ficava
mais tranqila em casa.
Entretanto, no Sound, a barra comeava a ficar
cada vez mais pesada. A herona chegou como uma
bomba. Tambm na nossa turma era comum o papo
sobre a H, s se falava nisso. No fundo, todos eram
contra, pois j haviam presenciado muita gente
destruda pela herona. Mas, pouco a pouco, cada um
ia experimentando a sua primeira picada, e a maioria
ficou na da H. A verdade  que a herona destruiu a
nossa turma. Aqueles que a utilizavam passaram,
imediatamente, para uma outra.
A mim, a herona inspirava um verdadeiro horror.
Quando se falava nessa coisa, eu me conscientizava
dos meus treze anos. Por outro lado, tinha cada vez
maior admirao pela turma que se picava. Eles
passaram a ser os "seres superiores" para mim. O pior
 que eles olhavam para ns, viciados em maconha e
tranqilizantes, com o maior desprezo. Haxixe, para
eles, era droga para bebs. Isso, de uma certa forma,
me deprimia, pois acreditava que jamais entraria na
"cena". No haveria, portanto, mais degraus a subir;
eu sabia perfeitamente bem que a herona era o fim, o
fundo do abismo, e tinha verdadeiro pavor dessa
droga.
Para mim dava no mesmo o bando se desfazer;
eu tinha Detlef. Entre ele e mim as coisas estavam
cada vez melhores. Um domingo, no incio de 1976,
levei-o a minha casa. Sabia que minha me e seu
companheiro estavam ausentes. Cozinhei para Detlef,
preparei-lhe um almoo de verdade. Sentamo-nos 
mesa e comemos nosso almoo dominical como um
verdadeiro casal. Eu achei isso um treco genial.
Depois disso s pensava em Detlef durante toda a
semana. Esperava impaciente pela sexta-feira e pelo
momento de rev-lo no Sound, para onde ia, toda
feliz, sem ter tomado nada. Certa vez, Detlef estava
com uma garota que era um lixo. Sentei-me ao lado
deles, mas Detlef mal me olhava. Estava ligado em
outra coisa. Durante um segundo pensei que tudo
fosse recomear: o mesmo que com Atze. Mas era
uma idiotice, seria o mximo ele me deixar por causa
daquela loura disforme.
Alis, eles no se falavam, apenas trocavam
algumas frases desencontradas, que me pareciam sem
nenhum sentido. A nica coisa que entendia  que se
tratava de herona. E, de repente, saquei: Detlef
queria herona ou ento era a garota que estava
tentando pass-la. Entrei em pnico. Gritei, gritei
mesmo, literalmente:  Merda, meu caro, voc est
completamente louco! Voc tem dezesseis anos! No
vai se picar!
Ele parecia no escutar. Continuei:  Engula o
suficiente para trs viagens de uma s vez, eu procuro
pra voc, mas no seja cretino, eu te suplico.  E eu
lhe supliquei pra valer. Ele nem por isso reagiu. E foi
ento que cometi um erro monumental. Depois pensei
muito nisso. Fiquei completamente descontrolada e
recomecei a gritar:  Se voc tomar H vai ser o fim
entre ns dois. Voc pode se mandar. No quero mais
te ver.  E a me levantei e fui danar.
Agi como uma idiota. No deveria nunca ter feito
esse escndalo. Deveria ter esperado, quando
estivssemos sozinhos, para falar com calma. Eu tinha
influncia sobre ele. E o pior foi t-lo deixado s,
porque ele j estava fora de si.
Duas ou trs horas mais tarde, algum me contou
que Detlef e Bernd, seu melhor amigo, tinham se
picado. Eles nem ao menos cheiraram primeiro, se
picaram diretamente.
Reencontrei Detlef no meio da noite. Ele me
sorriu, um sorriso que parecia vir de muito longe.
Parecia feliz. No sentia necessidade de falar comigo.
E eu no queria ir ao seu encontro. Foi ainda pior do
que na noite em que perdi Atze. Detlef partira, partira
para um mundo que no era o meu. Num golpe s,
por causa de um dedo de lquido numa seringa, no
havia mais nada em comum entre ns.
Continuei a freqentar o Sound. Detlef logo
arranjou uma outra namorada. Ela se chamava Angie,
era horrorosa e sem corao. Constatei que
simplesmente eles no tinham nenhum contato. Nunca
vi Detlef conversar com ela. Algumas vezes ele vinha
me ver, mas se comportava como um estranho. Em
geral, vinha somente quando precisava de cinco ou
dez marcos para pagar uma picada. Quando tinha, eu
lhe dava.
As manhs de domingo tornaram-se inspidas.
Completamente arrasada, arrastava-me at o metr e
pensava: "Tudo isso  mesmo uma grande merda".
Sentia-me totalmente perdida. No sabia por que ia ao
Sound, no sabia por que me drogava, no sabia o
que fazer da vida; enfim, eu no sabia de mais nada.
A maconha, tambm, j no me satisfazia mais.
Quando me afastava da droga, sentia-me cada vez
mais isolada, incapaz mesmo de me comunicar com
quem quer que fosse. Mas era preciso conversar com
algum, e, como no tinha mais Detlef, cada vez eu
tomava maior quantidade de comprimidos.
Num sbado, como tinha grana, fui longe demais.
Como estivesse com o moral completamente a zero,
engoli dois Captagon, trs Efedrina e alguns
comprimidos de cafena. Para ajudar a descer tudo
isso, mandei cerveja junto. Cheguei na "alta", mas
ainda no me sentia legal. Ento enfiei pela garganta
adentro Mandrix e uma boa quantidade de Valium.
No sei bem como consegui chegar a casa. Em
todo caso, sei que ca em qualquer ponto entre o
metr e o lugar onde moro. Vi uma escada na porta de
uma loja, me arrastei at l e ali me encolhi. Depois
de pouco tempo, consegui me levantar e andar de um
ponto de apoio ao outro. De um poste a uma rvore,
de uma rvore ao prximo poste e assim por diante. O
trajeto parecia interminvel, mas era preciso que eu
fosse at o fim. Do contrrio acabaria morrendo ali na
rua. O pior era a dor no peito. Tive a impresso de que
algum me enterrava um punhal no corao. Na manh
do dia seguinte, portanto segunda-feira, minha
me no conseguiu me acordar. E,  tarde, quando
voltou do trabalho, eu ainda estava deitada, imvel.
Vrias vezes ela me forou a tomar umas colheres de
mel. Foi s na tera-feira, depois do almoo, que
consegui me levantar. Disse  minha me que tinha
apanhado uma gripe e que estava com a presso
baixa. Na verdade isso acontecia sempre comigo. E
ainda expliquei que vrios alunos do colgio estavam
com o mesmo problema, talvez pela puberdade e pelo
crescimento rpido. Queria evitar a qualquer preo que
ela chamasse o mdico, pois temia que ele percebesse
o que acontecia comigo. Ela realmente no o chamou,
parecia sempre satisfeita com as minhas explicaes.
Estava de saco cheio desses comprimidos. No
tomei mais nada at o outro sbado. Sentia-me um
trapo.
Sbado, no Sound, decidi oferecer-me uma
"viagem". Foi um completo horror. Pela primeira vez
tive um verdadeiro freak out. A mscara de
Frankenstein, que saa do ponto azul, retornava.
Depois tive a impresso de estar perdendo todo o meu
sangue. Essa sensao durou horas. No podia mais
andar, nem falar. Cheguei sem saber como  sala de
cinema do Sound. Fiquei cinco horas numa poltrona,
sentindo que estava perdendo todo o sangue.
J no tinha nada: nem comprimidos nem LSD. E
fazia algum tempo que no tinha mais vontade de
fumar maconha. A no ser um Valium, me mantive
limpa durante quase trs semanas. Foi uma poca de
completa merda. Mudamo-nos para Kreuzberg, bem
perto do Muro. O bairro era feio, mas o aluguel ali era
mais barato. Levava meia hora de metr para chegar 
escola no conjunto Gropius. Em compensao, estava
bem perto do Sound.
O Sound sem droga era triste. No acontecia
absolutamente nada. Mas uma manh, quando ia
pegar o metr, vi que estavam colocando por todos os
lados posters lindamente pop. Podia-se ler: "David
Bowie vem a Berlim". Eu no podia crer: David Bowie
era o nosso super dolo, o mais legal de todos, sua
msica era a melhor. Todos os rapazes queriam ser
iguais a ele. E eis que David Bowie vinha a Berlim.
Minha me conseguiu, atravs do seu trabalho,
duas entradas grtis para o concerto. Foi engraado
como imediatamente eu soube a quem oferecer a
segunda: Frank. Por que ele? Naquela poca eu nem
pensei nessa questo. Frank fazia parte da velha
turma do Sound, e era o prprio David Bowie. Ele at
pintou os cabelos de ruivo. Talvez tenha sido por isso
que eu o escolhi.
Mas Frank foi tambm o primeiro a se picar. O
primeiro a ter dependncia fsica da H. Antes, ns o
chamvamos "Pintinho". A passamos a cham-lo de
"Macbeth" porque parecia um cadver ambulante.
Como quase todos os rapazes da turma, ele tinha uns
dezesseis anos, mas era extraordinariamente
perspicaz para a sua idade. Frank estava acima de
tudo, por isso no precisava nunca mostrar ares
superiores, mesmo que fosse com uma menina maconheira
como eu.
Portanto, escolhi para me acompanhar ao show
de David Bowie, uma noite que considerava um dos
grandes acontecimentos da minha vida, justamente
um toxicmano, um tipo drogado at os ossos. Na
verdade, eu no avaliava bem a importncia disso
quando propus to espontaneamente essa entrada a
Frank. Vivia mudando inconscientemente. Acho que,
sem perceber, mudei minha atitude em relao  H no
decorrer dessas semanas, quando os comprimidos, a
maconha e o LSD no me traziam mais nada. Em todo
caso, as barreiras que me separavam dos
toxicmanos, aparentemente, haviam sido destrudas.
No dia do concerto marquei um encontro com
Frank na Hermannplatz. Nunca tinha reparado como
era comprido e magro. Ele me explicou que no
pesava mais do que sessenta e trs quilos. Acabara de
se pesar no Centro de Transfuso de Sangue. Frank
ganhava parte do dinheiro de que necessitava para
comprar droga vendendo seu sangue. E eles
compravam, apesar de ele ter uma aparncia
macabra, de seus braos estarem crivados de picadas:
 que os toxicmanos freqentemente tm ictercia.
Quando j estvamos no metr, lembrei-me de
que havia esquecido meu Valium. Disse a Frank: 
Droga! Tinha que t-lo trazido, para alguma
eventualidade durante o concerto...  Na verdade, eu
j havia engolido uma boa quantidade de Valium em
casa. No para ficar dopada, mas o suficiente para
curtir o show numa boa.
Frank ficou alucinado com o que lhe disse e queria
de todas as formas que retornssemos.
Perguntei-lhe:  Por qu? Voc tambm  viciado
no Valium?  Mas ele no parava de repetir que
queria ir buscar. Olhei-o com mais ateno, e ento,
entendi. Suas mos tremiam, ele estava cold turkey.
"Turkey"  uma palavra inglesa que significa peru.
Quando o peru fica nervoso ele bate as asas. Por isso
usa-se o termo "peru gelado" para designar as
manifestaes de crise de privao nos viciados
quando o efeito de uma picada se dissipa.
Expliquei a Frank que no podamos voltar para
casa porque chegaramos atrasados ao concerto. Ele
disse que no tinha droga, nem dinheiro, que por
causa do show no tivera tempo de se reabastecer.
Seria uma merda ficar em crise durante o show de
David Bowie sem ter, pelo menos, Valium. Frank,
quela altura, j no me parecia mais to superior. Eu
j tinha visto uns e outros em crise de privao, mas
nunca tinha presenciado tudo isso to de perto.
No local do show, a Deutschlandhalle, o clima era
genial. O pblico, gente bem descontrada, era
composto de apaixonados por Bowie. Ao nosso lado,
soldados americanos fumavam um cachimbo de
maconha. Bastou a gente dar uma olhada e eles nos
emprestaram. Frank tragava como um louco. Isso no
impedia que ele ficasse cada vez pior.
Quando David Bowie comeou, foi sensacional.
Exatamente do jeito que imaginei. Fantstico. Mas nos
primeiros acordes de It is too late me inquietei. A
fiquei, de repente, na pior. J nas ltimas semanas 
sem saber como, nem por qu  esta msica me dava
uma imensa tristeza. Acho que ela descrevia
exatamente a minha situao. Bem que eu estava
precisando de Valium...
No fim do concerto, Frank mal se mantinha em
p. Ele estava completamente cold turkey.
Encontramos Bernd, o amigo de Detlef. Ele prprio,
antes do concerto, havia se picado, e nos disse que
precisvamos fazer alguma coisa por Frank. Ele
tambm curtiria outra picada.
Bernd possua, ainda, duas "viagens".
Conseguimos vend-las rapidamente por doze marcos.
O que faltava eu deveria esmolar. Eu era mestra nisso.
No Sound, grande parte do dinheiro que precisava
para a droga, esmolava-o. E agora precisvamos, no
mnimo, de vinte marcos. Por menos do que isso no
dava para se comprar nada na "cena". Na frente da
Deutschlandhalle foi faclimo. Entre as pessoas que
saam do show muitas tinham dinheiro e ainda no
estavam cheias de serem perturbadas pelos viciados.
Eu lhes dirigia o meu bl-bl-bl habitual:  No
tenho dinheiro para o metr.  E as moedas caam
cada vez mais no meu saco de plstico. Em pouco
tempo consegui o suficiente para duas picadas, pois na
poca ainda era relativamente barato. Bernd foi
compr-las.
De repente, ocorreu-me um pensamento: "Voc
que recolheu o dinheiro deveria pelo menos provar.
Ver se esse negcio  realmente to bom a ponto de
os viciados terem s vezes um ar to feliz depois da
picada". No pensava em mais nada alm disso. No
percebia que nesses ltimos meses eu me preparava,
inconscientemente, para passar  herona. No
percebi, naquele momento, que estava deprimida. Que
a msica It is too late tinha me abalado. Como as
outras drogas no me satisfaziam mais, a
conseqncia inevitvel era a H. Eu s pensava que
no tinha vontade de ver Frank e Bernd se mandarem
numa boa e eu ficar sozinha na pior. Eu lhes disse que
tambm queria provar. Frank no tinha foras nem
para falar, mas ficou furioso. Ele disse:  Voc no vai
fazer isso. Voc no tem nenhuma idia do que seja
isso. Se o fizer, em pouco tempo vai ficar como eu
estou agora. Voc vai ficar Macbeth.  Ele sabia muito
bem que o apelidramos de Macbeth.
Portanto, eu no tinha nada da menininha
pervertida por um drogado ou por um revendedor
sacana.  o gnero de histria que a gente l nos
jornais, mas eu no conheo ningum que se
enquadre nela, ningum "drogado apesar de no
querer". A maioria dos jovens passam sozinhos para a
herona quando esto maduros para isso. E eu estava.
. .
A bronca escandalosa de Frank s reforou minha
deciso. Ele estava em plena crise de privao, no
era mais o cara legal e superior. Era uma pobre
criatura que tinha necessidade de mim, e eu no ia
aceitar, portanto, que me desse ordens. Ento lhe
respondi:  Em primeiro lugar, esta droga  minha,
quer dizer, quase toda. Fui eu que recolhi o dinheiro.
Em segundo lugar, pare de dizer besteiras: eu no vou
ficar como voc, sei me controlar. Vou s experimentar
para ver como , depois no toco mais nela.
No sabia at que ponto a crise de privao
deixava as pessoas enfraquecidas. Frank parecia muito
impressionado pelo meu discurso, no abriu mais a
boca. Bernd balbuciou ainda alguma coisa, mas nem
ouvi. Disse-lhes bem claro que se eles no me
deixassem experimentar, o que teriam a fazer era me
dar o que me pertencia. Fomos nos esconder na
entrada de um prdio, e Bernd dividiu a H em trs
partes iguais. A, nesse momento, tive uma vontade
terrvel dessa "coisa". Sem nenhuma hesitao, sem
m conscincia, s tive uma idia: experimentar
imediatamente para me libertar de uma vez por todas.
J fazia um bom tempo que isso no acontecia
comigo, mas tive medo da picada. Disse: "Eu no vou
me picar, vou cheirar". Bernd explicou o que era
preciso fazer, mas nem foi preciso, de tanto ouvir falar
eu j sabia de cor.
Peguei minha dose e usei! Era amargo e irritante.
No incio foi tudo o que senti. Procurei no vomitar. E
depois a coisa comeou bem depressa. Sentia os
membros pesados e ao mesmo tempo terrivelmente
leves. Fiquei muito cansada, e foi aquele prazer. Todos
os meus problemas desapareceram. It is too late no
significava mais nada. Nunca me sentira to bem.
Estvamos no dia 18 de abril de 1976, faltava um ms
para os meus catorze anos. Nunca esquecerei essa
data.
Frank e Bernd foram se picar no carro de um
drogado. Eu cheguei antes deles ao Sound; j no era
problema estar sozinha. Ao contrrio, achava isso
bem legal. Sentia-me forte. Sentei-me num
banquinho. Astrid, que na poca era minha melhor
amiga, chegou, me olhou e disse gritando:
 Dig, voc tomou H?  Que pergunta idiota!
Explodi:
 Desaparea! Ande logo, de-sa-pa-re-a!  No
sei por que fiquei assim, nesse estado de fria. Frank
e Bernd chegaram. Frank voltou a ser o cara super
legal. Detlef no estava no Sound. Tinha sede, fui
buscar um suco de frutas, s bebia isso durante a
noite. O lcool me era insuportvel.
s cinco horas da manh Bernd props uma ida a
sua casa para um ch. Fomos. Agarrei o brao de
Frank, toda feliz. O suco de frutas revirava
terrivelmente na minha barriga, tive vontade de
vomitar. Vomitei enquanto caminhava, mas no liguei,
nada me importava. E os outros? Eles pareciam nem
perceber.
Tive a impresso de ter encontrado uma nova
famlia, assim, a mais bonita possvel. No disse uma
palavra. Senti que com esses dois amigos poderia
conversar, falar de tudo. A herona nos transformara
em irmos. ramos iguais, poderia lhes contar os
meus pensamentos mais secretos. Depois daquelas
semanas de desespero, achei que jamais fora to feliz.
Dormi com Bernd na sua cama. Ele no me tocou.
ramos irmo e irm, irmo e irm na herona. Frank
dormiu no cho, a cabea encostada na poltrona. Ficou
assim at as duas da tarde, depois se levantou. Estava
em nova crise de privao.
Tive coceiras no corpo todo. Fiquei nua e me cocei
com a escova de cabelos. Cocei at sangrar,
principalmente as pernas. Isso no era surpresa para
mim. Eu sabia que os toxicmanos se coam. Era por
a que eu os reconhecia no Sound. As pernas de Frank
estavam em carne viva, nem um pedacinho de pele
s. Ele no usava a escova de cabelo, usava seu
canivete.
Antes de sair ele me disse:  O que voc me deu
eu devolvo amanh.  Portanto, era evidente para ele
que eu me tornara uma viciada. Eu entendi sua
indireta e respondi na maior calma:  No, deixe.
Daqui a um ms estar bem.
Tornei a dormir calma e feliz. Voltei para casa 
noite. De vez em quando um pensamento aflorava:
"Merda, voc s tem treze anos e j est nessa de H".
Mas cortava-o imediatamente, sentia-me muito bem
para pensar nisso. No incio nunca h crise de
privao. Fiquei muito legal durante toda a semana.
Em casa, nem uma discusso. Na escola levava tudo
com muita calma, estudava um pouco e conseguia
boas notas. Nas semanas seguintes at a minha mdia
aumentou. Senti que me reconciliava com a vida, com
as pessoas, com as coisas.
Durante a semana fui ao Centro de Jovens.
Quatro amigos tambm haviam passado ao uso da H,
como eu. Sentia-me do lado deles, ramos cinco,
agora, a nos afastar rapidamente dos outros. Era cada
vez maior o nmero de viciados no Centro de Jovens.
A herona caiu como uma bomba em cima do conjunto
Gropius.
Jrgen Quandt, pastor responsvel pelo
centro scio-cultural Centro de Jovens
O Centro de Jovens foi, durante anos, o principal
ponto de encontro dos jovens do conjunto Gropius e
do quarteiro Neuklln. Recebia toda noite perto de
quinhentos adolescentes, at o ms de dezembro de
1976, quando o fechamos. O consumo de herona fazia
estragos, e ns espervamos que o fechamento do
Centro chamasse a ateno dos servios pblicos
sobre essa situao catastrfica.
Ns, os educadores, fomos surpreendidos pela
rapidez com que o uso de drogas pesadas se expandiu
no conjunto Gropius. Na poca do movimento
estudantil, discutimos muito sobre drogas leves, sobre
seu papel limitativo na tomada de conscincia do meio
ambiente. Mas eis que, em alguns meses, trinta ou
quarenta jovens do nosso Centro se meteram com
drogas pesadas. A coisa aconteceu como se as nossas
tentativas de alerta, nosso esforo para persuadir os
jovens do perigo, argumentando no lugar de recorrer a
medidas disciplinares, tivessem sido vistos como um
convite a ir mais longe e como o reconhecimento da
nossa impotncia na luta contra a droga.
Nosso trabalho no Centro de Jovens nos levou
rapidamente a constatar, mesmo que as autoridades
se neguem a admitir, que a epidemia de drogas no
est regredindo. Ao contrrio, o problema atinge,
quantitativa e qualitativamente, dimenses
comparveis quelas dos Estados Unidos. Os mais
ameaados hoje em dia so os jovens trabalhadores
sem formao e os jovens desempregados. Ns, os
educadores, a nica coisa que podemos fazer 
protestar contra a poltica de avestruz das
autoridades. O fechamento do Centro ps s claras
aquilo que muitos teriam preferido deixar nas
sombras. Efetivamente, os servios pblicos de Berlim
tomaram conscincia do problema da droga e
comeam a se ocupar mais ativamente.
Reabrimos aps termos obtido certas concesses:
eram as condies impostas para a reabertura. Um
consultrio especializado subvencionado pelo governo
foi criado em Neuklln e, no conjunto Gropius, um
centro preventivo. Estamos mais bem equipados em
termos de terapia. Mas, dois anos mais tarde, os
problemas da droga no perderam a intensidade,
mesmo considerando que agora lidamos com uma
nova gerao de adolescentes. Entre aqueles que
passaram  herona h dois anos, muitos j esto
mortos.
As condies de vida dos jovens do conjunto
residencial Gropius no melhoraram. Novos problemas
se somaram aos velhos.  cada vez mais comum os
jovens estarem armados e no hesitarem, em caso de
necessidade, em usar as armas. Constata-se tambm,
freqentemente, um nacionalismo agressivo
acompanhado de uma propenso a se deixar
influenciar pelo pensamento fascista.
A maioria dos jovens com quem trabalhamos no
Centro pertence a famlias de trabalhadores. Apesar da
melhoria aparente do nvel de vida, suas condies de
vida no cessaram de se deteriorar: a escola os
conduz a um stress cada vez maior, uma competio
cada vez mais dura, em salas de aula cada vez mais
superlotadas. Fora da escola, eles conhecem o
desemprego e os conflitos familiares.
H uma circunstncia agravante: nos grandes
conjuntos residenciais, como no Gropius, onde
habitam quarenta e cinco mil pessoas, todos os
problemas se colocam em termos de massa (massa de
jovens, desempregados, fracasso escolar ou conflito
familiar). Alm disso, o meio ambiente "natural" no
comporta mais nada de natureza e no oferece,
portanto, as mnimas possibilidades de lazer e
distrao. Os mais fracos, crianas, adolescentes e
velhos, ficam mais expostos, sofrendo mais com esse
estado de coisas. No conjunto residencial Gropius,
uma vez terminados os trabalhos de construo, o que
significa que todo o espao possvel de construo foi
utilizado, faltam campo de jogos para crianas,
instalaes para o lazer. No h parques, nem
gramados, nem bosques: nenhum lugar onde as
crianas possam ficar em liberdade e os adultos,
passear.
Esses conjuntos so construdos unicamente em
funo da rentabilidade do capital e no das
necessidades dos seres humanos. Assim, foi imposto
aos habitantes daqui um modo de vida cujas supostas
conseqncias tornam-se cada vez mais evidentes.
As dificuldades materiais esto sempre na origem
de muitos conflitos e problemas. Os altos aluguis, os
preos dos produtos de primeira necessidade, obrigam
homens e mulheres a investir sempre mais energia e
foras vitais no trabalho cotidiano. E nem por isso so
mais felizes ou ficam mais ricos.
A droga , desde sempre, um dos mais terrveis
meios utilizados para impedir os homens de tomarem
conscincia de que so vtimas da evoluo da
sociedade. Esta  exatamente a funo exercida, h
muito tempo, pelo lcool nas classes trabalhadoras.
Nos ltimos decnios outras drogas apareceram:
os psicotrpicos, cujo comrcio  legal e um dos mais
rendosos, e os produtos ilegais, como a herona e a
cocana. Com efeito, o mais espantoso no  o nmero
de toxicmanos, mas o nmero daqueles que, apesar
das enormes dificuldades, recorrem  droga. E isso 
vlido talvez sobretudo para os jovens. A sua situao
 tal que o aumento da toxicomania, da delinqncia,
da violncia, e a propagao das idias fascistides
entre os trabalhadores no tem nada de surpreendente.
***
No primeiro fim de semana aps ter tomado
herona, encontrei Detlef no Sound. Ele caiu em cima
de mim:  Voc faz cada uma! Voc pirou de vez. 
Astrid tinha lhe contado.
Respondi:  Acalme-se, meu velho. Voc 
dependente, mas eu no cairei nessa.
Detlef no conseguia replicar. Ele no estava
legal, estava de bode. Ele ainda no chegara ao
estgio de dependncia fsica, mas tinha grande
necessidade de uma picada. Acabou confessando que
gostaria de comprar um pouco de droga, mas no
tinha dinheiro.
Eu disse:  Est vendo, meu caro, proponho que
a gente saia pedindo dinheiro juntos.  Ele concordou,
apesar de saber o que eu seria obrigada a fazer. Em
vinte minutos juntava vinte marcos. Detlef conseguiu
um pouco menos, mas era o suficiente para ns dois,
pois ainda tnhamos necessidade de pequenas doses
para nos baratinar. No nos preocupamos com a
diviso, ela se fez naturalmente. Nessa tarde Detlef se
picou e eu aspirei. L se foi minha bela resoluo de
no tocar em herona antes de um ms.
Detlef e eu estvamos juntos novamente. Como
se nunca tivssemos nos separado e como se estas
semanas em que nos cruzamos no Sound, como dois
estranhos, no tivessem existido. Nem ele nem eu
falvamos disso. O mundo voltou a ser to belo como
naquele domingo em que cozinhei para ele e
almoamos juntos.
No fundo, estava feliz que as coisas tivessem
tomado esse caminho. Se eu no tivesse
experimentado herona, no teria reencontrado Detlef.
Achava que seria uma "viciada de fim de semana".
A gente sempre pensa assim quando comea,
mas nunca vimos algum que conseguisse cumprir
essa inteno. Ainda ;maginava que pudesse salvar
Detlef, impedi-lo de se tornar um verdadeiro drogado.
Mas eu me satisfazia com essas iluses.
Iluses que o meu inconsciente no aprovava.
No queria ouvir falar de herona e, se algum
tentasse faz-lo, ficava furiosa e aos gritos dizia: 
Cai fora.  Exatamente como quando dei minha
primeira cheiradinha e Astrid quis me fazer perguntas.
Comecei a odiar todas as meninas de minha idade que
me pareciam estar na mesma que eu. Sentia o cheiro
delas tanto no metr quanto no Sound: eram garotas
de doze, treze anos, que usavam maconha e comprimidos
e tentavam se vestir como meninas liberadas.
Pensava: "Esta coisinha vai acabar se picando".
Normalmente no sou chata, mas estas meninas me
deixavam realmente agressiva. Eu as odiava. Na poca
no percebi que odiava a mim mesma.
Depois de ter aspirado alguns fins de semana
seguidos, parei de fato durante quinze dias. No sentia
absolutamente nada, imaginava eu. Fisicamente me
sentia como antes. Mas no resto a merda voltou.
Estava novamente na fossa. No gostava de nada,
recomecei minhas brigas com minha me. Isso
aconteceu pouco antes das frias da Pscoa de 1976.
No primeiro sbado daquelas frias estava no
Sound, sentada num banco ao lado da escada. Uma
vez mais eu me perguntava o que estava fazendo ali.
Duas meninas desciam pela escada. Elas tinham uns
doze anos, mas com o suti e a maquilagem tentavam
aparentar uns dezesseis. Eu tambm dizia a todo
mundo, exceto aos meus amigos ntimos, que tinha
dezesseis anos, e tambm me maquilava para parecer
mais velha. Antipatizei imediatamente com essas duas
garotas, mas, ao mesmo tempo, elas me despertaram
interesse. E no tirava os olhos de cima delas.
Percebi imediatamente que elas procuravam
estabelecer contato, tentavam ser aceitas numa
turma. E a turma de maior prestgio era, para elas, o
bando H, pensei. Elas conheciam Richie, o leo-dechcara
do Sound, o nico empregado mais velho,
tinha uns quarenta anos. Ele era vidrado em
menininhas da nossa idade. As duas conversaram com
Richie. Perceberam que eu as observava, e olhavam o
tempo todo para mim. Olhavam porque eu era da
mesma idade delas. Uma delas se aproximou, tinha
uma verdadeira cara de anjo que respirava inocncia.
Ela se apresentou:  Babsi , e me perguntou se
podia oferecer-lhe uma "viagem".
 Uma droga? O que voc vai fazer com isso?
Deixe pra l, esses troos so terrveis.  Saboreei
minha superioridade. Era preciso que ela aprendesse a
no se dirigir com essa desenvoltura a algum que j
experimentara herona. Ela devia me achar to
impressionante e to tranqila quanto eu achava, h
alguns meses, os caras que estavam mais adiantados
que eu, no caminho da droga. Babsi queria me pagar
um suco de frutas. Foi busc-lo e disse que voltaria
em seguida.
Nem bem ela tinha sado, a outra se aproximou.
Chamava-se Stella. Queria saber o que Babsi queria
de mim. Respondi:  Uma "viagem".
 Ela lhe deu dinheiro? Faltam-me cinco marcos
e estou segura de que esta menina os pegou.  Isso
era tpico de Stella. Passaria a ouvir coisas do gnero
repetidas vezes. Babsi e Stella passariam a ser as
minhas melhores amigas. At o dia em que Babsi seria
manchete nos jornais: "Morreu de overdose, a mais
jovem vtima da herona conhecida at ento em
Berlim".
Babsi voltou com o suco de frutas. Ela me
perturbava, mas eu gostava dela, com seu ar de anjo
e suas maneiras inocentes. Conversamos. Babsi e
Stella foram expulsas da escola porque matavam
muitas aulas. Elas cabulavam porque tinham entrado
para uma turma onde se cheirava como louco. Agora
tinham acabado de sair de casa e procuravam novas
experincias. Babsi tinha doze anos e Stella, treze.
Convidei Babsi para ir a minha casa na manh
seguinte. Como ela no tinha nada para vestir, eu lhe
dei duas camisetas e uma calcinha. Ela tirou uma
soneca na minha cama enquanto eu preparava algo
pra comer. Achei-a at simptica. No dia seguinte,
criava um lao de amizade tambm com Stella. H
bem pouco tempo, eu era como essas duas meninas.
Sentia-me bem melhor na companhia delas do que na
dos drogados. Elas fumavam erva e tomavam LSD, e
isso as diferenciava um pouco das pessoas que s
pensavam em herona e s falavam disso. Eu me
contentava com minha cheiradinha de todos os
sbados. Os outros me gozavam por andar com
crianas, mas no dava bola.
Ns trs tnhamos muita coisa para conversar.
Tnhamos a mesma espcie de problemas em casa. O
pai de Babsi se suicidara quando ela era ainda uma
criancinha. Sua me era modelo, depois de ter sido
danarina. Seu padrasto era um grande pianista.
Mundialmente conhecido, explicava ela. Ela tinha um
grande orgulho disso. No se continha de alegria
quando amos a uma loja de discos e via vrios deles
com o nome e a foto de seu padrasto na capa. Mas
esse grande artista parecia no cuidar nem um pouco
dela. Babsi vivia na casa de seus avs, que a haviam
adotado. Eles lhe davam uma vida de princesa. Depois
fui  casa dela: vi seu quarto fantstico, com mveis
estupendos. Ela tinha um toca-discos ltimo modelo e
discos aos montes. Roupas  vontade, quantas
quisesse. Mas no se entendia com sua av, que era
uma verdadeira megera. Ela bem que gostaria de
voltar  casa da me. Foi por isso que fugiu de seu
quarto maravilhoso, estava de saco cheio!
A me de Stella tambm era muito bonita. Stella
gostava muito dela, mas tinha pouco tempo para
cuidar de sua filha. Bebia porque tinha muitas
dificuldades para se virar sozinha. O pai de Stella
morrera havia trs anos, em um incndio. Isso
aconteceu quando Stella tinha dez anos. Stella tinha
uma verdadeira paixo: Muhammad Ali. Ela admirava
sua fora. Eu achava que, em suas fantasias, ele era
para ela, ao mesmo tempo, pai e amante.
Ns trs estvamos no mesmo barco. Sabia desde
a primeira noite que essas duas meninas terminariam
se picando, o que no me impediu de ficar
sinceramente chocada no dia em que Stella me
solicitou herona. Tive uma vez mais uma exploso e
comecei a lhe dar broncas:  No toque nesta merda!
Ningum vai te dar. Eu tambm vou parar. Isso no
leva a nada.
Pedi aos outros para no darem herona a Stella.
Mas alguns dias mais tarde ela acabou convencendo
Blacky, um cara da turma do Sound que se tornou sua
transa. Ela comeou a cheirar, e  claro que Babsi a
imitou.
Mas elas seriam logo obrigadas a parar: foram
apanhadas numa batida e entregues s suas famlias.
No as vi durante vrias semanas.
Com a chegada da primavera, os dias eram cada
vez mais agradveis. Estava sempre feliz nos
primeiros belos dias do ano. Isso desde a minha
infncia. Andar descala, tirar a roupa, brincar na
gua, ver o jardim florir. Mas nessa primavera de
1976 esperei, em vo, meu habitual sentimento de
felicidade. Pensei:  impossvel que a vida no se
transforme em uma coisa mais bela quando o sol se
torna cada vez mais quente. Mas carregava o tempo
todo um monte de problemas sem mesmo saber quais
eram. Quando cheirava, os problemas desapareciam,
mas havia muito tempo que isso no me satisfazia por
uma semana.
No ms de maio festejei meu aniversrio. Minha
me me deu um beijo e uma nota de cinqenta
marcos. Este dinheiro ela tirou das economias da casa.
Ela disse que devia comprar algo que me desse
verdadeiramente prazer.
 noite fui  Kurfrstenstrasse e comprei
quarenta marcos de herona. Nunca tivera tanto de
uma s vez. Depois comprei seis marcos de cigarro
(tornei-me uma fumante inveterada, capaz de acabar
com um mao em duas ou trs horas). Sobraram-me
quatro marcos para o Sound.
No Sound encontrei Detlef, que me beijou
carinhosamente e me desejou feliz aniversrio. Dei-lhe
tambm parabns, pois seu aniversrio fora dois dias
antes do meu. Ele estava um pouco triste porque seus
pais no lhe haviam desejado feliz aniversrio.
Somente sua av. Com toda a certeza ele era mais
infeliz que eu. Tentei consol-lo:  No ligue no,
meu caro.  Mas tinha um presente genial para ele:
algo para se drogar. Tinha herona suficiente para uma
baratinada monstro a dois.
Aps nossa pequena festa de aniversrio (uma
enorme cheirada para mim e uma boa picada para
Detlef), estvamos verdadeiramente juntos. At ento
Detlef passava muito tempo com seus amigos, e eu
com Babsi e Stella. Dali para a frente, nos
encontrvamos sempre que tnhamos um tempinho
livre. Detlef quase nunca estava ocupado e tinha acabado
de deixar seu trabalho de aprendiz de encanador.
Quando tnhamos dinheiro suficiente, nos
baratinvamos.
Chegaram as frias de vero.
No primeiro dia de frias fomos  praia do lago
Wann com alguns amigos. Uma vez mais estvamos
completamente duros. Aprendi rapidamente como
encontrar mercadorias que poderiam ser
transformadas em grana. Instalamo-nos no bosque, o
canto preferido pelos velhos, pois eles no suportavam
muito o sol.
No incio nos contentvamos com coisas para
satisfazer nossas necessidades imediatas:
observvamos as pessoas que iam se banhar,
deixando um cobertor ou uma geladeirinha sem
vigilncia. Eu me aproximava e falava alto:  Minha
av no est!  Pegava algumas latas de Coca na
geladeirinha. Na outra vez, pegava uma toalha e uma
esteira de praia.  tardinha j havamos juntado
alguns utenslios e um transistor. Detlef roubou um
relgio.
Pelo transistor consegui cinqenta marcos, no
Sound. Que jornada! Excitada, disse a Detlef:  Puxa
vida, estou cansada de cheirar, vou  me picar.
Detlef protestou sem muita convico. Cheirar ou
se picar no fazia grande diferena. A nica diferena
era que enquanto cheirvamos, no ramos
considerados verdadeiros viciados.
Na Kurfrstenstrasse, nosso vendedor habitual
nos reconheceu de longe. Ele foi a uma rua mais
distante, at um canto tranqilo. Comprei quarenta
marcos. Estava decidida a tomar minha primeira
picada. Quando apenas cheiramos, partimos
lentamente; mas quando nos picamos, a partida 
como um foguete. J ouvira algum da turma comparar
essa diferena com um orgasmo, e eu tambm
queria prov-la. Sem parar para pensar que mais me
atolaria na merda, decidi experimentar.
Fomos a um banheiro pblico do lado da
Potsdamerstrasse. Um lugar imundo. Em frente ao
banheiro encontram-se montes de mendigos. Os
bbados costumam dormir ali. Distribumos um mao
de cigarro. Eles j sabiam e nos observavam.
Uma menina do Sound, Tina, nos acompanhou.
Detlef tirou seus objetos de um saco plstico: seringa,
colher, limo. Ps a herona na colher, juntou um
pouco de gua e de suco de limo. Assim, a coisa, que
no era completamente pura, dissolvia melhor. Ele
esquentou a herona com um isqueiro e encheu a
seringa. Era uma velha seringa descartvel. Uma
sujeira repugnante com uma agulha completamente
rombuda. Detlef se picou primeiro e depois foi a vez
de Tina. Depois a agulha ficou completamente
entupida, inutilizvel. Ao menos foi o que os dois
disseram. Talvez para me impedir de me picar, mas
minha vontade aumentou.
Um outro viciado tambm veio se picar no
banheiro. Um cara na pior, no ltimo estgio da
decadncia. Pedi-lhe que me emprestasse seus
utenslios. Ele topou. Mas, bruscamente, me repugnou
terrivelmente a idia de enfiar a agulha na veia. Eu
simplesmente no conseguia enfi-la, embora
soubesse como, pois j tinha visto os outros o
fazerem, muitas vezes. Detlef e Tina no se
importavam comigo. Fui obrigada a pedir ao cara que
me ajudasse. Claro que ele compreendeu
imediatamente que era minha primeira picada. Sentime
consideravelmente idiota diante daquele viciado
experimentado.
Ele me disse que era nojento, mas pegou a
seringa. Como minhas veias estavam pouco  vista,
teve dificuldade em encontrar uma. Ele tentou trs
vezes antes de conseguir puxar um pouco de sangue.
Reclamando, uma vez mais, que achava isso nojento,
me injetou toda a dose.
Parti como um foguete, mas no era assim que eu
imaginava o orgasmo. E logo via um nevoeiro, mal
percebia o que se passava  minha volta e no
pensava em nada. Fui ao Sound, sentei-me em um
canto e bebi um suco de frutas.
Detlef e eu estvamos agora em igualdade.
Estvamos juntos para sempre, como um casal.
Exceto que no dormamos juntos. No tnhamos
nenhum contato sexual. Ainda no me sentia bastante
madura para isso, e Detlef aceitou sem muitos
discursos. Tambm por isso eu o achei formidvel. Era
um tipo muito legal.
Um dia, sabia muito bem, dormiria com ele,
estava feliz de nunca ter feito nada com outro rapaz.
Estava segura de que amos ficar juntos. Saindo do
Sound, Detlef me acompanhou a p, at minha casa.
Eram duas horas de caminhada. Depois geralmente ele
pegava uma carona para voltar para sua casa. Ele
vivia com o pai.
Conversamos um monto de coisas
completamente loucas. Perdi todo o senso da
realidade. Para mim a realidade era irreal. No tinha
projetos, mas sonhos.
Minha conversa preferida era imaginar o que
faramos, Detlef e eu, se tivssemos bastante dinheiro.
Compraramos uma casa grande, um carro, mveis,
tudo de muita classe. Sonhvamos com um monte de
coisas, menos com herona.
Detlef acabava de ter uma idia de como se
tornar rico. Ele me disse que um revendedor estava
pronto a lhe dar cem marcos de herona a crdito:
faramos pacotinhos que venderamos a vinte marcos
cada um e teramos ento, imediatamente, cem
marcos de lucro. Com esse dinheiro compraramos
novamente herona e dobraramos nosso capital, e
assim por diante. Achei a idia genial. Na poca,
tnhamos muitas iluses sobre o trfico de drogas.
Detlef conseguiu realmente cem marcos de
herona a crdito. Era uma poca em que os pequenos
revendedores estavam em aperto. No nos
arriscvamos a ir vender na "cena": vendamos
somente no Sound. Detlef, com seu corao de ouro,
acabava encontrando sempre gente completamente
dura e em crise. Ento ele lhes vendia a crdito, e,
naturalmente, no lhe pagavam. Uma parte da herona
foi embora assim e a outra parte ns mesmos a
consumimos. Logo aps no tnhamos mais herona
nem dinheiro.
O cara que passou a herona para Detlef ficou
furioso, mas se contentou em dar uns bons gritos.
Sem dvida nenhuma ele s queria testar a
capacidade de revenda de Detlef. O teste foi
perfeitamente claro: ele no servia.
Durante as trs semanas de frias Detlef e eu nos
encontramos todas as tardes. E geralmente partamos
 caa de dinheiro. Fazia coisas que nunca teria
conseguido fazer antes: roubava adoidada nas grandes
lojas, principalmente objetos fceis de serem vendidos
no Sound. Dificilmente conseguamos o dinheiro
suficiente para pagar duas picadas por dia, mas ainda
no tnhamos chegado a esse ponto. No tnhamos
ainda dependncia fsica, e um dia sem no nos
atemorizava.
Estava programado que passaria a segunda
metade das frias na casa de minha av, que morava
em um vilarejo de Hesse. Podia parecer estranho, mas
estava louca de alegria, tanto pela idia de rever
minha av, como pela idia de ir ao campo. Por um
lado, no conseguia imaginar passar duas ou trs
semanas sem Detlef, alguns dias sem o Sound ou as
luzes da cidade. Mas, por outro lado, estava feliz de
rever jovens que nem sabiam o que era droga, andar
a cavalo, nadar, etc. Com efeito, no sabia mais quem
era eu.
Sem me dar conta, eu me dividi em duas. Duas
pessoas absolutamente diferentes. Escrevia cartas a
mim mesma. Mais precisamente, Christiane escrevia
para Vera. Vera  o meu segundo nome. Christiane
era a menina de treze anos que queria ir  casa da
av. A menina comportada; Vera, a drogada.
To logo minha me me ps no trem, no era
nada mais que Christiane. E uma vez na cozinha de
minha av, sentia-me completamente em casa, como
se nunca tivesse posto os ps em Berlim. S de ver
minha av sentada naquela cozinha, com seu ar
tranqilo e confortante, me aquecia o corao. Eu
amava minha av, e gostava de sua cozinha. Era uma
verdadeira cozinha camponesa, fogo na lareira, tachos
e panelas imensas... sempre um bom prato cozinhando,
como num livro de gravuras. Eu me sentia
bem.
Imediatamente restabeleci o contato com meus
primos e outras crianas de minha idade. Eram
realmente crianas ainda. Como eu. Voltei
deliciosamente aos meus tempos de infncia. No
sabia h quanto tempo isso no acontecia comigo.
Joguei num canto as botas de salto alto. Emprestaram-
me sandlias e, quando chovia, botas de
borracha. No toquei nos meus produtos de
maquilagem. Aqui no tinha nada a provar, no tinha
necessidade de me impor a quem quer que fosse.
Andei muito a cavalo. Organizamos um monte de
corridas pedestres ou eqestres. Mas nosso lugar
preferido para brincar era o riacho. Crescemos, e as
barreiras que agora construamos assumiam
propores gigantescas. Fazamos verdadeiros lagos
artificiais. E,  tardinha, fazamos uma brecha no
dique e uma cascata de pelo menos trs metros caa
no riacho.
Os outros,  claro, me faziam perguntas sobre
Berlim, sobre o que eu fazia. Mas no lhes contava
muitas coisas. No tinha nenhuma vontade de pensar
em Berlim. Incrvel, mas no pensava nem mesmo em
Detlef. Tinha decidido escrever todos os dias, mas no
lhe escrevi uma nica vez. s vezes,  tarde, tentava
pensar nele, mas mal conseguia me lembrar dos seus
traos. Tinha a impresso que ele pertencia a um
outro mundo, cujas mensagens eu no compreendia
mais.
Depois comecei a ter crises de angstia quando
me encontrava sozinha  tarde em minha cama. Via
danar diante de meus olhos as caras dos
freqentadores do Sound, e pensava que dentro em
breve teria que voltar a Berlim. Sentia um medo
terrvel de Berlim. Pensava que poderia pedir  minha
av para me deixar ficar com ela, mas como dizer-lhe
o motivo, e o que diria  minha me? Seria preciso
confessar tudo, mas eu no me decidi a fazer isso.
Minha av cairia dura, morta, se eu lhe contasse que
sua netinha se picava com herona. Era preciso,
portanto, voltar a Berlim.
O rudo, as luzes, a animao, tudo o que antes
me agradava tanto, agora me exasperava.  noite, a
confuso me impedia de dormir. Quando fui ao
Kurfrstendamm, o trnsito e a multido me causaram
pnico.
No incio no tentei sequer me readaptar ao clima
de Berlim. Sabia que, uma semana depois da volta s
aulas, minha classe partiria por muitos dias  Floresta
Negra.
Em nenhum momento tentei comprar droga e, no
entanto, tinha cinqenta marcos que minha madrinha
me dera de presente. No tentei me reencontrar com
Detlef. Disseram-me que ele no ia mais ao Sound.
Permaneci totalmente limpa at o dia da viagem com a
escola.
Estava feliz com essa viagem, mas em poucos
dias voltei a ficar deprimida. Tinha dores de barriga
depois das refeies, as excurses acabavam comigo.
No nibus que nos levava para a visita  fbrica de
chocolate Suchard, Kessi, que estava sentada a meu
lado, me disse bruscamente:  Puxa vida, voc est
amarela como um marmelo. Voc est com ictercia.
Era isso. Sabia muito bem que todos os viciados
acabavam pegando, por causa das agulhas e seringas
sujas que passavam de um a outro. Pela primeira vez,
depois de muito tempo, pensava na herona. E pensei
imediatamente na agulha nojenta da minha primeira
picada. Mas depois me dei conta de que Kessi no
falara seriamente, e lembrei que havia muitas
semanas que eu no me picava. No podia ser
ictercia.
Na porta da Suchard, peguei uma colher de
plstico e entrei. No Palcio do Chocolate enfiava
minha colher nos tachos, desde que parecessem um
pouco gostosos. Quando era realmente bom, desviava
a ateno do guia, fazendo-lhe um monte de
perguntas, e pedia mais. Alm disso, fiz um n no meu
avental para transform-lo em bolsa, e na sada ela
estava cheinha de chocolate.
To logo o nibus partiu, jurei que nunca mais
tocaria em chocolate. Chegando ao alojamento, me
torcia de dor.
Vomitei quilos daquela massa cremosa e cheia de
amendoins. Meu fgado se rendeu.
O professor, por sua vez, reparou na minha cor
amarelada. Chamou um mdico e, em seguida, uma
ambulncia me levou  Clnica da Universidade de
Friburgo.
O quarto de isolamento do Servio de Pediatria
era pequenino, de um branco imaculado. Nenhum
quadro, nenhuma gravura na parede. Enfermeiras me
traziam medicamentos e minhas refeies,
praticamente sem me dizer uma palavra. Um mdico
vinha, s vezes, me perguntar como estava.
Passaram-se trs semanas. No podia sair do quarto
nem para mijar. Ningum vinha me ver, ningum
vinha falar comigo. No tinha nada de interessante
para ler. No tinha rdio. Vrias vezes pensei que iria
enlouquecer.
A nica coisa que me dava fora eram as cartas
de minha me. Eu tambm escrevia para ela. Escrevia
principalmente para os meus gatos, os nicos animais
que me restavam. Eram cartinhas minsculas, postas
em envelopes que eu mesma fabricava.
s vezes pensava em minha av, nos meninos do
vilarejo, no riacho, nos cavalos. Tambm pensava, s
vezes, em Berlim, no Sound, em Detlef e na herona.
No sabia quem eu era. Quando me sentia
verdadeiramente na fossa, pensava: voc  uma
drogada que tem sua primeira hepatite e pronto.
Quando pensava que estava brincando com meus dois
gatos, prometia a mim mesma estudar e passar todas
as minhas frias na casa de minha av. Tudo isso se
misturava na minha cabea. Mas passava tambm
muitas horas a olhar para o teto sem pensar em nada
ou, ento, se no seria melhor se estivesse morta.
Alm disso, sempre tinha medo de que os
mdicos descobrissem a origem da minha ictercia.
Mas os traos de picada haviam desaparecido e no
tinha mais cicatrizes nem securas de trombose no
brao. E quem iria procurar uma drogada no Servio
de Pediatria de Friburgo?
Depois de trs semanas recomecei a andar. Em
seguida me deram autorizao para voltar a Berlim de
avio. Foi a Previdncia Social que pagou tudo. Em
casa, ainda tive que permanecer de repouso. Estava
feliz de reencontrar minha me e meus dois gatos, e
me desliguei das outras coisas.
Minha me me contou que Detlef viera diversas
vezes saber de mim. Ele tinha um ar muito triste pela
minha ausncia prolongada, disse ela. Ento voltei a
pensar em Detlef, me lembrei dos seus cabelos
encaracolados, seu lindo rosto, to doce. Estava feliz
pelo fato de algum se interessar por mim, de algum
me amar verdadeiramente. E era Detlef. Fiquei com a
conscincia pesada por t-lo quase esquecido: dele e
do nosso amor, durante muitas semanas.
Alguns dias depois da minha volta, Detlef me
visitou. Quando o vi ao p do meu leito, tive um
choque, fiquei incapaz de pronunciar uma s palavra.
Ele estava que era s pele e osso, seus braos
estavam to finos que poderia abarc-los com a mo.
O seu rosto estava plido, tinha o ar abatido. Mas ele
continuava to bonito quanto antes. Seus olhos
pareciam maiores, mas estavam mais tristes. De
repente voltou todo o meu amor. Pouco importava que
ele tivesse se tornado esqueltico. No queria pensar
nisso.
Durante algum tempo no sabamos sobre o que
falar. Ele queria saber quais eram as minhas
novidades, mas no tinha nada de interessante a lhe
contar. No me ocorreu contar-lhe as frias que
passara na casa da minha av. Acabei perguntando
por que ele no ia mais ao Sound. Ele disse que estava
uma merda.  Mas, ento, aonde voc vai?  Ele
acabou soltando:   Estao Zoo do metr.
 Fazer o qu?
 Eu me viro.
No momento nem me choquei. Sabia que alguns
viciados o faziam ocasionalmente. No tinha idia
muito precisa do que significava isso. Alis, no tinha
muita vontade de saber. Tudo o que sabia era que isso
consistia em satisfazer bichas, sem que ele mesmo
sentisse prazer, e que isso dava muita grana. No pedi
explicaes. Entreguei-me totalmente  felicidade de
ver Detlef, de am-lo e de ser amada.
No domingo seguinte, Detlef veio me buscar para
a primeira sada. Fomos a um caf da
Lietzenburgerstrasse. Estava cheio de bichas e todas
conheciam Detlef. Foram muito gentis comigo,
cumprimentaram-me calorosamente, felicitaram Detlef
por ter uma amiga to bonita. Constatei que Detlef
estava orgulhoso de mim; e era por isso que ele me
levara ao caf onde todo mundo o conhecia.
Gostei daquelas bichas. Elas eram gentis comigo,
conversavam sem querer me paquerar como os outros
homens. Achavam-me legal, e gostavam de mim sem
nada exigir. Toda essa ateno me envaidecia. Fui
conferir no espelho do banheiro, e vi que elas tinham
razo. Esses dois meses sem droga me haviam
restabelecido. Tinha uma tima aparncia. Acho que
nunca estivera to bem.
Detlef me disse que precisava dar um pulinho 
Estao Zoo. Ele tinha um encontro com Bernd, seu
melhor amigo. Bernd tinha se virado para arranjar
dinheiro para eles dois. No seria por minha culpa que
Detlef no iria  Estao Zoo. Logo, isso no se
discutia, e eu o acompanhei. Alm do mais, estava
contente por rever Bernd.
Bernd acabara de sair com um "cliente".
Esperamos. Naquela noite o lugar no me parecia to
sinistro quanto na minha lembrana. Na verdade s
via Detlef. Quando ele me deixava sozinha para
conversar com um amigo, horrveis imigrantes me
abordavam. Escutava "sessenta marcos" ou qualquer
coisa parecida. Eu me agarrava ao brao de Detlef, e
me sentia segura. Convenci-o a vir comigo ao Sound.
Em seguida pedi-lhe que me arrumasse algo para
cheirar.  claro que ele recusou. Mas insisti: 
Somente por esta noite. Somente para festejar minha
volta. Tenho vontade de me embalar um pouco, como
voc. Ou ento voc tambm no toma nada.  A ele
me deu.
Ele me disse que no me daria mais. Respondi-lhe
que no seria necessrio. Acabara de demonstrar,
durante dois meses, que podia dispensar a herona.
Lembrei, inclusive, que isto me fizera bem.
Um argumento de peso. Detlef me disse: 
Escute aqui, menina, eu tambm vou parar. Voc vai
ver. A ele se picou, e eu dei uma cheirada. Estvamos
extraordinariamente felizes e falvamos de nossa
felicidade futura, sem herona.
Na tarde do dia seguinte, fui reencontrar Detlef na
Estao Zoo. Ganhei uma nova cheiradinha. Passei a
me encontrar com Detlef quase todas as tardes, aps
as aulas, na estao. Recomecei a me picar. Era como
se eu nunca tivesse deixado Berlim, como se os dois
meses e meio sem herona no tivessem existido.
Falvamos quase todos os dias da nossa deciso de
parar, e eu expliquei a Detlef que isso era realmente
fcil.
Freqentemente ia diretamente da escola 
Estao Zoo. Na minha sacola havia utenslios de
drogada e uma pacoto de sanduches. Minha me
devia se espantar de me ver emagrecer a olhos vistos,
apesar de levar todas as manhs tal estoque de
sanduches. Sabia que Detlef e seus amigos esperavam
que lhes levasse lanche.
No incio Detlef ficava irritado quando me via
chegar. Ele no queria que eu o visse se virar. 
Marquemos um encontro em qualquer lugar, mas no
venha aqui.
No lhe dei ouvidos. Queria estar com ele em
qualquer lugar. E pouco a pouco eu me habituei ao
ambiente. No sentia mais o cheiro de mijo e dos
desinfetantes. Os clientes, as putas, imigrantes sujos,
os tiras, os mendigos, os bbados, faziam parte do
meu meio cotidiano. Meu lugar era ali, pois Detlef
estava ali.
A maneira como as outras meninas me olhavam,
me medindo da cabea aos ps, me dava nos nervos.
Elas pareciam mais agressivas que os clientes. Em
seguida, percebi que aquelas meninas que iam ali para
se prostituir tinham medo de mim, medo de que eu
lhes roubasse seus melhores clientes. Era mercadoria
fresca e gostosa. Tinha melhor apresentao, um ar de
menina bem-tratada, e lavava meus cabelos quase
todos os dias. Ao me ver, ningum imaginava que era
uma drogada. Sabia que era superior s outras meninas,
e esse era um sentimento muito agradvel.
Efetivamente, os clientes ficavam ao meu redor. Mas
no tinha necessidade de me virar, pois Detlef o fazia
por mim. Os que nos observavam deviam dizer: "Que
sortuda, ela tem a herona sem necessidade de
batalhar".
No comeo, os clientes me inspiravam medo.
Principalmente os estrangeiros imundos com seus
repetitivos: "Voc meter? Voc ir hotel?" Alguns
ofereciam vinte marcos. Mas logo, logo, passei a me
divertir, mandando-os pastar. Dizia:  Ora, meu
velho, voc est louco? De mim ningum consegue
nada por menos de quinhentos marcos.  Ou ento
encarava-os com um ar tranqilo e dizia:  Voc se
enganou de endereo, meu velho. Saia de campo. 
Sentia um imenso prazer em ver, depois disso,
aqueles nojentos se mandarem de rabo entre as
pernas. Era superior tambm aos clientes. Se por
acaso um deles se mostrava insolente ou agressivo,
Detlef aparecia logo. Quando ele saa com um cliente,
falava com seus amigos para cuidarem de mim. Para
mim, eles eram como irmos. O cara que me
desrespeitasse deveria tomar cuidado!
Agora no ia mais ao Sound, e meus nicos
amigos eram os do bandinho do Zoo. ramos Detlef,
Bernd, Axel e eu. Bernd e Axel tinham a mesma idade:
dezesseis anos. Os trs moravam na casa de Axel.
Contrariamente aos outros dois, Axel era muito feio.
Seu rosto no tinha nenhuma harmonia, suas pernas e
seus braos pareciam ter sido feitos para um outro
corpo. No tinha por que atrair uma bicha. No entanto,
ele tinha seus clientes, alguns at mesmo regulares.
Detlef, quando estava de saco cheio, insultava e
berrava com os clientes. Axel, com seu fsico, era
obrigado a se controlar todo o tempo, ser amvel.
Alm do mais, na cama ele devia ter alguma coisa
especial que agradava muito s bichas. Sem isso ele
no agentaria a concorrncia que havia na Estao
Zoo do metr.
Ele se vingava como podia. Quando pegava um
cliente meio por fora, o extorquia. Axel era um tipo de
personalidade forte, era difcil ofend-lo ou humilh-lo.
Ele se dominava e nunca demonstrava seus
sentimentos. Alm do mais, era incrivelmente gentil e
seguro, o que era raro entre os viciados. Realmente
no existia pessoa igual a ele. Agia como se no
vivesse mais nesse mundo podre. Alis, ele s teve
mais um ano de vida.
A histria de Axel parecia-se com a nossa. Seus
pais eram divorciados. Viveu com sua me at o dia
em que ela partiu para viver com um amigo. Mas a
me foi generosa deixando-lhe um apartamento de
duas peas, alguns mveis e at mesmo um televisor.
Ela o visitava uma vez por semana e lhe dava um
pouco de dinheiro. Sabia que ele se picava, e pediulhe
muitas vezes que parasse. Achava que fazia muito
por ele, mais que muitos outros pais faziam por seus
filhos; afinal, tinha lhe dado um apartamento com
televiso, no? Eu passava os fins de semana na casa
de Axel. Dizia a minha me que ia para a casa de uma
amiga.
O apartamento de Axel era um verdadeiro cortio
de drogados. O fedor me embrulhava o estmago
desde a entrada do apartamento. Latas de sardinhas,
guimbas de cigarros que flutuavam no leo ou no
molho de tomates. Em cima da pia, um monte de
copos e xcaras sujos. L dentro, um copo de gua,
cinzas, fumo, papel de cigarros. Quando coloquei
iogurtes sobre a nica mesa, derrubei duas latas de
sardinhas e o molho caiu no tapete. Ningum deu
bola.
De qualquer forma, o tapete fedia de maneira
pavorosa. Compreendi: era porque Axel se picava. Ele
retirava a seringa de seu brao, enchia-a de gua e
jogava o lquido cor-de-rosa (a seringa continha ainda
algumas gotas de sangue) no tapete. Era a sua
maneira de limpar os seus utenslios. E o cheiro meio
doce de sangue seco misturado com o molho de peixe
provocava aquele fedor pavoroso. At as cortinas
estavam amarelas e cheiravam mal.
No meio de toda aquela confuso, no entanto,
havia uma cama com lenis de uma brancura
impressionante. Imediatamente me refugiei nela.
Enfiei minha cara nos travesseiros, que tinham bom
cheiro de sabo. Acho que nunca dormi numa cama
to limpa.
Axel me disse:  Pus estes lenis para voc. 
Todos os sbados encontrava uma cama bem
arrumadinha. Nunca dormi duas vezes seguidas nos
mesmos lenis, enquanto os rapazes nunca trocavam
os seus.
Eles faziam tudo o que podiam para me agradar.
Tinha tudo o que queria para comer e beber.
Compravam-me herona de primeira qualidade.
Sempre tinha problemas de fgado e, se me picasse
com algo adulterado, caa doente. Os trs ficavam
preocupadssimos quando eu ficava doente. Por isso
eles me compravam herona da boa, sem se importarem
se era caro ou no. Os trs estavam sempre
presentes quando eu tinha necessidade deles. No
fundo, eles contavam somente comigo. E eu tinha
Detlef, em primeiro lugar, depois Axel e Bernd.
Ningum mais.
Estava feliz de fato. Feliz como poucas vezes o
tinha sido. Sentia-me protegida. Tinha uma casa, a
Estao Zoo s tardes e o apartamento fedorento de
Axel nos fins de semana.
Detlef era o elemento mais forte do grupo, e eu a
mais fraca. Eu me sentia inferior aos rapazes, fsica e
moralmente. Principalmente porque era uma menina.
Mas pela primeira vez gostava da minha fraqueza.
Saboreava a proteo de Detlef. Achava uma delcia
saber que Detlef, Axel e Bernd estavam sempre
presentes quando eu tinha necessidade de algum.
Meu companheiro fazia o que nenhum viciado faz:
dividia a herona comigo, fazendo o pior trabalho que
existia. Para pagar a minha droga, ele devia atender a
um ou dois clientes a mais por dia. Ns no ramos
como os outros, fazamos exatamente o inverso: o
homem se prostitua por sua mulher. Talvez fssemos
o nico casal no mundo a fazer isso.
At o outono de 1976 nunca me ocorreu a idia
de me prostituir. Pelo menos, nunca tinha pensado
nisso at aquele momento. Talvez, por alguns
segundos, a idia me tivesse passado pela cabea,
principalmente nos dias em que sentia um peso na
conscincia ao ver Detlef sair com um cara que fosse
particularmente nojento. Mas sabia perfeitamente bem
que Detlef me passaria um belo sabo, se eu falasse
sobre tal possibilidade.
Alis, no sabia nessa poca em que consistia
exatamente tudo isso. Ou no queria nem pensar ou
imaginar.
Detlef no falava disso. Ouvindo os papos dos trs
rapazes, tinha a impresso de que se tratava de
chupar bichas.
Para mim, isso no tinha nada a ver com ns
dois. Detlef e Christiane. Era uma obrigao de Detlef,
ento no me enojava. Que ele se desse a essas
bichas no era assim to terrvel, pois era seu
trabalho. O trabalho nojento que nos permitia comprar
herona. A nica coisa que no queria era que eles se
amarrassem em Detlef. Ele era meu, s meu.
No incio, achava at alguns desses clientes
simpticos. Os rapazes diziam s vezes que fulano ou
sicrano era um tipo razovel, que era preciso
conserv-lo. E era principalmente isso que importava.
Havia os que eram gentis de fato comigo, quando me
encontravam na Estao Zoo com Detlef. Podia-se
dizer que eles gostavam de mim. s vezes um deles
me trazia dinheiro de um desses clientes que me
achava muito bonita. Detlef no me contava que
alguns desses caras o pressionavam para fazer coisas
comigo.
Observava as outras meninas. Eram quase todas
to jovens quanto eu. Percebi que eram muito
infelizes, principalmente as viciadonas mesmo, que
eram obrigadas a se prostituir para poder se picar. Lia
o desgosto estampado em suas faces a cada vez que
um desses clientes as tocava, mas elas se esforavam
para sorrir. Odeio esses caras que ficam no meio da
multido procurando carne fresca com o rabo do olho.
Idiotas ou pervertidos, certamente. Que prazer podem
eles sentir ao ir para a cama com uma jovem totalmente
desconhecida que visivelmente no suporta
tudo isso e de quem  impossvel ignorar a desgraa?
Finalmente passei tambm a detestar as bichas.
Pouco a pouco, fui tomando conscincia dos
sofrimentos que transformaram Detlef numa criatura
dura. Muitas vezes ele quase no conseguia dominar a
repugnncia que sentia, esforando-se para ir
trabalhar. Se ele no estivesse drogado, no conseguiria.
Quando ele estava no pior bode, e era justamente
quando tinha necessidade de dinheiro, se mandava
quando via um cliente. Ento Axel ou Bernd iam ao
sacrifcio em seu lugar, esforando-se para vencer sua
repugnncia. Eles tambm tinham necessidade de
estar drogados para conseguirem fazer isso tudo.
Exasperava-me ver as bichas correndo atrs de Detlef.
Balbuciavam palavras amorosas totalmente ridculas,
enquanto lhe entregavam cartas de amor. E tudo na
minha presena. Que solido deve ser a desses caras!
Mas era incapaz de sentir piedade deles. Tinha
vontade de gritar:  Escute, cara, tente compreender
que Detlef  meu e de mais ningum, muito menos de
um porco pederasta.  Mas tnhamos necessidade
desses porcos, que se deixavam esfolar, pois eles
pagavam bem.
Pouco a pouco, tambm percebi que entre esses
homens havia alguns que conheciam Detlef
intimamente, muito mais intimamente que eu. Tive
motivos para dar bronca. Um dia, ouvindo uma
conversa dos trs rapazes, ouvi-os dizer que alguns
clientes s pagavam se o parceiro tambm tivesse um
orgasmo. Pensei em morrer de desgosto.
A cada dia via menos Detlef, porque ele saa o
tempo todo com essas bichas nojentas. Tinha medo
por ele. Algum me disse que os rapazes que se
prostituam, s vezes, acabavam tambm virando
bichas. Mas no podia falar nada com Detlef, pois
estvamos cada vez mais dependentes. E a metade do
que ele ganhava era para a minha droga. Desde que
entrei na sua turma decidi, ao menos
inconscientemente, ser como eles, uma verdadeira
drogada. Eu me picava todos os dias. E tomava
sempre o cuidado de deixar de lado herona suficiente
para me picar no dia seguinte.
No entanto, ainda no atingramos, nem ele nem
eu, a dependncia fsica completa. Ela demora
bastante para se implantar entre os iniciantes que no
se picam todos os dias. Ainda conseguamos ficar um
ou dois dias sem herona: tomvamos outra coisa para
voar um pouco e no soframos muito. Por isso vamos
que no ramos como os outros, como os drogados
que j estavam l embaixo. Podamos parar quando
quisssemos.
Ainda tinha momentos de felicidade. Todos os
sbados, na casa de Axel, Detlef me encontrava na
bela cama limpinha, me desejava boa noite com um
doce beijo na boca e dormamos. Dormamos um de
costas para o outro, bunda com bunda. Quando
acordava, Detlef me dava o beijo de bom-dia.
Estvamos juntos havia seis meses e no
tnhamos qualquer relao. Quando conheci Detlef j
tinha aprendido a desconfiar da brutalidade dos
rapazes, ento lhe disse imediatamente:  Eu sou
virgem, sabe?  gostaria de esperar um pouco mais.
Eu acho que sou muito jovem.
Ele compreendeu imediatamente e nunca
inventou coisas. Para ele eu no era somente uma
amiga com quem ele se entendia bem: ele percebera
que eu, com meus catorze anos, era ainda uma
menina. E tinha uma sensibilidade extraordinria, e
sentia o que eu desejava, o que podia fazer ou no.
Durante o ms de outubro pedi a minha me que me
providenciasse plulas. Ela me conseguiu uma receita.
Ficou sabendo por mim e por Detlef que no havia
nada entre ns. Ela era muito desconfiada para essas
coisas.
Tomei as plulas sem dizer nada a Detlef. Ainda
tinha medo. Num sbado do fim do ms de outubro,
chegando  casa de Axel, vi que ele havia posto
lenis brancos na sua prpria cama, mais larga do
que aquela em que sempre dormamos. Axel explicou
que era besteira ns dois sofrermos em uma caminha,
enquanto ele se esbanjava em uma imensa cama. Ele
nos ofereceu sua cama.
Naquele dia todo mundo estava de bom humor. E
de repente, Detlef disse que deveramos limpar um
pouco a casa. Imediatamente concordamos. Comecei
abrindo todas as janelas. As primeiras baforadas de ar
fresco me fizeram tomar conscincia da fedentina em
que vivamos. Nenhum indivduo normal suportaria
mais de um minuto aquela podrido. Mistura de cheiro
de sangue seco, cinzas e conservas de peixe mofado.
Nas duas horas seguintes fizemos uma revoluo no
apartamento, varremos, colocamos um monte de lixo
em sacos plsticos. Passei o aspirador, limpei a gaiola
do canrio, que estava irrequieto com toda aquela
agitao. A me de Axel o havia deixado para ele, pois
seu amigo no gostava de pssaros. Axel tambm
detestava esse infeliz animalzinho. Quando no
agentava mais a solido, ele se metia a cantar, e
Axel, ento, dava murros na gaiola. O pobre pssaro
se debatia como doido dentro das grades. Nenhum dos
rapazes cuidava dele, mas a me de Axel trazia
regularmente uma proviso de alpiste. E eu, no
sbado, lhe dava comida por uma semana. Compreilhe
tambm um pequeno recipiente de vidro que lhe
permitia beber gua limpa durante seis dias.
Quando fomos dormir nessa noite, as coisas no
se passaram como sempre, Detlef no me deu o beijo
de boa-noite e no ficou de costas. Comeou a falar, a
me dizer coisas muito ternas, senti suas mos, que me
acariciavam com muita ternura. No tive nenhum
medo. Eu tambm o acariciei muito tempo sem falar,
foi maravilhoso.
Depois de mais de uma hora, Detlef rompeu o
silncio:  Voc gostaria de fazer amor no sbado que
vem?
Respondi:  OK.  Vivia, h tempo, temendo
essa proposta. Estava feliz de que Detlef a tivesse
feito. Depois eu disse:  Certo, mas com uma
condio: no tomaremos nada, nem eu nem voc.
Nada de herona. Se estivermos dopados, posso no
achar bom. Ou ento o acharei bom somente porque
estarei dopada. Quero estar totalmente lcida. E quero
que voc esteja tambm, para que saiba se me ama.
 Detlef disse:  Est bem  e me desejou boa noite
com um doce beijo. Adormecemos um de costas para
o outro: bunda com bunda.
No sbado seguinte mantivemos a promessa. No
tomamos nada. O apartamento estava novamente sujo
e fedorento. Mas nossa cama estava com lenis
maravilhosamente brancos. Tiramos a roupa. Tive
ainda um pouco de medo. Ficamos deitados um ao
lado do outro sem trocar palavra. Pensava no que me
haviam contado minhas amigas na escola, de como 
na primeira vez. O rapaz se joga por cima de voc
brutalmente, enfia seu troo e s pra quando goza.
As garotas tambm me haviam prevenido de que di
muito da primeira vez.
Falei a Detlef que no queria que fosse bruto
como disseram as minhas amigas na escola.
Ele me respondeu:  Est bem, minha pequena.
Acariciamo-nos por muito tempo. Ele me penetrou
um pouco, to devagarinho que mal percebi. Quando
doa, Detlef sentia sem que eu dissesse nada. Pensei:
"Ele tem o direito de causar uma dorzinha. H seis
meses ele espera por este momento".
Mas Detlef no queria que eu sentisse dor. Em
determinado momento a coisa estava feita. Estvamos
juntos para sempre. Eu o amava, estava louca de
amor por ele. Sentia-me em xtase, nas nuvens.
Detlef tambm estava imvel. Ele certamente
compreendeu o meu estado: estava paralisada de
angstia e de felicidade.
Detlef tirou e me abraou. O que senti foi
extraordinrio. Eu me perguntava como podia merecer
um rapaz assim, que pensasse somente em mim,
esquecendo-se por completo de si mesmo. Pensei em
Charly, que durante uma sesso de cinema pura e
simplesmente colocara sua mo entre minhas pernas.
Estava feliz por ter esperado por Detlef, por pertencer
somente a ele. Amava tanto esse rapaz que de
repente senti pnico. Tive medo da morte. Repetia o
tempo todo: "No quero que Detlef morra". Eu lhe
disse enquanto ele me acariciava:  Detlef, vamos
parar de nos picar.
 Sim  respondeu ele.  No quero que voc
se torne uma viciada em herona.
Ele me beijou. Lentamente nos viramos para
dormir. Um de costas para o outro. Bunda com bunda.
As mos de Detlef no meu corpo me acordaram.
Era muito cedo. Uma luz cinzenta atravessava as
cortinas. Aca-riciamo-nos e a fizemos amor de
verdade. O que senti ainda estava na cabea e no l
embaixo. Mas j sabia que era maravilhoso fazer amor
com Detlef.
Na segunda-feira fui direto da escola  Estao
Zoo. Detlef estava l. Dei-lhe um sanduche e uma
ma. Ele estava com fome, e eu, doida por uma dose
de herona. Havia trs dias que no me picava. Pedi a
Detlef:  Voc tem uma picada para mim?
 No. Eu no te darei mais. No quero. Eu te
amo muito. No quero que voc se torne uma junkie.
Tive uma exploso. Comecei a gritar:  Puxa
vida, meu caro, voc  presunoso! Voc est
completamente drogado, as suas pupilas esto to
grandes como a cabea de uma agulha de tric. E
ainda vem me fazer sermo? Primeiro, pare voc
mesmo, a ento farei o mesmo. Mas no diga
besteiras. Confesse de uma vez que voc quer a
herona s para voc.
Fiz um escndalo, e ele teve que escutar. Ele no
podia protestar, pois tinha recomeado a se picar,
desde domingo  noite. Ele acabou cedendo:  Est
bem, minha pequena, vamos l juntos.  Em seguida,
ele saiu com um cliente, para a minha picada.
Desde que tnhamos feito amor, muitas coisas
haviam mudado em minha vida. No me sentia mais
to  vontade na Estao Zoo. Sabia o que significava
trepar. O que queriam esses caras que me
abordavam? A mesma coisa que fizemos Detlef e eu:
trepar.  claro que eu no ignorava em que consistia
isso, mas era totalmente abstrato. Porm, tornara-se
a experincia mais maravilhosa e ntima entre mim e
Detlef. Aqueles caras me davam nojo. O que acontecia
ali me pareceu absolutamente incompreensvel: como
se podia dormir com um daqueles estrangeiros
repugnantes, um bbado ou um careca barrigudo
cheirando mal?
No me divertia mais quando ouvia os clientes me
falarem besteira. No tinha mais nada a responderlhes.
Eu me mandava apavorada, e s vezes chegava
at a me defender a tapas. Agora eu odiava
enormemente as bichas. Eu poderia matar esses
porcos. Passei meu tempo tentando no imaginar
Detlef sendo obrigado a acarici-los.
Apesar de tudo, continuava a freqentar todas as
tardes a estao do metr quando saa da escola, para
ver Detlef.
Depois que ele saa com um cliente, amos at a
sacada e ele me oferecia um chocolate. s vezes os
negcios iam mal e havia dias em que Detlef mal
conseguia juntar o dinheiro suficiente para ns dois.
Pouco a pouco comecei a conhecer os outros
rapazes. Antes Detlef sempre tentava me manter
afastada. Eles estavam bem mais acabados e tinham
muito mais dificuldades do que os meus amigos para
agarrar clientes. Eram junkies, o tipo de caras que
antes eu admirava.
Detlef me disse que eram amigos, mas ao mesmo
tempo me recomendou que desconfiasse deles. Eles
estavam sempre duros e  caa de alguma coisa para
se picar. Nunca deveramos mostrar que tnhamos
dinheiro ou herona, seno poderamos entrar pelo
cano. Eles no roubavam somente os clientes, mas
tambm roubavam entre si.
Comecei a compreender verdadeiramente o que
era este mundo de drogados que tanto me atraa. S
que agora estava dentro dele, ou quase dentro.
s vezes amigos de Detlef me diziam:  Saia
dessa, voc  muito jovem para isso.  s se separar
de Detlef que voc conseguir. Ele, de qualquer jeito,
nunca conseguir sair dessa. No seja idiota, afaste-se
dele.
Mandava-os  merda. Separar-me de Detlef. Nem
em sonhos! Se ele quisesse se matar eu o
acompanharia. Eu nem falava disso e respondia-lhes
simplesmente:  Vocs esto enganados, no somos
viciados. Quando quisermos parar, paramos.
Os dias desse ms de novembro eram todos
parecidos. Das duas s oito na Estao Zoo. Em
seguida o Treibhaus, uma discoteca no
Kurfrstendamm que Detlef comeou a freqentar. Era
um ponto de encontro de drogados, pior ainda que o
Sound. Fiquei muitas vezes at meia-noite e vinte,
hora do ltimo nibus. Na realidade, vivia somente
para as noites dos sbados. No sbado  noite Detlef e
eu fazamos amor, e tornava-se cada vez mais bonito,
pelo menos quando no estvamos drogados.
Chegou dezembro. Tinha frio. Antes, quase nunca
tinha frio. Percebi que estava mal fisicamente. Percebi
num domingo no incio do ms. Acordei no
apartamento de Axel com Detlef dormindo ao meu
lado. Estava gelada.
Olhei para uma lata. De repente o que estava
escrito nela saltou para cima de mim. Era uma escrita
de cores agressivas que me faziam mal aos olhos.
Tinha um vermelho terrvel. Quando "viajava", sempre
tinha medo do vermelho, mas a herona transformava
o vermelho em um tom suave. A herona cobria todas
as cores com uma espcie de vu.
Mas naquela lata o vermelho me feria os olhos.
Tinha a boca cheia de saliva. Engolia, mas a saliva
voltava. No entendia bem como ela voltava. Depois
ela desapareceu bruscamente e minha boca ficou seca
e pegajosa. Bebi, mas no passou. Tremia de frio e
logo em seguida sentia um calor horrvel e estava toda
suada. Acordei Detlef dizendo:  Algo est
acontecendo.
Detlef olhou para mim:  Voc est com as
pupilas grandes como um pires.  Um longo silncio e
depois ele murmurou:  Filhinha, aconteceu. . .
Sacudida por novos arrepios, perguntei-lhe: 
Aconteceu o qu?
 O cold turkey, voc est de bode  respondeu
Detlef.
Ento, a famosa crise de privao era aquilo?
"Voc chegou ao ponto, voc  uma viciada", disse a
mim mesma, mas no foi uma coisa to terrvel o tal
de cold turkey. Por que faziam tanto escndalo por
isso? No me sentia verdadeiramente mal: tinha
tremores, as cores me agrediam, e tinha uma
estranha sensao na boca.
Detlef no falou mais nada. Tirou do bolso do seu
jeans um pacotinho de cido ascrbico, foi buscar uma
colher, esquentou tudo sobre o fogo de uma vela, e
me deu a seringa toda preparada. Como eu estava
tremendo, foi difcil encontrar a veia, mas, mesmo
assim, consegui com certa rapidez. Tudo voltou ao
normal. As cores voltaram a ser doces, minha boca
voltou ao estado normal, voltei a dormir, agarrada a
Detlef, que aproveitou a ocasio para tomar uma
picada. Acordamos ao meio-dia e perguntei a Detlef se
ele ainda tinha herona suficiente. Ele me disse:  No
se preocupe. Voc ter mais uma picada esta noite,
antes de voltar para casa.
 Mas tenho necessidade de alguma coisa para
amanh de manh.
 Ento no tenho o suficiente. E no tenho vontade
de ir  Estao Zoo hoje. De qualquer jeito, hoje
 domingo e no tem ningum. . .
Entrei em pnico:  Voc no compreende? Se
no me picar amanh, terei uma crise e no poderei ir
 escola.
A Detlef disse:  Eu tinha lhe falado, minha filha.
Voc est perdida.
Um pouco mais tarde fomos  Estao Zoo. Tive
tempo para pensar. Minha primeira crise, e eu ali,
esperando, dependente da herona de Detlef. O que
mais me apavorava era depender de Detlef. Que amor
era aquele em que um dependia do outro? O que
aconteceria se no futuro eu fosse obrigada a suplicar a
Detlef que me desse herona? J vi viciados em crise
mendigando, se rebaixando, prontos para sofrer as
maiores humilhaes. Eu nunca soube pedir. No iria
comear justo com Detlef. Com ele, no. Se ele me
deixasse suplicar tudo estaria terminado para ns dois.
Detlef encontrou um cliente. Esperei a volta dele.
Demorou muito. . . Era preciso que eu me habituasse
a esperar para ter minha dose da manh do dia
seguinte.
Estava deprimida. Conversava comigo mesma,
murmurando: "Ento, Christiane, voc tem o que
queria. Era o que voc pensava?  claro que no, mas
voc quis. Voc admirava esses viciados 'barra
pesada'. Agora voc  um deles. Nada mais a choca. .
. Quando lhe falarem de crise, voc no precisa mais
arregalar os olhos, voc j sabe o que .  a sua vez
de impressionar os outros".
No conseguia ficar numa boa. Pensava na
maneira como tratara os junkies quando estavam de
bode. Eu no entendia o que estava acontecendo com
eles. A nica coisa que tinha percebido era que eles
estavam sensveis, muito sensveis. Um viciado em
crise fica totalmente a zero, nem sequer ousa
protestar. s vezes, cheguei mesmo a satisfazer meus
apetites de poder em cima deles. Quando dominamos
a situao, podemos destru-los completamente. Basta
tocar no ponto certo, tocar no ponto fraco, que eles se
desmancham.
Quando estamos na pior, estamos bastante
lcidos para nos darmos conta de que somos uma
pessoa perdida. Perdemos a fachada de autocontrole e
no nos julgamos mais por cima de todos e de tudo.
Pensava: "Agora  voc que vai penar quando
estiver em tal situao. Eles vo perceber que voc 
chata e ridcula. Mas voc j sabia, no?  gozado que
voc no tenha pensado em tudo isso antes".
Os sermes que fazia a mim mesma no me
levavam a nada. Eu tinha necessidade de falar com
algum.  claro que eu poderia procurar um dos
amigos de Detlef que andavam por ali. Em vez disso
eu me encolhi num canto ao lado do correio. Sabia
muito bem o que me diriam: "No fique assim, minha
cara. Isto vai se arrumar. Voc poder se curar com
uma desintoxicao. O Valeron existe para isso".
Detlef tambm contava coisas assim.
S restava minha me com quem conversar. Mas
pensava: " impossvel, no pode fazer isso com ela.
Ela te ama e voc tambm a ama,  sua maneira, 
claro. Se voc lhe contar o que est acontecendo, ela
vai entrar numa pior. E de qualquer forma, ela no
pode te ajudar. Ela talvez te interne. De que servir
isso? A fora no coloca ningum no caminho certo,
principalmente voc. Voc fugir. E isso ser pior".
Conversava comigo mesma: "Pare, pura e
simplesmente! No incio voc sofrer um pouco pela
falta, mas voc tomar algumas coisas para conseguir
atravessar a pior fase. Quando Detlef voltar, voc lhe
dir: no quero herona. Paro. E se voc no fizer o
mesmo, ns nos separamos. Voc tem dois troos no
bolso? Tudo bem, meu caro, nos picamos pela ltima
vez e amanh acabou". Eu me dei conta de que ao
mesmo tempo em que me ligava a essas idias, tinha
uma vontade louca de tomar uma picada. E eu murmurava,
com se estivesse revelando um segredo a
mim mesma: "De qualquer forma Detlef no vai
querer. E voc sabe muito bem que no vai deix-lo.
Pare de sonhar, voc chegou ao fim da linha.
Exatamente, ao fim da linha. Voc no recebeu grande
coisa da vida, mas foi voc que quis assim".
Detlef voltou. Sem trocar nenhuma palavra fomos
ao Kurfrstendamm em busca de nosso revendedor
habitual. Coloquei minha dose no bolso, voltei para
minha casa e me refugiei em meu quarto.
Dois domingos mais tarde Detlef e eu estvamos
no apartamento de Axel completamente aniquilados.
Na vspera no havamos encontrado nosso
revendedor habitual, e um outro nos enganou. A
herona que nos tinha vendido era to impura que no
domingo pela manh tivemos que tomar uma dose
dupla para agentar a barra. No fim da tarde, no
tnhamos mais nada, e Detlef comeou a transpirar.
Percebi que o turkey no estava longe.
Reviramos todo o apartamento na esperana de
encontrar alguma coisa que pudesse ser vendida,
mesmo sabendo de antemo que no havia mais
nada. Desde a cafeteira eltrica at o rdio, tudo tinha
sido vendido para conseguir algumas picadinhas. A
nica coisa que sobrou foi o aspirador, mas ele era to
velho que no conseguiramos mais que cinco marcos.
Detlef disse:  Filhinha, precisamos de dinheiro,
e rapidinho. Dentro de duas horas, no mximo,
estaremos na pior e ento estaremos perdidos. Hoje 
domingo e j  noite. No conseguirei sozinho. Voc
precisa me ajudar.  melhor voc ir pedir dinheiro no
Sound. Trate de conseguir quarenta marcos. Se eu
conseguir, por meu lado, um cliente de quarenta ou
cinqenta marcos, teremos at um pouco de herona
para amanh de manh. Voc vai conseguir?
  claro que conseguirei. Pedir dinheiro  a
minha especialidade.  Encontrar-nos-amos em duas
horas. Pedia dinheiro no Sound freqentemente. s
vezes o fazia somente para testar. E sempre dava
certo. Mas nessa noite, no. Estava com pressa, e
conseguir uns trocados tomava tempo: era preciso
escolher as pessoas que iramos atacar, saber como
fazer a abordagem, s vezes conversar um pouco com
elas e, principalmente, estar numa boa. Pedir dinheiro
deve, antes de tudo, divertir.
Como estava numa de horror, o que fazia acabava
refletindo meu estado. Depois de meia hora s tinha
sete marcos. Eu me disse: "Voc nunca conseguir".
Pensei em Detlef, que estava procurando um cliente
na Estao Zoo, um lugar que no domingo  noite era
freqentado por famlias (papai, mame, filhinhos).
Alm do mais, ele estava tambm como eu, na pior.
Fiquei em pnico.
Sa para a rua, sem um plano muito definido.
Esperava, de uma maneira muito vaga, que pedindo
dinheiro fora tivesse mais sorte. Um Mercedes parou.
Costumava ver carros luxuosos diminurem a marcha e
pararem diante do Sound. As meninas que no tinham
os dois marcos para comprar o bilhete de entrada se
vendiam por ele e algumas garrafas de Coca-Cola.
O cara do Mercedes me fez sinal. Eu o reconheci.
Ele andava muito por ali, e no era a primeira vez que
me abordava. Sua frmula habitual:  Voc quer
ganhar uma nota de cem?  Uma vez eu lhe perguntei
o que ele queria em troca. Ele respondeu:  Nada em
particular.  Eu lhe dei uma violenta gozada.
No sabia exatamente o que se passava pela
minha cabea. Talvez qualquer coisa como: "V ao
encontro desse cara e tente descobrir exatamente o
que ele quer. Talvez voc consiga tirar uma ou duas
notas dele". A verdade  que, de repente, estava ao
lado do Mercedes. Ele me disse para entrar, pois no
podia estacionar ali. Obedeci.
Na realidade, sabia muito bem o que iria
acontecer. No se tratava mais de pedir uns
trocadinhos. Os clientes no eram mais, para mim,
criaturas do outro mundo. Vi muitos na Estao Zoo,
ouvi muitas descries dos rapa2es, o suficiente para
conhecer a seqncia do filme que acabava de
comear. Sabia tambm que no era o cliente quem
devia ditar as condies. Tentei me conservar numa
superboa. No tremia, mas aspirava muito forte e mal
conseguia terminar minhas frases sem que a minha
voz desafinasse.
Eu:  E ento?
Ele:  Ento, o qu? Cem marcos, de acordo?
Eu:  Eu no trepo. Nada disso.  Ele perguntou
por qu, e, na minha emoo, no encontrei nada a
dizer a no ser a verdade:  Tenho um companheiro.
No durmo com mais ningum. E no quero faz-lo.
Ele:  Est bem. Ento voc me chupa.
Eu:  No, isso tambm no. Tenho vontade de
vomitar.  Estava realmente muito calma.
Nada conseguia irrit-lo. Ele respondeu:  Est
bem, voc me bate uma punheta.
Eu:  De acordo. Por cem marcos.  Na hora
aquilo no me chocou, mas, pensando bem, aquele
cara devia estar gamado por mim: cem marcos por
uma punheta, enquanto na Kurfrstenstrasse, na
"putaria de crianas", as meninas no custavam nem
um centavo. Ele gamou pelo medo que eu no
conseguia dissimular totalmente. Estava encolhida
junto  porta, com a mo direita na maaneta. Ele
sabia muito bem que eu no estava fazendo fita.
Ele partiu. Entrei em pnico. Pensava: "Ele no
vai se contentar apenas com isso. Vai me bater. Ou
ento no me dar dinheiro".
Ele parou. Estvamos num parque no muito
longe do Sound; aquele parque, eu o atravessava com
freqncia. Era um verdadeiro puteiro, cheio de
preservativos e lenos de papel por todos os cantos.
Estava tremendo, sentindo um pouco de nusea.
O cara conservava um ar muito calmo. Fiz um apelo a
toda a minha coragem e lhe disse, conforme as regras
do jogo:  O dinheiro primeiro.  Ele me deu.
Continuei com medo. Nada me garantia que ele no
fosse, em seguida, forar-me a lhe devolver o
dinheiro. Ouvi muitas histrias desse tipo. Mas sabia o
que era preciso fazer. Nos ltimos tempos, os rapazes
da turma quase no falavam de outra coisa alm de
suas aventuras com clientes. De todo jeito, eles no
tinham grandes coisas para conversar.
Esperei que ele desabotoasse suas calas. Ele
estava muito ocupado consigo mesmo para me vigiar,
e aproveitei para esconder as notas na minha bota.
Bem, ele estava pronto. Continuei na ponta do banco
do Mercedes, grudada na porta. Imvel, sem olh-lo,
estiquei o brao esquerdo. Mas o brao no era
suficientemente comprido, por isso fui obrigada a me
aproximar do cara. Fui obrigada a dar uma olhadinha
no seu troo antes de conseguir agarr-lo.
Tinha vontade de vomitar, e muito medo.
Continuei com os olhos fixos no pra-brisa, tentando
pensar em outra coisa. Tentei me concentrar em um
anncio luminoso que acendia e apagava, ou nos
faris dos carros que via brilhar atravs dos arbustos.
Ele acabou logo. Tirou a carteira. Segurou a carteira
de tal forma que desse para eu ver que estava
cheia de notas gradas. Naturalmente, queria me
impressionar, e me deu vinte marcos a mais, de
gorjeta.
Uma vez fora do carro, me senti muito calma e fiz
uma espcie de balano: "Eis a. Voc tem catorze
anos. H um ms voc ainda era virgem. Agora voc
se vende".
Depois, no pensei mais nem no cara nem no que
fiz. Estava mais contente do que triste. Por causa do
dinheiro. Nunca tivera tanto de uma s vez. No me
preocupava com Detlef e nem me perguntava o que
ele iria dizer. A crise comeou e pensei apenas numa
coisa: minha picada. Tive sorte, encontrei
imediatamente nosso revendedor habitual. Vendo
aquele monte de dinheiro, ele me perguntou:  Onde
voc pegou isto? Voc se prostituiu?  Eu, com ar
superior, respondi:  Voc est sonhando. Eu, fazer
isso? Prefiro parar de me picar. Foi meu pai que me
deu. Ele, de repente, se lembrou de que tem uma
filha.
Comprei dois quartos por oitenta marcos. Os
quartos eram uma novidade no mercado. Era mais ou
menos um quarto de grama. Antes, um quarto era
suficiente para trs, mas agora mal dava para Detlef e
para mim.
Fui ao banheiro pblico da Kurfrstenstrasse e me
piquei. Era herona da boa. Pus o resto da herona e do
dinheiro dentro da minha carteira de passe escolar.
A operao toda no demorou mais que quinze
minutos. Como deixara Detlef havia quarenta e cinco
minutos, estava segura de reencontr-lo no metr
Zoo. Ele estava l.
Em verdadeiro estado de misria. Nenhum cliente
no horizonte daquele domingo e,  claro, estava de
bode. Eu lhe disse:  Venha, eu tenho.
Ele no quis saber como, no me fez perguntas.
Tinha pressa somente de uma coisa: voltar para sua
casa. Fomos diretamente ao banheiro. Tirei minha
carteira de passe escolar do meu bolso e dei-lhe o
saquinho. Enquanto o negcio esquentava na colher,
Detlef olhou para a carteira e viu o outro saquinho e
as notas.  Onde voc conseguiu o dinheiro? 
perguntou.
 Pedir no deu certo. No havia outro jeito.
Tinha um cara cheio da grana. Bati-lhe uma punheta.
Nada mais alm disso, te asseguro. No teria podido.
Fiz isso por voc.
Antes mesmo de ter acabado de falar vi Detlef
empalidecer. Ele estava louco, furioso. Gritou:  Voc
est mentindo. Ningum d cem marcos por isso.
Primeiro, o que quer dizer com punheta e nada mais?
 Ele no se agentava mais, estava em plena crise,
tremia inteirinho, sua camisa estava molhada e tinha
cibras nas pernas.
Ps o garrote no brao. Eu estava sentada na
beira da banheira e chorava, pensando que ele tinha
razo de estar com raiva. Chorava e esperava que a
picada de Detlef surtisse efeito. Quando acontecesse,
ele me daria um par de bofetadas,  claro. Eu no me
defenderia.
Detlef retirou a seringa, saiu do banheiro sem
falar nada. Sa atrs dele. Finalmente, ele abriu a
boca:  Eu te levo ao ponto de nibus.  Abri o
saquinho e lhe dei uma parte. Ele ps a dose no bolso
da cala. Fomos ao ponto de nibus. Detlef no me
disse nada. Gostaria que gritasse, me batesse,
dissesse ao menos alguma coisa. Mas, nada, nem uma
palavra.
O nibus chegou. No subi. Depois que o nibus
partiu, disse a Detlef:  O que eu te disse  a pura
verdade. Eu bati uma punheta para aquele cara, isso
foi tudo. E foi terrvel.  preciso que voc acredite em
mim. Ou no confia mais em mim?
Detlef:  Est bem, eu acredito.
Eu:  No duro, foi por voc que fiz aquilo.
A voz de Detlef endureceu um pouco:  No diga
besteiras. Voc fez por voc mesma. Voc estava em
crise e se virou. Perfeito. De qualquer maneira teria
feito, mesmo que eu no existisse. Tente
compreender. Agora voc  uma viciada. 
dependente fisicamente. Tudo o que fizer far por
voc mesma.
Respondi-lhe:  Voc tem razo, mas escute-me
um pouco, no pode conseguir sozinho a quantidade
de que necessitamos. Eu no quero que voc faa todo
o trabalho. Agora  minha vez. Estou segura de que
ganharei um monte de dinheiro. E sem trepar.
Prometo nunca dormir com um cliente.
Detlef no falou nada. Colocou seu brao sobre
meus ombros. Comeara a chover, e no sabia se as
gotas que brilhavam no meu rosto eram da chuva ou
lgrimas. Um outro nibus parou. Falei:  Estamos
fodidos. Voc se lembra de quando ainda estvamos
na maconha e nos pequenos comprimidos? ramos
absolutamente livres, no tnhamos necessidade de
nada e nem de ningum. E agora... agora estamos
totalmente possudos.
Deixamos passar trs ou quatro nibus.
Murmurvamos coisas tristes. Chorei, pendurada nos
seus braos. Ele falou:  Vamos sair dessa. Vamos
nos desintoxicar. Ns dois sairemos dessa. Vou
procurar Valeron. Eu me encarrego, a partir de
amanh cedo, de suprimir a droga. Ns dois juntos.
Chegou um outro nibus. Detlef me fez subir.
Em casa, agi mecanicamente, como em todas as
noites. Peguei o iogurte na geladeira e o tomei na
cama. Na verdade, era um pretexto para levar a colher
para o quarto. Serviria, na manh seguinte, para
preparar minha dose. Depois fui pegar um copo de
gua no banheiro para a limpeza da seringa.
Na manh do dia seguinte, tudo se passou como
sempre. Minha me me acordou s quinze para as
sete. Fiquei na cama fingindo no ouvi-la. Ela voltava
a cada cinco minutos. Acabei falando:  Est bem,
est bem, me levanto j, j.  Ela voltou para me
pressionar. Contava os minutos at as sete e quinze.
Era a hora em que ela devia partir se no quisesse
perder o metr. Ela nunca o perdia. Alis, eu tambm
deveria partir s sete e quinze para chegar a tempo na
escola.
Quando a ouvi fechar a porta do apartamento,
meus gestos automticos comearam a funcionar. Tirei
o envelopinho de papel da minha cala que estava no
p da cama. No saco plstico, que estava ao lado,
meus produtos de beleza, um pacote de cigarros
Rothhandle, um frasquinho de cido ctrico, a seringa
embrulhada em papel higinico. Ela estava entupida,
como sempre, por causa do tabaco do cigarro, que se
espalhara por todo canto. Mergulhei a seringa no copo
d'gua, coloquei o p na colher, algumas gotas de
cido ctrico, esquentei tudo, pus o garrote no brao,
etc.
Fazia tudo automaticamente, como outras
pessoas que acendem o seu primeiro cigarro do dia.
Muitas vezes voltava a dormir e chegava  escola para
a segunda ou terceira aula. Sempre chegava atrasada
quando me picava em casa.
s vezes minha me conseguia me tirar da cama
e me fazia tomar o metr com ela. Nesse caso, era
obrigada a me picar num banheiro da estao
Moritzplatz do metr. Era bastante desagradvel  os
banheiros eram particularmente sombrios e
fedorentos. Alm disso, os muros eram esburacados e
havia sempre uns caras de butuca para ver as meninas
mijarem. Sempre tive medo de que um deles
fosse chamar a polcia ao descobrir que ia ali somente
para me picar.
Levava quase sempre meus utenslios  escola.
Em caso de necessidade... Se nos segurassem, por
alguma razo qualquer, numa atividade extra, por
exemplo, ou se eu no pudesse voltar para casa, eu
me picava l mesmo. Nos banheiros da escola no
havia mais porta que pudesse ser fechada. Nesse
caso, minha amiga Renate segurava a porta. Ela
estava por dentro. Acredito que a maior parte dos
meus colegas tambm, mas no estavam nem a. No
conjunto Gropius um drogado no era nada fora do
comum.
Durante as aulas, as poucas a que ainda assistia,
cochilava. s vezes dormia mesmo, de olhos fechados
e a cabea apoiada na carteira. Quanto maior a dose
matinal, maior seria a minha dificuldade em falar. Os
professores deviam ter percebido o que se passava.
Mas apenas um professor um dia me falou da droga, e
chegou a me perguntar se eu tinha problemas. Os
outros se satisfaziam em me chamar de preguiosa e
me encher de zeros. De qualquer forma, tnhamos
tantos professores que a maior parte deles se
contentava quando conseguia guardar os nossos
nomes. No tnhamos nunca contatos pessoais.
Eles pararam logo de se interessar pelas minhas
lies: no fazia mais nenhuma tarefa. Eles se
limitavam a fazer anotaes no caderno de notas,
enquanto eu, desde que era anunciado o trabalho a
ser feito, escrevia "no sei" e lhes entregava. Passava
o resto da aula rabiscando. Tinha a impresso de que
a maioria dos professores tinha o mesmo "interesse"
que eu pela escola. Eles desistiam de tudo e ficavam
contentes quando terminavam suas aulas sem ser
incomodados.
Depois daquele famoso domingo  noite em que
"trabalhei" pela primeira vez, tudo pareceu continuar
como antes. Isso durante certo tempo. . .
Todos os dias tentava convencer Detlef de que o
que ganhava pedindo dinheiro no era nada e que no
podia deixar que ele subvencionasse todas as nossas
necessidades. Detlef tinha verdadeiras crises de
cimes. Mas chegou  concluso de que aquilo no
poderia continuar, e um dia ele props que
trabalhssemos juntos.
Era experiente, e sabia que existiam clientes
bissexuais. E tambm bichas que gostariam de fazer
"aquilo" uma vez, pelo menos, com uma menina,
desde que um rapaz estivesse por perto. Detlef disse
que escolheria os meus clientes: caras que no tinham
vontade de trepar e no tocariam em mim. Caras que
queriam que lhes fizssemos "coisas". Alis, eram
esses que Detlef preferia. Ele achava que ns dois
juntos poderamos ganhar cem marcos e at mais.
Nosso primeiro cliente comum foi Max, o gago.
Ns o apelidamos assim. Era um cliente habitual de
Detlef, e eu o conhecia. Detlef me explicou que tudo o
que ele iria pedir era para ser surrado. Eu deveria
apenas ficar nua da cintura para cima. Concordei.
Pensava que bater me daria um certo alvio, pois
sempre desejei agredir os clientes de Detlef. Max, por
sua vez, estava entusiasmado com a idia de que eu
iria com eles. Pelo dobro do preo habitual,  claro.
Marcamos um encontro para segunda-feira, s quinze
horas, na Estao Zoo.
 claro que cheguei atrasada. Max j havia
chegado. Detlef ainda no. Como todos os viciados,
ele era incapaz de chegar na hora. Presumi que
tivesse encontrado um outro cliente, um cara que
pagasse bem e com quem ele seria obrigado a ficar
um pouco mais de tempo. Eu e Max esperamos quase
meia hora. Detlef no chegou. Senti um medo terrvel.
Mas Max sentia, visivelmente, mais medo do que eu.
Ele no parava de me explicar que havia pelo menos
dez anos no fazia nada com uma menina. Mas tremia
a cada palavra. Gaguejava muito, eu mal entendia o
que falava.
A situao tornara-se insuportvel. Precisava
encontrar uma soluo. Alm disso, no tinha mais
herona, e tinha medo de entrar em crise antes de
acabar essa histria com Max. Quanto mais eu sentia
que ele se angustiava, mais eu me sentia segura.
Acabei falando, muito tranqila:  Va- mos, meu
caro, Detlef nos deixou um pepino. Eu vou me ocupar
de voc, e voc vai ficar contente. Mas continuamos
com o preo acertado: cento e cinqenta marcos.
Ele gaguejou um "sim" e comeou a caminhar.
Tinha um ar de quem no estava mais com a mnima
vontade. Segurei o seu brao e o guiei, literalmente.
Detlef me contou a triste histria de Max. Ele 
um trabalhador braal, tem uns quarenta anos e veio
de Hamburgo. Sua me era puta. Quando menino,
apanhava violentamente. Apanhou da me e de seus
gigols e tambm nas instituies em que foi
internado. Apanhou tanto, a ponto de no conseguir
falar direito, e agora tem necessidade de levar uma
surra para conseguir satisfao sexual.
Fomos  casa dele. Pedi imediatamente o
dinheiro, apesar de ele ser um habitu com quem no
era necessrio tomar tais precaues. Ele me deu
cento e cinqenta marcos, e senti-me orgulhosa de lhe
tomar tanto dinheiro de maneira to fcil.
Tirei minha blusa e ele me deu um chicote.
Pareceu-me que estvamos num filme. Tive a
impresso de que deixava de ser eu mesma. No incio
no batia muito forte, mas ele pediu que eu batesse
mais forte. Eu mandei brasa. Ele gritava: "Mame!" e
coisas assim. Eu ignorava, e tentava no olh-lo.
Apesar disso, via as marcas no seu corpo, algumas
partes inchavam e em outras, a pele arrebentara. Era
repugnante, e isso durou quase uma hora.
Quando terminou, vesti minha blusa e fugi
correndo. Desci a escada correndo. Mal cheguei l
fora, meu estmago no agentou mais e vomitei em
frente  casa. Depois, tudo acabado. No chorei e no
tive piedade de mim mesma. Sabia muito bem que
estava na merda e no podia contar com ningum, a
no ser comigo mesma. Fui  Estao Zoo. Detlef
estava l. No lhe contei grandes coisas, apenas que
sara sozinha com Max, e mostrei-lhe os cento e
cinqenta marcos. Ele tirou uma outra nota de cem do
bolso de sua cala. Partimos de braos dados para
comprar um monte de herona de boa qualidade. Uma
jornada extraordinria.
Desde ento eu mesma conseguia o dinheiro para
minha herona. Fazia um sucesso terrvel, podia
escolher meus clientes e ditar minhas prprias
condies. Nada de estrangeiros sujos. Para todas as
meninas do metr Zoo os estrangeiros so o que h de
pior: eles tentam dar calote dizendo que no tm
dinheiro, e alm disso eles querem mesmo  meter
sem preservativo.
Nunca trepei com nenhum deles. Isso em
considerao a Detlef e ao nosso ltimo resto de vida
privada. Fazia tudo com as mos e depois "
francesa". No era to horrvel quando eu fazia as
coisas no cara e no ele comigo. No queria que eles
me tocassem. Se eles tentassem, dava o fora.
Tratava de acertar as condies logo de cara. No
havia nem conversa com quem no me agradasse.
Perdia muito com este ltimo resto de amor-prprio.
Encontrar um cliente conveniente que aceitasse todas
as minhas exigncias acabava me tomando a tarde
toda. E raramente tnhamos tanta grana quanto no dia
em que sa pela primeira vez com Max, o gago.
Max era nosso cliente habitual. amos  casa dele
juntos ou sozinhos. No fundo era um cara legal, que
gostava de ns dois.  claro que com seu salrio de
trabalhador braal ele no poderia continuar a nos
pagar cento e cinqenta marcos. Ele sempre se virava
para nos pagar quarenta marcos, que era o preo de
uma picada. Uma vez ele chegou at mesmo a quebrar
seu cofrinho, que, junto com algumas moedas que
estavam numa tigela, completou com muito esforo
meus quarenta marcos. Quando estava necessitada,
podia dar um pulo  casa dele e pedir-lhe uns vinte
marcos adiantados. Se ele tivesse, me dava.
Max sempre esperava por ns: para mim, suco de
pssego, minha bebida preferida, e para Detlef, pudim
de smola, que ele adora. Era o prprio Max quem o
fazia, e o tinha sempre na geladeira. E como ele sabia
que eu gostava de comer qualquer coisa depois do
trampo, sempre comprava iogurtes e chocolates. O
flagelo tornou-se para mim uma coisa rotineira. Uma
vez terminada esta formalidade, eu comia, bebia e
conversava com Max.
O pobre emagrecia a olhos vistos. Tirvamos toda
a sua grana, e ele no tinha dinheiro nem para comer.
Ele se habituou de tal forma a ns, e estava to feliz
com a gente, que quase no gaguejava quando
estvamos juntos. A primeira coisa que ele fazia de
manh era comprar os jornais, s para saber se a lista
dos mortos por overdose no havia aumentado. Um
dia cheguei  casa dele para conseguir vinte marcos e
o encontrei plido, gaguejando mais do que nunca. Ele
tinha lido que certo Detlef W. era a centsima vtima
da herona naquele ano. Quase chorou de alegria
quando lhe disse que tinha acabado de deixar meu
Detlef mais vivo do que nunca. Ele me repreendeu, e
pela centsima vez: deveramos deixar a herona, que
iria acabar nos matando.
Respondi-lhe com ar glacial que se parssemos
no voltaramos mais  sua casa. Ele no disse mais
nada.
Nossas relaes com Max eram estranhas.
Odivamos todos os clientes. Logo, odivamos Max.
Ns achvamos que ele era um cara legal talvez pelo
fato de nunca ter inventado histrias quando tnhamos
necessidade de quarenta marcos. Alm do mais,
sentamos por ele algo como uma certa piedade. Eis
um cliente que, no fundo, era ainda mais miservel do
que ns. Ele era s, absolutamente s. Tinha somente
a ns. Arrebentava-se por ns, mas nem pensvamos
nisso. Nos meses seguintes iramos arrebentar outros
clientes.
s vezes passvamos a noite na casa de Max, e
tranqilamente vamos televiso juntos antes de
dormir. Ele nos dava sua cama para dormirmos, e
dormia no cho. Uma noite em que estvamos todos
drogados, Max ps uns discos loucos, colocou uma
peruca de cabelos longos, cobriu-se com um lindo
manto de pele e se ps a danar como um alucinado.
Quase morremos de rir enquanto assistamos. De repente,
ele perdeu o equilbrio e caiu batendo a cabea
na mquina de costura. Ficou desmaiado por alguns
minutos. Ficamos apavorados. Chamamos o mdico:
Max teve uma concusso cerebral. Devia ficar, mais ou
menos, duas semanas na cama.
Pouco tempo depois ele perdeu o emprego. Nunca
se drogou, nem mesmo para experimentar, e ei-lo
completamente fodido. Destrudo por ns, drogados.
Ele nos pedia para ir v-lo, somente para fazer
uma visita. Mas era preciso no pedir tal coisa a um
viciado, pois no se ajusta ao seu gnero. Primeiro, o
viciado  incapaz de tal gesto para com outrem. E,
alm disso, talvez principalmente por isso, tenha de
camelar o dia inteiro pelo dinheiro de que tinha
necessidade para comprar sua droga. Detlef explicou
tudo isso a Max, que jurou que nos daria um monto
de dinheiro quando o tivesse.  Um drogado  disselhe
secamente Detlef   como um homem de
negcios. Ele deve cuidar para que suas coisas
estejam equilibradas. Ele no pode dar crdito sob
pretexto de simpatia ou amizade.
Pouco tempo depois de me ter iniciado como
puta, senti a alegria dos reencontros. Um dia, no
metr, esperava um cliente e vi Babsi, a menininha
que h alguns meses me abordara no Sound para
pedir LSD. Babsi, a fujona que tinha tido oportunidade
de algumas cheiradas de herona, antes de ser pega e
levada  casa de seus avs.
Ns nos olhamos, compreendemos imediatamente
qual era a nossa e nos jogamos nos braos uma da
outra. Estvamos muito felizes de nos revermos. Babsi
estava frgil, no tinha mais bunda nem peito. Mas ela
estava quase mais bonita que antes. Seus cabelos
caam sobre os ombros, penteados impecavelmente, e
ela estava toda graciosa. Imediatamente vi que estava
encharcada de herona. Mas estava certa de que quem
no a conhecesse nunca desconfiaria de que essa
maravilhosa adolescente era uma viciada.
Babsi estava muito calma. Nem um pouco agitada
como ns, que passvamos o dia todo caando
dinheiro. Ela me explicou que no tinha necessidade
de se prostituir, e me ofereceu com que me picar e
alguma coisa para comer.
Subimos ao terrao. Era intil contarmos o que
fazamos, mas Babsi no me disse imediatamente
onde ela conseguia todo esse dinheiro e a herona.
Somente me contou que, desde a sua fuga, sua famlia
era muito severa com ela. Ela devia voltar para casa
entre sete e oito horas e nada de cabular aula. Sua
av a vigiava constantemente.
Foda-se, mas eu lhe perguntei o que fazia.  Eu
tenho um cara. Um cara de certa idade, mas muito
legal. Vou  casa dele de txi. Grana ele no d, s
herona. Trs quartos por dia. Ele tem outras meninas
que vo v-lo, e  a mesma coisa: ele lhes d herona.
Agora ele est gamado por mim. Vou por uma hora. 
claro que no trepo. Nada disso. Ele me pede para
ficar pelada, conversar, s vezes tirar uma fotografia
ou ento lhe dar uma chupada.
O cara se chamava Heinz. Ele tinha uma
papelaria. J tinha ouvido falar dele, um cliente muito
legal, que dava herona diretamente para as garotas, o
que poupava andar-se  cata de herona para cima e
para baixo. Tive inveja de Babsi, que voltava para
casa no mximo s oito horas e podia dormir quanto
quisesse pela manh e levava uma vida muito mais
tranqila do que a nossa.
Babsi tinha tudo, at muitas seringas. No
usvamos seringas descartveis, difceis de serem
encontradas. A agulha da minha estava to rombuda
que era obrigada a apont-la na parte spera da caixa
de fsforos. Babsi me prometeu trs mbolos e trs
agulhas.
Alguns dias depois reencontrei Stella tambm na
Estao Zoo. Stella, a amiga de Babsi. Grandes
abraos. Stella tambm se drogava,  claro. Ela no
teve tanta sorte como Babsi. Seu pai morrera h dois
anos num incndio, e sua me abrira um bar com um
amigo italiano e comeara a beber. Stella sempre
roubou grana do caixa, mas um dia ela pegou
cinqenta marcos da carteira do amigo de sua me e
ele percebeu. Depois disso ela no tinha coragem de
voltar para casa. Retornou  "cena".
Imediatamente comeamos a falar dos clientes.
Stella fez um relato sobre Babsi, sua melhor amiga.
Era a degradao total. O tal Heinz era um cara
imundo, um velho gordo e suado. E Babsi dormia com
ele.  Para mim ser o fim de tudo  disse Stella. 
Dormir com um cara assim! Alis, com qualquer
cliente. Ela deve ser do tipo que topa, logo de cara,
trepar com os estrangeiros sujos! Bem, chupar de vez
em quando, tudo bem. Mas trepar!
Estava transtornada, mas no entendia bem por
que Stella me contava tudo isso. Babsi me diria algum
tempo depois que Heinz fora cliente habitual de Stella.
Eis por que ela sabia bem o que ele exigia. Mais tarde,
eu mesma faria a experincia.
Stella trabalhava com motoristas, na "putaria de
crianas" da Kurfrstenstrasse, onde quase todas as
meninas de treze, catorze anos, eram viciadas. Fiquei
apavorada: subir num carro sem saber com quem iria,
por vinte marcos. Dois clientes por uma picada eu no
faria nunca!
Discutimos durante uma hora sobre a questo de
saber se era mais degradante se prostituir no Zoo ou
na Kurfrstenstrasse. Logo chegamos a um ponto
comum: Babsi era certamente a pior de todas, se
dormia com aquele cara.
Nos meses que se seguiram, eu, Babsi e Stella
discutamos quase diariamente sobre a questo da
nossa honra de prostitutas. Cada uma tentava
demonstrar a si mesma e s outras que ainda no
descera ao ponto mais baixo da escala. E quando nos
encontrvamos somente em duas, falvamos mal da
terceira.
O ideal, evidentemente, era no ser obrigada a se
prostituir. No dia de nosso reencontro, Stella e eu nos
persuadimos de que isso era possvel: conseguiramos
dinheiro pedindo e roubando. Stella tinha mais do que
o suficiente para uma rodada.
Tinha uma idia genial e faramos imediatamente
a experincia num grande magazine, o Kadewe. No
banheiro era preciso esperar que as velhinhas se
fechassem na privada. Geralmente elas penduravam a
sacola na fechadura da porta. Uma vez que elas
tivessem vencido a batalha contra as roupas e
estivessem sentadas no vaso, de fora, com um soco
forte, faramos descer a fechadura. A sacola cairia no
cho e seria fcil peg-la passando a mo por sob a
porta. Evidentemente, as velhinhas no ousariam nos
perseguir com o traseiro  mostra e, at que elas se
vestissem, estaramos longe.
Stella e eu nos colocvamos em posies
estratgicas no banheiro de senhoras do Kadewe. Mas,
a cada vez que Stella anunciava que chegara a hora,
tinha clicas. Ela no queria trabalhar sozinha, e, alm
do mais, seriam necessrias quatro mos para pegar
rapidamente todas as sacolas. Fracassou a operao
"toalete para senhoras". Para roubar era preciso
nervos slidos, o que nunca foi o meu forte e o seria
cada vez menos...
Aps alguns insucessos desse tipo, Stella e eu
decidimos nos prostituir juntas. No metr Zoo, como
eu havia insistido, fazamos, ento, clientes a duas.
Era muito mais vantajoso. Uma das vantagens era que
ns nos vigivamos mutuamente, e cada uma sabia
at que ponto a outra aceitava o que fazer, mas no
conversvamos sobre isso, tudo estava subentendido.
Em duas nos sentamos mais seguras, era mais difcil
nos darem cano e podamos nos defender melhor se
um cliente no quisesse respeitar as condies. Alm
do mais, a coisa ia mais rpido: uma se ocupava da
parte de cima e a outra, da parte de baixo, e o
assunto estava encerrado em dois tempos.
Por outro lado, encontrar clientes que aceitassem
pagar a duas meninas no era fcil. Havia os que
tinham medo: os caras experientes sabiam que
enquanto uma distraa a ateno, a outra podia muito
bem esvaziar-lhe a carteira. De ns trs era Stella a
que mais queria trabalhar em dupla: como ela no
tinha mais o ar de criana, encontrava mais
dificuldades que eu e Babsi para conseguir clientes.
A que tinha maior facilidade era Babsi. Na
verdade, como Heinz preenchia as suas necessidades,
ela trabalhava somente para ns. Com seus treze
anos, sua cara de menininha inocente sem
maquilagem, sua silhueta esguia, na "prostituio de
crianas" ela era exatamente o que os caras vinham
buscar. Uma vez ela fez cinco clientes e ganhou
duzentos marcos em uma hora.
A introduo das duas meninas acabou criando
problemas nas minhas relaes com Detlef. Ns nos
amvamos tanto quanto antes, mas brigvamos cada
vez mais. Detlef estava muito suscetvel. Eu ficava
muito com Babsi e Stella, e isso no lhe agradava
muito. O que principalmente lhe desagradava, e ele
era obrigado a engolir, era que ele no escolhia mais
os meus clientes. Eu mesma os escolhia, ou ento com
Babsi e Stella. Detlef me acusava de dormir com
clientes. Ele estava com um cime danado.
As minhas relaes com Detlef no eram mais o
centro do universo. Eu o amava e o amaria sempre,
mas no dependia mais dele. No tinha mais
necessidade de sua constante proteo nem da sua
droga. No fundo ramos agora como esses casais
modernos, que tanto sonham os jovens: duas pessoas
totalmente independentes. Algumas vezes na nossa
turma as meninas trocavam drogas entre si, assim
como os rapazes.
Nossa amizade no passava de uma amizade de
drogados. Todos nos tornvamos cada vez mais
agressivos. A herona, a agitao em que vivamos, a
batalha cotidiana pela herona e pela grana, o stress
em casa (era preciso esconder o tempo todo, inventar
novas mentiras) colocavam nossos nervos a zero.
Acumulvamos tanta agressividade que no
conseguamos mais nos dominar, mesmo entre ns.
Era com Babsi que eu mais me entendia; em
outras palavras, era a mais calma de todos ns. amos
freqentemente para o "trabalho" juntas. Compramos
as mesmas saias negras justas com abertura at a
bunda. Por baixo, ligas pretas. Isso enlouquecia os
clientes: ligas pretas sobre nossos corpos
adolescentes. E ainda mais com as nossas carinhas de
crianas. . .
Pouco antes do Natal de 1976 meu pai saiu de
frias e me permitiu ficar em seu apartamento, onde
minha irm estava sozinha. Pude levar Babsi. J na
primeira noite, uma bruta briga. Babsi e eu brigamos
como feirantes, usando uma linguagem to baixa que
minha irmzinha, que tem um ano menos que eu,
comeou a chorar. Ela no tinha dvidas a respeito da
nossa vida dupla. Ns, quando brigvamos, utilizvamos
a linguagem de putas.
Na manh seguinte, Babsi e eu ramos
novamente as melhores amigas do mundo. Era
sempre assim: quando dormamos bem, a volta 
realidade se processava sem violncia, ficvamos
bem-humoradas. Babsi e eu decidimos no nos picar
imediatamente. Iramos esperar o mximo de tempo
possvel. Uma experincia que faramos
periodicamente. . . um verdadeiro esporte. Apenas
comentamos sobre a picada formidvel com uma
herona extraordinria que nos esperava.
Como duas crianas saboreando, por antecipao,
seus presentes de Natal.
Minha irm acabou forosamente compreendendo
que no estvamos em nosso estado normal. Ela no
sabia que ns fumvamos, pensava que estvamos
tentando algo novo. Ela jurou guardar segredo.
Babsi foi buscar o aromatizador de ricota. Ela
havia escolhido o sabor morango. Vivia quase
unicamente de ricota aromatizada. Minha alimentao
no diferia muito disso: queijo branco, iogurte, pudins
e uma espcie de bolinho frito que vendem no metr
Kurfrstendamm. Meu estmago no suportava nada
mais alm disso. Ento Babsi preparou sua mistura.
Era como a celebrao de um rito religioso: estvamos
as trs na cozinha, Babsi preparava a mistura, e
minha irm e eu contemplvamos com fervor.
Estvamos felizes por provar, logo aps, um
gigantesco lanche de queijo branco. Depois do que,
evidentemente, Babsi e eu nos picaramos.
Babsi acabou de bater a ricota, que se tornou
uma apetitosa massa cremosa, mas no pudemos
mais esperar. Falamos para minha irm que pusesse a
mesa muito bonitinha e corremos a nos fechar no
banheiro. A comeou o drama porque ns j
estvamos quase de bode.
S nos restava uma seringa utilizvel. Eu disse
que seria a primeira.
Babsi deu uma bruta bronca:  Por que sempre
voc? Hoje sou eu que comeo. Alm do mais, a
herona  minha.
Aquilo me deixou furiosa. Concordava em que ela
tinha freqentemente mais do que a gente e nos dava
um pouco, mas eu no suportava v-la tirando
vantagem disso. Eu lhe disse:  Escute aqui, minha
velha, voc est me gozando. Voc leva um tempo
para fazer isso.  Era verdade, ela tinha necessidade
de, pelo menos, meia hora para se picar. Suas veias
no eram visveis. E se no conseguia na primeira vez,
ela perdia as estribeiras, enfiava a agulha de qualquer
maneira, ficando cada vez mais nervosa. Seria uma
tremenda sorte se ela acabasse encontrando o lugar
certo.
Na poca eu no tinha problemas com isso. Ou
Detlef me picava (um privilgio que lhe era reservado)
ou ento eu me picava sempre no mesmo lugar, na
veia do brao esquerdo. Deu certo durante algum
tempo, at que ocorreu uma trombose e minha pele
ficou meio grossa. Ento fiquei sem saber onde me
picar.
De qualquer maneira, naquela manh obtive uma
vitria. Peguei a seringa e injetei exatamente como
deveria ser feito. A operao demorou apenas dois
minutos. Foi uma picada terrvel. Meu sangue
borbulhava. Tinha calor. . . que calor! Joguei gua no
rosto e depois disso me senti melhor e comecei a me
agitar.
Babsi, sentada na porta do banheiro, ps o troo
no seu brao e comeou seu teatro. Gritava:  Merda,
estamos nos sufocando neste galinheiro! Abra esta
porcaria de janela.
Eu j tinha a minha dose... tudo bem... ela que se
danasse. Respondi-lhe:  No me encha. Se voc est
num sufoco, o problema  seu.
Babsi deixava cair pingos de sangue por todos os
cantos, mas no encontrava sua veia. Ela perdia cada
vez mais a calma e gritava:  Por que no h luz
nestes banheiros fodidos? V providenciar luz. V
procurar uma lanterna no quarto.
Tive a calma de ir e procurar a lanterna. Babsi
no parava com seu espetculo... tive medo de que
minha irm percebesse alguma coisa... mas acabei
trazendo. Nesse meio tempo, Babsi acertou a picada.
Ela se acalmou imediatamente, limpou
cuidadosamente a seringa, enxugou as manchas de
sangue da banheira e do assoalho. No deu mais um
pio.
Voltamos  cozinha, e eu me aprontei para
saborear a ricota. Babsi pegou a tigela e comeou a
esvazi-la. Ela fez um esforo terrvel, mas comeu
tudo o que havia dentro. Mal teve tempo de me falar:
 Voc sabe por qu.
Estvamos, as duas, contentes de passar alguns
dias no apartamento do meu pai. Logo na primeira
manh tivemos a maior briga do sculo. Por nada. 
que os viciados, com o tempo, se transformam. A
droga destri as relaes entre as pessoas. Mesmo na
nossa turma, onde, talvez pelo fato de sermos muito
jovens, havia apoio mtuo.
As brigas com Detlef tornavam-se cada vez mais
maantes. Estvamos bastante deteriorados
fisicamente. Eu no pesava mais que quarenta e trs
quilos, tendo um metro e sessenta e nove, e Detlef,
cinqenta e quatro quilos e um metro e setenta e seis.
Quando nos sentamos fora de forma, e isso era
freqente, tudo nos enervava e brigvamos um com o
outro. Tentvamos nos machucar de fato, cada um
atacando bruscamente o ponto mais vulnervel do
outro. Isto , para ns o ponto fraco era a prostituio
(no entanto, quando no brigvamos, fazamos de
conta que considervamos a questo um negcio
secundrio, rotineiro).
Exemplo: "Voc acha que tenho vontade de
dormir com uma garota que trepa com os caras mais
nojentos?"
E eu: "Um cara que d a bunda me enoja". Etc.,
etc.
Sempre acabava chorando. s vezes a coisa
variava: Detlef ficava completamente nocauteado ou
ento ns dois chorvamos juntos. Quando um de ns
estava em crise, o outro no precisava esforar-se
muito para ficar completamente arrasado. Era difcil a
gente voltar a se abraar apertado, um contra o outro,
como duas crianas.  que cada um via no outro a
imagem de sua prpria degradao. Era horrvel,
porque se um estava numa pior, ento, encontrava o
outro, que tambm estava na mesma.
 claro que essa agressividade era, tambm,
descarregada sobre pessoas estranhas. Bastava a
imagem das vovs com suas sacolas cheias de
mantimentos, para que eu ficasse irritada. Ento, a
primeira coisa que fazia era entrar na cabine de um
vago de no-fumantes com um cigarro aceso. Se elas
ousassem me dar qualquer bronca, simplesmente dizia:
 Os incomodados que se mudem.  O meu
maior prazer consistia em fazer uma daquelas velhotas
se mandar para eu poder sentar. O cigarro que eu
costumava fumar fazia uma fedentina danada dentro
do vago, e s vezes at eu mesma era expulsa
violentamente. Eu mesma me enervava com o meu
comportamento, e mais ainda quando via Stella e
Babsi fazerem a mesma coisa. Mas como eu no
queria papo com aquela gente, no via outra sada.
Era-me totalmente indiferente o que os outros
pensavam de mim. Quando comeavam aquelas
terrveis coceiras, que afetam todas as partes do corpo
e at mesmo sob a maquilagem, no me preocupava
com quem quer que estivesse do meu lado.
Simplesmente tirava as minhas botas, levantava a saia
at o umbigo, e me coava pra valer. Para mim
somente importava a opinio que a turma tinha a meu
respeito.
Entre os viciados chega um momento que j nada
mais importa, em que j no pertencemos mais a
nenhuma turma. Eu conhecia alguns dos viciados mais
antigos, aqueles que j se picavam h mais de cinco
anos e ainda sobreviviam. Com relao a esses,
tnhamos uma espcie de admirao especial, pois
tinham uma personalidade muito forte. Dava-nos,
tambm, um certo orgulho poder contar aos outros na
"cena" que os conhecamos. Paradoxalmente eu os
desprezava, pois eram a total degradao humana.
Por outro lado, ns, os jovens, tnhamos muito medo
deles. No lhes restava mais nada, nem moral, nem
conscincia, e muito menos piedade. Quando se
encontravam em estado de crise total, eram capazes
at mesmo de matar para obter herona. O mais
agressivo de todos chamava-se Manu, o Vilo. Todos o
chamavam assim, e ele honrava o seu apelido.
Quando os revendedores o avistavam, corriam mais
depressa do que diante de uma batida policial, pois
caso ele conseguisse segurar um, simplesmente lhe
roubava todo o estoque. Ningum da turma ousava
ficar contra ele. E com os viciados iniciantes, nem
falar. . .
Uma vez eu o vi em ao. Eu havia acabado de
me fechar em um banheiro para me picar e, de
repente, vi um cara saltar por cima do muro de
separao e cair em cima de mim. Era o prprio!
Tinham-me contado que esse era seu modo de agir:
esconder-se nos banheiros de senhoras e esperar que
uma menina viesse se picar.
Sabendo que ele no hesitaria em me bater, deilhe
imediatamente minha dose e a seringa. Ele saiu,
ficou diante do espelho e se picou no pescoo. Esse
cara no tinha mais medo de nada, e aquele era o
nico lugar de seu corpo em que podia enfiar uma
agulha. Ele sangrava como um porco. Acho que ele se
picou na artria. Ele no dava bola. Disse apenas
"obrigado" e desapareceu.
Eu, pelo menos, nunca chegarei a esse ponto.
Estou certa disso, pois, para sobreviver tanto tempo
quanto Manu, o Vilo,  preciso ser muito forte. E esse
no  o meu caso.
Na nossa turma tudo girava, cada vez mais, em
torno da "virao" e dos clientes. Os rapazes tinham
os mesmos problemas que ns. Ns nos
interessvamos uns pelos outros e nos auxilivamos
mutuamente. Ns, as meninas, trocvamos nossas
experincias. Com o tempo o crculo de clientes se
restringiu, e o novo, para mim, possivelmente j era
conhecido por Babsi ou Stella. Era muito til conhecer
o terreno antecipadamente.
Havia uns caras mais recomendveis e outros,
menos. Havia aqueles que seria melhor evitar. Uma
classificao onde interessava a profisso do cliente, a
situao da famlia, etc. Alis, ns nunca falvamos
das confidencias que eles nos faziam sobre suas vidas
privadas. A nica coisa que nos importava era saber se
ele era ou no um "bom cliente".
O "bom cliente" era, por exemplo, aquele que
tinha um medo pavoroso de doenas venreas e usava
preservativo. Infelizmente era raro. A maior parte das
meninas que se prostituam de uma forma no
profissional acabavam pegando alguma coisa, mas no
iam ao mdico, de medo que ele percebesse que elas
se drogavam.
O "bom cliente" era tambm o cara que pedia, ele
mesmo, que o chupssemos e no queria nada mais.
Isso evitava a perda de tempo na discusso das
condies. Mas dvamos, tambm, um crdito ao cara
relativamente jovem e no muito gordo. Havia ainda
aquele que no nos tratava como mercadoria e se
mostrava mais ou menos amvel e que chegava at a
nos convidar para jantar, de vez em quando.
Mas o principal critrio era, evidentemente, a
relao qualidade-preo; o que o cara estava disposto
a pagar em troca do servio prestado. A evitar: os
caras que no respeitavam as condies e, uma vez no
hotel, tentavam nos roubar, com ameaas ou com
palavras bonitas, "algumas coisas mais"... Trocvamos
principalmente informaes sobre os piores, traando
o perfil mais preciso possvel: os caras que depois
queriam recuperar o dinheiro usando at a fora, se
fosse necessrio, dizendo que no se tinham satisfeito.
 verdade que esse tipo de coisa acontecia mais
freqentemente com os rapazes.
Chegamos ao ano de 1977. No vi o tempo
passar. Mal percebia se era inverno ou vero, Natal ou
Ano-Novo, para mim todos os dias eram quase iguais.
Ganhei dinheiro como presente de Natal, o que me
permitiu fazer um ou dois clientes a menos. De todo
jeito, nesse perodo de festa quase no havia clientes.
Passei algumas semanas totalmente pirada. No
pensava em nada, no percebia mais nada. Estava
totalmente fechada em mim mesma, mas no sabia
quem era eu. s vezes no sabia nem mesmo se
estava viva.
Alguns acontecimentos dessa poca mal ficaram
gravados em minha memria. Alis, nenhum deles
valia a pena ser guardado em minha massa cinzenta.
Isso at certo domingo de janeiro. Voltei para casa de
madrugada, e no fundo at me sentia bem. Deitada
em minha cama, me imaginava uma menina de volta
do baile. Ela conheceu um garoto muito bonito e se
apaixonou. Agora s me sentia mais ou menos feliz
quando me imaginava uma outra pessoa. Meu sonho
preferido era me imaginar uma adolescente feliz, to
feliz quanto aquela que faz publicidade da Coca-Cola.
Ao meio-dia minha me me acordou e me trouxe
o almoo na cama. Ela sempre fazia isso quando
estava em casa, no domingo. Fiz esforo para engolir
algumas colheradas. Foi difcil: alm do iogurte, do
queijo branco e do manjar, nada mais me descia.
Depois peguei minha sacola de plstico, que estava
em estado pavoroso: no tinha mais ala e estava
toda arrebentada porque punha ali minha roupa, alm
da seringa e dos cigarros.
Como estava completamente indiferente, no me
ocorreu a idia de troc-la. Alm disso, nem me
ocorreu a idia de evitar passar diante de minha me
com o saco plstico embaixo do brao, a caminho do
banheiro. Eu me fechei no banheiro. Em casa ningum
fazia isto. Como todos os dias, me olhei no espelho. Vi
um rosto estranho, estragado. Havia muito tempo que
no me reconhecia mais naquela imagem do espelho.
Aquele rosto no me pertencia, nem aquele corpo
esqueltico. O corpo, alis, eu nem sequer o sentia.
Nem mesmo quando estava doente se manifestava. A
herona o tornara insensvel  fome,  dor e at
mesmo  febre. Ele s despertava quando estava em
crise.
De p, diante do espelho, preparei a picada. Tinha
um pouco da especial, a "cinzenta". Chamamo-la
assim, por oposio  branca, de cor branca ou
acinzentada, que geralmente encontramos no
mercado. A "cinzenta"  um p cinzento salpicado de
verde, herona particularmente impura, mas que
provoca um flash louco. Age sobre o corao, e 
preciso fazer a dosagem com muito cuidado: se
injetamos muito, morremos. Mas tinha tanta vontade
desse super flash...
Enfiei a agulha na veia, inspirei, e o sangue subiu
logo depois. Havia filtrado muitas vezes minha
"cinzenta", mas ela ainda tinha um monte de sujeira.
Pronto: a agulha entupiu. O que poderia acontecer a
seguir era mais ou menos isso: a agulha entupiria no
momento preciso, pois, se o sangue se coagulasse na
seringa, no havia mais nada a fazer, era preciso jogar
fora a dose.
Apertei com todas as minhas foras para fazer
passar a sujeira pela agulha. Tive sorte, funcionou.
Acionei, mais uma vez, a seringa para injetar at a
ltima gota. A agulha voltou a entupir. Fiquei furiosa.
Faltavam de oito a dez segundos para eu atingir o
flash. Apertei com todas as minhas foras. A agulha se
soltou, e o sangue espirrou no cho.
O flash foi uma coisa louca. Uma cibra pavorosa
na regio do corao. Um milho de agulhas me
atravessaram a pele do crnio. Segurei minha cabea
com as duas mos, para impedi-la de estourar com as
marteladas. Parecia que algum estava me dando
socos. E de repente meu brao esquerdo estava
paralisado.
Quando consegui me mexer, peguei o leno de
papel para limpar as manchas de sangue. Felizmente a
parede do banheiro era azulejada e foi fcil limp-la.
Enquanto estava limpando, minha me batia na porta.
Ela j comeava a dar bronca:  Abra. Deixe-me
entrar. Por que voc fechou a porta? Mais uma mania.
Eu:  Cale a boca. Acabo logo.  Ela me irritava
pressionando justamente naquele momento. Esfreguei
como uma louca. Na minha pressa, esqueci algumas
manchas e deixei o leno sujo de sangue na banheira.
Abri a porta, e minha me entrou de supeto. No
desconfiou de nada, acho que ela estava com vontade
de mijar. Carreguei minha sacola de plstico para meu
quarto, me deitei e acendi um cigarro.
Mal tinha dado minha primeira tragada, minha
me entrou correndo em meu quarto. Gritava:  Voc
se droga!
Eu:  Que idia. O que te faz falar assim?
Ela se jogou para cima de mim e me forou a
abrir os braos. No me defendi. Minha me viu
imediatamente a marca fresca da picada. Ela pegou o
saco plstico e o esvaziou na cama. A seringa caiu, um
pouco de fumo e um monte de pedaos de papel de
alumnio. Eles serviam para embrulhar a herona e eu
os guardava  quando estava em crise e na
impossibilidade de encontrar droga, raspava-os com
minha lima de unha e preparava uma picada com o p
da herona recolhida.
Minha me no tinha necessidade de outras
provas. Alis, ela tinha compreendido tudo, vendo o
banheiro: alm do leno e das manchas de sangue, ela
havia descoberto traos de queimado na colher em
que esquentei minha droga. Ela havia lido alguns
artigos sobre a herona... o suficiente para deduzir.
No procurei negar. Fiquei arrasada, apesar da
terrvel picada que acabava de tomar. Chorei, incapaz
de pronunciar uma palavra. Minha me tambm no
falou mais nada. Ela tremia. Isso lhe provocou um
tremendo choque. Sa do meu quarto e a ouvi
conversando com seu companheiro Klaus. Tinha um ar
mais calmo e me perguntou:  Voc no pode fazer
nada contra isso? Voc no quer parar?
Respondi-lhe:  Mame,  o meu maior desejo.
Sinceramente. Voc pode acreditar em mim. Quero
sair de fato desta merda.
Ela falou:  Bem, ento vamos enfrentar isso
juntas. Vou tirar umas frias para poder estar todo o
tempo com voc, durante a privao da droga. E
comeamos hoje.
Eu:  Magnfico. Mas h outra coisa. Eu no fico
sem Detlef. Tenho necessidade dele, e ele de mim. Ele
tambm quer se desintoxicar. Conversamos muitas
vezes sobre isso.
Minha me estava estupefata.  O qu? Detlef
tambm?  Ela sempre o achara genial e estava
muito contente de que eu tivesse um amigo to gentil.
Respondi:  Detlef tambm, naturalmente. Voc acha
que eu teria feito isso sozinha? Detlef no teria
permitido. Mas ele no quer que eu me desintoxique
sem ele.
Sentia-me muito bem. De repente estava toda
feliz com a idia de que Detlef e eu iramos nos
desintoxicar juntos. Alis, era um projeto que
tnhamos h muito tempo. Mas minha me estava
numa pior. Pensei que de um momento para outro ela
iria ter uma crise de nervos. A histria de Detlef lhe
dera outro golpe. Era um choque enorme para ela
saber que no vira e nem pressentira nada durante
dois anos. Agora ela comeava a desconfiar de outras
coisas: queria saber como me virava para arranjar
dinheiro. E logo em seguida ela disse:  E a
prostituio e tudo o mais?. . .
Mas no podia, no tinha foras para lhe dizer a
verdade. Menti:  Ah, pedimos dinheiro. Sempre
encontro pessoas que me do alguns marcos. s
vezes, trabalho como faxineira.
Minha me no insistiu. Como sempre, ela ficava
com um ar muito feliz quando eu aquietava os seus
medos. De qualquer jeito, ela soubera o suficiente.
Estava a nocaute. Ela me dava pena, fiquei com a
conscincia pesada de v-la daquele jeito.
Partimos sem perda de tempo em busca de
Detlef. Ele no estava na Estao Zoo, nem na casa de
Axel e Bernd.
 noite, fomos ver seu pai. Os pais de Detlef
tambm eram divorciados. Seu pai era funcionrio
pblico. Havia muito tempo que ele sabia de Detlef.
Minha me o condenou por no lhe ter dito nada. Ele
comeou a chorar. Era muito duro, para ele, ter um
filho que se picava e se prostitua. Estava feliz de ver
minha me tomar pulso da situao. Repetia sem
parar:  Sim,  preciso fazer qualquer coisa.
O pai de Detlef guardava em um armrio toda
uma coleo de sonferos e de tranqilizantes. Ele me
deu alguns, pois lhe disse que no tnhamos Valium, e
sem ele uma privao de drogas seria atroz. Peguei
quatro ou cinco Mandrix, um tubo de Gemetrin e
cinqenta Valium-10. No caminho de volta, no metr,
tomei um monte de comprimidos, pois sentia que a
crise ia chegar. Aquilo funcionou, e passei uma noite
agradvel.
Na manh seguinte Detlef tocou a campainha.
Estava em plena crise de privao. Era legal paca, de
sua parte, ter vindo assim sem se picar antes. Sabia
muito bem que no tinha mais herona. Falou: 
Quero estar no mesmo ponto em que voc para
comear o tratamento de privao de drogas.  Que
cara formidvel!
Como eu, Detlef queria sinceramente se
desintoxicar. E ele estava muito contente com o que
acontecera. O nico seno era que ns dois
ignorvamos, e nossos pais tambm, que  uma
loucura fazer desintoxicao a dois, pois sempre chega
o momento em que um tem uma recada e arrasta o
outro junto.  claro que tnhamos ouvido falar, mas
ainda tnhamos iluses a respeito. Estvamos
convencidos de que no ramos iguais aos outros
toxicmanos. Alm de tudo, parecia-nos
absolutamente fora de propsito um de ns fazer
qualquer coisa de importante sem o outro.
Graas s plulas do pai de Detlef, no houve
problemas pela manh. Falvamos do que seria nossa
vida "depois" (vamos tudo cor-de-rosa) e nos
prometamos agentar a barra corajosamente nos
prximos dias. Estvamos felizes, apesar da dor que
comeava.
 tarde, todos os diabos se libertaram. Tomamos
plulas aos montes, acompanhadas de copos cheios de
vinho. Mas no serviu para nada. Senti um peso
enorme atrs do joelho. Deitei esticando as pernas,
tentei me distender e contrair alternadamente meus
msculos. Mas perdi o controle. Apoiei minhas pernas
no armrio. Elas grudaram no armrio e no havia
maneira de solt-las. Rolei no cho, mas meus ps
ficaram, no sabia muito bem como, colados no
armrio.
Estava molhada, com um suor gelado que me caa
nos olhos. Tinha frio, tremia, e aquele odor de suor
fedia horrivelmente. Devia ser o veneno que saa por
todos os meus poros. Tinha a verdadeira impresso de
estar em pleno exorcismo.
Para Detlef foi pior ainda. Estava pssimo. Tremia
de frio e tirou a blusa. Sentou-se no meu lugar
favorito, no canto, ao lado da janela, mas parecia que
estava correndo: suas pernas magras como palitos de
fsforos no paravam de ir e vir, agitadas por
sobressaltos terrveis. No era nem um terremoto, era
um verdadeiro sismo. Ele limpava sem parar o suor
que lhe inundava o rosto, dobrava-se em dois,
contorcia-se, gritando de cibras no estmago.
Detlef fedia mais que eu. A sala estava toda
infestada. Eu me lembrei de ter ouvido algum dizer
que a amizade entre viciados nunca resiste a um
tratamento de desintoxicao bem-sucedido. Mas eu
ainda amava Detlef, mesmo fedendo.
Detlef se levantou, se arrastou at meu quarto e
ficou diante do espelho dizendo:  No agento mais.
 No encontrei nenhuma resposta para lhe dar. No
tinha foras para dizer palavras de encorajamento.
Tentei no pensar como ele. Tentei me concentrar em
um romance de terror comprado a preo de banana.
Dei uma folheada numa revista, mas, como estava
nervosa, acabei rasgando-a.
Tinha a boca e a garganta terrivelmente secas. No
entanto, minha boca estava cheia de saliva. No
conseguia engoli-la, e comecei a tossir. Quanto mais
me esforava para engolir a saliva, mais tossia. Tive
um acesso de tosse que no acabava mais. Vomitei
sobre o tapete. Era uma espcie de espuma branca
(meu cachorro vomitava assim quando engolia erva).
Tossia e vomitava, tossia e vomitava.
Minha me ficava quase todo o tempo na sala de
estar. Quando vinha nos ver, tinha um ar perdido. No
parava de correr ao centro comercial para comprar uns
troos que ramos incapazes de engolir. Por fim, ela
me trouxe bombons de malte, o que funcionou. Minha
tosse acabou. Minha me limpou o tapete. Ela foi
adorvel, e eu no podia nem mesmo lhe dizer
"obrigada".
Os comprimidos e o vinho depois comearam a
agir. Engoli cinco Valium-10, dois Mandrix, e quase
esvaziei uma garrafa de vinho. O suficiente para
abater um cara normal por muitos dias. Mas meu
organismo mal reagiu, tal era o grau de intoxicao.
Ao menos isso me acalmou. Deitei na cama. Pusemos
uma caminha ao lado, e Detlef veio se deitar. Ns no
nos tocvamos. Cada um estava absorvido consigo
mesmo. Ca numa espcie de sonolncia. Dormia, mas
no percebia meu sono, pois tinha plena conscincia
daquelas dores de merda. Tudo de uma s vez. Tinha
a impresso de que todos, principalmente minha me,
podiam ler meus pensamentos imundos, ver que eu
no passava de um monte de merda. Tive horror de
meu corpo. Se ele pudesse morrer e se separar de
mim...
 noite, voltei a tomar alguns comprimidos. Um
indivduo normal morreria. Para mim, isto me permitia
ao menos dormir algumas horas. Um sonho me
despertou: eu era um co que sempre fora bem
tratado pelos homens, at o dia em que o prenderam
em um canil e o torturaram at a morte.
Detlef agitava os braos para todos os lados e me
batia involuntariamente. A luz estava acesa. Ao lado
da minha cama uma bacia cheia d''gua e uma
esponja. Foi minha me que as trouxe. Limpei meu
rosto cheio de suor.
Parecia que Detlef dormia profundamente, mas
seu corpo se agitava, suas pernas pedalavam e seus
braos pareciam molinetes.
Agora eu j me sentia um pouco melhor. Tinha
foras para limpar o rosto de Detlef com a esponja. Ele
no se dava conta de nada. Estava certa de que o
amava apaixonadamente. Um pouco mais tarde, em
meu meio sono (adormeci de novo), sentia que Detlef
passava a mo nos meus cabelos.
Na manh do dia seguinte estvamos bem
melhor. A velha regra segundo a qual o segundo dia
do tratamento  o mais terrvel no se aplicava a ns.
A verdade  que o nosso primeiro tratamento foi bem
mais fcil que os outros que se seguiram. Ao meio-dia
recomeamos at a conversar. Primeiro coisas sem
importncia e, em seguida, sobre nosso futuro.
Juramos nunca mais tomar herona, LSD OU
comprimidos. Queramos ter uma vida calma, cercada
de pessoas tranqilas. Fumaramos maconha como
antes (para ns, eram os "bons tempos"), porque
queramos ter amigos fumantes, pois, em geral, so
pessoas muito calmas. Evitaramos os alcolatras, que
so tipos muito agressivos.
Detlef iria trabalhar.  Vou procurar meu expatro
e lhe direi que fiz besteiras, mas que agora
compreendi... voltei a ser um cara que pensa. No
fundo, meu patro sempre se mostrou compreensivo.
Recomearei meu aprendizado... desde o incio...
 Eu serei uma aluna aplicada, conseguirei o meu
diploma e talvez at chegue a fazer o exame
vestibular.
A minha me entrou, com uma surpresa genial:
ela estivera com o mdico, que lhe dera uma receita
para Valeron. Detlef e eu tomamos, cada um, vinte
gotas, como prescreveu o mdico. O Valeron deu
certo. Tomamos cuidado para no abusar, pois o
frasco deveria durar a semana toda. Minha me nos
preparou alguns pratinhos, pois tnhamos um apetite
fora do comum. Ela nos comprou sorvetes e tudo o
que queramos. Um monte de coisas para ler. Histrias
em quadrinhos. Antes eu achava histria em
quadrinhos uma chatice. Agora no me contentava
mais em dar uma olhadinha. Detlef e eu, juntos,
olhvamos cada desenho e achvamos alguns to
gozados que nos dobrvamos de rir.
No terceiro dia, estvamos em forma.  claro que
seguamos encharcados de medicamentos: Valeron,
Valium, vinho. s vezes nosso organismo ainda se
defendia contra o tratamento, mas em geral nos
sentamos muito bem. Na noite do terceiro dia fizemos
amor pela primeira vez, depois de muito tempo, pois a
herona nos tirava a vontade. E, pela primeira vez
desde que tinha sido desvirginada, fizemos amor sem
estar drogados. Foi fantstico. Havia muito tempo que
no nos amvamos assim to intensamente. Ficvamos
horas na cama, nos acaricivamos e seguamos
transpirando.
Na verdade, poderamos estar de p desde o
quarto dia, mas passamos trs dias mais, deitados,
nos amando, sendo badalados por minha me e a
engolir Valium e vinho. Ns comentvamos que o
tratamento no era to terrvel e que seria formidvel
desligar-nos da herona.
No stimo dia estvamos de p. Mame estava
toda contente. Ela nos beijou. A semana que
acabvamos de viver transformara minhas relaes
com ela. Senti por ela qualquer coisa semelhante a
amizade e gratido. E estava tambm loucamente feliz
de ter Detlef... reencontrei a felicidade. Pensei: "Um
rapaz assim, no h dois no mundo". E se entre os
outros viciados o tratamento mata o amor, para ns
foi o contrrio... ns nos amvamos ainda mais. Foi
formidvel.
Falamos a minha me que tnhamos vontade de
tomar ar fresco, pois acabvamos de passar a semana
toda fechados em um quarto minsculo. Ela aprovou:
 Para onde vamos?  perguntou Detlef. No tinha
nada a lhe propor. Percebemos, naquele momento,
que no tnhamos mais para onde ir. Todos os nossos
amigos eram viciados. E todos os lugares que
conhecamos e onde nos sentamos bem eram lugares
em que nos picvamos. Encontrar os fumadores de
maconha? No tnhamos mais contato com eles.
De repente comecei a me sentir mal. No
tnhamos mais Valeron, e, por isso, estvamos
nervosos e tivemos vontade de sair. O fato de no
sabermos onde ir nos punha nervosos. Eu me senti de
repente limpa, vazia... a herona acabara, e no
sabamos para onde ir.
Fomos em direo ao metr. Automaticamente,
mesmo sem ter decidido. Sem ter conscincia,
estvamos como que presos por um fio invisvel.
Estvamos novamente na Estao Zoo. Detlef, quieto
desde a nossa sada, finalmente abriu a boca:  
preciso ao menos irmos cumprimentar Axel e Bernd.
Eles devem pensar que estamos presos ou no cemitrio.
Eu, bruscamente aliviada, falei:   claro.
Precisamos contar-lhes do nosso tratamento. Talvez
possamos convenc-los a fazer o mesmo.
Encontramos quase em seguida Axel e Bernd.
Eles estavam cheios de droga, a jornada tinha sido
boa. Detlef contou tudo. Eles acharam formidvel o
que fizemos. E, depois de nos terem felicitado,
disseram que voltariam para casa, para se picar.
Detlef e eu trocamos olhares. Nossos olhares se
cruzaram e sorrimos. Ocorreu-me um pensamento: o
primeiro dia seria uma loucura. Detlef disse:  Sabe
que poderamos tomar uma picadinha aqui ou acol? 
extraordinrio, pois no somos dependentes. Tudo o
que  preciso fazer  tomar muito cuidado para no
recair em dependncia, pois nem me imagino
passando por outro tratamento.
Eu:   claro, uma picadinha de vez em quando 
muito legal. Alis, agora estamos prevenidos, e ns
sabemos muito bem que  preciso desconfiar da
dependncia.  Perdi toda a razo. S tinha um
pensamento: me picar.
Deflet disse a Axel:  Voc pode nos dar um
pouco? Prometo que lhe devolveremos.  Axel e
Bernd acharam que seria melhor pensar bem na coisa
e nos disseram que na semana seguinte fariam como
ns. Era s encontrar Valeron. Seria legal paca voltar
ao trabalho e comprar herona de vez em quando.
Duas horas depois de termos deixado o
apartamento de minha me, Detlef e eu estvamos
novamente drogados. Foi bom demais. Caminhvamos
de braos dados na Kurfrstens-trasse. Era formidvel
estar drogado e passear assim, sem pressa, sem ter
que se preocupar com a maneira de ganhar dinheiro
para a herona da manh seguinte. Detlef me disse
todo feliz:   isso a, amanh de manh faremos um
pouco de ginstica e tocaremos para a frente uma
jornada sem herona.
Ele parecia duro como ferro. Nossa primeira iluso
foi ter imaginado que a semana que passamos na casa
de mame, sofrendo e vomitando, tinha sido uma
verdadeira desintoxicao. O veneno, pelo menos,
sara. Conseguimos eliminar de nossos corpos a
herona. Mas, por outro lado, nos entupamos cada vez
mais com Valeron, Valium, etc. E nem pensvamos o
que fazer depois da desintoxicao fsica. Minha me
tambm era ingnua. Ela tinha esperanas de que
tivssemos sado daquela. Como, alis, podia ela saber
que no era bem assim?
Ns, na verdade, deveramos saber. Tnhamos
muitos exemplos  vista. Mas no queramos olhar as
coisas de frente. Alm disso, no passvamos de duas
crianas, e muito ingnuas. Com muita experincia, 
bem verdade, mas isso no mudava nada.
Agentamos firme durante quase um ms.
Conseguimos fazer o que nos propusramos fazer:
nada de prostituio, a picada somente quando
tivssemos um pouco de dinheiro ou quando nos
dessem uma dose de herona. Mas, mesmo que a
gente no quisesse admitir, estvamos cada vez mais
 caa dos meios para encontrar dinheiro ou de uma
alma caridosa que nos desse a herona.
Foi um perodo sensacional. No ia  aula, pois
minha me queria que as primeiras semanas sem
herona fossem particularmente agradveis para mim.
E permitiu que Detlef continuasse a morar em casa.
Detlef me revelava novos aspectos de sua
personalidade, e eu o amava ainda mais, se  que isso
 possvel. Ele estava despreocupado, alegre, cheio de
novas idias. ramos dois adolescentes de bom humor
e cheios de entusiasmo. Ao menos assim parecia. . .
Fizemos grandes passeios pela floresta. s vezes
levvamos meus dois gatos e os deixvamos subir nas
rvores. Fazamos amor quase todas as noites. Tudo
era maravilhosamente legal. s vezes, passvamos
trs dias sem nos picar. Quando encontrvamos
herona, nos mandvamos o mais rpido possvel
desse lugar imundo que  a Estao Zoo. Nosso lugar
favorito era a Kurfrstendamm: passevamos
misturando-nos com a multido de burgueses. No
fundo, gostaramos de ser como eles (um pouquinho
diferentes). Em todo caso, queramos nos mostrar,
mostrar ao mundo inteiro que, mesmo que nos
picssemos, no ramos viciados.
Fomos, completamente drogados,  discoteca dos
"bem-comportados". Olhamos os outros, jovens e
burgueses "como era preciso ser", pensando que
ramos quase como eles, os no-drogados. s vezes
passvamos o dia inteiro em casa, olhando pela janela
e contando histrias, tratando de colher folhas de
ervas daninhas que cresciam nas rvores diante do
prdio.
Eu me pendurava na janela, Detlef me segurava
pelas pernas e conseguia pegar algumas folhas. Nos
beijvamos, imitando doidos, ramos. E a maior parte
do tempo nos comportvamos como infelizes imbecis.
Nunca falvamos seriamente do nosso futuro. s
vezes, muito raramente, me sentia mal quando
aparecia um problema. Por exemplo, quando Detlef e
eu brigvamos por uma besteira qualquer. No
conseguia sair daquela, ficava me remoendo e tinha
medo de perder o controle por uma coisinha to boba.
Quando isso acontecia, tinha vontade de me picar,
porque resolveria o assunto de uma s vez.
Mas havia um problema. Klaus, o companheiro de
minha me, criou um caso por causa de Detlef. Disse
que o apartamento era muito pequeno para mais um.
Minha me no ousava enfrent-lo, e eu, mais uma
vez, estava totalmente desamparada. Mais ou menos
como no dia em que Klaus deu ordem para me separar
de meu co. De uma s vez tudo desmoronou. Era o
fim da vida tranqila. Era preciso que eu voltasse 
escola, e Detlef no tinha mais o direito de passar a
noite comigo.
Nem sequer me dei conta de que faltei trs
semanas s aulas. De qualquer forma, havia muito
tempo que perdera o fio da meada. Mas tinha um novo
problema: o fumo. Quando no estava drogada,
fumava quatro ou cinco maos seguidos, por dia. E,
desde a primeira hora de aula, no agentava mais,
saa para fumar alguns cigarrinhos no banheiro. E
continuava a fumar toda a manh, a ponto de vomitar.
Vomitava na cesta de papis, logo que chegava  sala
de aula.
Pela primeira vez, depois de trs semanas, no
veria Detlef durante o dia. No dia seguinte, tive um
pressentimento, e, na sada da escola, fui ao Zoo. Meu
Detlef estava l. Esperava um cliente.
No suportei reencontr-lo naquele lugar imundo,
esperando alguns caras nojentos. Mas ele me explicou
que no tinha nem uma rodada a mais. No sabia o
que fazer. Voltou a dormir na casa de Axel e Bernd, ia
todos os dias  Estao Zoo e voltara a tomar sua
herona cotidiana. Se eu quisesse v-lo, seria preciso
que eu voltasse para l. S tinha a ele. Ningum mais.
No poderia viver sem ele. Voltei, quase todos os dias,
 Estao Zoo.
A me de Christiane
Naquele domingo, quando vi manchas de sangue
no banheiro e vi o brao de Christiane, a verdade me
saltou aos olhos. Foi um duro golpe. Christiane me fez
constatar a falncia dessa educao da qual eu tanto
me orgulhava. Naquele dia compreendi que tinha feito
tudo errado. Uma idia fixa me orientava: no repetir
os erros que meu pai cometera ao nos educar.
Quando Christiane comeou a freqentar o Sound
no gostei nada, nada. Sua amiga Kessi e outras
meninas do Centro de Jovens iam ao Sound. Por que
no deix-la ir tambm? Pensava em todos esses
pequenos prazeres que, graas ao meu pai, no pude
ter quando era jovem.
Continuei a ser tolerante quando Christiane me
apresentou seu amigo Detlef. Ela o havia conhecido no
Sound. Ele me deu muito boa impresso: boas
maneiras, aberto e simptico. Um bom menino. Achei
perfeitamente normal que Christiane se enamorasse
dele. Pensava:  a idade do primeiro amor, e o
importante  que seja um bom menino. Percebia que
ele gostava verdadeiramente da minha filhinha.
Se naquela poca algum me houvesse dito que
os dois se picavam, eu o chamaria de louco. No
percebi nada de especial alm dos sentimentos de
Christiane por Detlef.
Antes, Christiane era rebelde e indisciplinada, e
agora parecia mais calma e equilibrada. Parece que
mesmo na escola as coisas iam melhor.
Depois das aulas nos telefonvamos e ela me
dizia o que pretendia fazer: ir  casa de uma amiga,
esperar Detlef na sada do seu trabalho. Nada que
parecesse repreensvel. Durante a semana, ela
geralmente voltava para jantar. Se fosse chegar
atrasada, me telefonava. s vezes saa  noite para ir
ao Centro de Jovens ou encontrar-se com amigos 
ao menos era isso que me contava.
Recomeou a me ajudar nos afazeres domsticos,
e eu, em recompensa, dava-lhe uns presentinhos: um
disco, um marco a mais na mesada. Meu companheiro
Klaus no concordava comigo, pois achava que eu
deveria pensar em mim de vez em quando, em vez de
me deixar explorar. Em certo sentido talvez Klaus
tivesse razo, mas eu me sentia obrigada a fazer
alguma coisa de especial por Christiane, de indeniz-la
por alguma coisa. Na poca eu no conseguia ver claro
qual a razo disso.
Meu companheiro achava que eu estava errada
em autorizar Christiane a passar as noites na casa de
amigas. Na verdade, Klaus no acreditava em
Christiane quando ela dizia que ia dormir na casa de
uma amiga. Vigi-la? No era meu gnero. Meu pai
me espionou a vida toda e nunca encontrou nada por
que pudesse me repreender.
Um dia Christiane me contou que tinha dormido
com Detlef. "Mame, voc no faz idia como ele foi
gentil comigo!" Ento compreendi  ao menos
pensava  a razo pela qual queria dormir nos
sbados  noite na casa de uma amiga.
Aconteceu, e no me parecia uma coisa to
terrvel. Deixei que ela fosse dormir na casa de Detlef
duas ou trs vezes.
Como poderia impedi-los de dormir juntos? Alis,
os psiclogos dizem nos jornais, na televiso, que os
jovens de hoje so suficientemente maduros e que 
preciso no reprimir a sua sexualidade.  tambm a
minha opinio.
Christiane, pelo menos, tinha uma ligao estvel.
Isso me tranqilizava. Via tantas jovens da vizinhana
trocar de parceiros como se troca de camisa. . .
Para ser sincera, s vezes me sentia um pouco
perturbada, principalmente por causa dos amigos que
ela arrumou no Sound. Ela me havia dito que alguns
deles se drogavam. Nunca me falou de herona e
alucingenos. Ela me contou coisas horrveis. Disseme,
em tom confidencial, que Babsi era uma
toxicmana. Pela maneira como ela me contava as
coisas, com um ar de quem acha tudo isso asqueroso,
nunca imaginei que ela tambm se drogava.
Quando lhe perguntava:  Por que voc anda
com essas pessoas?  Christiane me respondia: 
Mame, me d uma pena. Ningum quer saber deles.
Eles tm necessidade de que os ajudemos e ficam to
felizes quando algum conversa com eles. 
Christiane sempre teve bom corao. Hoje sei que ela
falava de si mesma.
Uma noite, durante a semana, ela voltou muito
tarde, mais ou menos onze horas, e me disse: 
Mame, no fique zangada, por favor. Fui a um centro
de recuperao para jovens drogados com uns amigos.
So lugares onde a gente fala com os drogados e
tenta tir-los dessa.  Acrescentou, com um
sorrisinho engraado:  Ora, digo isso por dizer, eu
no tenho problemas.  Perguntei:  E Detlef?  Ela
disse:  Nada disso. Era s o que faltava!
Isto foi no fim de 1976. A partir dessa data tive
suspeitas, mas afastei-as todas. E no quis ouvir meu
companheiro. Ele apostava qualquer coisa como
Christiane se drogava. Eu no queria ouvir nada. No
 to fcil reconhecer nosso fracasso como me. Que
tudo o que fizemos no serviu para nada. E teimava:
"No, a minha filha, no". Tentava pelo menos
control-la nesta cidade? Mesmo que eu fosse uma
perita na arte de perceber dissimulao, nunca a
imaginaria na Estao Zoo. Ficava contente quando ela
me chamava l pelas nove horas para dizer:  No se
inquiete, mame, chego imediatamente.  E eu, pura
e simplesmente, no saa mais.
s vezes ela me obedecia. Cheguei a ouvi-la
quando dizia aos seus amigos pelo interfone, quase
com orgulho:  Hoje no saio porque no tenho
autorizao.  Parecia que no estava aborrecida. 
curiosa esta contradio. Se, por um lado, ela era
indisciplinada, insolente como ningum e no havia
meio de se falar com ela, por outro, quando se
delimitavam linhas claras de conduta, ela parecia
querer respeitar. Mas j era muito tarde.
A hora da verdade chegou num domingo nos fins
de janeiro de 1977. Foi terrvel. Queria ir ao banheiro,
a porta estava trancada, coisa no habitual em nossa
casa. Christiane, l dentro, no queria abri-la. Naquele
momento tomei conscincia de que at ento eu no
queria mesmo era saber da verdade. Seno, teria
compreendido imediatamente o que se passava no
banheiro.
Eu batia na porta, mas Christiane no abria.
Comecei a ficar com raiva. Pedi que abrisse e comecei
a gritar. Finalmente ela abriu e saiu correndo. Vi uma
colher chamuscada na banheira, manchas de sangue
na parede. Era a prova, a confirmao. Como nas
descries de jornais. Meu companheiro disse
simplesmente:  Voc acredita agora?
Fui atrs dela at o quarto. Disse-lhe: 
Christiane, o que fez?  Estava completamente
arrasada, meu corpo to-dinho tremia. No sabia se iria
comear a chorar ou a gritar. Antes de fazer qualquer
coisa, era preciso falar com ela. Chorando muito, no
olhava para mim. Perguntei:  Voc se picou com
herona?
No houve resposta. Seus soluos a impediam de
falar. Estiquei seu brao  fora e vi as marcas. Sobre
os dois braos. No era muito impressionante, pois a
pele no estava azulada. Somente duas ou trs
picadas, contando com a ltima, quase insignificante:
um ponto avermelhado.
Ela confessou, entre lgrimas. A pensei: "Vou
morrer". Acho que tinha vontade de morrer. Estava
to desesperada que era incapaz de pensar. Que
fazer? No tinha a menor idia.  E agora, que
fazemos?  perguntei a Christiane. Eu estava
totalmente desamparada.
Ento era esse o choque que queria evitar e
sempre adiei.  preciso dizer que no soubera
reconhecer os sintomas. Christiane no parecia
cansada, a maior parte do tempo estava alegre e cheia
de vida. A nica coisa que tinha percebido nas
semanas precedentes  que, s vezes, quando
chegava tarde, ia direto para o seu quarto. Eu atribua
esse gesto ao seu sentimento de culpa pelo fato de
chegar tarde.
Quando consegui me acalmar um pouco,
pensamos no que poderamos fazer. Christiane me
confessou que Detlef tambm se drogava. Era preciso
que eles se desintoxicassem juntos, pois caso
contrrio um reconduziria o outro. Isso eu
compreendia. Decidimos comear imediatamente a
supresso da droga, em casa.
Christiane parecia no querer me esconder nada.
Disse-me que Detlef ganhava dinheiro para comprar
herona se prostituindo com homossexuais. Que
horror! Eu estava estarrecida. Ela no me disse o que
fazia. No tive nenhuma suspeita: ela amava Detlef,
no ? Ele ganhava sempre o suficiente para comprar
droga, dizia Christiane.
Minha filha no se cansava de dizer:  Creia-me,
mame, quero deixar este negcio, eu lhe asseguro. 
Naquela noite fomos procurar Detlef. Pela primeira
vez, tomei conscincia dessas criaturas
descontroladas, miserveis, que perambulam pela
Estao Zoo. Christiane me disse:  No quero
terminar assim. Olhe esses caras: esto com a sade
arruinada.  Ela estava relativamente em bom
estado. Senti um pouco mais de segurana.
No encontramos Detlef. Fomos  casa de seu
pai. Ele j sabia de tudo sobre Detlef, mas no sabia
que Christiane tambm se drogava.  Por que no me
disse?  protestei. Respondeu-me que tivera
vergonha.
Ele parecia aliviado. Queria dar uma ajuda
financeira.
At ento ele no havia encontrado ningum que
ajudasse seu filho. Eu deveria parecer-lhe um anjo
enviado do cu. Sentia-me uma mulher forte. Se
soubesse o que me esperava!
No dia seguinte parti  caa de conselhos.
Primeira etapa: Servio de Ajuda  Criana. Disse: 
Minha filha de catorze anos se droga com herona. Que
devo fazer?  Eles no sabiam.  Coloque-a numa
instituio.  Nada disso, pois ela ter a impresso de
ser rejeitada. Eles no estavam capacitados a me dar
um endereo, e era preciso procurar um. Alm do
mais, isso levaria algum tempo, e as vagas em um
bom centro para crianas inadaptadas so raras.
Respondi:  No  nada disso. Ela no  inadaptada,
ela  toxicmana.  Olharam-me e sacudiram os
ombros. Finalmente me aconselharam a levar
Christiane a um orientador pedaggico.
Quando o propus a Christiane, ela apenas disse:
 Que besteira! Eles esto completamente por fora.
Tenho necessidade de uma terapia.  Neste campo,
os diferentes servios no tinham nada a me propor.
Circulei pelos Centro de Informao sobre Drogas,
Universidade Tcnica, Associao Caritas e outras
entidades. Eu no sabia por onde comear a enfrentar
o problema.
A supresso da droga em casa  muito arriscada,
disseram-me.  que uma desintoxicao sem terapia
no iria muito longe, mas, considerando a idade de
Christiane, eu poderia tentar. De qualquer forma, no
havia vaga para uma terapia antes de um trimestre.
Deram-me tambm alguns conselhos dietticos para
ajud-la a enfrentar a carncia.
Isso foi bom. Criei esperanas. Ao fim de oito
dias, estava segura de que eles tinham superado a
crise, graas a Deus. Christiane recomeou a ir
regularmente  escola.
Logo retomou sua vidinha. Ela sempre me dizia
onde estava, e quando me telefonava s oito horas da
noite me explicava:  Mame, fui a esse ou quele
caf. Encontrei Pierre ou Paul. Chego j.
Agora tomava minhas precaues. Controlava seu
brao, e no voltei a encontrar novos traos de picada.
No deixava que ela dormisse nos fins de semana na
casa de Detlef. Por outro lado, queria demonstrar
minha confiana nela. Deixava que ela voltasse mais
tarde nos sbados  noite. Estava atenta, mas no
sabia o que fazer, que atitude tomar. E quebrava a
cabea...
***
A idia de voltar a ser dependente da herona me
apavorava. Quando Detlef estava drogado e eu no, a
corrente no se ligava e ramos como dois estranhos.
Foi por isso que, quando Detlef voltou a me dar
herona, aceitei. Com a seringa na mo fazamos
promessas mtuas de nunca mais voltarmos a ser
dependentes. Convencemo-nos de que nunca
havamos sido e que ramos perfeitamente capazes de
parar da noite para o dia, ao mesmo tempo em que,
na realidade, comevamos a nos preocupar ansiosamente
com a nossa proviso de droga da manh
seguinte.
Recomeou toda a porcaria, de A a Z. S que no
estvamos conscientes de estar novamente enterrados
a tal ponto. Pensvamos que ainda detnhamos o
controle da situao.
Durante algum tempo Detlef trabalhou para ns
dois.  claro que isso no durou muito tempo, e eu
precisei voltar s ruas. No incio tive uma sorte imensa
e trabalhei somente com habitus, o que me pareceu
menos nojento.
Quando percebemos que eu seria obrigada a
voltar  prostituio, Detlef me levou  casa de
Jrgen, um homem bastante conhecido no mundo dos
negcios de Berlim. Ele era cheio da nota e almoava
com deputados. J tinha passado dos trinta, mas
mantinha um ar jovem. Utilizava o mesmo vocabulrio
que os jovens e compreendia seus problemas. Ele no
tinha uma vida como a dos outros executivos.
Na primeira vez em que fui  casa de Jrgen, vi
uma dezenas de jovens ao redor de uma imensa mesa
de madeira, iluminada por velas em candelabros de
prata e cheia de garrafas de vinho de excelente
qualidade. A conversa girava em torno de
generalidades e era muito descontrada. Percebi que
os caras e as "minas" sentadas  mesa tinham muita
classe. Jrgen parecia ser o lder, e pensei comigo que
ele devia ter, realmente, grana.
Primeiramente me impressionou ver aquele
apartamento suntuoso onde cada coisa devia ter
custado muita grana. Em seguida, achei formidvel
que com tudo isso aquele cara tivesse permanecido
to humano, to descontrado.
Fomos recebidos como amigos, apesar de sermos
os nicos viciados. Conversamos um pouco, a um
casal perguntou se podia ir tomar banho. Jrgen falou:
  claro. Os chuveiros so feitos para isso.
Os chuveiros ficavam ao lado da sala de estar. E
eles se foram. Alguns rapazes e algumas meninas os
seguiram. Logo depois eles voltaram, nus, pedindo
toalhas. Pensei: "Que turma legal! Parece que todos se
entendem. Detlef e eu, no futuro, teremos um
apartamento to luxuoso quanto o dele, e poderemos
convidar amigos legais".
Em seguida, muitas pessoas passeavam nuas ou
com uma toalha amarrada na cintura. E comearam a
trepar. Um casal foi para o quarto onde havia uma
cama imensa. Um grande corredor ligava a sala ao
quarto, e podamos ver o que se passava. O casal fazia
amor e outras pessoas foram juntar-se a eles naquela
imensa cama. Uns caras trepavam com meninas,
alguns caras trepavam com outros caras. Alguns
trepavam na mesa.
Compreendi, era uma bacanal. Eles queriam que
ns participssemos, Detlef e eu, mas isso no me
atraa, no queria que qualquer um trepasse comigo.
O que eles faziam no me desagradava. Cheguei at a
me excitar ao v-los se divertirem assim. Era
justamente por isso que queria estar a ss com Detlef.
Detlef e eu fomos para um quarto. Acariciamonos
e acabamos tirando a roupa. De repente, Jrgen
chegou para nos observar. Isso no me
impressionava, como tudo o que se passava no
apartamento. Alm disso, afinal de contas, era ele que
nos pagava. A nica coisa que esperava era que ele
no nos tocasse.
Ele se contentava em nos olhar e se masturbar,
enquanto fazamos amor. Um pouco mais tarde
paramos, pois precisava voltar para casa. Jrgen
deixou discretamente uma nota de cem marcos na
mo de Detlef.
Jrgen tornou-se nosso cliente habitual. Ele era
bissexual. A maior parte do tempo amos  casa dele
juntos: eu me ocupava da parte de cima e Detlef, da
parte de baixo. Ele nos dava sempre cem marcos. s
vezes um de ns ia sozinho. Por sessenta marcos. 
claro que Jrgen era um cliente quase to terrvel
quanto os outros. Mas era o nico cliente pelo qual
sentia qualquer coisa que se assemelhava a amizade.
De qualquer forma, eu o respeitava. Gostava muito de
conversar com ele porque sempre tinha boas idias e
conseguia enxergar muitas coisas. Ele sabia faz-lo,
ele se sentia bem naquela sociedade.
Admirava, sobremaneira, a sua facilidade em
administrar o dinheiro. Talvez fosse isso o que mais
me interessava nele, quando me contava como
aplicava o seu dinheiro e quase sempre dava lucro.
Ao mesmo tempo era muito generoso. No pagava
diretamente aos outros por participarem da bacanal,
mas vi um dia um cara pedir muitos milhares de
marcos para comprar um Morris. Jrgen fez o cheque
e deu-lhe, falando:  Eis aqui o teu Mini Cooper. 
Era o nico cliente a quem ia visitar somente por
visitar, sem que eu ou ele pedssemos alguma coisa.
s vezes, passava a noite na casa dele assistindo 
televiso, e com isso acreditava que o mundo no era
assim to sem graa.
Detlef e eu, nesse meio tempo, tambm j
retornramos, com toda a fora, ao mundo do vcio.
Os tipinhos comuns j no mais nos interessavam.
Quando no podia ir  Estao Zoo do metr, andava,
sem rumo, pela Estao Kurfrstendamm. Naquela
caminhada encontrvamos centenas de viciados. E era
ali que negocivamos. Em pouco tempo os clientes
vidrados em viciados tambm comearam a circular
por ali.
Eu andava de turma em turma, batendo papo
com todos os colegas. Sentia-me o mximo quando
me encontrava junto deles. Subia e descia como uma
estrela entre as estrelas. Via as velhotas carregadas
com suas sacolas de compras e observava a maneira
como nos olhavam, cheias de medo, horrorizadas pela
nossa aparncia, e eu pensava com os meu botes:
"Ns, viciados, somos superiores". A vida ali no era
fcil, e poderamos at morrer de uma hora para
outra. Tambm sabamos que no iramos viver por
muito tempo, mas fora aquela a vida que
escolhramos. Eu, em todo caso, gostava dela e queria
curti-la at o fim.
Pensava em toda a grana que ganhava. Tinha
necessidade de cem marcos por dia, s para a herona.
Com as despesas gerais, meus gastos subiam a quatro
mil marcos por ms, e era preciso conseguir essa
quantia. Quatro mil marcos por ms era o salrio de
um diretor de empresa. Conseguia ganhar isso com
catorze anos.
 claro que me prostitua, e era um trabalho
imundo. Mas, quando estava drogada, no era to
terrvel assim. E no fundo engabelava os clientes. Em
todo caso, eles no conseguiam tudo pelo dinheiro. Eu
sempre ditava as condies. Eu no trepava.
Ali havia maiores vedetes que eu. Segundo se
conta, alguns tinham necessidade de quatro gramas
de herona por dia. Isso lhes custava entre quinhentos
e oitocentos e cinqenta marcos por dia. E eles
quase conseguiam.
Ganhavam mais que um diretor de empresa, e
sem serem pegos pela polcia. E com essas vedetes eu
transava, encontrava quando queria, na Estao
Kurfrstendamm do metr, e conversvamos de igual
para igual.
Portanto, esses eram os meus sentimentos e os
meus pensamentos naqueles meses de fevereiro e
maro de 1977. Ao menos quando estava drogada. No
geral, no ia muito bem, mas tambm no muito mal.
Ainda era capaz de me embalar em um monte de
iluses. Retomara minha personalidade de viciada e
estava completamente integrada. Eu me achava legal.
No tinha medo de nada.
Antes tinha medo de tudo. Tinha medo de meu
pai, do companheiro de minha me, dessa merda de
escola e dos professores, dos zeladores, dos guardas
de trnsito e dos controladores do metr. Agora me
sentia invulnervel. Mesmo os policiais civis que
andavam pelo metr me deixavam indiferente, pois
at ento havia escapado a todos.
Naquela poca, estava tambm com certo nmero
de viciados que me davam a impresso de ter
conservado uma atitude muito legal em relao 
herona, como, por exemplo, Atze e Lufo.
Atze foi meu primeiro namorado, o primeiro rapaz
pelo qual eu estive gamada, antes de Detlef. Lufo,
como Atze e Detlef, faziam parte da nossa turma de
fumadores de maconha, do tempo do Sound em 1976.
Atze e Lufo comearam a se picar um pouco antes de
mim.
Agora eles viviam num apartamento impecvel,
atapetado, sof, poltronas e uma cama de casal. Lufo
tinha um verdadeiro emprego: era trabalhador braal
numa empresa de cosmticos. Esses dois me
contaram que nunca foram fisicamente dependentes
da herona, e que ocorria, s vezes, ficarem um ou
dois meses sem a droga. Acreditei neles, apesar de
estarem completamente drogados a cada vez que os
encontrava.
Tomei Atze e Lufo como modelos. No queria
voltar ao ponto em que me encontrava antes do
tratamento, completamente arruinada. Imaginava
que, se fizssemos como Atze e Lufo, Detlef e eu
teramos tambm, um dia, um belo apartamento
atapetado com uma grande cama, sof e poltronas.
Para completar, esses dois caras no eram to
agressivos quanto os outros toxicmanos. E Atze tinha
uma menina, Simone, que era muito legal e no se
picava. Eles se entendiam bem, e eu achava isso
sensacional. Gostava de ir  casa deles, e quando
brigava com Detlef ia dormir l, no sof.
Uma noite, ao voltar para casa com muito bom
humor, minha me estava me esperando na sala de
estar. Sem falar nada, ela me deu um jornal. Entendi.
Ela sempre fazia isso quando havia um artigo
anunciando uma morte por overdose. Isto me irritava,
pois no queria ler este tipo de coisas.
Apesar de tudo, peguei o jornal. Li: "O aprendiz
de vidraceiro Andreas W., de dezessete anos, queria
escapar das malhas da droga. Sua amiga, uma jovem
assistente de enfermagem, de dezesseis anos, tentava
ajud-lo. Seus esforos foram em vo. O jovem tomou
a picada da morte no belo apartamento que seu pai
tinha, a muito custo, arrumado para o jovem casal..."
No me dei conta imediatamente... no queria
acreditar... Mas no tinha erro: tratava-se de Andreas
Wiczorek, Atze.
Merda. Foi o nico pensamento que me ocorreu.
Tinha a garganta seca e me sentia mal. No era
possvel. Atze no. Por que ele teria feito isso? To
tranqilo diante da droga! Eu me esforava para no
mostrar a minha me at que ponto estava
perturbada: ela no sabia que voltara a me picar. Fui
para meu quarto levando o jornal. Eu no tinha visto
Atze ultimamente, e acabei sabendo, pelo jornal, como
fora a coisa. Na ltima semana ele havia tomado uma
overdose e fora parar no hospital. A Simone cortou as
veias. Os dois foram salvos. Na vspera de sua morte,
Atze procurou a polcia e denunciou todos os
revendedores que ele conhecia, inclusive duas
meninas que todo mundo chamava de "gmeas" e que
sempre tinham herona da boa. Depois disso, ele
escreveu uma carta de adeus. Ela estava reproduzida
no jornal: "Vou me matar porque um viciado no d
nada aos seus pais e amigos, a no ser
aborrecimentos, preocupaes e nenhuma esperana.
Ele no destri somente a si mesmo, mas destri
tambm aos outros. Obrigado, meus caros pais, minha
querida vov. Fisicamente no passo de uma runa.
Ser drogado  o fim de tudo. Mas o que leva a isso
seres jovens e cheios de vida? Gostaria de advertir a
todos aqueles que um dia ou outro se perguntam: 'E
se eu provasse?' Olhem-me, olhem em que me
transformei, pobres cretinos. Adeus, Simone, voc
ser libertada de suas preocupaes".
Deitada em minha cama, pensava: "Eis a. Atze
foi teu primeiro amigo". Agora ele estava embaixo da
terra. No chorei. No tinha lgrimas. Era incapaz de
sentir algo verdadeiro.
Na tarde do dia seguinte fui encontrar os outros.
Ningum chorou por Atze. Isso no era uso entre os
toxicmanos. Mas havia pessoas que o odiaram de
verdade, porque denunciara revendedores da boa
herona (j estavam em cana) e porque devia grana a
um monte de pessoas.
O mais incrvel em toda essa histria foi que, uma
semana depois da morte do pobre Atze, Simone, que
nunca tinha tocado em herona, comeou a se picar.
Algumas semanas mais tarde, ela tinha deixado seu
"bico" de assistente de enfermagem e se prostitua!
Lufo morreu alguns meses mais tarde, em janeiro
de 1978. De uma overdose.
A morte de Atze ps fim ao perodo cor-de-rosa.
Acabou-se o estrelato. Todos temiam tornar-se
dependentes. O medo e a desconfiana se
implantaram na nossa turma, onde todos conheciam
Atze. Antes, nos picvamos juntos, e quando no
tnhamos seringas suficientes, cada um queria ser o
primeiro. De repente, brigvamos para ser o segundo.
Ningum confessava que tinha medo. Ns todos
estvamos terrivelmente amedrontados: e se esse
troo for muito puro, se ele tiver estricnina ou uma
sujeira qualquer? Podamos morrer no s por uma
overdose, mas tambm podamos "bater as botas" por
uma dose muito pura ou muito suja.
Em resumo, era novamente a merda total. As
coisas aconteciam como Atze descrevera em sua carta.
Acabei arrasando tambm com minha me. Recomecei
a voltar para casa quando bem entendia. E minha me
me esperava. Depois ela tomava alguns comprimidos
de Valium para poder dormir um pouco. Acho que ela
se mantinha s custas de Valium.
Estava cada vez mais convencida de que acabaria
como Atze. Uma vez ou outra aparecia uma pequena
luz de esperana,  qual me agarrava. Tinha um
professor de quem eu gostava, M. Mcke. Ele nos fazia
representar, como no teatro, as situaes que uma
jovem enfrenta na vida, por exemplo, uma entrevista
de emprego. Um de ns era o chefe e o outro, o
candidato ao emprego. Eu no me deixava intimidar
pelo chefe, respondia em p de igualdade, e o rapaz
que representava o chefe se embaraava todo.
Pensava na hora: "Talvez voc consiga tambm se
virar na vida".
M. Mcke igualmente nos levou ao Centro de
Orientao Profissional. Paramos no caminho para
assistir a um desfile das tropas aliadas. Os rapazes
estavam muito interessados, apaixonados pelos
tanques, pela tcnica e tudo o mais. Eu no dava a
mnima; aquilo s fazia uma bruta baguna e s servia
para matar as pessoas.
Mas gostei do Centro de Orientao Profissional.
Li tudo o que pude encontrar sobre as profisses que
se ocupam de animais. E, na tarde do dia seguinte,
voltei ao centro com Detlef para pedir fotocpias de
tudo o que eles tinham a respeito. Detlef tinha
tambm encontrado muitas profisses que poderiam
interessar-lhe. Ele era como eu, gostaria de trabalhar
com animais e at mesmo na agricultura. Comeamos
a sonhar com tudo isso. Sonhvamos tanto que quase
nos esquecamos de que precisvamos de dinheiro
para comprar nossa prxima dose. Um pouco mais
tarde, quando nos reencontramos na Estao Zoo
esperando clientes, tudo isso se tornou irreal, mas, no
entanto, continuei com a documentao do Centro de
Orientao Profissional na minha sacola. E, se eu
continuasse dessa maneira, nem sequer teria o meu
diploma.
Na manh do dia seguinte comprei a revista
Playboy quando tomava o metr para ir  escola.
Comprei para Detlef, que gostava muito dessa revista,
mas eu tambm a lia. No sabia muito bem por que
Playboy nos interessava tanto; para falar a verdade,
isso me parece hoje incompreensvel. Mas, na poca,
Playboy era para ns a imagem de um mundo limpo.
Sexo puro. Meninas bonitas, sem problemas. Nada de
bichas, clientes. Os caras fumavam cachimbo, guiavam
automveis esporte e estavam cheios da grana. E
as meninas dormiam com eles porque isso lhes dava
prazer. Detlef me disse, uma vez, que tudo isso eram
histrias, besteiras, mas no o impediam de ler
Playboy.
Naquela manh, no metr, li uma histria que me
agradou. No cheguei a compreender tudo, pois
estava drogada pela picada que havia tomado, mas
gostei muito do enredo. A histria se passava em
alguma parte, longe, onde o cu era azul e o sol,
abrasador. Quando cheguei  passagem em que a
linda menina esperava impacientemente o momento
em que seu amiguinho chegava do escritrio, comecei
a chorar. Chorei durante todo o resto da histria.
Na aula, no parava de sonhar. Gostaria de partir
para bem longe com Detlef.  tarde, quando nos
encontramos na Estao Zoo, falei com ele sobre a
minha vontade. Ele me disse que tinha tios no Canad.
Eles moravam  beira de um lago imenso, rodeado de
mata e rvores e,  claro, nos hospedariam. Mas era
melhor que eu terminasse meus estudos antes de
partir, disse. Ele iria primeiro, procurar trabalho, pois
no Canad no havia problema, e, quando eu fosse,
viveramos em uma bela casa de madeira. Se ele no
pudesse comprar, alugaria uma.
Eu lhe respondi que tinha a inteno de terminar
meus estudos. Alis, a coisa estava bem melhor nas
aulas. E, dali para a frente, nada de bancar a palhaa,
iria me concentrar nas tarefas, e teria um bom boletim
escolar.
Detlef se foi com um cliente e eu fiquei.  O que
voc est fazendo aqui?  Saquei imediatamente:
eram policiais  paisana. Eu nunca tinha sido pega e
no tinha medo de tiras, e, at ento, eles tinham me
deixado em paz. Havia muitos meses que me
prostitua na Estao Zoo como outras meninas de
minha idade, e os tiras davam batidas no local todos
os dias. Mas eles s se interessavam pelos estrangeiros
sujos que carregavam garrafas de Schnaps ou um
pacote de cigarros de Berlim Oriental. Faziam uma
verdadeira caada queles caras.
Muito calma, respondi:  Espero meu namorado.
Um dos tiras  paisana:  Voc est fazendo
trottoir?
Eu:  No, que idia! Tenho cara de quem faz
isso?
Eles perguntaram minha idade:  Catorze anos.
 Quiseram ver minha carteira de identidade, embora
soubessem que s nos do uma verdadeira carteira
aos dezesseis anos. Esclareci-lhes isso tambm.
O que parecia ser o chefe deles me mandou
entregar a sacola de plstico. A primeira coisa que
tirou foi a colher. Perguntou-me para que servia.
Eu:  Para comer iogurte.
Mas depois encontrou a seringa com o resto dos
utenslios, e me levaram para a delegacia. No tive
medo. Sabia muito bem que eles no podiam levar em
cana uma menina de catorze anos. Mas que safados
aqueles tiras  paisana!
Trancaram-me numa cela ao lado do escritrio do
chefe. Nem tentei fazer desaparecer a herona
escondida no bolsinho da minha cala. Jogar herona
fora estava acima de minhas foras. Uma polcia
feminina entrou e me mandou ficar completamente
nua, sem calcinha e suti, e me examinou por todos
os lados. Finalmente descobriu a dose de herona na
cala.
Um tira bateu um relatrio detalhado e colocou a
cpia num grande arquivo. Estava feito: eu, fichada
como viciada.
No fundo, os tiras foram bonzinhos comigo, mas
todos repetiram a mesma coisa:  Enfim, minha
querida, qual  a sua? Voc s tem catorze anos. Uma
menina to jovem, to bonita e j meio morta. . .
Foi preciso que eu lhes desse o nmero do
telefone do trabalho de minha me. Eles a chamaram.
Minha me chegou s cinco e meia, depois do seu
trabalho. Ela estava completamente arrasada.
Comeou a conversar com os tiras, que, de qualquer
forma, somente falaram algumas frases feitas:  Ah,
esta criana!  disse ela.
 No sei o que fazer. Eu tentei ajud-la com
um tratamento, mas ela no quer parar!
Realmente achei aquilo o fim da picada.  Ela
no quer parar!  Minha me estava, realmente, em
outra. No compreendia nada e nem podia, pois
jamais lhe passara pela cabea que eu estava na da H.
Era claro que eu desejava parar. Mas como? Isso 
que ela deveria ter-me ensinado. Quando samos,
comearam a chover as perguntas. Onde  que eu
andara me metendo?  Respondi:  Estava na
Estao Zoo, pxa.
Ela:  Mas voc no deve freqentar aquele
lugar.
Disse:  Eu estava apenas esperando por Detlef,
se  que pelo menos isso eu ainda posso fazer!
O que ela queria dizer era para que eu no
andasse com esses desempregados anti-sociais.
Tambm ainda me perguntou:  Voc faz trottoir?
A eu perdi a pacincia e gritei:  Voc est
louca? Repita isso mais uma vez. Por que eu deveria
andar me virando por a, voc pode me explicar isso
melhor? Voc realmente acha que eu sou uma puta,
ou o qu?
Ela se calou, mas da em diante passei a temer
por minha liberdade. Tambm comecei a ter medo,
devido  indiferena e frieza da minha me. Pensei
que ela tivesse desistido e que no fosse mais me
ajudar. Mas logo dizia a mim mesma: "No que  que
ela pode te ajudar com essas observaes tipo 'No
freqente mais a Estao Zoo', 'pare de se encontrar
com esse desprezvel Detlef'" ?
Tive que voltar para casa com minha me e j
no tinha nem um grama de H comigo para a manh.
No dia seguinte ela me tirou da cama, olhou-me nos
olhos e disse:
 Meu Deus, voc est com uns olhos, minha
filha, que  s tristeza. Eu diria que voc  apenas
angstia e desespero.
Quando minha me saiu para trabalhar, fui olharme
no espelho. Pela primeira vez vi meus olhos em
crise, numa pior mesmo! Eram s pupilas. Negros e
tristes. Sem nenhuma expresso. Tive calor e fui
molhar o rosto. Senti frio e mergulhei num banho
quentssimo, de onde no ousava sair, pois fazia muito
frio fora. Acrescentava gua quente sem parar.
Precisava fazer passar o tempo at o meio-dia. De
manh no havia ningum na Estao Zoo: era impossvel
encontrar um cliente ou algum que nos desse
herona. De manh, ningum tinha, e alm do mais,
estava cada vez mais difcil que algum a passasse.
Axel e Bernd inventavam muitas histrias, eles
tinham cada vez mais dificuldades para encontrar o
bastante para suas prprias necessidades. Mesmo
Detlef tornou-se muito po-duro. Quanto aos outros,
em vez de darem, preferiam jogar fora.
A crise me fazia sofrer cada vez mais. Eu me
esforava para sair da banheira, para revistar o resto
do apartamento em busca de um pouco de dinheiro. A
sala de estar estava fechada  chave, graas a um
golpe de Klaus, o companheiro de minha me, que
disse que eu arranhava os discos. Mas tinha
aprendido, h muito tempo, a girar a fechadura
servindo-me de um cabide. Nenhum tosto naquela
merda de sala de estar. Eu me lembrei, de repente, de
que minha me colecionava moedas novas de cinco
marcos e que ela as empilhava em uma lata de
cerveja que estava em cima do armrio.
Minha me encontrou uma outra esperana  qual
se apegar. Mandou-me passar um ms de frias, ou
talvez mais, na casa de minha av e meus primos, no
campo. Estava dividida entre a angstia e a alegria:
como iria suportar a separao de Detlef e o
tratamento? Mas s faria o que me mandassem fazer.
Entretanto, consegui passar a ltima noite com Detlef.
Essa ltima noite em Berlim me confortou um
pouco. Depois de termos feito amor, disse a Detlef: 
Ns dois fizemos sempre tudo juntos. Gostaria de
aproveitar estas quatro semanas para me desintoxicar
para sempre.  uma ocasio que no se repetir mais,
e gostaria que voc fizesse o mesmo. Quando
voltarmos, ambos estaremos limpos e comearemos
uma vida nova.
Detlef estava de acordo. De qualquer forma, ele
disse, havia tomado a mesma resoluo, estava para
me falar. Ele j sabia como achar Valeron. No dia
seguinte ou no outro, pararia de fazer trottoir e iria
procurar trabalho.
No dia seguinte, tomei uma superpicada antes de
partir para a minha nova vida na casa da minha av.
Chegando l, ainda no estava verdadeiramente em
crise. Mas me sentia um corpo estranho na idlica
cozinha da fazenda.
Tudo me irritava: meu priminho que queria subir
nos meus joelhos, os banheiros rsticos que achei to
romnticos da ltima vez em que l estive. . .
Na manh do dia seguinte, estava em plena
sndrome de privao. Sa da casa e fui me refugiar na
floresta. O canto dos pssaros me irritava os nervos,
sentia medo ao ver um coelho. Subi num ponto de
observao para fumar um cigarro. No consegui
terminar. Se eu pudesse morrer ali mesmo! Depois de
certo tempo consegui me arrastar at a casa e fui para
a cama. Disse a minha av que estava com gripe. Ela
se queixou, mas no chegou a se inquietar de fato por
ver-me naquele estado to lamentvel.
Sobre minha cama havia um cartaz: uma mo de
esqueleto segurando uma seringa e, embaixo, a frase:
"Eis como isto acaba. E comeou com uma simples
curiosidade". Minha prima me garantiu que ganhara
aquele cartaz na escola. Eu ignorava que minha me
tinha contado a minha av. Olhei o quadro e s
consegui enxergar a seringa: no vi a mo nem a
inscrio. Imaginei-a cheia de boa herona. A seringa
se separou do cartaz e avanou sobre mim. Passei
horas olhando aquela merda de cartaz e quase fiquei
louca.
Minha prima vinha ver-me muitas vezes. Ela fazia
de conta que no percebia o meu estado. Cantava-me
as msicas da moda, achando que me distrairia.
Pensando bem, foi emocionante ver a famlia se
ocupar de mim daquela forma.
Essa primeira jornada de tratamento foi
interminvel. Dormi. Sonhei com um cara que vira em
Berlim. Se me concentrasse, poderia ver
perfeitamente seu corpo. Seus ps estavam podres.
Eles estavam negros, quase paralisados, e ele mal
podia caminhar. Ele fedia de tal forma que no podamos
nos aproximar a menos de dois metros. Quando
lhe disseram para ir tratar-se no hospital, ele sorriu, e
tinha um ar de morto. De fato, ele esperava morrer.
Esse cara me obcecava, e no parei de ver sua
imagem diante dos meus olhos, a no ser quando
estava absorvida pela seringa ou meio sem sentidos
pela dor que sentia. Tudo recomeava como da
primeira vez: transpirava, fedia e vomitava.
Na manh do dia seguinte no agentava mais.
Arrastei-me at a cabine telefnica do vilarejo e
chamei minha me. Chorando com todas as minhas
lgrimas, supliquei-lhe que me deixasse voltar a
Berlim.
Minha me se mostrou muito fria: "Ah, est
difcil? Mas se voc s tomava droga de vez em
quando, a coisa no deve ser to grave assim".
Eu me rendi. Mas que ao menos ela me mandasse
sonferos pelo correio. Sabia que era possvel
encontrar herona no vilarejo vizinho (tinha ouvido
dizer na ltima permanncia), mas no tinha foras
para ir at l. Alm do mais, no conhecia ningum.
Fora do seu ambiente familiar, um viciado fica
totalmente isolado e desamparado.
Felizmente meu cold turkey durou s quatro dias.
Depois me sentia completamente vazia, at mesmo
incapaz de apreciar a sensao fsica de me entregar
ao veneno. Berlim me dava nojo, mas no vilarejo
tambm no me sentia em casa. Tinha a impresso de
no ter meu lugar em parte alguma. Tentei no pensar
nisso.
Para "voar" um pouco s tinha os sonferos, que
minha me mandara muito tarde para que eles
pudessem servir durante o tratamento de privao, e
cidra (minha av tinha de monte, no poro). Eu me
atirei s grandes comilanas, que eram uma viagem
como outra qualquer. Engolia quatro ou cinco
pezinhos no caf da manh e  tarde uma boa dzia
de pezinhos com gelia.  noite, j que nunca dormia
antes das duas ou trs horas da manh, atacava os
sucos de frutas concentrados (ameixa, pssego,
morango), com creme de chantilly por cima.
Com esse regime, logo ganhei dez quilos. A
famlia estava toda feliz de ver minha barriga crescer e
minha bunda arredondar. Meus braos e minhas
pernas permaneciam to finos como antes. Eu no
dava a mnima bola para tudo aquilo. Tornei-me uma
comilona. Logo no entrava mais dentro das minhas
calas. Minha prima me emprestou umas calas xadrez
estpidas que no se usavam mais em Berlim desde
que eu tinha doze anos. No me importei com isso.
Integrei-me pouco a pouco  comunidade infantil do
vilarejo. Mas aquilo me parecia bastante irreal: era
uma viagem, um belo filme, mas a palavra ufim" logo
chegaria.
No falava nunca de droga e, alis, parei de
pensar nela. No queria estragar o belo filme; mas
logo depois do meu tratamento de privao, escrevi a
Detlef pedindo-lhe que me enviasse herona. At pus
vinte marcos no envelope. Fiz isso depois de ter dito a
Detlef que se desligasse. Para dizer a verdade, no
mandei a carta, pois pensei que Detlef no me
mandaria herona e guardaria os vinte marcos para se
picar.
Andava a cavalo quase todos os dias, e visitava,
na companhia de minha prima, os velhos castelos das
proximidades. amos tambm com os outros meninos
brincar na pedreira que tinha pertencido ao meu av.
Essa pedreira, ele a consumira em bebedeiras antes
de morrer de alcoolismo. Minha me no teve uma
infncia fcil.
Segundo minha av, haveria em algum lugar,
nessa pedreira, uma porta de ferro atrs da qual
estavam guardados os papis velhos, de muitas
geraes da famlia. Quase todas as noites
procurvamos essa porta. s vezes, os operrios se
esqueciam de retirar a chave do trator e ento passevamos
com ele pela pedreira. Minha prima tem a
mesma idade que eu, e comeamos a nos entender
bem. Falei-lhe de Detlef como uma adolescente
normal fala de seu namorado. Confessei-lhe que
dormia com ele, e ela aprovou totalmente.
Ela me contou que um rapaz de Dsseldorf vinha
acampar por perto todos os anos, no vero. Esse
rapaz lhe agradava, mas ele quis fazer coisas com ela,
e ela no cedeu. Teria se comportado como uma
idiota?
Disse-lhe que no, que ela agira certo, e que seria
melhor se preservar para quem ela amasse
verdadeiramente. Minha prima e todos os amigos
vinham me expor seus problemas. Eu me transformei
na Christiane-Conselheira, que lhes dava normas de
conduta e dizia-lhes, principalmente, para no tomar
tudo pelo seu lado trgico. Seus problemas me
pareciam bastante ridculos, mas sabia ouvir, e tinha
sempre um conselho para dar. Era formidvel quando
se tratava de problemas dos outros. Apenas para os
meus problemas no encontrava sada.
Uma noite recebi um telefonema de Detlef. Fiquei
louca de alegria. Ele me explicou que estava
telefonando da casa de um cliente, um cara muito
bom, e ento podamos conversar bastante. Contei-lhe
do meu tratamento, de como quase enlouquecera. E
ele? Ele ainda no havia conseguido se desligar e tudo
aquilo era uma merda. Disse-lhe que estava contente
de poder rev-lo em breve. Ele tinha prometido
escrever-me... iria faz-lo? Detlef no tinha vontade,
mas voltaria a me telefonar na prxima vez em que
estivesse na casa de um cliente.
Depois dessa conversa estava novamente
convencida de que Detlef e eu ramos como marido e
mulher. Estvamos unidos para o melhor e para o
pior.  noite, na minha cama, passava horas a pensar
nele.  somente nele. Era como uma orao, e
contava os dias at o nosso reencontro.
Minha av me dava regularmente uns
trocadinhos... Fazia incrveis economias. No sei bem
por qu, fazer economia nunca foi o meu forte. Eu me
dei conta quando cheguei aos quarenta marcos e,
quarenta, para mim, era uma quantia mgica. Era o
preo de uma picada e tambm a quantia que pedia
aos meus clientes.
Pensei: "No  possvel! Voc no est separando
um dinheirinho de lado para a sua primeira picada!"
Corri para comprar uma blusa por vinte marcos, s
para escapar dos malfadados quarenta. "Acima de
tudo, se vim para c, foi para me desligar
completamente."
Acabou o ms de frias. Minha me telefonou: 
Voc quer ficar mais um pouco?  Impulsivamente
respondi:  No.  Se ela tivesse perguntado: 
Voc quer ficar a o resto da vida? , sem dvida, eu
pararia para pensar. Desde o comeo tinha
considerado toda essa histria uma viagem que
comeava mal e terminava muito bonita e muito doce.
Mas isso no poderia durar mais que um ms, e eu
sabia muito bem e estava muito preparada. Alm
disso, gostaria de voltar para o lado de Detlef, pois
ns dois ramos como marido e mulher.
No dia da minha partida, vov e minha prima tentaram,
em vo, me persuadir a levar as famosas
calas xadrez que agora estavam exatamente no meu
tamanho. Eu me torci toda para entrar na minha cala
jeans, as costuras arrebentaram, e foi impossvel
fechar o zper. "Foda-se, voltarei para Berlim com a
braguilha aberta". Enfiei meu casaco negro. Pronto,
estava novamente com o meu uniforme de viciada.
J no dia seguinte ao meu retorno a Berlim fui 
Estao Zoo. Detlef e Bernd estavam l. Axel, no. Ele
deveria estar com um cliente.
Os dois me deram uma acolhida grandiosa.
Estavam verdadeiramente felizes de me rever.
Principalmente Detlef,  claro. Eu lhe perguntei:  O
tratamento est indo bem? Voc encontrou um bom
trabalho?  Ns trs explodimos de rir.
Depois perguntei-lhes:  Onde est Axel?
Eles me olharam com um ar estranho. Aps certo
tempo, Detlef murmurou:  Voc no sabe
que Axel morreu?
Que choque! Aquilo me cortou a respirao. 
Ora, que brincadeira!  Mas eu sabia que era
verdade.
Agora Axel. Axel, que todas as semanas, no seu
antro de drogado, me preparava uma cama com
lenis limpinhos. Axel, para quem eu levava sempre
atum em lata, um troo completamente idiota, e que
me comprava iogurtes. A nica pessoa em quem
pudera confiar quando brigara com Detlef. Meu nico
refgio quando tinha vontade de chorar. Pois ele, ao
menos, nunca era agressivo, ao menos com os amigos
da turma.
 Como foi?
Detlef me explicou:  Eles o encontraram em um
banheiro pblico com a agulha plantada no brao. 
Os dois rapazes evocaram a morte de Axel como se
fosse uma histria antiga. Podia-se dizer que eles no
tinham vontade de falar naquilo.
No parava de pensar naquelas latas de atum to
bobas. Pensava que nunca mais voltaria a compr-las.
De repente, pensava em Detlef: onde ele estaria
dormindo agora?
 A me de Axel vendeu o apartamento  disse
Detlef.
 Moro na casa de um cliente.
Eu:  Oh, que merda!  Aquilo me perturbara
tanto quanto a morte de Axel. Por um momento pensei
que havia perdido Detlef definitivamente.
Ele prosseguiu:   um cara legal.  jovem, com
uns vinte e cinco anos, no  barrigudo. Eu lhe falei de
voc. Voc poder dormir na casa dele.
Acompanhei Detlef, que queria herona.
Encontramos alguns amigos, e repeti para eles:  
nojento o que aconteceu com Axel.
Fomos em seguida a alguns banheiros pblicos.
Detlef tinha vontade de se picar imediatamente. Eu o
acompanhei para lhe dar assistncia. Esperei que ele
me oferecesse. Ainda estava abatida com a histria de
Axel. Quando vi Detlef preparar uma picada, senti uma
bruta vontade. Uma picadinha no poderia fazer-me
mal e me ajudaria a no pensar em Axel e em Detlef,
que dormia na casa de um cliente.
 J?  disse Detlef.  Eu achava que voc
tinha parado. " claro que me desliguei. Voc bem
sabe que  fcil." Voc no me disse isso quando
estava no interior?
 Meu amigo, depois de tudo o que acabo de
saber, tenho uma bruta necessidade de um pouco de
herona.
Detlef:  "No  to difcil se desligar. Posso faz-
lo quando quiser." (Mas aquilo no me tocava.)
"Mas voc, no recomece..."
Conversando, ele tomou sua picada. Deixou-me
um restinho na seringa. Foi o suficiente para me
baratinar um pouco (havia tanto tempo que no
tomava nada...) e me fez quase esquecer Axel.
Reca bem mais rpido do que na primeira vez.
Minha me nem imaginava. Ela estava contente de me
ver gordinha. De fato, conservaria por um bom tempo
meus quilos a mais.
Ia freqentemente  casa de Rolf, o famoso
cliente de Detlef. Era preciso, pois no tnhamos
nenhum outro lugar para nos encontrarmos na cama.
Rolf me desagradara desde o primeiro minuto. Ele
estava gamado por Detlef, e  claro que tinha cimes
de mim. Ficava maravilhado quando eu brigava com
Detlef, e se colocava sempre do lado dele. Isso me
punha furiosa. Detlef se comportava com esse Rolf
como um chefo, mandando-me fazer compras e
mandando-o cozinhar e lavar a loua. Isso me
enfurecia. Gostaria muito de fazer as compras e
cozinhar para Detlef.
Expliquei a Detlef que no era possvel continuar
assim. Mas ele me respondeu que no havia outro
lugar para irmos e que Rolf, pensando bem, era uma
boa pessoa e at menos enervante que todos os
outros clientes.
Detlef fazia com Rolf o que queria. Aprontava
cada uma com ele! Gritava:  Voc tem sorte de eu
querer morar com voc!  Ele s ia para a cama com
Rolf se tivesse absoluta necessidade de dinheiro.
Detlef e eu dormamos no mesmo quarto que Rolf.
Quando fazamos amor, Rolf assistia  televiso ou
simplesmente virava as costas. Ele era uma bicha
louqussima e no suportava ver Detlef dormir comigo.
Ns trs estvamos na pior, no fundo do poo.
E se Detlef tambm acabasse virando bicha? Essa
idia me obcecava. Uma noite. . . acho que aconteceu.
. . Como no tinha nem mais um tosto, ele foi
procurar Rolf. Eu estava na outra cama. Detlef apagou
a luz, como sempre o fazia nesses casos. Achei que
estava demorando muito, e pensei at mesmo ter
ouvido Detlef suspirar. Levantei-me e acendi uma
vela. Eles estavam debaixo da coberta se bolinando.
Aquilo estava fora dos meus acordos com Detlef, ele
no devia se deixar bolinar. Fiquei furiosa. Gostaria
de dizer a Detlef que voltasse para minha cama, mas
no fui capaz. Eu lhe disse:  Voc deve estar
gozando.
Detlef no respondeu. Rolf, puto da vida, apagou
a vela. Detlef passou a noite toda com Rolf. Chorei at
encharcar meu travesseiro, mas como os dois
perceberam a minha tristeza, chorei baixinho. Na
manh do dia seguinte estava to triste, to amarga,
que pensava seriamente em deixar Detlef. A droga
destrua, pouco a pouco, o nosso amor.
Mas eu sabia que enquanto tomssemos herona
no teria Detlef s para mim. Teria que dividi-lo com
seus clientes e, principalmente, com Rolf. Para mim,
tudo mudou: comecei a me prostituir todos os dias,
pois no havia outra sada e, como estava quase
sempre apressada, no podia mais me mostrar to
difcil quanto antes na escolha de clientes, nem lhes
impor minhas condies.
No queria estar todo o tempo na casa de Rolf,
voltei a procurar os outros da turma, principalmente
Babsi e Stella. Mas ns tambm j no nos
entendamos to bem. Cada uma queria falar de si
mesma durante horas, sem se importar em ouvir a
outra, nem mesmo por uns minutos. Babsi, por
exemplo, falava sem parar sobre o significado de um
hfen em uma placa de rua, enquanto Stella estava
louca para contar como levara um golpe dum cara que
nos vendera farinha em vez de herona. De tanto
gritar "cale a boca!", Stella e eu conseguimos fazer
Babsi calar o bico. Mas, depois, como queramos falar
as duas ao mesmo tempo, cada uma querendo contar
a histria  sua maneira, fomos ns que brigamos. A
maior parte de nossas tentativas de bate-papo
terminava assim, rapidamente, com gritos de "cale a
boca!"... Cada uma de ns tinha uma terrvel necessidade
de que algum nos escutasse. Mas era
precisamente isso que no existia mais na turma.
Antes, ns nos compreendamos. Agora, tudo havia
terminado. A nica maneira de algum se fazer ouvir
era contando histrias de policiais: estvamos todos
de acordo contra eles, aqueles "pretos". Eu, nesse
campo, tinha mais experincia que os outros, pois no
incio do vero de 1977 sofri a terceira priso.
Foi na Estao Kurfrstendamm. Detlef e eu
voltvamos da casa de um cliente. Muito contentes.
Acabramos de receber cento e cinqenta marcos por
pouca coisa: uma pequena exibio. Nosso saquinho
de herona j estava no bolso e ainda tnhamos um
monte de dinheiro. Percebi a chegada dos policiais 
paisana, no metr. Uma batida. Um trem apareceu.
Fugi em pnico, com Detlef atrs de mim, e me enfiei
num vago. Empurrei um velho, que gritou:  Puxa
vida, drogada suja!  Foi o que ele disse. Os jornais
falavam tanto do que se passava na Estao
Kurfrstendamm, que todo mundo estava a par.
Dois policiais  paisana entraram atrs de ns. 
claro que nosso comportamento chamou a ateno.
Mas eles teriam pego a gente mesmo sem isso: as
pessoas do metr caram em cima de ns, grudaram
nas nossas roupas, gritando como histricos: 
Senhores policiais, eles esto aqui  pois logo
perceberam que se tratava de uma batida. Tive a
impresso de ser um fora-da-lei, em um banguebangue,
que vai ser enforcado na primeira rvore que
aparea.
Eu me apertei contra Detlef. Um dos policiais
falou:  No precisa representar Romeu e Julieta.
Vamos, vamos.
Puseram-me num micronibus e me levaram para
a delegacia. Os policiais se mostraram muito
agressivos comigo, mas no me fizeram perguntas.
Limitaram-se a me dizer que era a terceira vez que me
pegavam e que eu j tinha um dossi. Eles nem
sequer avisaram minha me. Classificaram-me na
categoria dos casos desesperadores e iriam engrossar
meu dossi com dois ou trs relatrios, esperando o
dia de pr uma cruz ao lado do meu nome.
Depois de uma hora, j estvamos na rua. Como
eles haviam pego a nossa herona, precisvamos
compr-la novamente. Felizmente tnhamos ainda o
dinheiro.
A maioria dos policiais  paisana j me conhecia o
suficiente e procurava no me incomodar muito. Havia
at um jovem que era muito bonito e com um sotaque
do sul da Alemanha. Um dia ele veio silenciosamente
por trs e ps, bruscamente, sua identificao na
minha cara. Que choque! Mas ele estourou de rir e me
perguntou se estava fazendo trottoir. Dei-lhe minha
resposta habitual:  No, tenho cara disso?
Ele sabia, pois sequer fingiu dar uma olhada em
meu saco plstico. Simplesmente me disse:  No
ande muito por aqui nos prximos dias, seno serei
obrigado a embarc-la.  Talvez no fosse gentileza,
mas se tratasse pura e simplesmente de preguia;
talvez ele no tivesse vontade de me levar at a
delegacia, e os caras da delegacia no tivessem,
necessariamente, vontade de escrever trinta e seis
vezes o mesmo relatrio sobre uma semimorta de catorze
anos.
Depois de nossa priso na Estao
Kurfrstendamm, Detlef e eu fomos nos abastecer
com um novo revendedor, pois o nosso habitual havia
desaparecido. Fomos nos picar nos banheiros da
Winterfeldplatz. Eles estavam num estado lamentvel,
nenhuma torneira funcionava.
Limpei minha seringa na caixa-d'gua da imunda
privada. Isto acontecia com freqncia, quando havia
muita gente no lavatrio.
A droga do revendedor desconhecido me
enganara. Desmaiei, ca no cho imundo. Levantei-me
em seguida, mas fiquei por um bom momento sem
enxergar nada.
Pela primeira vez, depois de muito tempo, fomos
dar uma volta pelo Sound. Detlef se balanava na
pista de dana, e eu me instalei ao lado da mquina
de suco de laranja. Ela tinha um buraco embaixo. Eu
me apoiei no aparelho, enfiei dois canudinhos juntos
no buraco e bebi suco de laranja de graa, at ter
vontade de vomitar. Fui ao banheiro.
Ao voltar, um dos gerentes caiu em cima de mim,
me tratando de drogada suja, e me mandou segui-lo.
Tive um bruta medo. Ele me pegou pelo brao e me
arrastou at uma sala de depsito de caixas de
bebidas. Tinha tambm um banquinho de bar.
Conhecia a seqncia. J haviam me contado a
histria. Eles amarravam os viciados e os outros
indesejveis pelados no banquinho de bar e depois
batiam, s vezes, at com chicote. Ouvi falar de uns
caras que, depois de uma passagem assim pelo
depsito do Sound, ficaram algumas semanas no
hospital, alguns at com fratura de crnio. Os infelizes
tinham tanto medo que nem sequer ousavam dar
queixa  polcia. Aqueles caras da gerncia faziam isso
por sadismo e tambm para afastar os viciados de sua
casa, pois a polcia ameaava o tempo todo fechar o
Sound.  claro que as drogadas que trepavam com
eles, essas eles deixavam em paz. Esse Sound era
uma casa infame. Se os pais soubessem o que se
passava na "discoteca mais moderna da Europa"! Ali
se incitavam os jovens a se drogar e adolescentes
caam nas mos de proxenetas sem que a direo
desse a mnima bola.
Vendo aquele sinistro depsito, o pnico tomou
conta de mim. Juntei minhas foras, escapei das mos
do cara e corri para a sada. Atingi a rua antes que ele
me pegasse. Ele me empurrou contra um carro. No
senti o baque. Pensei em Detlef. Tive muito medo por
ele. Eles sabiam que havamos chegado juntos, e no
vira mais Detlef depois que ele se jogou
completamente drogado na pista de dana.
Corri para uma cabine telefnica e chamei a
polcia. Expliquei que meu amigo estava apanhando no
Sound. Os policiais ficaram contentes com a notcia.
Finalmente poderiam fechar o Sound. Eles chegaram
alguns minutos depois com um carro cheio. Fizeram
uma operao pente-fino na casa e nada de Detlef.
Tive uma idia: telefonar para Rolf. Detlef j estava
deitado.
Os policiais me disseram para no voltar a fazer
aquele tipo de brincadeira. Voltei para casa convencida
de que a droga estava me deixando louca.
Depois das minhas diversas prises, fui
convocada para comparecer  Brigada Criminal. Essa
foi a nica conseqncia das minhas prises.
Gothaerstrasse, sala 314. No esqueci esse nmero,
pois voltei l muitas vezes.
Passei em casa ao sair da escola. Queria tomar
uma bela picada antes de ir  polcia, pois se estivesse
drogada no teria medo. Mas no tinha mais limo, e
a herona no parecia limpa. Naquela poca, ela
estava cada vez mais impura: passava de mo em
mo (atacadista, intermedirio, pequeno revendedor)
e cada um acrescentava alguma coisa para aumentar
o lucro.
Como dissolver a herona imunda? Peguei
vinagre, pura e simplesmente. No  verdade que ele
tem cido? Coloquei o vinagre diretamente sobre o p
da colher. Pus demais, mas no queria jogar fora uma
dose de herona e me piquei com ela. O efeito foi
fulminante. Despertei somente aps ter passado uma
boa hora com a agulha enfiada no brao. Tinha uma
dor de cabea atroz. Impossvel ficar em p. Pronto...
vou morrer. Chorei, deitada no cho. Tinha medo. No
queria morrer assim... sozinha... Eu me arrastei de
quatro at o telefone. Levei pelo menos dez minutos
para discar o nmero de mame. No pude lhe dizer
nada alm de:  Venha, mame, por favor, eu vou
morrer.
Quando minha me chegou, consegui me
levantar. Tinha a impresso de que minha cabea iria
estourar, mas eu cerrava os dentes. Disse a mame:
  a minha circulao.
Ela notou que eu tinha me picado. Seu rosto
expressou um terrvel desespero. No falou nada e me
olhou. No suportei seus olhos tristes, desesperados.
Aquilo me fundiu a cuca.
Pouco depois ela me perguntou se eu no tinha
vontade de comer alguma coisa.  Sim, morangos. 
Ela saiu e me trouxe um cesto cheio.
Achei que dessa vez era o fim. Mas no era uma
over-dose, era s o vinagre. Perdi toda a resistncia, e
meu corpo no me obedecia mais. Fora assim que os
outros morreram. Muitas vezes, depois de uma picada,
eles perdiam a conscincia. E um dia eles no
acordavam mais. No sei mais por que tive tanto
medo de morrer. De morrer s. Os drogados morrem
ss. Mas freqentemente em banheiros fedorentos.
Tive, ento, uma verdadeira vontade de morrer. No
fundo no esperava por outra coisa. No sabia o que
estava fazendo no mundo. Antes, eu tambm no
sabia muito bem. Mas um viciado vive para qu? Para
se destruir e destruir os outros? Pensei, naquela tarde,
que seria melhor que eu tivesse morrido, mesmo que
fosse s pelo amor a minha me. De qualquer forma,
no sabia mais se existia ou no.
Na manh do dia seguinte estava melhor. Apesar
de tudo, talvez eu ainda agentasse um pouco mais.
Precisava ir  polcia seno eles viriam me procurar.
Mas no tinha mais foras para ir sozinha. Telefonei
para Stella. Tive sorte de encontr-la em casa de um
dos nossos clientes comuns. Ela concordou em me
acompanhar. Sua me acabara de comunicar seu
desaparecimento, uma vez mais, mas Stella no tinha
medo de nada, ela no dava bola para nada.
Esperamos sentadas e bem comportadinhas, em
um banco de madeira, que nos chamassem  sala 314.
Entrei como uma menininha modelo (um pouco mais,
faria reverncia). Uma tal Sra. Schipke me deu a mo,
muito amavelmente, dizendo que tinha uma filha um
pouco mais velha que eu (quinze anos), mas que no
se drogava. Bem, a policial fez seu nmero maternal.
Ela se inteirou da minha sade, me ofereceu uma
xcara de chocolate, bolo e mas.
Aquela Sra. Schipke, sempre com ares maternais,
me falou de outros toxicmanos e me pediu notcia
deles. Ela me mostrou fotos de viciados e de
revendedores, mas eu no lhe disse nada a no ser: 
Sim, eu os conheo de vista.  Ela me contou, ento,
que certas pessoas do mundo da droga haviam falado
muito mal de mim. Na hora ela me fez falar. Percebi
que fora pega por essa merda, mas falei. E falei muito.
Depois assinei uma declarao cheia de coisas que ela
mais ou menos me fizera falar.
Depois um outro policial veio para me interrogar
sobre o Sound. A soltei tudo. Falei das pessoas que
conhecia e que foram levadas a se drogar e tambm
das brutalidades da turma da gerncia. A meu pedido,
chamaram Stella, que confirmou tudo o que contei e
se disse pronta para testemunhar sob juramento
diante de qualquer tribunal.
A Sra. Schipke, que no parava de mexer em
seus papis, identificou rapidamente Stella e lhe
passou um sabo. Stella a destratou com tal insolncia
que pensei: "Ela vai acabar indo em cana". Mas a Sra.
Schipke acabara sua jornada. Convocou Stella para o
dia seguinte e estava claro que ela no iria.
Ao nos dispensar, a Sra. Schipke disse:  Estou
segura de que nos veremos em breve.  Ela teve a
coragem de me dizer isso ainda num tom adocicado.
Assim ela me anunciara, indiretamente, que eu era um
caso desesperador.
Gerhard Ulber,
chefe do Departamento Antitxicos da
Polcia de Berlim
Na guerra contra as drogas, ns, da polcia,
tentamos com todas as nossas foras e possibilidades
evitar o trfico das mesmas, especialmente o da
herona, ajudando assim as tentativas de terapia dos
rgos competentes.
Em 1976 confiscamos dois quilos e novecentos
gramas, em 1977, quatro quilos e novecentos e nos
primeiros oito meses de 1978, oito quilos e
quatrocentos de herona. Isso, evidentemente, no
significa que a nossa apreenso tenha aumentado, se
comparada ao aumento da oferta e consumo.
Pessoalmente, sou bem mais pessimista. As
quantidades de herona no mercado aumentaram! No
ano passado a priso de um traficante com cem
gramas de herona teria sido uma sensao; hoje, 
insignificante.
Reconhecemos que, com grandes lucros, h
tambm muitos alemes envolvidos no trfico da
herona. Os contrabandistas e atacadistas so quase
todos estrangeiros, como o so tambm aqueles que
tm contato direto com eles. Mas j no nvel abaixo,
de traficantes, temos quase s alemes. Estes, por sua
vez, passam at cem gramas aos fornecedores, que as
vendem ao consumidor final, o viciado.
Nossas investigaes, feitas com sucesso,
mostraram que os contrabandistas e traficantes
ficaram mais cuidadosos, o que por sua vez exige de
nossa parte mais ateno. Mas quanto mais agimos
em pontos pblicos contra os viciados e os seus
passadores, mais eles se escondem. Torna-se quase
impossvel descobrir os seus pontos de
comercializao.
Basicamente, a polcia pode fazer de tudo:
vigilncia nos lugares pblicos, presena constante de
policiais na "cena", etc. Mas o trfico aumenta, e o
mercado sempre encontra uma sada. Cada vez mais,
o trfico da herona est sendo feito em apartamentos,
onde os viciados a compram e se livram da vigilncia
policial.
Dos oitenta e quatro mortos vtimas de herona no
ano de 1977, no tnhamos o menor conhecimento de
vinte e quatro desses viciados, e eles, com certeza,
no morreram em conseqncia de uma primeira
dose. O consumidor assduo de barbitricos tambm
s aparece quando  levado, inconsciente, para um
hospital, onde, com a ajuda dos mdicos,  salvo no
ltimo momento.
 perfeitamente possvel pessoas se injetarem
herona durante anos a fio, sem que a polcia as
descubra. Em outras palavras: a polcia no pode
resolver o problema dos txicos sozinha. Os
americanos tiveram essa experincia com a Lei Seca
(proibio do lcool) e ns, aps 1945, com o mercado
negro. Se existe uma grande procura, h de haver
sempre uma grande oferta.
Eu poderia mobilizar mais vinte policiais para este
servio, e ns prenderamos, certamente, alguns
pequenos traficantes. Mas o problema no ficaria
solucionado, estaria apenas transferido para as
prises, onde j  bastante elevado o trfico de
drogas. Prisioneiros viciados fazem de tudo para
conseguir o txico, e os traficantes internos, por sua
vez, tambm fazem de tudo para abastec-los. Temos
que falar claramente: os lucros so muito grandes e
isso facilita a corrupo.
Se no conseguirmos isolar os viciados em drogas
dos presos comuns, acontece  como aqui em Berlim
 ou o caos nos presdios ou o fim do moderno
sistema penitencirio. Se quisermos evitar que o uso
dos txicos aumente dentro das prises e que outros
se viciem, ser necessrio proibir sadas, visitas
numerosas, etc. Na prtica,  absolutamente
impossvel revistar cada um que volta das sadas e,
mais ainda, os que visitam os presos; e isso seria
muito importante. Existem mulheres que transportam
herona en- volta num preservativo, dentro da vagina,
e homens, no nus.
Prises, condenaes e penas permanentes de
nada adiantam. O viciado em herona no reage a
nada disso enquanto tiver a possibilidade de satisfazer
o seu vcio. O esclarecimento preventivo seria, na
minha opinio, o nico meio de evitar o aumento dos
viciados.
Renate Schipke, trinta e cinco anos,
investigadora do Departamento de Txicos
Conheci Christiane quando eu era investigadora
de delitos contra a lei antitxicos. A primeira vez que
ela foi convocada, aps uma denncia normal, veio
falar comigo acompanhada de sua amiga Stella. Ao
todo, estive com ela umas seis ou sete vezes.
O meu trabalho na poca era o de interrogar os
viciados dependentes e conhecidos da polcia, para
obter informaes sobre os passadores de drogas.
Existe um nmero elevadssimo de denncias, e o
trabalho tem de ser feito. Assim, torna-se difcil pensar
em cada caso isoladamente. No meu trabalho, sempre
procuro criar uma relao mais pessoal, o que facilita
muito um interrogatrio positivo.
No incio, Christiane era muito aberta, dando-me
todas as informaes, com boa vontade. Chamou-me
a ateno por sua humildade e deu-me a impresso de
ser uma criana bem-educada. Durante a nossa
primeira conversa ela parecia ainda uma menininha.
Christiane sempre falou bem da me, e eu tenho a
dizer que esta, ao contrrio dos outros pais, sempre
cuidou bem da filha. Muitas vezes tivemos, tambm,
conversas por telefone.
Com o passar do tempo, e aps vrios
interrogatrios, Christiane se tornou desaforada e
presunosa. Tive que falar duramente com ela,
advertindo-a de que apesar das tentativas de deixar o
vcio ela sempre permaneceria uma toxicmana. Foi
um dilogo muito pesado. Mas no quero falar
negativamente sobre Christiane. Ela tambm no era
rancorosa.  simplesmente impossvel ajudar os
viciados! Eles se sentem sempre trados, porque no
entendem a causa do castigo. Em minha opinio,
esses jovens so superficiais demais. Por curiosidade
ou por falta do que fazer, eles comeam com as
drogas e depois ficam admirados com as conseqncias.
Acharia bom que Christiane fosse condenada
pelo maior tempo possvel, pois o choque de uma
priso, numa pessoa to jovem, pode fazer com que
ela melhore. Assim espero.
***
Quando me vi no metr queria chorar de tanto
dio. Fui realmente uma estpida em aceitar o
chocolate e o bolo daquela nojenta policial e deixar
que ela me fizesse cair na armadilha.
Aps ter atendido a mais dois clientes na Estao
Zoo e ter comprado herona na
Kurfrstendammstrasse, fui para casa. Meu gato, na
cozinha, mal conseguia ficar de p. Alis, ele j
andava adoentado h alguns dias. Naquele momento
ele estava com um olhar to triste, soltando uns
miadinhos to sem fora, que pensei que tambm
fosse morrer logo.
Eu me preocupava mais com o meu gato
moribundo do que comigo mesma. O veterinrio me
havia dado extrato de sangue de boi. Mas ele no
comia absolutamente nada. O pires estava sempre
cheio, mas ele nem sequer levantava a cabea.
Senti, naquele momento, uma enorme vontade de
me aplicar uma picada. Busquei meus utenslios e a
me ocorreu uma idia. Puxei um pouco do sangue de
boi na ampola e o injetei na goela do gato. Inerte, ele
me deixou agir. Depois levei algum tempo at limpar
os meus utenslios de forma a poder utiliz-los em
mim mesma.
Piquei-me, mas o resultado no foi l essas
coisas. O medo que sentia de morrer sozinha me
apavorava. No fundo, eu queria morrer, mas antes de
me picar sentia medo da morte. Talvez a presena do
meu gato fosse a razo da minha angstia. Afinal, que
negcio mais chato; morrer sem ter vivido.
No via sada. Minha me e eu nunca mais
trocamos palavras sensatas desde o dia em que ela
compreendeu que eu havia recado. Gritava pela casa,
mas ela simplesmente me olhava com um ar
desesperado. A declarao que assinei foi o suficiente
para me levar s bancas do Tribunal de Menores, e
corri o risco de ser condenada. Sabia muito bem que
minha me ficaria muito feliz se tivesse podido me
ajudar para que as coisas no chegassem quele
ponto. Ela no parava de telefonar para todo canto
(Servio Social, Centro Antidrogas) e parecia cada vez
mais desesperada, pois percebera que ningum podia
ou queria nos ajudar. Tudo o que ela conseguia fazer
eram ameaas de me enviar para sua famlia, longe de
Berlim.
Finalmente, num belo dia de maio de 1977, meu
pobre crebro acabou reconhecendo que s me
restavam duas solues: overdose a curto prazo ou
uma sria desintoxicao. Deveria decidir-me sozinha.
No podia mais contar com Detlef e no queria tornlo
responsvel pela minha deciso.
Fui ao conjunto Gropius, ao Centro de Jovens,
aquele dirigido por um pastor, onde minha carreira de
viciada comeou. O Centro estava fechado: no
conseguindo mais controlar o problema da herona,
tiveram que fazer do Centro de Jovens um centro
antidrogas. Era necessrio um centro antidrogas s
para o conjunto Gropius, tal era o grau de estragos
feitos pela herona desde que aparecera por ali, h
dois anos. Eles me disseram o que eu j sabia h
muito tempo: a minha nica chance era uma boa
terapia. Deram-me o endereo da Drogeninfo e da
Synanon, porque estas conseguiam melhores
resultados.
Eu tinha um certo receio dessas terapias, pois,
segundo diziam na "cena", elas eram bastante
rigorosas. Nos primeiros meses era pior do que uma
priso. Na Synanon, era preciso at deixar que nos
raspassem o cabelo. Era uma maneira de nos
conscientizar de que queramos comear vida nova.
Pensei: "Isto eu no vou conseguir, deixar cortar meu
cabelo  la Kojak, nem pensar!" Meus cabelos eram
para mim a coisa mais importante, pois com eles
escondia o meu rosto. Achava que se eles cortassem
os meus cabelos acabaria me suicidando.
A conselheira achava, tambm, que eu no tinha
a menor chance de entrar na Drogeninfo ou na
Synanon, pois eles j no tinham mais vagas. Uma
nova admisso seria muito difcil, seria pelo menos
necessrio estar com alguma sade e provar-lhes,
atravs de uma autodisciplina livremente consentida,
que tnhamos fora de vontade para nos desligarmos
do vcio. Ela tambm reiterou que eu era muito jovem,
nem ao menos tinha completado quinze anos, portanto,
era ainda uma criana. Seria, para mim, muito
difcil preencher as exigncias deles. Alis, para as
crianas eles ainda no tinham uma terapia
determinada.
Eu me propus ir  Narconon. Narconon era o
centro teraputico da Igreja Cientolgica, uma seita.
Conheci alguns viciados que ali estiveram e disseram
que no era mau. Se pagssemos adiantado, no
faziam exigncias para a admisso. Tnhamos direito a
nos vestir como queramos, levar discos, e aceitavam
at animais.
A conselheira me mandou refletir, pensar na
razo pela qual tantos viciados disseram que na
Narconon a terapia era completamente descontrada, e
continuavam a se picar. Ela no conhecia nenhum
exemplo de terapia bem-sucedida na Narconon.
Mas, o que fazer se no tinha nenhuma chance de
ser admitida em outro lugar? Ela me deu o endereo
da Narconon.
Em casa, dei um pouco de extrato de sangue de
boi para o meu gato, na seringa. Quando minha me
voltou do escritrio, anunciei-lhe:  Vou me
desintoxicar totalmente na Narconon. Sero alguns
meses ou talvez um ano. Depois estarei limpa para
sempre.
Minha me demonstrou no acreditar em uma s
palavra minha. Nem sequer tentou obter informaes
sobre a Narconon.
Mergulhei de cabea nessa histria de terapia.
Tinha a impresso de renascer. Nada de clientes
naquela tarde e no tomei nada. Iria me privar da
droga antes de entrar para a Narconon. Eu no queria
comear pela tortura do quarto de isolamento. Queria
chegar limpa, para estar em igualdade de condies
com os demais internos. Queria provar-lhes
imediatamente que estava decidida a deixar a droga.
Fui dormir bem cedinho. O gato estava cada vez
pior. Eu o instalei a meu lado, no travesseiro. Estava
muito orgulhosa de mim. Faria meu tratamento
sozinha, com minha prpria vontade. Que outro
viciado poderia dizer o mesmo? Quando lhe anunciei
minha deciso, minha me reagiu com um sorrisinho
incrdulo. Ela no tirou nenhum dia de frias. Para ela,
meus tratamentos quase faziam parte do cotidiano, e
no acreditava mais neles. Eu estava sozinha.
Na manh do dia seguinte tive uma crise. Talvez
a pior de todas. Mas tinha a certeza de que iria
agentar a barra. Quando me sentia mal de verdade,
pensava: " s veneno que sai do seu corpo. Voc vai
viver porque nunca mais vai se envenenar". Quando
adormecia, no tinha pesadelos e sonhava com o que
seria minha vida depois da terapia. Maravilhosa.
Quando, j no terceiro dia, as dores tornaram-se
mais suportveis, s via o paraso, como num filme,
diante dos meus olhos. Cada vez a coisa tornava-se
mais concreta. Continuava freqentando as aulas at a
minha formatura. Tinha, tambm, minha moradia
prpria. Um VW conversvel diante da porta, que eu
dirigia, quase sempre, com a capota baixada.
O apartamento era no meio do verde. Em Rudow
ou talvez em Grunewald. A construo era antiga, mas
nem de longe se parecia com as construes
burguesas do Kurfrstendamm, com seus tetos altos e
feitos de estuque. Tambm no era uma casa, onde a
entrada era um salo, coberto por tapetes vermelhos,
muito mrmore e cheio de espelhos com nomes
gravados em letras douradas. No era, portanto, nada
que fedesse a riqueza. A riqueza, assim eu imaginava,
significava hipocrisia, agitao e stress.
Eu queria o meu apartamento num edifcio
simples, com duas ou trs peas, tetos baixos, janelas
pequenas, com uma escadaria de madeira, onde
houvesse sempre um cheirinho bom de comida, e que
os vizinhos fossem pessoas amveis ao nos
cumprimentar todos os dias: "Como vai, tudo bem?" A
escada deveria ser estreita o suficiente para que a
gente esbarrasse um no outro ao passar. Todos naquele
edifcio trabalhavam muito, mas viviam felizes.
No havia brigas nem inveja. Todos se ajudavam
mutuamente. Eram, por isso, completamente
diferentes daqueles ricos nojentos que moravam nos
altos edifcios do conjunto Gropius. Ali, todos viviam
tranqilos.
No meu apartamento a pea principal era o
quarto de dormir. Minha cama, muito larga, coberta
com um tecido escuro, estava encostada na parede do
lado direito. Tinha duas mesas-de-cabeceira (a
segunda era para Detlef) e um vaso com palmeiras.
Alm disso, o quarto estava cheio de plantas e flores.
A parede atrs da cama era forrada com um papel que
no estava  venda no comrcio: nele havia desenhos
de um deserto, gigantescas dunas de areia e um osis.
Sob as palmeiras, bedunos vestidos de branco e
bebendo caf, sentados em roda e totalmente 
vontade. A paz. O meu lado era o esquerdo da cama,
sob a janela do teto. A cama estava instalada como na
Arbia ou na ndia, cheia de almofadas, tendo ao lado
uma mesa baixa e redonda. Era l que eu passava
minhas noites na mais completa calma. Longe de toda
agitao, sem angstia nem problemas.
Minha sala de estar era muito parecida com o
quarto. Plantas, tapetes. No meio dela havia uma
grande mesa de madeira rodeada de cadeiras de
palha.  mesa, estavam sempre os meus melhores
amigos. Bebamos ch, e eu cozinhava para eles. Nas
paredes, prateleiras carregadas de livros. Livros legais,
escritos por pessoas que encontraram a paz e que
conheciam muito bem a natureza e os animais. Essas
prateleiras eu mesma as fabricara, como a maior parte
dos meus mveis, pois no encontrara nas lojas peas
que me agradassem. No queria coisas para
impressionar, mas apenas mveis que no tivessem
como nica funo mostrar que custaram uma fortuna.
E no havia portas em meu apartamento. Havia
apenas cortinas, pois as portas batem, fazem rudo e
agitao.
Tinha um cachorro, um rottweiler, e dois gatos.
Desmontei o banco traseiro do meu carro para que o
cachorro ficasse mais  vontade.
 noite preparava o jantar. Tranqilamente e
devagar, no como minha me, que sempre cozinhava
s pressas. Um rudo de chave na fechadura. Era
Detlef que voltava do trabalho. O cachorro pulava em
cima dele. Os gatos se eriavam e vinham se esfregar
contra as suas pernas. Detlef me beijava e sentava-se
 mesa para jantar.
Isso tudo era o que eu sonhava naquela grave
crise de abstinncia da H. S no sabia que era um
sonho. Aquelas imagens pareciam, para mim, a
realidade de depois de amanh. Depois da terapia.
Nunca imaginava que pudesse ser de outra forma, a
tal ponto que, na noite do meu terceiro dia de
tratamento, disse a minha me que terminada a
terapia mudaria para meu prprio apartamento.
No quarto dia j me sentia to bem que at
consegui me levantar. Ainda tinha vinte marcos,
guardados no bolso de meus jeans. Esse dinheiro
deixava-me inquieta, porque vinte marcos eram
exatamente a metade dos quarenta. Pensei ento: "Se
voc ao menos tivesse mais vinte marcos, poderia ir
comprar a sua ltima dose de herona, como despedida,
antes de ir amanh pela manh para a
Narconon".
Falava com o meu gato doente. Dizia-lhe que no
seria assim to ruim se eu o deixasse por apenas duas
horas sozinho. Com a minha agulha de injeo dei-lhe
ch de camomila com um pouco de acar de uvas 
a nica coisa que ele ainda segurava no estmago  e
disse1.  Voc no vai morrer.
Eu s queria andar, mais uma vez, pelo Kudamm,
pois sabia que na Narconon no nos deixavam sair
sem acompanhante. Queria sentir a ltima picada, pois
o Kudamm, sem herona, era uma merda. Mas me
faltavam os tais vinte marcos. O jeito era fazer mais
uma virao, ou seja, procurar um cliente. S no
queria era me encontrar com Detlef na Estao Zoo
pois, se eu lhe contasse que fora bem-sucedida na
minha abstinncia e que estava apenas procurando um
cliente para me despedir totalmente da droga, ele
certamente me daria a maior gozada da parquia.
A idia me ocorreu no metr: vou me deixar
paquerar por um automobilista. Pensei nisso por causa
dos vinte marcos, que era mais ou menos o preo.
Stella e Babsi faziam isso com freqncia, mas eu
sempre tive horror de fazer isso: primeiro, no
podemos examinar o tipo que se aproxima de ns, e
subimos no carro de qualquer um.
O pior era quando caamos nas mos de um
cafeto. Eles freqentemente se fantasiavam de
cliente. E, uma vez dentro do carro, no havia mais
nada a fazer. Eles no queriam que as viciadas
trabalhassem para eles, pois isso no lhes interessava
(elas gastam muito dinheiro com drogas). O que eles
queriam era expuls-las da Kurfrstenstrasse, porque
elas baixavam os preos do mercado das profissionais.
Babsi uma vez subiu no carro de um deles. Ele a
seqestrou por trs dias. Torturou-a e depois a
obrigou a trepar com um monte de caras, estrangeiros
sujos, mendigos bbados e coisas do gnero. E
durante todo esse tempo Babsi estava,  claro, em
crise. Ela viveu um verdadeiro inferno durante esses
trs dias, mas mesmo assim voltou 
Kurfrstenstrasse.  que ela era a rainha do lugar,
com o seu rosto de anjo e sua silhueta reta, sem seios
nem ndegas. As prostitutas profissionais eram quase
to perigosas quanto os cafetes. A Potsdamerstrasse,
o quartel-general das putas da pior espcie, ficava
apenas a duzentos metros da putaria infantil na
Kurfrstenstrasse. Periodicamente, elas faziam uma
verdadeira caa s viciadas. Se pegavam uma, caam
em cima com estilete na mo e deixavam-na em carne
viva.
Desci na Estao Kurfrstenstrasse. Estava morta
de medo. Pensava nos conselhos de Babsi e Stella
para evitar tipos jovens em carro esporte ou
americano, que podiam ser proxenetas. Os velhos com
gravata e gordinhos eram barra-limpa, principalmente
se estivessem de chapu. Os melhores eram os caras
que tinham uma cadeira de beb no banco traseiro:
eram pais de famlia  procura de uma pequena
aventura, e tinham mais medo do que a gente.
Subi a rua em direo ao Sound, no  beira da
calada, mas ao lado das casas, com um ar de quem
no queria nada. Logo depois um cara me fez sinal. Eu
o achei estranho, com um ar agressivo. Talvez por
causa de sua barba. Mandei-o passear e continuei meu
caminho.
No havia outra menina  vista.  que ainda no
era meio-dia. Sabia disso, pois Babsi e Stella me
haviam dito que ficavam furiosos, pois se viravam
como doidos para conseguir meia hora e no
encontravam nenhuma menina. s vezes, na
Kurfrstenstrasse havia mais clientes do que meninas.
Muitos outros carros pararam. Fingi que no os via.
Olhava as vitrinas de uma loja de mveis. Ca
novamente no sonho do meu apartamento. Pensei:
"Christiane, minha filha, recomponha-se. Os vinte
marcos,  preciso encontr-los rpido. Concentre-se".
Nesses casos eu precisava me concentrar para me
livrar o mais rpido possvel.
Um Comodoro branco parou. Nada de cadeira de
criana no banco traseiro, mas o cara no tinha
aspecto de louco. Subi sem pensar muito. Acertamos
por trinta e cinco marcos.
Fomos  Asknischenplatz, onde havia uma velha
estao desativada. Foi rpido. O cara foi bonzinho e
at esqueci que era um cliente. Ele disse que gostaria
de rever-me, mas que partiria dentro de trs dias para
a Noruega, em frias com sua mulher e os dois filhos.
Pedi-lhe para me deixar na Universidade Tcnica,
pois era l que encontrvamos herona pela manh.
Ele aceitou na hora.
O dia estava lindo nesse 18 de maio de 1977. Eu
guardei bem a data, pois foi dois dias antes do meu
dcimo quinto aniversrio. Andava  toa, conversava
com dois caras, acariciava um co. Era a felicidade.
Achava formidvel no estar apressada, poder esperar
para me picar na hora em que eu tivesse vontade de
verdade. No estava mais em estado de dependncia.
Depois de certo tempo passou um cara que
perguntou se eu queria droga. Disse-lhe que sim, e
comprei-a por quarenta marcos, Desci para me picar
no toalete de senhoras da Ernst-Reuter-Platz, que era
bastante limpa. Pus meia dose na colher, pois depois
de um tratamento era preciso ir com moderao.
Piquei-me com certa solenidade, dizendo a mim
mesma que seria a ltima dose.
Acordei duas horas mais tarde, a bunda no vaso
sanitrio, agulha no brao. Minhas coisas no cho. Eu
me sentia relativamente bem. No fundo, havia
escolhido o melhor momento para me curar.
Meu passeio a Kudamm danou. Comi no
restaurante universitrio, por dois marcos e meio,
batatas e salsicho, mas vomitei tudo alguns minutos
mais tarde. Andei  toa na Estao Zoo para dizer
adeus a Detlef, mas no o encontrei. Precisava voltar
para casa, pois meu gato tinha necessidade de mim.
Pobre gato, no tinha se mexido e continuava no
meu travesseiro. Limpei a seringa e lhe dei um pouco
de ch com acar de uva. No era assim que eu
imaginava minha ltima jornada de viciada. Se eu
pegasse um dia a mais?
A minha me chegou e me perguntou onde
passara a tarde.  Em Kudamm.  Ela no estava
contente.  Voc tinha dito que passaria para se
informar na Narconon.
Louca de raiva, comecei a gritar:  Deixe-me em
paz! Eu no tive tempo, entendeu?  Ela, por sua vez,
tambm gritou:  Embrulhe suas coisas e se mande
para a Narconon! E fique por l.
Acabara de preparar uma costeleta com pur.
Levei meu prato para o banheiro, me tranquei e comi
l dentro. Eis minha ltima noite na casa de minha
me. Gritei porque fiquei arrasada por ela ter
compreendido que eu, mais uma vez, havia tomado
uma picada.
Arrumei algumas coisas no meu grande saco de
dormir. Escondi a seringa, a colher e o resto da
herona na calcinha. Fomos  Narconon de txi. No
me perguntaram nada. Esses caras pegavam qualquer
um. Tinham at intermedirios que passeavam na
"cena".
Mas as perguntas foram feitas  minha me!
Antes de me admitir na Narconon, eles queriam ver o
dinheiro: mil e quinhentos marcos, pagos adiantado,
para o primeiro ms.  claro que minha me no tinha
esse dinheiro. Ela prometeu arrum-lo at a manh do
dia seguinte. Arranjaria um financiamento. Suplicoulhes
que ficassem comigo. Eles concordaram.
Pedi autorizao para ir ao banheiro. E me deram.
Tomei uma picada rapidamente. Quando voltei
eles perceberam que eu estava drogada, mas no
fizeram nenhuma observao. Eu lhes dei a seringa e
o resto. O cara ficou com um ar espantado e me
felicitou.
Levaram-me para o quarto de isolamento. ramos
trs l dentro. Um dos outros dois se mandou na
manh seguinte. Um belo lucro para a Narconon.
Eles me deram livros sobre a doutrina da Igreja
Cientolgica. Que seita gozada! Podamos ou no
acreditar nas suas histrias. Eu tinha necessidade de
acreditar em alguma coisa.
Depois de dois dias me deixaram sair do quarto
de isolamento. Fui dividir um quarto com Christa. Uma
louca. Privaram-na da terapia porque ela no parava
de zombar das terapias e dos terapeutas. Ela revirava
os cantos do nosso quarto dizendo que algum podia
ter escondido herona. Levou-me ao sto:  Basta
instalar algumas almofadas, e poderemos fazer aqui
uma dessas farras com vinho, maconha e tudo o mais.
Eu, que tinha vindo  Narconon para me livrar,
para me desintoxicar, e ela no parava de falar de
droga e de colocar a Narconon na merda.
No dia seguinte, telefonema de minha me. Ela
me disse que o gato havia morrido, e s depois me
desejou feliz aniversrio.
Passei o resto da manh chorando na minha
cama.
Quando os caras perceberam, disseram que eu
tinha necessidade de uma sesso. Trancaram-me em
uma sala com um cara (um ex-viciado) que me
bombardeou com ordens absurdas. Fui obrigada a
executar.
Ele me disse:  Veja esta parede. Aproxime-se
desta parede. Toque a parede.  E repetamos.
Durante horas. Eu tateava os quatro muros da sala.
Em dado momento estava com o saco cheio disso e
falei:  Que besteirada. Voc  louco ou o qu? Deixeme
em paz, basta.  Sem parar de sorrir ele me
convenceu a continuar. Em seguida, ele me fez tocar
diferentes objetos at o momento em que me joguei
no cho, soluando, completamente esgotada.
Ele sorria. Quando me acalmei, a sesso
recomeou. Estava abobada. Tocava a parede antes
mesmo de ter recebido ordem. O nico pensamento
que ainda conseguia ter era: seria bom se isso
terminasse.
Depois de cinco horas exatas, ele falou:  Est
bem,  o suficiente por hoje.  Eu me sentia muito
bem. Ele me levou a uma outra sala, onde havia um
aparelho, de fabricao artesanal, uma espcie de
pndulo entre duas caixas de ao. O cara me mandou
colocar a mo ali e me perguntou:  Voc se sente
bem?
 Sim. Agora eu tenho verdadeira conscincia de
tudo o que me cerca.
O cara olhou o pndulo:  Ele no se mexeu,
ento voc no mentiu. A sesso foi boa.
O treco estranho era um detector de mentiras!
Um dos objetos do culto dessa seita. De qualquer
forma, eu estava contente porque o pndulo no se
mexera. Para me libertar da herona, estava pronta a
acreditar em qualquer coisa.
Ali eles faziam toda sorte de coisas
surpreendentes. Por exemplo, nessa mesma noite,
Christa teve febre: eles a fizeram tocar em uma
garrafa e dizer se ela era quente ou fria; depois de
algum tempo, ao que parece, a febre tinha baixado.
Tudo aquilo virou minha cabea a tal ponto que
na manh seguinte corri ao escritrio para pedir uma
nova sesso. Durante uma semana meti a cara nos
dogmas da seita. Tinha verdadeira f na terapia. O
programa era rgido: sesses, limpeza, cozinha. Isso ia
at as dez da noite. No tnhamos tempo para pensar.
A nica coisa que me irritava era a comida. No
conseguia me adaptar a um rango daqueles. Pelo
preo que pagvamos, aquilo poderia ser ao menos
um pouco melhor. Principalmente porque eles no
tinham outros gastos. Os que presidiam as sesses
eram quase sempre ex-viciados. Diziam que este
trabalho fazia parte de suas terapias e recebiam um
pouco de dinheiro para os gastos. Os dirigentes da
Narconon comiam  parte. Um dia eu os vi almoando,
estavam comendo um verdadeiro banquete!
Um domingo finalmente tive tempo de pensar
seriamente. Primeiro pensei em Detlef, e isso me
deixou triste. Depois me fiz algumas perguntas: o que
fazer depois da terapia? Essas sesses me ajudariam
realmente? Tinha muitas perguntas, mas nenhuma
resposta. Gostaria muito de falar com algum, mas
no tinha ningum, e ali era proibido fazer amizades:
era um dos grandes princpios da casa. Se tentssemos
conversar problemas desse tipo com os caras
da Narconon, eles nos metiam imediatamente numa
sesso. Desde que entrara nessa casa no tivera
nenhum papo.
Na segunda-feira pintei no escritrio e vomitei
tudo de uma s vez. Em primeiro lugar, a comida.
Depois, tinham me roubado quase todas as calcinhas.
Era impossvel entrar na lavanderia, pois a menina que
tinha as chaves passava o tempo todo na cidade, se
picando. Alis, ela no era a nica. Essa espcie de
coisas me perturbava. O ritmo forado das sesses e o
trabalho de limpeza estavam me esgotando e no
tinha mais a minha cota de sono.  Est bem 
disse-lhes , suas terapias so muito boas, mas elas
no solucionam os meus problemas. Isso tudo, no
fundo,  domesticao. Vocs tentam nos endireitar,
mas tenho necessidade de algum com quem falar dos
meus problemas e de tempo para lutar com eles.
Eles me ouviram sem dizer nada, com seus
eternos sorrisos. Depois disso tive direito a uma
sesso suplementar. Ela durou o dia todo, at as dez
horas da noite. Sa novamente em total apatia. Afinal
de contas, ser que eles sabem mesmo o que esto
fazendo? Minha me me contou, durante uma de suas
visitas, que a Previdncia Social lhe reembolsara os
gastos com minha permanncia na Narconon. J que o
Estado gastava dinheiro com isso, era porque acreditava
na coisa.
Outros pensionistas da Narconon tinham mais
problemas do que eu. Gaby, por exemplo: ela havia se
apaixonado por um cara, e queria, a todo custo,
dormir com ele. Ela foi, como uma idiota, contar aos
manda-chuvas. Resultado: uma sesso suplementar.
Mesmo assim ela trepou com o cara. Ficaram sabendo
e os ridicularizaram diante de todos. Gaby
desapareceu naquela noite e nunca mais voltou. O
cara era um ex-viciado que, podia-se dizer, estava
limpo h muitos anos, e se mandou alguns dias mais
tarde. Voltou drogado at o pescoo.
Na verdade as pessoas da Narconon no se
incomodavam muito se trepssemos ou no. Para eles,
o importante era nos impedir de estreitar laos com
algum. Mas se este cara trabalhava com eles havia
mais de um ano, como poderia suportar tanto tempo
de isolamento?
Tarde da noite, o nico tempo livre que nos sobrava,
tnhamos alguns momentos de diverso. Passava-os
sempre com os pensionistas mais jovens. Era a mais
jovem de todos, mas ningum, naquela turma que
havamos comeado a constituir, chegava a dezessete
anos. Era a primeira leva de drogados muito jovens:
ramos todos crianas quando comeamos a nos picar.
E nos tornamos um farrapo em um ou dois anos,
porque durante a puberdade o veneno  ainda mais
devastador que mais tarde. Se nos encontr vamos ali,
tnhamos todos a mesma razo: no havia terapia em
outro local.
Como eu, a maioria chegou  concluso de que as
sesses no nos levavam a nada. De qualquer forma,
quando colocavam dois jovens juntos, a coisa se
transformava em palhaada: como manter a seriedade
por muito tempo quando devamos xingar uma bola de
futebol ou nos olhar nos olhos durante duas horas?
Renunciaram a nos fazer passar pelo detector de
mentiras. Qual era a sua utilidade se ns dizamos que
as sesses no serviam para nada? Ns nos
divertamos e nada mais. Nossos infelizes
coordenadores estavam cada vez mais perdidos.
Logo teramos um s assunto para conversar: a
herona. s vezes, em crculo fechado, falvamos
tambm da maneira como nos mandar.
Depois de quinze dias de Narconon, tinha meu
plano. Eu e dois rapazes nos disfaramos de "comando
da grande limpeza" e, graas ao nosso arsenal de
baldes, escovo e panos de limpeza, atravessamos
todas as portas sem problemas. Estvamos, os trs,
loucos de alegria. Estvamos to impacientes para nos
picarmos que por pouco no fizemos xixi nas calas.
Separamo-nos na entrada do metr. Tomei a direo
da Estao Zoo. Fui encontrar Detlef. Ele no estava;
Stella, sim. Ela me deu uma calorosa acolhida.
Contou-me que eles no tinham visto Detlef
ultimamente. Temi que ele estivesse preso. Quanto
aos clientes, eram muito poucos. Fomos 
Kurfrstenstrasse. Ali tambm no havia grande coisa.
Finalmente um carro parou. Reconhecemos o carro e
seu condutor. Um cara que j nos seguira tantas
vezes, at no caminho dos banheiros pblicos, quando
amos nos picar. Sempre o consideramos um policial 
paisana, mas no passava de um tarado por pequenas
drogadas.
Ele estava interessado em mim, mas deixou Stella
subir no carro.
Eu lhe declarei:  Trinta e cinco marcos por uma
bombada. No fao nada mais alm disso.
 Eu te dou cem.
Fiquei perplexa. Nunca tinha acontecido uma
coisa assim. Os caras que andavam de Mercedes
chiavam por cinco marcos. Aquele cara, no seu Volks
enferrujado, me props espontaneamente cem. Ele me
explicou que era um espio. Bem, era um
megalomanaco. Mas estes eram quase sempre os
melhores clientes, no eram avarentos, pois aquela
era mais uma forma de se vangloriar.
Ele me deu realmente os cem marcos. Stella foi
comprar imediatamente a herona e nos picamos no
carro. Depois fomos para o hotel. Fui com calma com
o cara (Stella me esperava no hall) porque ele fora
generoso e eu estava drogada (havia duas semanas
que no tomava nada). No tinha nem mesmo
vontade de deixar a estreita cama daquele horrvel
quarto de hotel.
Conversei um pouco com o cara. Ele era
interessante de verdade. Acabou me contando que
tinha em sua casa meio grama de herona, que nos
daria se nos encontrssemos com ele em trs horas na
Kurfrstenstrasse. Eu lhe pedi mais trinta marcos,
dizendo que tnhamos necessidade de comer bem, que
tal soma no era nada para um ricao como ele e que
compreendia muito bem que se ele andava naquele
carro velho era para enganar o inimigo, pois ele era
um espio, etc., etc. Ele, encurralado, me deu o
dinheiro.
Stella e eu voltamos  Estao Zoo. No
abandonei a esperana de encontrar Detlef. De
repente, um cachorrinho preto e branco com os plos
enlameados avanou na minha direo e saltou nos
meus braos. Eu devia lhe lembrar algum. Esse co
era genial, podia-se at dizer que era um co de caa
subdesenvolvido. Apareceu um cara com a roupa
rasgada e me perguntou se eu queria compr-lo. Ele
queria setenta marcos, pechinchei e ele deixou por
quarenta. Que legal: estava drogada e tinha
novamente um co. Stella props cham-lo de Lady
Jane. Eu o batizei de Janie.
Comemos em um restaurante na
Kurfrstenstrasse. Janie tinha direito  metade de
nossas costeletas. O "espio" chegou na hora exata ao
encontro e me trouxe, calmamente, meio grama de
herona. Foi uma loucura. Isso valia cem marcos.
Voltamos  Estao Zoo. Nada de Detlef, mas
encontramos Babsi. Estava muito contente, pois,
apesar de brigarmos muito, era a minha melhor
amiga. Subimos as trs ao terrao. Babsi tinha um
mau aspecto: pernas como palitos de fsforo, o peito
desaparecera e no pesava mais de trinta e um quilos.
Mas seu rosto continuava bonito.
Contei-lhes da Narconon, disse-lhes que a casa
era legal. Stella no queria nem ouvir falar: ela
nascera viciada e morreria viciada, disse. Mas Babsi
estava entusiasmada com a idia de podermos nos
desintoxicar juntas. Seus pais e sua av tentaram em
vo encontrar uma vaga num centro de terapia. Ela
estava uma vez mais em fuga, mas gostaria de se
desligar. Estava num estado pavoroso.
Batemos um bom papo e nos separamos. Fui com
Janie fazer compras numa loja fabulosamente cara que
ficava aberta  noite, e comprei dois sacos de comida
para ces e um grande estoque de salgadinhos para
mim. Depois telefonei para a Narconon. Eles me
autorizaram a voltar. Disse-lhes que levava uma
amiga, sem precisar que era um co.
Apesar de no ter pensado muito nisso, eu bem
sabia que iria voltar  Narconon. Para onde poderia ir?
Para casa? Imaginava a cara de minha me ao me ver
chegando. Alm do mais, minha irm voltara (ela no
queria mais ficar na casa de meu pai) e ocupava
minha cama e o meu quarto. Vagabundagem? Muito
pouco para mim. Dormir na casa de um cliente
significava ficar totalmente  sua merc e trepar
automaticamente. Eu nunca passei a noite na casa de
um cliente. E principalmente estava decidida a me
desligar da droga. Rumei para a Narconon, pois de
toda maneira no tinha escolha.
Na casa (chamvamos sempre a Narconon de "a
casa") a acolhida foi bastante fria, mas sem
comentrios. Eles nada disseram sobre Janie, pois
havia vinte gatos no pedao.
Fui procurar velhos cobertores no subsolo e
instalei o leito de Janie ao lado do meu. Na manh
seguinte ela havia feito coc por todos os lados. Janie
nunca foi limpa. Ela era meio pirada. Mas eu tambm
era. Eu a amava. Limpar aquela sujeira, para mim,
no era nada.
Imediatamente tive direito a uma sesso
suplementar. No dei bola para aquilo. Executei,
automaticamente, as ordens que recebi. A nica coisa
que me aborrecia era passar o tempo todo longe de
Janie. Os outros cuidavam dela, mas ficava doente
porque queria que ela fosse s minha. Todo mundo
brincava com ela e ela brincava com todos  no
fundo, era uma putinha. Todo mundo lhe dava comida,
e ela engordava a olhos vistos. Eu era a nica a lhe
falar. Agora, pelo menos, tinha com quem falar.
Fugi duas vezes. A ltima fuga durou quatro dias.
Dormi na casa de Stella, pois sua me estava
internada para desintoxicao alcolica. Recomeou a
vida de merda: cliente, picada, cliente, picada. Alm
disso, soube que Detlef e Bernd haviam partido para
Paris.
Ento perdi a calma. Como  que um cara que
era, podemos dizer, o meu marido se mandava sem
me avisar! Ns sempre sonhamos em ir a Paris.
Queramos alugar um quartinho em Montmartre e nos
desintoxicar. No tnhamos nunca ouvido falar de
droga em Paris, e pensvamos que isso no existia l.
Em Paris havia somente artistas, caras geniais, que
bebiam caf ou um copo de vinho de vez em quando.
E, no entanto, Detlef estava em Paris com Bernd!
No tinha mais amigo, estava s no mundo. Babsi e
Stella eram minhas amigas, mas sempre acontecia o
mesmo: brigas por qualquer motivo. S me restara
Janie.
Telefonei para a Narconon. Eles me disseram que
minha me havia passado para pegar minhas coisas.
Ela tambm no ligava para mim. Fiquei furiosa: vou
mostrar a todos. Vou lhes mostrar que saio dessa
sozinha!!!
Voltei  Narconon, e eles me readmitiram.
Entreguei-me  terapia feito uma obcecada. Fiz tudo o
que me mandaram. Tornei-me uma verdadeira aluna
modelo, voltei a ter o direito s honras do detector de
mentiras, e o pndulo no se mexia quando eu dizia
que a sesso tinha sido extraordinariamente benfica
para mim. Pensava: "Tudo bem, voc vai conseguir".
No telefonei para minha me. As roupas, pedi-as
emprestadas. Vestia cuecas, mas no me importava.
No queria suplicar  minha me para trazer minhas
coisas.
Um dia, recebi um telefonema de meu pai. 
Salve, Christiane. Onde voc se meteu? Acabei de
saber seu endereo por acaso.
 Estou at perturbada de ouvir que voc se
interessa por mim, ao menos uma vez.
 Diga-me, voc quer ficar nessa tribo estranha?
  claro.
Meu pai perdeu o flego. Precisava de alguns
minutos para voltar ao normal. Depois me perguntou
se queria ir almoar com ele e um dos seus amigos.
Aceitei.
Meia hora mais tarde me chamavam ao escritrio.
Quem estava l? Meu caro pai, a quem via pela
primeira vez depois de muitos meses. Ele subiu
comigo ao quarto que dividia com outras quatro
meninas. Suas primeiras palavras:  O que  esta
zona?  Ele sempre foi um manaco por ordem. E
nosso quarto, como o resto da casa, era um
verdadeiro depsito de sujeira e roupas por todos os
cantos.
Quando estvamos saindo para ir almoar, um
dos responsveis disse a meu pai:   preciso assinar
um papel, o compromisso de trazer Christiane de
volta.
Meu pai, furioso, comeou a gritar: ele era o pai,
o nico juiz do lugar onde devia viver sua filha. Nunca
mais sua filha voltaria a pr os ps ali.
Com dificuldade tentei ir  sala de terapia
suplicando:  Quero ficar aqui, papai. No quero
morrer, papai. Deixe-me, por favor.
As pessoas da Narconon, atradas pelos nossos
gritos, tomaram o meu partido. Meu pai saiu gritando:
 Chamo a polcia.
Sabia que ele iria fazer isso. Subi ao telhado. L
havia uma espcie de plataforma para os limpadores
de chamin. Eu me agachei tremendo de frio.
Na verdade, duas flores que no se cheiram se
juntaram. Os policiais e meu pai reviraram a casa de
cima a baixo. O pessoal da Narconon, inquieto, me
chamava. Ningum subiu ao teto. Os policiais e meu
pai foram embora.
Na manh seguinte telefonei para minha me em
seu escritrio. Soluando, perguntei o que estava
acontecendo.
Sua voz foi glacial:  No me interesso mais pelo
que possa acontecer com voc.
 Mas voc  minha tutora. No pode me
abandonar dessa forma. No quero que papai me leve.
Quero ficar, no fugirei mais, eu juro. Eu lhe peo,
faa qualquer coisa. Eu preciso ficar aqui, mame,
seno vou morrer. Acredite em mim, mame.
Minha me, com voz irritada, me disse:  No,
no h nada a fazer.  Um clique, e ela desligou.
Fiquei completamente arrasada. Depois tive raiva.
Pensei: "Bem, daqui para a frente voc vai encher o
saco deles. Eles nunca se ocuparam de voc e agora
que lhes deu na telha, caem-lhe em cima. Esses
idiotas s fizeram besteiras: a me de Kessi, pelo
menos, impediu a filha de se afundar na merda. Seus
pais fodidos nunca levantaram um dedinho, e de
repente imaginam saber o que  melhor para voc!"
Pedi uma sesso suplementar, a que me
entreguei com uma enorme alegria. Queria ficar na
Narconon, e talvez depois me tornasse membro da
Igreja Cientolgica. Em todo caso, no permitiria que
ningum me tirasse dali. No queria mais me deixar
destruir pelos meus pais.
Trs dias mais tarde, uma nova convocao ao
escritrio. Meu pai estava l, muito calmo. Explicou
que devia levar-me ao escritrio da Previdncia Social
por causa de um reembolso dos gastos da minha
permanncia na Narconon.
Eu:  No. No quero te acompanhar. Eu te
conheo, papai, voc no me deixar voltar. E eu no
quero morrer.
Meu pai mostrou um papel aos responsveis da
Narconon. Estava assinado por minha me e o
autorizava a me levar. O chefe da Narconon me disse
que no poderia fazer nada, pois era impossvel me
manter contra a vontade de meu pai.
Ele me aconselhou a no esquecer de fazer os
exerccios. Pensar sempre no confronto. A
confrontao era sua palavra de ordem. Era preciso
confrontar sempre. Que idiotas! Para mim no havia
nada a confrontar: iria morrer. No agentaria a
barra. Em quinze dias, no mximo, teria uma nova
recada. Sozinha no conseguiria nunca. Eis o que
pensava ao sair da Narconon, em um dos raros
momentos em que avaliei lucidamente minha situao.
S que na minha misria eu me convenci de que a
Narconon poderia me salvar. Chorei de raiva e de
desespero. No agentava mais.
A me de Christiane
Depois do fracasso da Narconon, meu ex-marido
decidiu acolher Christiane em sua casa para faz-la
"voltar  razo", segundo sua expresso. Creio que
no era uma boa soluo. Primeiro, ele no poderia
vigi-la vinte e quatro horas por dia. Alm do mais,
considerando as minhas relaes com ele, no poderia
aceitar a idia de confiar-lhe Christiane. Essa minha
idia era reforada pelo fato de minha outra filha ter
voltado a viver comigo, porque seu pai era muito duro
com ela.
Como j no tinha mais a quem apelar,
perguntava-me se seus mtodos no seriam melhores
que os meus. Talvez  no excluo essa possibilidade
 quisesse me convencer para me aliviar
provisoriamente da responsabilidade sobre Christiane.
Depois da primeira tentativa de supresso, eu estava
sempre como debaixo de uma ducha escocesa,
passava da esperana ao mais profundo desespero.
Quando pedi a seu pai que interviesse, eu estava fsica
e moralmente esgotada. Trs semanas aps a primeira
privao de droga (aquela que Christiane e Detlef
haviam feito em casa), a primeira recada teve para
mim o efeito de um soco na cabea. A polcia me
telefonou para me informar da priso de Christiane e
me pedia para ir busc-la.
Fiquei sentada em meu escritrio, tremendo,
olhando para o relgio a cada dois minutos. No
ousava pedir permisso para sair mais cedo. No
podia confiar em ningum. O que diria minha chefe?
De repente compreendi o pai de Detlef. No incio
temos vergonha, uma terrvel vergonha.
Na delegacia de polcia encontrei uma Christiane
com os olhos inchados de lgrimas. O policial mostroume
a picada ainda fresca em seu brao e acrescentou
que ela fora presa na Estao Zoo, onde estava em
"uma atitude suspeita".
O que  "uma atitude suspeita"? No conseguia
imaginar ou talvez eu no quisesse imaginar.
Christiane estava terrivelmente infeliz por ter recado.
Nova tentativa de privao de droga. Sem Detlef. Ela
no saa de casa, parecia tomar a coisa a srio. Juntei
toda a minha coragem, fui  escola falar com o
professor responsvel. Ele ficou chocado, mas
agradeceu minha franqueza, pois os outros pais no
tm o hbito de lhe falar francamente. Acha que h
outros drogados entre os alunos. Bem que gostaria de
ajudar Christiane, mas no sabia como.
 sempre a mesma coisa a quem quer que eu me
dirija: ou se est to desamparado como eu, ou ento
h um desinteresse total por pessoas como Christiane.
Uma experincia por que passaria com freqncia.
Eu percebi, pouco a pouco, como era fcil para
um adolescente encontrar herona, mesmo no caminho
da escola. Vi vendedores oferecendo-a na
Hermannplatz, em Neuklln (Bairro de Berlim. (N. do
T.)). No acreditei nos meus ouvidos quando um
desses tipos abordou Christiane em minha presena,
quando fazamos compras. Alguns so estrangeiros,
mas h tambm alemes entre esses traficantes.
Christiane me contou como ela os conhecia, quem
vende o qu e assim por diante.
Tudo isso me pareceu uma loucura. Em que
mundo vivemos?
Quis que Christiane mudasse de escola para ao
menos evitar que ela encontrasse esses tipos no
caminho. Como as frias da Pscoa estavam
chegando, eu esperava que em um ambiente diferente
ela corresse menos perigos. Claro que era uma idia
ingnua. Bem, isso no deu em nada, pois ela no foi
aceita em outro colgio.
Ela ficou muito decepcionada, mas se limitou a
dizer: "Tudo isso no tem nenhum sentido. A nica
coisa que pode me ajudar  uma terapia". Onde
encontrar uma vaga? Telefonei a todos os servios
possveis e imaginveis. O mximo que consegui foi
que me dessem o endereo de um servio antidroga.
At ali se exigia que Christiane se apresentasse
voluntariamente. Cada servio falava mal do outro,
mas eles estavam todos de acordo sobre um ponto: 
preciso que a deciso parta dela mesma, seno 
impossvel cur-la.
Christiane imediatamente ficava irritadssima
quando eu pedia para ir  consulta antidroga. "Fazer o
qu? Eles no tm vaga para mim. No vou ficar
bajulando-os durante semanas."
Que fazer? No podia lev-la  fora at aquele
pessoal, pois era contra seus princpios. Hoje
compreendo muito bem essa atitude: nessa poca
Christiane no estava efetivamente madura para
submeter-se a uma terapia seriamente. Por outro lado,
acho que garotos toxicmanos como Christiane tm
direito a toda a ajuda possvel, mesmo contra sua vontade.
Mais tarde, quando Christiane se sentiu muito
mal, a ponto de querer ir por conta prpria fazer
terapia, mesmo que fosse uma terapia severa, nos
disseram: "Est lotado. Seis a oito semanas de
espera". Aquilo me ps doente e a nica coisa que
pude dizer foi: "E se minha filhinha morrer at l?" 
"Bem,  claro que nesse caso ela deve vir fazer umas
entrevistas com nossos conselheiros. Veremos se suas
intenes so srias." Agora vejo que no devia ficar
furiosa. Eles tm to poucas vagas que so obrigados
a fazer uma seleo.
No encontrei nada. Quando Christiane voltou das
frias, tive a impresso de que ela no tinha mais
necessidade de fazer terapia. Estava com um aspecto
maravilhoso. Achei que tinha vencido.
Ela me falava com freqncia de sua amiga Babsi,
que se vendia a homens maduros para comprar
herona. Ela achava repugnante e jamais faria isso...
"Estou to feliz por estar finalmente longe de toda
essa sujeira", dizia-me. Parecia sincera. Teria jurado,
sobre qualquer coisa, que ela pensava assim.
Mas isso durou alguns dias. Percebi pelas suas
pupilas. No suportava mais suas histrias. "Que
bronca  essa? Fumei s um cigarrinho!" Foi o comeo
de um terrvel perodo. Comeou a contar-me mentiras
enormes mesmo sabendo que eu estava por dentro de
tudo. Christiane no dava a mnima importncia
quando eu a proibia de sair. Quase a deixei trancada
no apartamento, mas tive medo de que ela saltasse
pela janela.
Estava com os nervos  flor da pele. No
suportava mais olhar para as suas minsculas pupilas.
Tinham se passado trs meses desde o dia em que a
surpreendi no banheiro. Ao menos uma vez por
semana os jornais anunciavam uma nova morte por
overdose. Resumindo, as vtimas da herona tinham se
tornado uma crnica policial to banal quanto um
acidente de trnsito.
Tinha um medo terrvel. Principalmente porque
Christiane no confiava mais em mim. Isso me
enlouquecia. Quando se sentia desmascarada,
tornava-se grosseira e agressiva. Pouco a pouco
mudava de personalidade.
Temia pela sua vida. Sua mesada  vinte marcos
por ms  eu lhe dava pouco a pouco. Caso lhe desse
os vinte marcos de uma s vez, ela iria comprar uma
dose. E isso poderia ser fatal. O pior no era saber que
ela era toxicmana  tinha quase me acostumado
com a idia , mas o medo constante de que sua
prxima dose fosse a ltima. Pelo menos, ela voltava
s vezes para casa, ao contrrio de sua amiga Babsi. A
me de Babsi me telefonava freqentemente,
chorando, para saber onde poderia estar sua filha.
Vivia apavorada. Cada vez que o telefone tocava
eu me apavorava: talvez seja a polcia, o necrotrio ou
coisa parecida. Ainda hoje pulo da cama ao primeiro
som da campainha.
Christiane no queria dialogar. Se tentasse
conversar sobre droga, a resposta era sempre a
mesma: "Deixe-me em paz". Tinha a impresso de
que ela se deixava destruir.
Ela afirmava que no se picava mais e que se
limitava  maconha. Mas eu no tinha nenhuma iluso.
Regularmente dava uma olhada no seu quarto e
sempre encontrava alguma coisa suspeita. Duas ou
trs vezes cheguei a encontrar uma seringa. Esfregava
no seu nariz, mas ela, com um ar ofendido, gritava
dizendo que era de Detlef. Ela tinha confiscado a
seringa do seu amigo.
Um dia, voltando do trabalho, encontrei-os
sentados lado a lado na cama de Christiane, em seu
quarto de criana, esquentando uma colher. Surpresa
por tal afronta, a nica coisa que eu soube fazer foi
gritar:  Saiam daqui, imediatamente.
Partiram e comecei a chorar. De repente me senti
abandonada por todos, cheia de raiva contra a polcia
e o governo. Nessa manh o jornal trazia a morte de
um jovem drogado. Mais um. Era o trigsimo do ano.
E ainda estvamos no ms de maio. No entendia
mais nada: na televiso fala-se de somas fabulosas
gastas na luta contra o terrorismo. Enquanto isso os
revendedores passeiam livremente em Berlim e
vendem herona em plena rua, como se fosse sorvete.
De repente me saiu em voz alta: "esses nojentos".
Um monte de pensamentos enchia minha cabea
e eu me perdia. Sentada na sala de estar, olhei um a
um meus mveis. Tinha vontade de quebrar tudo. Eis
por que eu me sacrificava tanto! Recomecei a chorar.
Nessa noite dei uma surra em Christiane. Uma
surra daquelas. Eu tinha esperado por ela sentada na
minha cama. Devorada pela angstia e pelo remorso.
Tinha dado tudo errado. Meu casamento fora um erro
e tinha me absorvido demais na minha vida
profissional. Alm do mais, tinha, por covardia,
fechado os olhos durante muito tempo  situao
vivida por Christiane. Naquela noite perdi minhas
ltimas iluses.
Christiane s voltou  meia-noite e meia. Da
minha janela eu a vi descer de um Mercedes, diante
da porta de nosso edifcio. Meu Deus, pensei,  o fim
de tudo. Ela perdeu os ltimos traos de respeito por
si mesma:  a catstrofe. Eu estava aniquilada.
Peguei-a e dei-lhe uma surra que at a minha mo
ficou doendo. Depois nos jogamos sobre o tapete e
choramos juntas. Christiane estava totalmente
arrasada. Disse na cara dela que era uma puta:  
intil negar.  Ela se limitou a balanar a cabea e a
soluar:  No  como voc pensa, mame.
No perguntei os detalhes. Mandei-a tomar banho
e ir dormir. O que sentia ningum pode imaginar.
Christiane se vendia aos homens! Esse golpe foi pior
do que quando soube que ela se picava.
Durante a noite no consegui dormir. No meu
desespero, pensei em intern-la em uma instituio.
Mas isso s agravaria a situao. O Centro Mdico-
Psicolgico da Ollenhauerstrasse a recolheria, antes de
encontrar um lugar melhor. Mas nesse Centro um
professor me disse que as jovens se incitam
mutuamente  prostituio.
Existia uma s possibilidade: afastar Christiane de
Berlim, definitivamente. Quer ela quisesse ou no.
Tir-la daquele pntano e envi-la a um lugar onde
no houvesse herona.
Minha me, que mora em Hesse, aceitou
imediatamente tomar conta dela, e minha irm, que
vive em Schleswig-Holstein, tambm aceitou. Quando
falei a Christiane da minha deciso, ela ficou
perturbada. Comecei os preparativos. A, Christiane,
com um ar muito triste, me disse que queria fazer
terapia. Chegou a encontrar uma vaga na Narconon.
Que alvio. Temia tanto que Christiane, sem
terapia, no fosse capaz de agentar a barra e fugisse
da casa de minha me ou de minha irm.
Eu no tinha informaes precisas sobre a
Narconon. A nica coisa que sabia  que era muito
caro! Dois dias antes do seu dcimo quinto
aniversrio, eu a levei de txi a Narconon. Um jovem
nos recebeu para a entrevista de admisso. Felicitounos
por nossa deciso e me assegurou que dali em
diante eu no teria mais por que me inquietar: a
terapia Narconon era geralmente coroada de sucesso.
Eu poderia ir embora tranqila. Finalmente!
Foi ento que ele me deu um papel para assinar.
Uma promissria de cinqenta e dois marcos por dia,
por quatro semanas, que deveriam ser pagas
adiantadamente. Mais que meu salrio mensal. Que
importncia tinha aquilo? Alm do mais, o jovem disse
que seria reembolsada pela Previdncia Social.
No dia seguinte juntei quinhentos marcos e levei
 Narconon. Consegui um emprstimo de mil marcos
no banco. Enviaria o cheque na prxima reunio de
pais.
O coordenador dessas reunies de pais ,
digamos assim, um ex-drogado. Seu passado parece
no ter deixado nele nenhuma marca. E graas 
Narconon, que fizera dele um homem novo, nos
explicou ele. Isso nos impressionou. Ele me disse que
Christiane fazia grandes progressos.
Na verdade, era uma bela encenao. Esses caras
querem principalmente nosso dinheiro. Soube mais
tarde por meio da imprensa que a Narconon pertence
a uma seita americana bastante duvidosa e que se
enriquece explorando a angstia dos pais.
Mas, como sempre, compreendi muito tarde, uma
vez que o mal j tinha sido feito. E eu que pensava
que Christiane estava em boas mos. Queria que ela
ali permanecesse o maior tempo possvel. Tinha
necessidade de dinheiro.
Comecei a percorrer os servios pblicos. Parece
que nenhum deles era competente. Em nenhuma
parte me falaram a verdade sobre a Narconon. Eu
estava desanimada. Ao saltar de guich em guich,
tinha a impresso de estar roubando o tempo dessa
gente. Finalmente algum me disse: ''Antes de mais
nada  preciso providenciar um atestado do mdico,
dado pela Sade Pblica, confirmando a toxicomania
de Christiane". Com esse documento, poderia pedir
que a terapia fosse paga. Acreditei nessa brincadeira.
A angstia de Christiane era clara para quem a
conhecesse um pouco. Mas  assim mesmo no servio
pblico. Aps duas semanas de esforos, consegui
uma entrevista com o mdico indicado, mas Christiane
tinha fugido da Narconon. Sua terceira fuga.
Eu chorava at no agentar mais. Pensava: vai
recomear tudo. Estamos novamente na estaca zero.
Meu companheiro e eu comeamos a procur-la. Pela
manh fazamos operao pente-fino nos bairros da
periferia e  noite percorramos o centro da cidade
(mesmo nos banheiros pblicos), discotecas, estaes
de trem e de metr. Todos os lugares freqentados
pelos drogados. Dia aps dia, noite aps noite.
Noticiamos seu desaparecimento  polcia. Disseramnos
que a inscreveriam na lista de pessoas
procuradas. Ela acabaria aparecendo em alguma
parte.
Se eu pudesse me enterrar num buraco! Eu era
pura angstia. Medo de uma voz me anunciar pelo
telefone: sua filha est morta. No passava de um
feixe de nervos. No tinha mais necessidade de nada.
Nada mais me interessava, e me esforava para
continuar trabalhando. No queria tirar licena por
motivo de sade. Tive problemas de corao e no
podia mexer meu brao esquerdo, que ficava entorpecido
 noite. Meu estmago estava mal, tinha dores
nos rins e minha cabea ameaava estourar. Eu no
passava de um monte de misrias.
Fui ver um mdico. Ele me deu o golpe mortal.
Aps ter-me examinado, achou que tudo tinha origem
nos nervos e me receitou Valium. Quando lhe contei
por que estava em tal estado, ele me disse que alguns
dias antes uma jovem que o consultara confessou que
se drogava. Ela perguntara o que poderia fazer.
 E o que voc disse?
 V se enforcar. No h sada. Foi o que ele lhe
disse.
Uma semana depois Christiane voltou  Narconon.
No consegui me alegrar com a notcia. Alguma coisa
tinha morrido em mim. Pensava ter feito tudo o que
era humanamente possvel. Mas no servira para
nada. Muito pelo contrrio.
Na Narconon, Christiane mudou. No para
melhor. Ela no tinha nada mais de uma menina, ela
tinha se transformado em uma criana vulgar, quase
repugnante.
Eu estava chocada desde as minhas primeiras
visitas  Narconon. De repente ela se tornou uma
estranha para mim. Algo havia se rompido. At ento,
apesar de tudo, ela tinha mantido certa ligao
comigo. Estava tudo terminado, acabado, como aps
uma lavagem cerebral.
Foi ento que pedi ao meu ex-marido que levasse
Christiane para junto de minha famlia. Ele preferiu
deix-la em sua casa. Ia educ-la, mesmo que fosse
pela fora.
No protestei. Minhas foras tinham terminado.
Tinha cometido tantos erros que temia repeti-los
enviando Christiane  casa de minha me.
***
Antes de me levar para sua casa, meu pai deu
uma parada no seu boteco favorito perto da Estao
Wutzkyallee. Ele queria me oferecer uma bebida
alcolica, mas s bebi suco de ma. Ele me disse que,
se eu no quisesse morrer, devia parar de me drogar.
  exatamente por essa razo que eu queria ficar na
Narconon  respondi.
A vitrola automtica tocava sem parar uma velha
msica. Alguns jovens jogavam flipper e bilhar. 
Aqueles so os adolescentes normais  falou meu pai.
Alis, ali encontraria, dentro em breve, novos amigos,
e eu mesma compreenderia o quanto tinha sido
estpida em me drogar.
Mal escutei. Estava quebrada, amarga e s tinha
uma vontade: estar s. Tinha dio do mundo inteiro. A
Narconon me parecia novamente a porta do paraso, e
meu pai acabava de fech-la no meu nariz. Peguei
Janie, coloquei-a na minha cama e perguntei-lhe: 
Janie, voc conhece o ser humano?  Respondi por
ela:  Bem. .. no.  Janie abanou o rabo, mas
qualquer um acredita que todos os homens so bons.
Era isso que eu no gostava nela. Preferiria que ela
rugisse, desconfiada de todo mundo.
Quando acordei, percebi que Janie no sujara a
sala. Precisava sair com ela imediatamente. Meu pai j
tinha ido trabalhar. A porta da entrada estava fechada
 chave. Ela no abria. Eu a empurrei e sacudi a
fechadura. Ela no abriu. Eu me esforcei para
conservar a calma. Apesar de tudo, meu pai no podia
ter-me fechado como a uma besta selvagem. Ele sabia
muito bem que eu devia sair com o cachorro.
Corri pelo apartamento  procura de uma chave.
Pensava comigo mesma: ele deve ter deixado em
algum lugar essas malditas chaves. E se o
apartamento pegasse fogo? Olhei debaixo da cama,
em cima dos armrios, at mesmo na geladeira. Nada
das chaves. No tinha mais muito tempo, pois eu
precisava sair com Janie. Ela, a qualquer momento,
iria sujar todos aqueles tapetes. Levei-a ento  varanda,
acho que ela entendeu.
S ento  que fui olhar o apartamento. Haviam
sido feitas algumas mudanas desde a minha partida.
O quarto estava vazio, pois minha me levara a cama.
Na sala de estar havia um div que eu no conhecia,
onde meu pai dormia, e uma nova televiso em cores.
O pedao de cano de borracha e o pedao de bambu
com os quais meu pai me batia haviam desaparecido.
Havia um baob em seu lugar.
No quarto das crianas, o velho armrio estava l,
do mesmo jeito: s se podia abrir uma das portas,
seno tudo desabava. A cama, como antes, estalava a
toda hora. Meu pai me prendera para que eu me
tornasse uma jovem normal enquanto ele no era nem
mesmo capaz de arrumar corretamente seu
apartamento.
Janie e eu voltamos  varanda. Ela ps as patas
na sacada, olhou a rua, onze andares abaixo, e as
torres sinistras que nos cercavam.
Tive necessidade de falar com algum. Telefonei
para a Narconon. Eles me anunciaram uma surpresa:
Babsi chegara. Ela tambm queria se desligar para
valer. Ela me contou que lhe haviam dado a minha
cama. Eu estava tremendamente triste de no estar
com ela na Narconon. Conversamos durante muito
tempo.
Quando meu pai voltou, eu no disse uma
palavra.
Ele falou pelos dois. No perdeu tempo: havia
planejado minha vida. Eu teria um horrio rgido para
todos os dias da semana: limpeza, dar comida a seus
pombos-correio, limpar o seu pombal ("no aqui no
conjunto Gropius, mas em Rudow"). E tudo sob
controle telefnico, para ver se o programa estava
sendo seguido. Para o meu lazer, ele arranjou uma
dama de companhia, uma das minhas antigas amigas,
Katharina, uma panaca que s entendia de hit-parade
da televiso.
Meu velho me prometeu tambm uma
recompensa: me levaria  Tailndia. A Tailndia era a
sua "viagem". Ele ia para l ao menos uma vez por
ano. Por causa das mulheres, mas tambm por causa
das roupas que eram baratas. Todo o seu dinheiro ele
reservava para suas viagens  Tailndia. Era a sua
droga.
Ouvi os planos de meu pai e achei que o melhor a
fazer naquela situao era deixar as coisas como
estavam. Tambm, muito pouco me restava. Pelo
menos assim no seria mais trancada a sete chaves.
No dia seguinte, limpei a casa e fiz as compras.
Depois chegou a panaca da Katharina, para irmos
passear. Corri junto com ela o mais que pude  era
jovem , e quando lhe disse que ainda queria
alimentar os pombos em Rudow, ela no tinha mais
foras para me acompanhar.
Fiquei, ento, com a tarde s para mim. Como
meu moral continuava a zero, tive vontade de me
atordoar um pouco, sem saber muito bem o que
poderia tomar. Decidi passar uma hora no Parque
Hansenheide, em Neuklln. Ali encontrvamos
maconha em um ambiente legal. Tive vontade de
fumar...
Como estava dura, voltei para casa, pois sabia
onde encontrar algum dinheiro. Meu pai tinha mais de
cem marcos, em moedas, em uma garrafa, sua
poupana para a prxima viagem  Tailndia. Peguei
cinqenta para ter a mais, achando que, se
economizasse nas compras, rapidamente cobriria o
buraco.
No parque, encontrei com Piet, o rapaz do Centro
de Jovens com quem fumara meu primeiro cigarrinho.
Ele havia passado para a herona. Perguntei-lhe,
ento, onde se podia encontrar herona por ali.
Ele:  Voc tem dinheiro?
Eu:  Sim.
Ele:  Venha comigo.  Ele levou-me at um
grupo de estrangeiros sujos, e comprei deles um
saquinho de um quarto. Sobraram-me dez marcos.
Fomos ao banheiro do parque, Piet me emprestou seus
instrumentos em troca da metade da minha dose
(agora ele era um verdadeiro viciado). Ns dois
tomamos uma picadinha.
Senti-me extraordinariamente bem. A "cena" do
Hansenheide era a mais legal de Berlim. No era um
lugar podre como Kurfrstendamm. Ali consumia-se
sobretudo maconha. Fumantes e viciados coexistiam
pacificamente, enquanto em Kudamm a maconha era
considerada droga de beb e desprezavam-se os
fumantes.
No Parque Hansenheide ningum se preocupava
em saber com o que voc se drogava. Voc podia at
no se drogar, o importante era ter vontade de sentir
aquela felicidade, drogado ou no. Alguns grupos
transavam msica, tocavam flauta ou bong. Era uma
grande comunidade em que todo mundo (inclusive os
estrangeiros sujos) se entendia bem. Em Woodstock
devia ser assim.
Voltei para casa com uma pontualidade britnica.
Meu pai chegou s seis horas e no percebeu que eu
estava drogada. Tive certo sentimento de culpa por
causa dos pombos. Eles haviam jejuado naquele dia,
mas no seguinte lhes daria rao dupla. Decidi no me
picar mais: no Parque Hansenheide no ramos
desconsiderados se fssemos somente fumadores de
maconha, e isso seria perfeitamente compatvel com
minha situao. No queria voltar  Kurfrstendamm.
Era muito nojento. No Parque Hansenheide conseguiria
desligar-me. Estava convencida.
Voltei ali todas as tardes com Janie. Ela gostava
muito daquele lugar, onde havia muitos ces legais.
Ali, at mesmo os ces eram legais. E todo mundo
gostava de Janie e a acariciava.
Dava comida aos pombos um dia sim, outro no.
s vezes dava uma rao a cada trs dias. Era o
suficiente, pois bastava que a gente deixasse eles se
encherem e em seguida espalhasse um pouco de rao
no pombal.
Fumava erva quando me davam. E havia sempre
algum para me dar. Era mais uma diferena entre os
fumantes e os viciados: os primeiros dividiam o que
tinham.
Conheci melhor o estrangeiro sujo que me vendeu
a dose de herona no primeiro dia. Estava ao lado do
cobertor sobre o qual ele estava sentado com alguns
amigos. Ele me convidou para me sentar tambm e se
apresentou: chamava-se Mustaf, era turco e os
outros eram rabes. Todos eles tinham entre
dezessete e vinte anos. Estavam comendo bolacha,
queijo e melo. Deram um pouco para mim e para
Janie.
Achei Mustaf bastante legal. Ele era um
revendedor, mas a maneira como trabalhava era
muito tranqila e no tinha nada a ver com a agitao
e a encenao dos traficantes alemes. Mustaf
arrancava tufos de grama e escondia o seu saco de
herona embaixo. Mesmo que os policiais
aparecessem, no encontrariam nada. Se aparecesse
um cliente, Mustaf, tranqilo como Batista, procuraria
na grama com seu canivete at encontrar o dito cujo.
Ele no vendia saquinhos prontos como os
revendedores do Kudamm, tinha herona sem
embalagem, e seu instrumento de medida era a ponta
de sua faca. Suas doses eram sempre corretas. Ele
limpava com o dedo o p que sobrava na lmina e me
dava para cheirar.
Mustaf me declarou imediatamente que era
nojento se picar. Se no queramos cair na
dependncia, era preciso contentar-se com cheirar. Ele
e os rabes se contentavam com isso, e nenhum deles
era dependente. Alis, s cheiravam quando tinham
vontade.
Com medo de que eu recasse na dependncia
fsica, Mustaf nem sempre me deixava cheirar.
Constatei que esses estrangeiros sujos sabiam servirse
da droga, no como os europeus. Para ns,
europeus, a herona era mais ou menos o que fora,
outrora, a aguardente para os ndios. Cheguei a
pensar que os orientais poderiam exterminar os
europeus e os americanos com isso, como os europeus
exterminaram os ndios pelo alcoolismo.
Descobri os estrangeiros sujos. Eles no eram s
o "Voc meter?", que sempre representou para mim,
Stella e Babsi o cmulo do horror. Mustaf e os rabes
eram homens cheios de brio, muito fceis de serem
ofendidos. Eles me aceitaram porque eu me portava
com dignidade. Compreendi muito rapidamente como
eram as coisas entre eles. Por exemplo, era preciso
nunca solicitar nada. Tinham ainda o senso de
hospitalidade, que era muito importante para eles. Se
queramos qualquer coisa, nos servamos, fosse
herona ou semente de girassol. Mas era preciso no
dar a impresso de que abusvamos. Assim, nunca me
ocorria pedir um pouco de herona para levar. O que
pegava, cheirava na hora. Eles acabaram aceitandome
completamente, apesar de no terem uma opinio
muito boa sobre meninas alems. Aprendi que em
certos pontos os estrangeiros sujos podiam censurar
os alemes.
Achava tudo aquilo maravilhosamente legal e no
sentia mais o peso de ser uma drogada. At o dia em
que constatei que havia cado na dependncia fsica.
 noite, com meu pai, representava a filha
prdiga. Acompanhava-o freqentemente ao bar e, de
vez em quando, para lhe agradar, pedia uma cerveja.
A clientela do lugar me perturbava, pois tinha horror a
bbados, mas queria que ali tambm me levassem em
considerao. Queria poder afirmar-me na vida que
seria a minha, num futuro em que a droga estaria
ausente.
Jogava flipper e treinava bilhar como uma doida.
Gostaria de aprender a jogar skat (Jogo de cartas. (N.
do T.)). Gostaria de praticar todos os jogos masculinos
melhor que os homens. Se fosse obrigada a viver com
pessoas da espcie dos habitus do Schluckspecht,
queria ao menos ser respeitada. Ser uma vedete. Teria
os meus brios, como os rabes. Nunca pediria nada a
ningum. Nunca me sentiria em estado de inferioridade.
Mas no aprendi a jogar skat. Tinha novamente
outras preocupaes. As primeiras manifestaes da
crise se faziam sentir. Precisava ir ao parque todos os
dias, e isso tomava tempo, pois no podia ir ver
Mustaf, tomar a herona e me mandar. E os pombos
do meu pai no comiam h trs dias! Todas as tardes
precisava encontrar uma maneira de deixar Katharina,
minha dama de companhia, e estar em casa na hora
do telefonema de controle de meu pai, com a limpeza
e as compras feitas. Em caso de ausncia, s me
restava inventar uma desculpa plausvel, e nunca duas
vezes a mesma. No me sentia nada bem.
Uma tarde, no Parque Hansenheide, duas mos
pousaram sobre meus olhos. Virei: era Detlef! Nos
abraamos. Janie comemorou. Detlef tinha um bom
aspecto. Disse-me que estava limpo. Eu me fixei nos
seus olhos: "Bem, meu caro, para quem est limpo. . .
tuas pupilas no esto maiores que um ponto". Detlef
se desligara realmente da droga durante sua
permanncia em Paris, mas voltara diretamente 
Estao Zoo para comprar uma picadinha.
Fomos para casa. Tivemos tempo antes da volta
de meu pai. Como minha cama balanava muito,
estendi uma coberta no cho. Fizemos amor felizes
como reis. Depois conversamos de desintoxicao.
amos nos dedicar a ela a partir da prxima semana.
Detlef me contou como ele e Bernd conseguiram
dinheiro para irem a Paris: prenderam um cliente na
cozinha, roubaram tranqilamente seu talo de
cheques e o revenderam por mil marcos a um
receptador. Bernd foi pego, mas ele os policiais no
pegariam nunca, pois o cara ignorava o seu nome.
Voltamos a nos encontrar todos os dias no Parque
Hansenheide. Geralmente, depois eu levava Detlef
para casa. No falvamos mais em desintoxicao,
pois estvamos muito felizes assim. Mas era cada vez
mais difcil cumprir a minha agenda. Meu pai
multiplicara os controles e me dera um monte de
novas tarefas. Tinha necessidade de dispor de tempo
para a turma de rabes, ainda mais porque eu queria
conseguir um pouco de herona para Detlef. E queria
ter bastante tempo para me dedicar a ele. Era
novamente o stress.
A nica soluo que encontrei foi procurar um
cliente na Estao Zoo, na hora do almoo. No disse
nada a Detlef, mas a felicidade terminou: era
novamente a vida de drogada. E as poucas boas
jornadas que sempre se seguiam a um tratamento,
quando no tnhamos medo do cold turkey e no
ramos forados a ter herona o tempo todo,
tornavam-se cada vez mais curtas.
Depois de mais ou menos uma semana da volta
de Detlef, quem fazia sua apario no Parque
Hansenheide? Rolf, a bicha que alojava Detlef. Tinha o
ar sombrio e pronunciou apenas trs palavras: "Eles o
prenderam". Detlef fora pego numa batida e o
enquadraram imediatamente no negcio dos cheques.
O receptador o tinha entregado.
Fui trancar-me num banheiro pblico para chorar.
Uma vez mais o futuro radiante no era para ns.
Voltamos  realidade, isto , no havia nenhuma
esperana. E ainda por cima estava apavorada, com
medo da crise. Era impossvel ir sentar-me
tranqilamente ao lado dos rabes para mastigar
sementes de girassol, esperando que me dessem uma
cheirada... Fui  Estao Zoo, encostei numa vitrina e
esperei um cliente. Mas a calma era total: havia um
jogo de futebol na televiso. Nem um estrangeiro sujo
 vista.
Apareceu um cliente que eu conhecia: Heinz,
velho cliente de Babsi e Stella. O cara que sempre
pagava em espcie. Fornecia at a seringa, mas queria
trepar. De qualquer forma, depois que soube que
Detlef estava em cana e por muito tempo, dava tudo
na mesma. Heinz no me reconheceu, mas quando lhe
disse: "Christiane, a amiga de Babsi e Stella", ele teve
um "clique". Ele me props acompanh-lo na hora.
Ofereceu-me dois quartos. No era mau, pois isso
equivalia a oitenta marcos. Mas discuti o preo e
consegui tambm um pouco de dinheiro para os
cigarros, Coca-Cola, etc. Fomos l: Heinz parou no
caminho para comprar herona, pois seu estoque tinha
terminado. Era gozado ver aquele sujeito com cara de
contador passear no meio dos viciados. Mas ele
conhecia o terreno e tinha o seu fornecedor habitual,
que lhe fornecia sempre mercadoria da boa.
Senti que a crise ia chegar. Se pensasse bem,
tomaria uma picada imediatamente. Mas Heinz no me
deu nenhum gro de herona.
Ele me levou para visitar sua papelaria. Abriu uma
gaveta e pegou um pacote de fotografias, que ele
mesmo havia tirado. Fotografias pornogrficas.
Completamente dbil. Pelo menos uma dzia de
meninas. s vezes de corpo inteiro, completamente
nuas, s vezes s da barriga pra baixo. Pobre cretino,
pobre velho imundo. Pensava principalmente na
herona que aquele porco tinha em seu bolso e olhava
as fotografias muito distraidamente. At o momento
em que vi Stella e Babsi com Heinz, em plena ao.
Disse: "Fotografias geniais! Agora, vamos, pois
tenho necessidade de uma picada". Subimos at o seu
apartamento. Ele me deu uma dose de um quarto e
esquentou uma colher. Desculpou-se: era uma colher
de sopa, ele no tinha mais colherinhas, pois todas
tinham sido afanadas por drogadas. Piquei-me. Ele me
trouxe uma garrafa de cerveja preta e me deixou em
paz por uns quinze minutos. Tinha experincia
suficiente para saber que, depois de uma picada,
tnhamos necessidade de uns quinze minutos de
tranqilidade.
Babsi e Stella sempre me contaram que Heinz era
um homem de negcios, mas pelo seu apartamento
no parecia. As cortinas da sala de estar estavam
amarelas de sujeira e permaneciam constantemente
fechadas para evitar olhares curiosos. Em um velho
armrio misturavam-se porcelanas kitsch, garrafas
cobertas com palha tranada e que outrora continham
vinho italiano e num canto estavam penduradas as
gravatas. Dois velhos divs estavam encostados na
parede, cobertos com uma velha coberta de franjas
escocesas. Foi ali que nos instalamos.
Aquele Heinz no era um cara to desagradvel.
Infelizmente (no para ele, pois era a sua grande
fora), era um chato. De tanto me encher, ele teve o
que queria: trepei com ele, para ficar tranqila e poder
voltar para casa. Alm do mais, ele queria, de
qualquer maneira, que eu sentisse alguma coisa.
Ento fingi gozar, pois, apesar de tudo, ele se mostrou
generoso.
Depois de Babsi e Stella, era a minha vez de ser a
menina de Heinz. Era prtico, pois ganhava muito
tempo e no tinha mais necessidade de ficar
pendurada horas a fio nas saias dos rabes, por uma
cheirada de nada; no tinha mais necessidade de
esperar o cliente nem correr para comprar a herona.
Isso me dava a possibilidade de fazer sem muito
esforo as minhas diversas tarefas: a limpeza, as comidas,
os pombos, etc.
Passava quase todas as minhas tardes na casa de
Heinz. Agora estava melhor. Ele me amava  sua
maneira. Repetia-me isso sem parar e queria ouvir-me
dizer que tambm o amava. Ele era terrivelmente
ciumento. Sempre teve medo de que eu voltasse 
Estao Zoo. No fundo, ele era bonzinho.
No tinha ningum mais com quem falar. Detlef
estava em cana, Bernd tambm. Babsi estava na
Narconon, Stella parecia ter desaparecido da face da
terra e minha me no se interessava mais por mim
(ao menos eu achava). Quanto ao meu pai, mentia
para ele o tempo todo. S me restava Heinz: podia lhe
falar de qualquer assunto, no tinha quase nada para
lhe esconder. A nica coisa que no podia falar de
corao aberto era sobre o que sentia por ele.
s vezes eu me sentia muito bem quando ele me
tomava nos braos. Tinha a impresso de representar
alguma coisa para ele e que ele me respeitava. Quem
mais me respeitava? Fora do seu div imundo, sentiame
mais sua filha que sua amante. Mas ele estava
cada vez mais possessivo e queria que eu estivesse o
tempo todo com ele para ajud-lo na loja, para que
ele me apresentasse aos seus supostos amigos.
Verdadeiro amigo, ele no tinha nenhum. De repente,
era novamente a corrida contra o tempo, ainda mais
que meu pai se tornava cada vez mais desconfiado.
Ele revistava o tempo todo as minhas coisas.
Precisava prestar ateno para no deixar nada de
suspeito no apartamento. Por exemplo: Heinz morava
na Waldestrasse e eu desenhei ento duas ou trs
rvores na minha caderneta. O nmero da rua e do
telefone eram camuflados como lies de clculo. O
nmero 395-4773 tornou-se: 3,95 marcos mais 47
Pfennige mais 73 Pfennige. E fazia conscienciosamente
a soma. Pelo menos, aquilo me obrigava a fazer um
pouco de clculo.
Um dia Heinz descobriu o mistrio do
desaparecimento de Stella: ela estava em cana. Ficou
em choque. No por Stella, mas porque ela poderia
entreg-lo  polcia. Soube, ento, que ele estava, h
muito tempo, sendo ameaado por uma acusao de
desencaminhar menores. At ento isso o deixara frio,
apesar de j ter uma ficha na polcia. Seu advogado
era o melhor de Berlim, segundo ele. Mas se Stella
contasse que ele pagava as meninas com mercadoria,
isto , com herona, isso iria acabar dando problemas
para ele.
Tambm fiquei chocada. E, como Heinz, no me
apavorei pela pobre Stella, mas por mim mesma. Se
eles a meteram no xadrez, apesar dos seus catorze
anos, eu tambm no escaparia. No tinha nenhuma
vontade de ir em cana.
Telefonei para a Narconon para dar a notcia a
Babsi. Eu lhe telefonava quase todos os dias. At
aquele momento ela estava se dando muito bem l (
bem verdade que j fugira duas vezes para comprar
herona). Mas ela no veio ao telefone: informaramme
que ela estava no hospital, com ictercia.
Babsi e eu ramos iguais: quando tentvamos
seriamente um tratamento, pegvamos ictercia. Babsi
estava em sua ensima tentativa. Na ltima vez, ela
chegou a ir at Tbingen, acompanhada de um
orientador de um centro antidroga, para seguir uma
terapia. Mas no ltimo momento ela teve medo porque
Tbingen tinha a reputao de ser uma casa muito
severa. Babsi estava no mesmo estgio de
decomposio fsica que eu. Ns nos servamos de um
espelho para julgar a extenso dos estragos.
Na manh seguinte corri para ver Babsi no
Hospital Westend. Janie e eu pegamos o metr at a
Theodor-Heuss-Platz e depois fizemos o resto do
caminho a p, quase correndo. Era um bairro bem
legal. Manses imensas e cheias de rvores. Nem
sabia que existiam lugares semelhantes em Berlim. No
fundo, no conhecia Berlim. S conhecia o conjunto
Gropius e seus arredores, o bairro de Kreuzberg, onde
morava minha me, e os quatro campos de ao da
"cena". Chovia a cntaros. Janie e eu estvamos
encharcadas, mas muito contentes porque corramos
no verde, e eu tambm estava contente porque veria
Babsi.
No quiseram deixar Janie entrar no hospital. No
tinha pensado nisso, mas um dos porteiros foi
simptico. Aceitou ficar com ela durante a visita. Subi
 enfermaria e procurei Babsi em vo. Finalmente
perguntei ao primeiro mdico que encontrei onde ela
estava:  Gostaria muito de saber  disse-me.
Contou-me que ela havia se mandado. E corria o risco
de empacotar  menor absoro de qualquer droga,
pois ela no havia sarado e seu fgado no iria
agentar.
Peguei Janie e partimos. No metr refleti: se o
fgado de Babsi estava estuporado, o meu tambm
deveria estar. Ns duas ramos sempre iguais. Se eu
pudesse encontrar Babsi! Esqueci todas as nossas
brigas. Achava que tnhamos necessidade uma da
outra. Ela devia estar precisando falar, e eu tambm
gostaria de convenc-la a voltar ao hospital. Mas voltei
 realidade: sabia que ela no voltaria antes de dois
dias de fuga e de droga. Eu tambm no o faria. Sabia
tambm onde procur-la: ela devia estar no Turf, do
lado da "cena", ou na casa de um cliente. No tinha
tempo de procur-la em todos aqueles lugares, pois
meu pai no demoraria a telefonar. Conformei-me com
a moral do viciado: cada um por si. Voltei para casa.
Alis, no tinha vontade de passar por l, pois Heinz
me fornecia herona suficiente para minhas
necessidades.
Na manh do dia seguinte desci para comprar um
jornal, o Bild Zeitung. Fazia isso todas as manhs,
desde quando a minha me no o mostrava mais a
mim, com as famosas manchetes anunciando: "Mais
uma vtima da droga".
Inconscientemente procurava sempre essas
informaes. Os artigos eram cada vez mais curtos,
porque cada vez havia mais mortos encontrados com
uma agulha plantada no brao.
Naquela manh preparei um po com gelia
folheando o jornal. A chamada da primeira pgina:
"Ela tinha s catorze anos". Compreendi
imediatamente  Babsi! Pressenti-o, mas no
consegui expressar qualquer reao. Tive a impresso
de ter lido o anncio da minha prpria morte.
Corri para o banheiro para me picar. Depois disso,
finalmente as lgrimas apareceram. No sabia se
chorava por Babsi ou por mim. Deitei novamente.
Fumei um cigarro para ter a coragem de ler o artigo
inteiro. Estava redigido como um sensacional caso
policial: "A seringa descartvel, de plstico brancoleitoso,
ainda estava plantada na mo esquerda:
Babette D. (catorze anos), colegial, morreu. A jovem,
hoje a mais jovem vtima da droga, foi descoberta sem
sentidos em um apartamento da Brotteroderstrasse.
Nadjy R. (trinta anos) declarou  Polcia Judiciria que
ele a tinha pego na Discoteca Sound, da
Genthinerstrasse. Como ela no tinha onde dormir, ele
a recolheu em seu apartamento. Babette  a
quadragsima sexta vtima da droga em Berlim, desde
o comeo do ano", etc. ...
Como todo blablabl habitual sobre a "cena" e os
viciados era to simples, no era? Depois foi a vez de
as revistas narrarem um monte de besteiras sobre
Babsi: "A mais jovem vtima da droga na Alemanha".
Por volta do meio-dia eu me recompus um pouco.
O que sentia agora era uma raiva doida. Estava
convencida de que um filho da puta devia ter vendido
droga falsificada para Babsi (talvez um troo contendo
estricnina). A herona com estricnina comeava a
invadir Berlim. No hesitei mais. Fui  polcia, entrei
no escritrio da Schnipke e desembuchei. Contei-lhe
tudo o que sabia sobre os fornecedores desonestos, os
proxenetas no comrcio da droga, o Sound. Tudo isso
parecia no lhe interessar muito. No final ela me disse
o seu eterno: "Bem, at a prxima vez, Christiane".
Pensava que os policiais pouco se importavam
com a qualidade da droga. Para eles, o importante era
dar baixa em mais um drogado de suas listas. Jurei a
mim mesma que encontraria o assassino de Babsi.
O cara na casa de quem encontraram Babsi
estava fora de suspeita. Eu o conhecia muito bem. Ele
estava cheio da nota e era legal. Gostava da
companhia de jovenzinhas. Ele j havia me levado
para dar uma volta de carro, me convidara para
almoar e pagara tudo. Ele s queria dormir com
meninas que tivessem vontade de dormir com ele. Por
mim, ele poderia esperar muito tempo. Era um
homem de negcios, mas nunca lhe ocorreu que a
prostituio  apenas um comrcio e mais nada.
Fui ento me prostituir na Kurfrstenstrasse. Meu
objetivo era ganhar o dinheiro suficiente para poder
testar a herona de todos os fornecedores suspeitos.
Comprei, efetivamente, herona de muitos caras e
voltei, logo, a me drogar totalmente. De qualquer
forma, ningum sabia ou queria saber de quem Babsi
tinha comprado a sua ltima picada. Sob pretexto de
encontrar o assassino de Babsi, me encharcava de
droga, sem que aquilo me pesasse na conscincia.
Fazia discursos como: "Voc precisa encontrar esse
crpula mesmo que voc se mate". Naquele momento
no mais temia me picar.
Berndt Georg Thamm,
diretor do Centro de Informao e de Ajuda
Psicolgica e Social da Associao Caritas, Berlim.
Horst Brmer,
psiclogo, conselheiro do servio "Droga", da
mesma associao.
Segundo nossas estimativas, a proporo dos
viciados em herona na faixa de doze a dezesseis anos,
da Repblica Federal e de Berlim Ocidental passou,
nestes trs ltimos anos, de zero a vinte por cento.
Christiane  uma representante tpica desse novo alvo
dos traficantes de droga, como sua amiga Babsi, que
veio fazer uma consulta em 1977 e morreu dois meses
mais tarde de uma overdose. Fomos impotentes para
ajudar essa adolescente de catorze anos. Depois Stella
e outros viciados do bando de Christiane nos
procuraram. Eles apresentam todas as caractersticas
dessa nova gerao de jovens (muito jovens)
drogados: manifestamente agressivos, eles tm, alis,
uma necessidade infantil de proteo, de
considerao, de amor e de calor.
Babsi foi trazida em maio de 1977, por pessoas
que tinham em relao a ela responsabilidade
educativa. Seu comportamento era o de uma
menininha triste, ainda grudada nas saias da me. Na
realidade ela tinha conhecido todos os altos e baixos
da vida de toxicmana - uma vida que ela levava
havia dois anos.
De um momento para outro, sempre drogados,
tentam libertar-se da escravido da herona e de suas
conseqncias: prostituio, delinqncia, decadncia
fsica. Os de mais idade  aqueles que se tornaram
dependentes somente entre os dezessete, dezoito ou
dezenove anos , aps muitas tentativas infrutferas
para se libertarem sozinhos da droga, procuram os
servios especializados.
Os servios especializados e todos os meios de
que dispem (aconselhamento, cura, terapia) at
agora tm sido organizados em funo dessa
populao, isto , toxicmanos mais ou menos
adultos. O princpio fundamental  que o interessado
deve vir por conta prpria. Nosso trabalho consiste em
ajud-lo a se assumir.
Dispomos, para uma populao de perto de cinqenta
mil drogados, de mais ou menos cento e
oitenta vagas para terapia no setor pblico e mil e cem
no servio privado (clnicas, comunidades, etc.). Os
ex-drogados vivem em comunidades e so submetidos
a um programa rigoroso. No temos dados confiveis
sobre a taxa de terapias bem-sucedidas. Calcula-se
que a proporo de recadas seja superior a oitenta
por cento. Depois da desintoxicao essas pessoas
voltam  mesma situao inicial: quela que as levou
a se drogarem.
Quanto aos grupos, cada vez mais numerosos, de
viciados de doze a dezesseis anos, no dispem de
tais ajudas.  claro que fazemos consultas com
crianas como Babsi, que vieram sob presso de um
educador ou de algum servio social. Mas eles no
aceitam o regulamento severo dos atuais centros de
terapia, e por essa razo no preenchem a condio
obrigatria para serem admitidos: apresentar-se por
sua prpria vontade.
Eles ouviram da boca dos viciados que recaram
as "atrocidades" cometidas nos centros de terapia.
Mesmo Babsi mostrou-se desconfiadssima conosco e
assim continuou durante toda a nossa entrevista. No
pudemos desfazer seu medo de ser enviada a alguma
parte contra sua vontade. Efetivamente,  uma
deciso difcil, para qualquer drogado, entrar em um
centro de terapia.  claro que ele sofre pela sua
toxicomania e por tudo o que ela traz consigo, mas 
um sofrimento ao qual se habituou. Em uma
comunidade teraputica,  preciso renunciar ao
ambiente familiar, s suas relaes habituais e, ainda
mais, aceitar ordens sobre o que deve ou no deve
fazer, ferindo suas liberdades individuais. Por exemplo,
para simbolizar sua ruptura com o mundo da droga,
ele dever cortar os cabelos, mudar a maneira de se
vestir e renunciar  msica "da moda", que o estimula.
Para uma criana de catorze anos, o penteado, a
roupa e a msica so muito mais importantes do que
para um viciado de vinte anos. Talvez ela tenha
brigado durante dois anos com seus pais para poder
usar os cabelos compridos, calas justas e ouvir seus
discos. E eis que em troca de um bilhete de entrada
em um centro de terapia exige-se dela o sacrifcio
desses atributos conseguidos depois de uma longa
luta. Esses atributos garantiam-lhe a considerao dos
seus amigos, das suas relaes e da sua turma. Isso
ocorre no momento em que, com angstia, ela se
pergunta o que a espera nesse centro de terapia. Do
nosso ponto de vista  exigir muito dessas crianas.
A afetividade desses meninos toxicmanos 
ainda pouco estruturada. Eles oscilam entre sonhos e
aspiraes infantis de um mundo que transmita
segurana e comporta- mento de adulto em situao
de competio. Os conflitos que conhece o ser humano
no perodo da puberdade so, por assim
dizer,''compensados" pela fixao fsica e psquica 
droga. Esses meninos no vivem a experincia do
desligamento progressivo da casa paterna e a
gradativa aquisio da autonomia. Eles aprenderam
somente a fugir da realidade.  o que eles fazem em
cada fase crtica da vida.
Apesar das duras condies de vida que
conhecem esses jovens de doze a dezesseis anos na
selva da droga, apesar de tudo o que a aprendem,
eles permanecem, no plano afetivo, crianas. E
reagem como crianas teimosas, quando se devem
submeter s terapias atuais, totalmente inadaptadas
s crianas.
Babsi, como muitos outros, no pde se dobrar s
exigncias de uma terapia de longa durao.
Tnhamos, portanto, tentado durante longas e
repetidas entrevistas prepar-la para isso. Aps a
privao da droga, efetuada em um estabelecimento
neuropsiquitrico, ns a levamos  Associao de
Socorro aos Drogados de Tbingen, um dos raros
centros que aceitam, excepcionalmente, jovens de sua
idade. Babsi nos pareceu durante a maior parte da
viagem ao mesmo tempo tensa e em um estado de
feliz excitao. Falamos longamente de Deus e do
mundo. A desintoxicao fsica tinha lhe dado alegria e
confiana em si. Entretanto, um pouco antes de
chegarmos a Tbingen, ela manifestou inquietao e
nervosismo.
Quando chegamos, Babsi foi recebida por um exdrogado
e conduzida  sala de espera reservada aos
recm-chegados. Mas antes mesmo da entrevista de
admisso, ela disse que queria voltar a Berlim. Ela
sentiu o que era preciso aceitar: ela acabava de sofrer
a revista de praxe (bagagem, roupas, e revista
tambm no corpo) para evitar a introduo de droga
no estabelecimento. Agora iam cortar seus longos
cabelos. Quando percebeu o barbeiro se aproximando
dela, armado de tesoura, ela no agentou. Uma
pessoa do centro fez uma nova entrevista, mas no
pde mudar em nada a sua deciso. No seria
razovel conservar Babsi em Tbingen nessas
condies: ela recusava a terapia e, por suas
resistncias, seria um verdadeiro perigo para os
outros. Alm disso, ela tentaria fugir na primeira
ocasio.
Babsi morreu quarenta e quatro dias mais tarde,
de uma overdose de herona. A mais jovem das
oitenta e quatro vtimas   a cifra oficial  que a
herona matou nesse ano de 1977.
A morte de Babsi reforou nossa convico: 
urgente que a rede de ajuda aos toxicmanos se
estenda tambm aos que tm de doze a dezesseis
anos, adapte-se a essa populao, ou ento que se
crie uma nova rede.
Sem querer dramatizar, pode-se dizer que o
futuro da luta contra a droga na Alemanha joga-se
aqui. Se as coisas ficam como esto, essa faixa de
idade continuar a escapar do controle.  preciso
desenvolver novas concepes teraputicas, pensadas
especialmente para as crianas de menor controle
quanto ao problema da autodeciso. Se no chegarmos
a isso, ns nos encontraremos numa situao
igual  dos Estados Unidos: a morte de uma criana
por overdose de herona no ser considerada mais
um caso excepcional.
Entretanto, a soluo do problema est tanto nas
mos de orientadores e terapeutas especializados
quanto nas mos da polcia. Tanto assim que ele no
se resume em um processo patolgico individual,
comparvel a uma doena infecciosa ou a uma fratura
moral que baste reduzir ou consolidar.
A melhor das terapias no pode produzir milagres
e no  uma ajuda eficaz, a no ser para uma
quantidade muito pequena de jovens.
A droga, que j se infiltrou nas escolas, nas
discotecas e nos centros de lazer, vai prosseguir,
segundo nos parece, com seus estragos em uma
populao cada vez mais jovem. No  somente uma
minoria de doze a dezoito anos que est ameaada.
Por exemplo: somente o acaso decide como uma
jovem de treze anos vai ultrapassar a puberdade. Ela
pode atravess-la sem maiores problemas ou
mergulhando no lcool, na herona, entrando para
uma seita ou para um grupo anarquista que prega a
violncia. Os jovens de hoje so to acessveis  droga
quanto os adultos o so face s sedues da indstria
farmacutica. Quase todo jovem conhece algum,
amigo ou conhecido, que j tomou droga, toma ou
tem a inteno de tomar. As motivaes dos drogados
de hoje so bem diferentes das dos aficionados da
maconha e dos barbitricos dos anos 60. No se trata
mais, como os hippies daquela poca, de procurar a
ampliao da conscincia, mas de sua supresso. O
mesmo ocorre com os consumidores de lcool ou de
drogas leves.  por isso que no se pode hoje
classificar os jovens em perigo de "alcolatras",
"fumadores de maconha" e "drogados". Passa-se
facilmente de um a outro, e o fim perseguido  o
mesmo.
 preciso constatar que a opinio pblica est
insufi- cientemente informada da verdadeira extenso
do problema, tanto no plano qualitativo quanto no
plano quantitativo. A maior parte dos homens pblicos
v sempre o problema como uma onda que teria
atingido seu ponto culminante e que no deve tardar a
diminuir. Os parlamentares tambm nos falam de
"controlar" o fenmeno da droga como se se tratasse
de fechar uma torneira.
Na verdade, nossa sociedade produz cada vez
mais marginais voluntrios. Muitos jovens se refugiam
na droga porque no encontram na escola, no mundo
do trabalho ou nos prazeres a resposta s suas
necessidades.
Paralelamente a esse processo que se desenvolve
em cadncia acelerada, as drogas legais, como o
lcool e certos produtos farmacuticos, tornam-se
uma fonte de lucros de primeira grandeza, com seu
comrcio sendo, aparentemente, muito bem
administrado. Se considerarmos que  e somos
modestos  somente em Berlim Ocidental um grupo
de mais ou menos cinco mil pessoas, o ncleo central
dos consumidores de herona, recolhe por dia meio
milho de marcos (pela prostituio, pelo roubo
simples ou  mo armada), imaginem a importncia
que isso representa em escala nacional. Os criminosos
que tm tal lucro com a toxicomania no esto
evidentemente prontos para renunciar a isso, e as
polcias locais e regionais no tm flego suficiente
para combat-los. As quantidades de herona e de
drogas leves que acabam caindo nas mos da polcia
representam uma frao mnima do consumo.
O trfico de droga se estende em nossos dias 
Repblica Federal e a Berlim Ocidental, atravs de um
circuito cerrado de distribuio. De tal maneira que,
como acontece com as drogas leves, podemos
encontrar herona por todas as partes. No existem
regies que no estejam contaminadas;
simplesmente, segundo as regies, o perigo de
contgio  mais ou menos agudo.
Cada cidade j tem a sua "cena". Nas regies
rurais, os fornecedores instalaram seus quartisgenerais
nas discotecas e centros de lazer destinados
aos jovens.
A onipresena da droga  certamente um fator
decisivo para seu consumo crescente: o jovem que
busca um comportamento compensatrio acaba
encontrando-o sem maiores dificuldades. Na cidade ou
no campo, muitos jovens sentem um imenso tdio,
sentimento confuso de que sua existncia no tem
sentido. Sua nica distrao  ir uma vez por semana
 discoteca.
A, essa minoria sempre crescente de jovens no
encontra nenhuma possibilidade de comunicao
verbal. Depois de se deixar ficar aturdido pela msica,
o jovem sai decepcionado: mais uma vez ele no viveu
uma experincia vlida.
Essas crianas e jovens insatisfeitos de hoje no
encontram perspectivas encorajadoras no seu futuro e
no podem ir buscar foras no passado. Sua infncia,
esse perodo de espontaneidade e de desenvolvimento
relativamente livre, a salvo das manipulaes e
portanto equilibrada, acaba geralmente com a entrada
na escola: a partir desse momento seu universo passa
a ser o da competio e do consumo passivo.
Entre os jovens, frustrados dessa maneira em sua
infncia, a imaginao empobrece, a confiana em si
mesmo e as capacidades de autonomia ficam
reduzidas. Eles passam de estmulos em estmulos,
incapazes de criar mecanismos de defesa e de resistir
s mltiplas tentaes da sociedade de consumo,
tentaes s quais eles foram expostos desde muito
cedo.
Com a seleo escolar tornando-se cada vez mais
rigorosa, os jovens constatam, desde a puberdade,
que, apesar de todos os seus esforos, seus futuros
meios financeiros no lhes permitiro atingir os
encantos prometidos pelas vitrinas e pela publicidade,
nem o mundo que os fascina desde sua tenra infncia.
 claro que s vezes eles fingiro desprezo e
declararo em viva voz sua vontade de "viver de
forma diferente". Mas entre muitos prima a
insatisfao de ver-se privado dos benefcios do
consumo.
O dinheiro tem um papel cada vez mais
determinante, mesmo nas relaes humanas. Para
conhecer uma jovem, o rapaz dever gastar dez, vinte
ou trinta marcos em uma discoteca. Sem falar o
quanto lhe custa para se vestir na ltima moda, ter
discos, assistir aos concertos de msica pop, etc. 
pesado para um aprendiz ou um ginasiano. Assim
nascem os grandes problemas (pequenas causas,
grandes efeitos) e os jovens vo buscar satisfao de
seus desejos de uma outra maneira.
Os pais so incapazes de indicar-lhes o caminho,
eles mesmos esto enredados, muitas vezes, em
contradies sem sada. O fruto de seu trabalho,
passado e futuro, no lhes permite ter o que desejam
ou o que lhes ensinaram a desejar. Mas,
contrariamente a seus filhos, eles no abandonam a
corrida, retesam suas foras e redobram seus esforos
em seu trabalho de Ssifo, deixando de lado valores
como a amizade, a solidariedade, a lealdade, a
compreenso da misria de outrem. O processo de
destruio da vida familiar assume propores
alarmantes. Em Berlim, j se tomou a deciso de
enviar a inmeras casas "auxiliares familiares"
(psiclogos, assistentes sociais, estudantes). Eles
constatam uma incrvel misria moral oriunda da
ausncia de comunicao e do clima de hostilidade.
Divrcio (os ndices aumentam sem cessar), televiso
ligada permanentemente, suicdios, alcoolismo, abusos
de medicamento (verdadeiras "muletas psquicas"):
eis o ambiente de muitos jovens, cercados por seus
problemas da puberdade. Esse menino ou menina se
encontram ento em um labirinto com muitas sadas e
em um labirinto de galerias que se chama famlia,
lazer, perspectivas de trabalho, competio escolar,
sexualidade e sonhos. A questo : como vai se sair?
A sada encontrada pode ser uma seita, uma turma de
alcolatras ou entre viciados. A herona, a mais
perigosa das drogas,  tambm a mais eficaz para
"resolver" com uma velocidade recorde todos esses
problemas.
O obstculo decisivo continua sendo, para muitos
desses jovens em perigo, o preo elevado da droga. 
por isso que as jovens se tornaram o alvo preferido
dos traficantes. Nestes ltimos anos, entre os jovens
de doze a dezesseis anos consumidores de herona, o
nmero de meninas aumentou muito mais
rapidamente que o dos meninos. Como  para elas
mais fcil arrumar o dinheiro necessrio se
prostituindo, elas so as preferidas pelos dealers
(Vendedores de droga. (N. do T.)), que as conduzem
deliberadamente  dependncia.
Isso comea muitas vezes na discoteca, segundo
um mecanismo muito simples. Um jovem aparece:
fsico privilegiado, roupas de acordo com a ltima
moda. Ele comea a conversar com as meninas. Elas o
acham sensacional, admiravelmente "numa boa". Logo
ele oferecer  vtima escolhida as primeiras doses de
herona gratuitamente. Repete a operao vrias
vezes. E ento. . . mais uma menina pinada (Estar
habituada a uma substncia, no podendo mais
dispens-la (N. do T.)), que, por seu lado, vai
eventualmente introduzir a droga em seu crculo de
amigos.
Essa forma de prospeco  caracterstica do
pequeno fornecedor, algumas vezes pago por
comisso. Contrariamente aos intermedirios e aos
vendedores por atacado, ele  tambm um
toxicmano, e seu lucro cobre somente o prprio
sustento. s vezes chega apenas a cobrir suas
prprias necessidades de herona. Ele no tem
necessidade de grande talento para vender. Os jovens
gostam de correr riscos, e no seu desejo de viver
experincias pessoais, em um mundo em que eles so
cada vez mais raros, eles se submetem  mo
"segura" do vendedor. E eles conhecero
efetivamente, nos seus primeiros contatos com a
herona, um sentimento de felicidade e a impresso de
ficar livres de todas as preocupaes.
Eles no renunciaro a essa "maravilha", pois a
realidade  outra. Depois da terceira vez, a
dependncia psquica est consolidada. Em seguida,
mais ou menos rpido, segundo a freqncia de
utilizao, ser a vez da dependncia fsica. O
toxicmano no poder mais ficar sem herona, sob
pena de sofrer dolorosos sintomas da crise de
privao, e tornar-se- um cliente regular de seu
fornecedor. Para a maior parte dos toxicmanos essa 
a engrenagem. Se um pequeno traficante  preso, ele
 substitudo no dia seguinte. Cada toxicmano aspira
a tornar-se ele mesmo um fornecedor, pensando
assim satisfazer s necessidades de maneira mais
agradvel do que se dedicando ao roubo  com ou
sem arrombamento  e  prostituio. Em outras
palavras, o comrcio da herona ganha em todo
comprador no somente um cliente, mas tambm um
fornecedor em potencial. Em Berlim, j estamos no
estgio de fornecedores de catorze e dezesseis anos.
O problema da droga na zona rural  ainda
largamente subestimado, principalmente porque as
manifestaes so menos visveis que na cidade. Em
curto prazo um grande nmero de jovens do campo,
contaminados, ganham os grandes centros urbanos na
impossibilidade de encontrar nos vilarejos o dinheiro
necessrio, que no  pouco.
A toxicomania leva quase sempre as mulheres e
as jovens  prostituio. Os viciados masculinos se
especializam, em sua maioria, nos delitos contra os
bens: uns no arrombamento de armazns, de centros
de aprendizagem, e outros a bater carteiras ou
roubando butiques. E cada um tem o seu receptador
titular ou mais ou menos um lugar para levar as
mquinas de calcular, mquinas fotogrficas,
aparelhos de som, pequenos eletrodomsticos,
bebidas, etc. E, no final das contas, salvo se tiver
agido sob comando, tudo isso dar ao viciado (e
independentemente do valor do que roubou) somente
o dinheiro necessrio para sua rao diria de herona.
Como essa soma varia de quarenta a duzentos
marcos, a "cena" tem a marca de uma corrida
perptua pelo dinheiro. Obrigados a batalhar cada dia
pelo dinheiro necessrio, os drogados tornam-se
brutais, agressivos, isolando-se uns dos outros. Apesar
do aumento contnuo da dose, o efeito euforizante da
herona decresce pouco a pouco. Ele chega mesmo a
desaparecer totalmente: pica-se mais para escapar
aos cruis sofrimentos da crise de privao.
***
No era muito difcil abusar do meu pai. De
qualquer forma, havia muito tempo que ele
desconfiava de alguma coisa. Acho que ele no
esperava nada mais que a prova decisiva. E ela no
demoraria. Uma noite, percebi que no tinha mais
droga para o dia seguinte. Era impossvel sair para
procurar, pois meu pai estava em casa. Chamei Heinz
s escondidas e marcamos um encontro no conjunto
Gropius. Meu pai nos surpreendeu diante do
Schluckspecht. Heinz s teve tempo de se mandar,
mas meu pai encontrou a herona.
Confessei tudo. A comear pelas minhas relaes
com Heinz. No tinha mais foras para mentir. Meu pai
me mandou marcar um encontro com Heinz no dia
seguinte, no Parque Hansenheide, pedindo-lhe que me
trouxesse mais herona. Depois ele chamou a polcia e
contou-lhes tudo, exigiu que eles viessem prender
Heinz no parque. Eles lhe responderam que... no se
pode fazer assim. Era preciso organizar uma boa
batida, e essa espcie de operao no se organizava
do dia para a noite.  Ento eles no tinham nenhuma
vontade de prender Heinz, um "corruptor de menores"?
 foi a expresso de meu pai. Era muito
trabalho. Eu, naturalmente, estava feliz por me
pouparem o papel sujo de dedo-duro.
Sempre pensei que, no dia em que ele
descobrisse a verdade, me deixaria meio morta no
cho, de tanto bater. Mas sua reao foi muito
diferente. Ele parecia tomado pelo desespero. Quase
tanto quanto minha me. Falava muito delicadamente.
Acabou compreendendo que mesmo que quisssemos
de fato, no era assim to simples acabar com a
herona. Mas ele no abandonou a esperana de
chegar l.
No dia seguinte ele me fechou novamente no
apartamento. Levou Janie. Eu no voltaria a v-la.
Tive uma crise horrvel. Ao meio-dia no suportava
mais e telefonei a Heinz. Supliquei-lhe que trouxesse
herona. Como era preciso uma chave para entrar no
edifcio, informei-lhe que penduraria uma corda em
minha janela, no dcimo primeiro andar.
Acabei convencendo-o, mas em troca ele me
pediu que lhe mandasse, pelo mesmo meio, uma carta
de amor e uma das minhas calcinhas. Ele nunca dava
droga sem nada em troca. Era um homem de
negcios, no ?
Revirei o apartamento em busca de tudo o que
pudesse servir de corda, desde o varal de roupas at o
cinto do pijama. Amarrei tudo. Era preciso fazer um
monte de ns e vrias tentativas antes de chegar a um
comprimento suficiente. Deu muito trabalho. Depois,
rabisquei a famosa carta. Em pleno cold turkey.
Heinz chegou na hora. Tirei do armrio uma
calcinha bordada (por minhas prprias mos) e
coloquei-a junto com a carta, na touca do meu
secador de cabelos, e despachei meu pacote areo
pela janela do quarto das crianas. Tudo bem. Heinz
pegou sua encomenda e ps o saquinho de droga na
touca. Muitas pessoas paravam para ver, interessadas
na nossa operao. Mas parece que Heinz no dava
bola para isso. Eu "cagava montes". S pensava numa
coisa: na herona.
Finalmente ela chegou. Apressei-me em
esquent-la. O telefone tocou. Heinz. Houve um malentendido,
ele queria uma calcinha usada. Tinha a
herona e nada mais me importava. Para que o cara
parasse de me encher o saco, peguei uma calcinha
bem velha, no cesto de roupas sujas, e joguei-a pela
janela. O objeto aterrissou numa planta. Heinz, depois
de fingir que ia embora, partiu  sua procura.
Aquele cara era completamente louco. Soube
depois que no dia da histria da corda ele j estava h
trs semanas com mandado de priso decretado. Os
policiais simplesmente no tinham tido ainda tempo de
ir busc-lo. E seu advogado lhe havia dito que ele se
metera numa grande encrenca. Mas desde que se
tratasse de meninas, Heinz perdia completamente a
cabea.
Precisei depor como testemunha em seu
processo. Disse a verdade. Por um lado eu pouco me
interessava por ele e pelos outros clientes, mas por
outro, ele me dava pena e no me foi fcil depor
contra ele. Em todo caso, ele no era pior que os
outros clientes, e eles sabiam perfeitamente que os
viciados usavam seu dinheiro para comprar droga.
Eram todos nojentos. Mas Heinz era um infeliz
drogado. Sua droga eram as jovenzinhas. Acho que
seu lugar seria num hospital psiquitrico e no numa
priso.
Fiquei presa no apartamento durante muitos dias.
Mas como Heinz havia trazido uma boa proviso de
herona, no fiquei em jejum. Uma manh meu pai
partiu sem fechar a porta  chave. Eu me mandei.
Sumi por uma semana toda at que ele me encontrou
e me trouxe de volta para casa. Contra todas as
expectativas, ele no me bateu. Tinha somente um ar
mais desesperado.
Eu lhe disse que no conseguiria sozinha. Era
muito duro quando ficvamos a ss todo o dia. Babsi
morta, Stella na priso. Eu lhe falei de Stella, Stella
morrendo atrs das grades, com catorze anos. Soube,
atravs de uma menina que acabava de ser solta e
que fora sua companheira de cela, que Stella s tinha
um pensamento na cabea: se matar. Seu nico apoio
eram as terroristas  meninas da Faco do Exrcito
Vermelho detidas na mesma priso. Ela encontrou
vrias vezes Monica Berberich e estava fascinada por
aquela mulher. Muitos viciados achavam as terroristas
formidveis. Havia mesmo quem tentasse entrar em
um grupo terrorista antes de se entregar  droga.
Durante o seqestro de Schleyer eu tambm fui
detida, mas tinha horror  violncia. Nunca poderia
fazer mal a ningum: s o fato de ver um ato de
violncia me punha doente. No entanto, pensava que
as pessoas do grupo Baader talvez tivessem uma viso
clara da situao: no podamos mudar essa sociedade
podre a no ser pela violncia.
A histria de Stella tocou profundamente meu pai.
Ele queria tir-la da priso e adot-la. Eu o tinha
convencido de que, se tentssemos juntas, Stella e eu,
conseguiria me livrar da droga. Para ele tambm era a
ltima oportunidade de luta. Um raciocnio idiota, mas
como ele poderia saber? Certamente meu pai no foi
feliz em sua tentativa de me reabilitar durante o
tempo em que passei em sua casa, mas fez o que
pde. Como minha me.
Meu pai comeou a percorrer os servios sociais e
conseguiu soltar Stella. Ela estava realmente acabada,
fsica e psicologicamente. Pior que antes de sua priso.
Eu tinha prometido a mim mesma que estaria limpa
quando ela chegasse em casa, mas no consegui... E
fiz Stella "mergulhar" desde o primeiro dia. Mas de
qualquer forma ela o teria feito. Durante alguns dias
mais, falamos seriamente em nos desligarmos. Em
seguida pusemos em prtica uma tcnica quase
perfeita para enganar meu pai. Para ns duas era fcil,
pois dividamos todas as tarefas. amos at mesmo 
"corrida pela grana", uma vez cada uma. Sempre
Kurfrstenstrasse. Pegar alguns automobilistas.
J estava indiferente a tudo. O que teria de mais
o trottoir? ramos uma turma de quatro meninas.
Stella, as duas Tinas e eu. O acaso quis que as duas
se chamassem Tina. Uma delas tinha um ano menos
que eu e acabava de fazer catorze anos.
Ns sempre trabalhvamos pelo menos em dupla.
Quando uma saa com um cliente, a outra anotava,
ostensivamente, o nmero da placa. Isso
desencorajava os caras que estivessem pensando em
nos fazer uma sacanagem. Era igualmente uma
proteo contra os proxenetas. Ns no tnhamos medo
dos policiais. Alguns, quando passavam no carro de
patrulha, nos davam adeusinhos. At tinha um deles
entre os meus habitus. Um cara muito divertido. Ele
pedia, queria amor o tempo todo, era preciso explicarlhe
constantemente que a prostituio era um trabalho
e no amor. Ele no era o nico cliente a quem tinha
que explicar isso. A grande maioria queria bater papo.
Comeavam sempre com as mesmas histrias: "Como
uma menina to bonita como voc chegou a isso?
Certamente h uma outra soluo", etc., etc. Era o
tipo de conversa fiada que mais me exasperava. Alguns
punham na cabea que iriam me salvar. Recebia
pedidos de casamento certinhos. Todos aqueles bons
sentimentos no lhes impediam de explorar a
desgraa dos viciados para sua satisfao pessoal,
com conhecimento de causa. Esses caras mentem
escandalosamente. Imaginam poder ajudar-nos
enquanto esto atolados at o pescoo em seus
problemas.
A maior parte deles eram caras que no ousavam
procurar profissionais. De maneira geral, tinham
dificuldades com mulheres e por isso vinham procurar
meninas que se viravam. Eles nos diziam que se
sentiam completamente frustrados por causa de suas
mulheres, de suas famlias, da vida que levavam, onde
nada mudava. s vezes, pareciam at ter inveja de
ns, pelo menos porque ramos jovens. Eles nos
faziam perguntas sobre a juventude atual, seus gostos,
sua msica, sua linguagem, a moda, etc.
Uma vez, um desses tipos, um cara de uns
cinqenta anos, queria fumar maconha de qualquer
maneira, pois ele achava que todos os jovens o
faziam. Foi a ento que pedi mais dinheiro. E ei-nos
em busca de um fornecedor. Percor- remos metade de
Berlim, e nada. Eu nunca tinha percebido que nesta
cidade encontramos herona em todos os cantos da
rua e maconha no encontramos em parte alguma.
Levamos quase trs horas para encontrar um pouco. O
tipo fumou sua maconha no carro. Ficou todo feliz de
fazer tal coisa.
Encontrvamos cada louco nesse trabalho! Havia
um cara que queria que a gente batesse o tempo todo
sobre uma placa de ao que ele tinha no joelho, desde
um acidente de moto. Um outro levava consigo um
pedao de papel com um carimbo que tinha o aspecto
de documento oficial: era um documento de
esterilidade, pois no queria usar preservativo. Um
outro, o mais filho da puta de todos, me contou que
trabalhava no cinema e que gostaria que eu fizesse
um ensaio, depois tirou um revlver e me obrigou a
fazer coisas com ele gratuitamente.
Meus clientes preferidos eram os estudantes. Eles
chegavam a p. De modo geral eram caras bastante
bloqueados, mas eu gostava muito de conversar com
eles. Falvamos dessa sociedade podre. Eram os
nicos a cujos quartos eu concordava em ir. No hotel
era realmente ruim: custava dez marcos a mais ao
cliente, e por aquele preo no tnhamos nem mesmo
direito a utilizar a cama. Eles nos instalavam num
colcho inflvel.
Stella e eu nos comunicvamos por cdigo, que
rabiscvamos em uma parede ou numa coluna Morris.
Dessa forma, ns sempre sabamos, na hora da troca,
o que a outra fazia, o que nos era muito til no caso
de meu pai inventar uma nova forma de nos vigiar
melhor. s vezes, quando estava de saco cheio da
Kurfrstenstrasse, passava alguns minutos em uma
loja chamada Teen Challenge. Ali nos davam revistas e
livros contando histrias de pequenos viciados e
putinhas americanas, que graas a eles encontraram o
caminho de Deus. Esses caras vieram instalar-se a
dois passos de onde as adolescentes se prostituam e
do Sound, para fazer uma pregao. Na Teen
Challenge, bebia ch e comia um bolinho frito e batia
um papo. Mas, quando eles comeavam a falar do
bom Deus, eu me mandava. No fundo, eles tambm
exploravam os viciados, pois quando viam que estvamos
no fim da picada, tentavam nos recrutar para a
sua seita.
Ao lado da Sekten-Keller, na Kurfrstenstrasse,
havia uma sede do grupo comunista. s vezes lia seus
panfletos na vitrina. Eles queriam mudar a sociedade
completamente.
Isso me agradava. Mas na situao em que
estava, seu discurso no me ajudava mais que o resto.
Olhava tambm as vitrinas das grandes lojas de
mveis da Kurfrsten e da Genthinerstrasse. Isso me
fazia pensar no nosso velho sonho de um apartamento
para ns dois, para mim e para Detlef. Depois sentiame
ainda mais infeliz.
Desci, mais ou menos, at o ltimo estgio da
carreira de um viciado. Quando os clientes rareavam,
no recuava diante da delinqncia. Bem, isso no iria
muito longe, no havia nascido para tal e no tinha
nervos bastante fortes. No dia em que uma turma de
viciados quis me levar para fazer um roubo, escapuli.
Minha maior faanha foi o roubo do transistor de um
carro, depois de ter quebrado o vidro com um soco
ingls. Tive que tomar trs quartos de uma garrafa de
vermute para criar coragem. Geralmente ajudava os
viciados a vender a mercadoria roubada. Fazia
tambm transporte de mercadorias perigosas,
roubadas por ladres vagabundos: depositava os
objetos em guarda-volumes automticos e ia retirlos.
Com isso ganhava, no mximo, vinte marcos e, no
entanto, era mais perigoso que roubar. Eu estava
totalmente na merda.
Em casa, contava mentiras a meu pai e brigava
com Stella. Tnhamos combinado dividir o trabalho e a
herona, mas uma se achava prejudicada pela outra.
Era um inferno.
Meu pai j sabia de tudo h algum tempo, mas
estava desamparado. Eu tambm. A nica coisa de
que estava segura era de que meus pais no podiam
mais me ajudar.
No suportava mais a escola, nem mesmo para
marcar presena. No suportava mais nada nem
ningum. Os clientes me irritavam, no conseguia
mais passear tranqilamente como antes, na "cena".
No suportava mais meu pai.
Eis mais uma viciada no fim do caminho. A
depresso negra. As idias suicidas. Mas era muito
covarde para tomar um hot shot (Dose mortal).
Sempre buscava uma sada.
Decidi ir ao hospital psiquitrico. Ao Hospital
Bonhoeffer, chamado "Bonnies Ranch". Para um
viciado, era mais ou menos o que poderia haver de
mais pavoroso. Sempre ouvi dizer que " melhor viver
quatro anos em cana do que quatro semanas no
Bonnies Ranch". Alguns viciados foram internados ali
ex-officio, depois de terem baqueado em plena rua, e
na sada contaram histrias abominveis.
Mas eu, ingenuamente, pensava que, se fosse
voluntariamente, ao menos algum se decidiria a
ocupar-se de mim. No Servio de Auxlio  Infncia ou
em qualquer outra parte, seriam obrigados a perceber
que havia uma menina com necessidade de ajuda.
Minha deciso de ir ao Bonnies Ranch parecia com
essas tentativas de suicdio em que esperamos
secretamente sermos salvos por pessoas que diriam:
"Pobre coitada, no nos ocupamos dela o suficiente.
Nunca mais seremos to desumanos com ela".
Fui falar com minha me para lhe comunicar
minha deciso. Primeiramente ela se mostrou muito
fria. Comecei a chorar imediatamente e depois tentei
lhe contar a minha histria, sem deformar muito a
verdade. Ela tambm comeou a chorar, me segurou
nos braos e no me largou mais. Choramos as duas
como Madalenas arrependidas, e foi muito bom. Minha
irm tambm estava toda contente de me rever. Ns
duas dormimos na mesma cama.
Logo sentia os primeiros sintomas da crise.
Comecei um novo tratamento. No sabia mais quantos
havia feito. Provavelmente era a campe mundial de
tratamento. De qualquer forma, no conhecia ningum
que os tivesse feito, por sua prpria vontade, tanto
quanto eu. E sem nenhuma chance de ser bemsucedida.
A histria se repetiu como da primeira vez. Minha
me tirou umas frias e me trouxe tudo o que pedi:
Valium, vinho, gelia e frutas. Depois do quarto dia,
ela me levou para o Bonnies Ranch. Fiquei, pois sabia
muito bem que, em caso contrrio, recomearia a me
picar imediatamente. Fizeram-me ficar nua e me
mandaram para o banheiro. Como uma leprosa. L
estavam duas velhas completamente gags, tomando
banho. Meteram-me no terceiro chuveiro e me
vigiaram enquanto eu me esfregava. No me
devolveram minhas coisas, mas, em compensao,
tive direito a uma velha camisola dos tempos de
antanho, uma calcinha que ia at os joelhos, que era
obrigada a usar se no quisesse perd-la. Levaram-me
para o Servio de Admisses, para as anotaes. Era a
nica paciente com menos de sessenta anos. E as
outras eram completamente loucas, com uma nica
exceo, uma mulher a quem todos chamavam
"Boneca".
Boneca ficava ocupada de manh  noite. Ela se
tornara muito til no servio e dava boa ajuda s
enfermeiras. Boneca era uma pessoa com quem se
podia falar. Ela no parecia louca, s tinha os reflexos
um pouco retardados. Estava l h quinze anos, desde
que seus irmos e irms a
hospitalizaram no Bonnies Ranch. Aparentemente
no precisava de tratamento. Pura e simplesmente a
deixaram l, no Servio de Admisses. Talvez porque
ela fosse realmente til. Mas, para mim, devia haver
alguma outra coisa errada para algum ficar durante
quinze anos no Servio de Admisses, s porque
pensa um pouco lentamente.
Durante aquele primeiro dia, passei pela inspeo
de um peloto de mdicos. Na verdade, a maioria dos
"aventais brancos" eram estudantes, que me comiam
com os olhos, na minha nostlgica camisola. O chefe
deles me fez algumas perguntas, e respondi
ingenuamente que gostaria de seguir um tratamento
durante alguns dias e ir, em seguida, a um pensionato
onde pudesse preparar-me para o vestibular. Ele
falava: "Sim, sim", sem parar, como se estivesse
tratando com uma louca.
Lembrei-me de histrias de loucos. Eu me
perguntei o que fizera para que me tratassem como a
algum que se cr Napoleo. Tive medo na hora; e se
me guardassem aqui toda a vida, fantasiada com uma
camisola nostlgica e uma calcinha gigante?
Mas dois dias depois, como no apresentava mais
os sintomas da privao da droga, eles me mandaram
para o servio B, onde me devolveram as roupas e
tinha at o direito de comer com faca e garfo (no
Servio de Admisses eles s nos davam uma colher
de sobremesa). Ali encontrei trs outras viciadas,
meninas que conhecia. Sentamo-nos na mesma mesa,
logo batizada pelas velhinhas de "a mesa das
terroristas".
Uma das meninas, Liane, j passara muito tempo
em cana. Ela tambm confirmava que Bonnies Ranch
era pior que uma priso, principalmente porque no
xadrez havia sempre um meio de encontrar herona,
enquanto ali era muito difcil.
Apesar disso, agora que estvamos em quatro,
nos divertamos bastante, mas pouco a pouco comecei
a ficar apavorada. Era impossvel conseguir uma frase
sensata dos mdicos quando eu lhes perguntava
quando iriam enviar-me para a terapia. A resposta era
sempre: "Vamos ver" ou besteiras semelhantes, que
eles falavam aos loucos durante todo o dia.
Havia sido combinado entre minha me e o setor de
Ajuda  Infncia que eu passaria quatro dias em
Bonnies Ranch  o tempo para constatar que eu
estava limpa  e depois comearia a terapia. Mas no
existia mais a vaga prometida no Centro de Terapia,
apesar de eu ter feito o tratamento de privao
sozinha e ter chegado quase limpa. E num belo dia
queriam que eu assinasse um papel no qual aceitava,
por minha prpria vontade, uma permanncia de trs
meses no Hospital Bonhoeffer.  claro que recusei e
disse que queria partir imediatamente: se eu vim por
minha prpria conta, poderia partir quando me
conviesse. A o mdico-chefe me disse que, se eu no
assinasse, ele pediria um internamento ex-officio de
seis meses.
Senti que cara numa cilada. Louca de angstia,
percebi que me entregara indefesa nas mos desses
mdicos idiotas. Eles podiam me dar qualquer
diagnstico: neurose grave, esquizofrenia ou sei l o
que mais. No tnhamos mais nenhum direito quando
ramos internados em um hospital de loucos.
Aconteceria comigo o mesmo que acontecera com
Boneca.
O pior era que nem eu mesma sabia qual era o
meu grau de loucura. Devia admitir que era neurtica.
Minhas entrevistas com os conselheiros do centro
antidroga ao menos me ensinaram que a toxicomania
 uma neurose, um impulso obsessivo. Foi o que pude
concluir quando pensei na coisa. Ter feito tantos
tratamentos para recomear em seguida, sabendo
perfeitamente que aquilo acabaria me matando. Tudo
o que fazia minha me sofrer, a maneira como me
comportava com os outros,  claro que no era
normal. Devia estar muito destruda. E l estava eu
imaginando como fazer para impedir que os mdicos e
enfermeiras percebessem que estava louca para
sempre.
Essas enfermeiras me tratavam como a uma
idiota, como s outras doidas. Eu me esforava para
nunca me mostrar agressiva com elas. Quando os
mdicos me faziam perguntas, dava-lhes respostas
diferentes das que me ocorriam espontaneamente.
Tentava com todas as minhas foras no ser eu
mesma, mas uma outra pessoa, totalmente normal. E
quando eles me davam as coisas, eu me arrependia
por no ter dito s besteiras. Ento, certamente, eles
deviam pensar que estava completamente louca.
Tudo o que me propuseram em matria de
terapia foi fazer tric. Mas absolutamente no me
interessava, e achava que aquilo no me ajudaria.
Naturalmente havia grade nas janelas, mas como
Bonnies Ranch no era uma priso, eram volutas 
mais decorativas. Virando a cabea de certa forma,
podia enfi-la entre duas curvas, e isso me permitia
ver melhor l fora.
Passava horas assim com o pescoo enroscado
naquela "coleira de ferro". Veio o outono e as folhas se
tornaram avermelhadas e amareladas. Entre duas
rvores o raio de sol que estava se pondo caa
diretamente sobre a minha janela todos os dias, e isso
durava uma hora.
s vezes amarrava minha caneca num pedao de
l, fazia-a atravessar a janela e me divertia batendo-a
contra o muro, ou ento durante uma tarde inteira
tentava, sem sucesso, pegar um ramo com um
cordo, na esperana de colher a folha.  noite
pensava: se voc no estava doida ao chegar, acabou
ficando.
Nem mesmo me autorizavam a ir ao jardim, para
andar em crculo como as velhinhas. As terroristas
tinham direito a uma sada ao ar livre todos os dias.
Eu no. Tentaria fugir. Alis, eles tinham razo.
Encontrei uma velha bola de futebol num armrio.
Jogava-a infatigavelmente contra os painis de vidro
de uma porta enferrujada. Talvez eles acabassem se
quebrando. No demoraram muito a tir-la de mim.
Meti a cabea no vidro.  claro que o vidro era
resistente. Tive a impresso de ser um animal feroz
em uma jaula, uma jaula minscula. Andava ao longo
das paredes horas e horas. Uma vez tive uma terrvel
necessidade de correr. Corria como uma louca, de
ponta a ponta do corredor. Ida e volta, ida e volta, at
que ca de cansao.
Um dia roubei uma faca.  noite Liane e eu
raspamos a massa de uma janela com ferrolho, mas
sem grades. A vidraa no se mexeu nem um
milmetro. Na noite seguinte, depois de ter
aterrorizado as velhinhas, que no ousavam se mexer
(algumas achavam que ramos terroristas de verdade),
desmontamos uma cama para tentar tirar as
grades de uma janela que ficara aberta.  claro que a
ao estava destinada ao fracasso: fizemos tanto
barulho que a guarda da noite caiu em cima da gente.
Comportando-me assim, percebi que no teria
nenhuma chance de sair um dia da casa de loucos. Por
mais que me esforasse para no me drogar, a minha
sade estava cada vez pior. Tinha uma barrigona, meu
rosto estava flcido e inchado, sem cor. Quando olhei
no espelho, percebi que parecia uma pessoa que j
havia passado quinze anos no Bonnies Ranch. Quase
no dormia mais. Alis, ficvamos acordadas quase
todas as noites por incidente no servio. E continuava
sempre  espera de uma chance para fugir. Sabendo
que era intil, me embonecava todas as manhs,
como se fosse  "cena": penteava calmamente meus
cabelos, maquilava-me e at preparava o meu casaco.
No entanto, um dia recebi a visita de um cara da
Ajuda  Infncia. Ele tambm no achava nada para
me dizer, a no ser: "Vamos ver". Mas ao menos ele
me contou onde estava Detlef. Em seguida lhe escrevi
uma longa carta. Assim que a pus na caixa do correio,
comecei outra. Era bom poder esvaziar meu corao,
mas no totalmente, pois sabia muito bem que
aquelas cartas seriam abertas. Haveria censura,
possivelmente na sada da carta, em Bonnies Ranch,
e, sem dvida nenhuma, quando chegasse  priso.
Era, por isso, obrigada a mentir: contava, por
exemplo, que no tinha nenhuma vontade de me
drogar.
Pouco depois recebia notcias de Detlef. Um
monte de cartas de uma s vez. Ele me escreveu que
fizera uma enorme besteira roubando aqueles
cheques, mas ele s tinha uma idia em mente: voltar
a Paris para se desintoxicar. Ele queria me fazer uma
surpresa, pois nunca conseguiramos juntos. Detlef me
escreveu que estaria livre dentro em breve e em
seguida iniciaria uma terapia. Disse-lhe que iria
comear a minha logo. Ns nos prometemos, ento,
que aps a terapia viveramos juntos em nosso
apartamento. Recomevamos  e dessa vez por
correspondncia  a construir castelos no ar, s que
quando no estava escrevendo a Detlef, tinha a
impresso de estar condenada pelo resto da vida ao
Bonnies Ranch.
Tive sorte. Minha micose voltou. Todos os dias
enchia a doutora dizendo "me sinto muito mal",
"precisa me mandar para o hospital". Uma manh me
levaram com uma boa escolta ao Hospital Rudolf
Virchow, onde me internaram imediatamente, pois,
apesar de tudo, meu estado era bastante grave.
Soube, atravs da "Rdio-Txicos", como se fazia para
fugir de um hospital. Tentei conseguir uma "permisso
de parque", isto , autorizao para ir ao parque do
estabelecimento.  claro que no era dada facilmente
aos viciados, mas eu conhecia um truque: fui falar
com uma das enfermeiras  que era uma menina
linda, com olhos rasgadinhos , expliquei-lhe que
gostaria de ajudar aquelas pobres velhas grudadas em
cadeiras de rodas. Ser que ela me permitiria lev-las
para passear s vezes no parque? A enfermeira, que
no desconfiava de nada, me felicitou pelo meu bom
corao.
Peguei uma velha e lhe ofereci meus prstimos.
Ela me achou "uma menininha boazinha". Empurrei
um pouco sua cadeira de rodas por uma alameda e lhe
disse "espere-me um minuto, vov, volto em seguida".
Trinta segundos depois estava na rua.
Enfiei-me imediatamente no metr, em direo 
Estao Zoo. Nunca tinha tido tal sensao de
liberdade. Fui at o bar da Universidade Tcnica.
Depois de ter dado uma voltinha fui sentar-me em um
banco ocupado por trs jovens viciados. Contei-lhes
que acabara de fugir do Bonnies Ranch. Eles ficaram
de boca aberta de admirao.
Tinha uma bruta vontade de me picar. Um dos
rapazes era fornecedor. Ele concordou em me dar
crdito se eu lhe mandasse uns clientes.  Est certo.
 Eu me apressei em picar-me no banheiro do
restaurante universitrio.
Piquei-me s com a metade da dose. Alis, a
herona no era l essas coisas. Eu me sentia bem,
mas me conservava lcida, pois devia dar uma
mozinha para o cara. Era um rapaz jovem, com seus
dezesseis anos, que eu conhecia um pouco por t-lo
visto com fumadores de maconha no Parque
Hansenheide. Ele ainda ia  escola. Era um fornecedor
novato, seno no teria me dado a herona logo de
cara: eu teria que ganh-la antes de mais nada.
De repente percebi que o pedao estava cheio de
policiais  paisana. O cara no percebeu nada. Ele no
compreendia os meus sinais de alarme. Precisei ir ao
encontro dele e lhe assoprar ao ouvido:  Os tiras 
para que ele reagisse. Fui calmamente em direo 
Estao Zoo, e ele me seguiu. Um viciado se
aproximou de mim. Eu lhe disse:  No se mova, meu
velho, h uma batida no restaurante universitrio, mas
eu posso te conseguir uma herona das boas.  O
jovenzinho j estava do meu lado e tirava o pacote de
droga do bolso, falando ao cara que era s para ele ter
uma idia. No era possvel! Havia uma batida a
trezentos metros e o cretino tirava o pacote de herona
do bolso!
Dois policiais  paisana que andavam por ali
avanaram em nossa direo. Era intil comear a
correr, pois eles nos pegariam na hora. O fornecedor
jogou os seus saquinhos fora  um verdadeiro
turbilho de papel alumnio rosa-shocking. Ele
acreditava, sem dvida, poder jogar tudo isso sobre
nossas costas, ou seja, nas do outro viciado e nas
minhas.
Colocaram-nos de braos erguidos para ver se
estvamos armados, quando o mais velho de ns no
tinha nem dezesseis anos. Aquele policial sujo
aproveitou para passar a mo nos meus peitos. Mas
eu estava muito tranqila. Havia tomado a minha
picada e depois do Bonnies Ranch nada mais me dava
medo. Executei o meu nmero de menina bemeducada.
De repente, os policiais que verificavam as
nossas identidades se mostraram bastante bonzinhos.
Um deles me disse:  Deus! Voc no tem quinze
anos... o que est fazendo aqui?  Respondi:  Estou
passeando  e pus um cigarro na boca. Isso o irritou:
 Jogue isso fora...  um veneno na sua idade! 
Joguei o cigarro.
Levaram-nos ao comissariado da Praa Ernst-
Reuter e nos trancaram numa cela. O aprendiz de
fornecedor perdeu a calma. Gritava sem parar: 
Deixe-me sair! Deixe-me sair!  Tirei o meu casaco,
enrolei-o para fazer um travesseiro, deitei sobre a
armao da cama e tirei uma soneca. A cana no me
apavorava mais. E certamente eles no sabiam ainda
que eu era uma fugitiva do Bonnies Ranch.
Efetivamente, eles me soltaram depois de duas
horas. Voltei  Universidade Tcnica. No caminho
minha conscincia comeou a me atormentar. Assim,
mais uma vez,*recara na primeira oportunidade.
Chorei bastante. E agora, que fazer? No podia
aparecer em casa de minha me com a pupila feito
cabea de agulha de tric, tentando agradar:  Ol,
mame, estou aqui. Eu me mandei, prepare-me um
bom rango.
Fui ao centro antidroga da Universidade Tcnica,
que estava instalado no antigo restaurante
universitrio. Os caras que trabalhavam l eram
legais. Eles me levantaram o moral o suficiente para
que eu me decidisse a telefonar para minha me. Ela
ficou um pouco tranqila sabendo onde eu estava.
Chegando a casa dormi, pois estava com quarenta
graus de febre. Comecei a delirar. Minha me chamou
o mdico de planto, urgente, e ele queria me dar
uma injeo. Fiquei em pnico: no me importava de
me picar nos braos duas ou trs vezes por dia, mas
uma picada na bunda me dava um medo terrvel.
A febre caiu logo em seguida. Mas eu j no era
mais que um farrapo  Bonnies Ranch havia acabado
comigo, fsica e psicologicamente. Quando consegui
ficar de p, depois de trs dias de cama, corri ao
centro antidrogas. Para chegar l, fui obrigada a
atravessar a "cena", o caf. Atravessei tudo correndo,
sem olhar nem para a direita nem para a esquerda.
Durante uma semana fui todos os dias ao centro.
Finalmente, encontrara algum que me ouvia. Pela
primeira vez me deixaram falar. At ento sempre me
haviam feito grandes discursos. Minha me, meu pai,
os caras da Narconon. Todo mundo. Ali me pediam
para contar o que estava acontecendo. Ainda corri 
faculdade quando j estava com o rosto amarelo como
limo. Naquela manh encontrei uns amigos no caf.
Eles, literalmente, se mandaram gritando: 
Desaparea, voc no v que est com ictercia?
No, eu no queria ver. Era uma loucura: cada
vez que ficava limpa, depois de certo tempo, com
esperana de enfim me desligar, pegava a doena
profissional dos viciados. Quando minha dor de barriga
se tornou insuportvel, pedi  minha me que me
acompanhasse  Clnica Steglitz. Eu a havia escolhido
porque ali a comida era razovel. Passei duas horas na
sala de espera, torcendo-me de dores na cadeira.
Qualquer enfermeira era capaz de fazer o diagnstico:
podia-se ler em minha cara toda amarela. Mas
ningum fazia nada. A sala estava cheia de gente,
incluindo-se tambm crianas. Se minha ictercia fosse
contagiosa, o que j havia acontecido comigo, poderia
contaminar todo mundo.
Depois de duas horas decidi que j bastava!
Arrastei-me pelo corredor apoiando-me na parede,
pois estava muito fraca e sofria como uma condenada.
Procurei o servio de doenas contagiosas. Passou um
mdico, falei com ele:  D-me um leito. No quero
contaminar todas as pessoas. Tenho ictercia, ser que
vocs no perceberam?  Ele sentia muito, mas no
podia fazer nada... deveria voltar ao servio de
recepo.
Finalmente, quando fui recebida por uma mdica,
preferi contar-lhe imediatamente que era uma viciada.
A resposta veio glacial:  Lamento, neste caso no 
da nossa competncia.  Quando se tratava de
drogados no era da competncia de ningum. Outro
txi. Minha me estava furiosa depois que aqueles
mdicos no quiseram me atender. Na manh do dia
seguinte ela me levou ao Hospital Rudolf Virchow.
Como havia fugido de l, fiquei em maus lenis.
Um jovem estudante colheu meu sangue para os
exames. Expliquei-lhe tudo de uma s vez:  Nesta
veia no, ela  dura como um pau.  preciso procurar
uma por baixo. No pique na vertical, pique em linha
oblqua, seno a agulha no entrar.
O cara estava todo confuso, mas isso no o
impedia de picar uma veia endurecida. Por mais que
movesse o mbolo, no conseguia tirar uma gota
sequer de sangue. Para finalizar, a agulha escapou
literalmente do meu brao por causa do vcuo que se
formou na seringa. Depois disso, ele me perguntou
onde deveria enfi-la.
Dormi durante dois dias seguidos. A minha
ictercia no era contagiosa. No quarto dia, minhas
dosagens hepticas eram mais ou menos regulares.
Minha urina estava muito menos vermelha e meu
rosto voltava, pouco a pouco,  sua brancura.
Como combinado, telefonava todos os dias ao
centro antidroga. Esperava que eles encontrassem
logo uma vaga na terapia. E num domingo, na hora de
visitas, a surpresa: minha me ali estava,
acompanhada de Detlef, que acabava de ser solto.
Juras de amor, beijos e carcias. A felicidade.
Tnhamos vontade de estar a ss, fomos dar uma
voltinha no parque do hospital. Foi como se nunca
tivssemos nos separado. E, de repente, estvamos no
metr, em direo  Estao Zoo. Tivemos sorte, o
primeiro cara que encontramos era um amigo,
Wilhelm. Ele era um sortudo: vivia com um pederasta,
mdico e escritor muito conhecido. Wilhelm no s era
cheio da grana como tambm estudava em um colgio
particular.
Wilhelm nos deu uma picada, e eu estava de volta
ao hospital para o jantar. Detlef voltou no dia
seguinte. Dessa vez foi difcil encontrar herona, e
voltei ao hospital s s dez e meia. No encontrei meu
pai, que viera se despedir antes de partir para a
Tailndia.
Na visita seguinte minha me estava de novo com
seu ar desesperado. S faltava essa! Alm disso, o
cara da Droga-Informaes veio ver-me e xingou-me
de irresponsvel. Eu lhe jurei que tinha, sinceramente,
de desligar-me. Jurei aos outros e a mim mesma.
Detlef disse que a culpa era toda sua. Ele chorou.
Depois foi, por sua vez, ver as pessoas do centro e, no
domingo, me disse que lhe haviam conseguido uma
vaga na terapia. Ele iria comear no dia seguinte.
Felicitei-o:  Agora tudo vai caminhar bem. Eu
tambm terei um lugar, e nunca mais faremos
besteiras.
Fomos passear no parque. Propus:  E se
fssemos correndo  Estao Zoo? Eu gostaria de
comprar o terceiro volume de Retorno do planeta
Caveira (um romance de terror que estava lendo).
Minha me no o encontrou.
Detlef:  Parabns, minha cara, voc tem
necessidade de ir at a Estao Zoo para comprar um
romance de terror? Seria melhor dizer logo de cara
que voc tem vontade de se picar.
Exasperava-me ver Detlef tomar ares superiores,
representar o virtuoso. Alm disso, no tinha nenhuma
segunda inteno. . . s tinha vontade de ler o fim de
Retorno do planeta Caveira. Respondi:  Voc est
louco, vendo coisas. Alis, voc no  obrigado a me
acompanhar.
 claro que ele me acompanhou. No metr, fiz
minha brincadeira habitual: provocar as velhas
balofas. Isso sempre irritava Detlef, que se refugiava
na outra extremidade do vago. E, como sempre, eu
gritava:  Ei, meu velho, no finja que no me
conhece! Voc no  melhor que eu, e todo mundo
percebe!  Ento, recomecei a perder sangue pelo
nariz. Isso j estava acontecendo h algumas
semanas, sempre que entrava no metr. Era horrvel,
e eu passava o tempo todo limpando o sangue do
rosto.
Felizmente encontrei imediatamente o tal
romance. Bem-humorada, sugeri a Detlef fazermos um
passeio a p:  Afinal de contas,  o seu ltimo dia de
liberdade.  Nossos passos nos conduziram
automaticamente  "cena". Stella estava l, e tambm
as duas Tinas. Stella ficou louca de alegria de me
rever, mas as duas Tinas estavam na pior, em pleno
bode. Elas voltaram da Kurfrstenstrasse de mos
abanando. Tinham esquecido que era domingo. E, no
domingo, os clientes estavam com suas mulheres e
filhos.
Eu me senti muito feliz por ter sado daquela
merda toda. No tinha mais medo da crise. No me
prostitua h muitas semanas. Um sentimento de
superioridade e uma alegria exuberante me invadiram.
O legal era que, pela primeira vez, passara pela "cena"
sem ter vontade de me picar.
Estvamos num ponto de nibus perto do metr
Kurfrstenstrasse. Ao nosso lado, dois estrangeiros
sujos. Eles me faziam sinal o tempo todo. Apesar da
minha ictercia, era a mais saudvel de ns quatro,
estando relativamente limpa h um bom tempo. Alm
do mais, no estava com uniforme de viciada: tomara
emprestadas algumas roupas da minha irm, estilo
"menina-moa", justamente para me distinguir das
drogadas. No hospital, cheguei at a cortar os cabelos
bem curto.
Os estrangeiros sujos no paravam de piscar para
mim. Perguntei s duas Tinas:  Vocs querem que os
pegue para vocs? Mesmo que eles s dem quarenta
marcos, vocs podero dividir a dose.  De qualquer
maneira, no estado em que estavam elas, no ligavam
para nada. Fui muito descontrada em direo aos dois
estrangeiros sujos:  Vocs querem as duas
meninas? Eu pedir para vocs cinqenta marcos.
Capito?  E apontei as duas Tinas.
Eles, com sorrisos idiotas:  No, voc. Voc
meter, voc hotel?
Muito tranqila, sem nenhuma agressividade,
respondi:
 No, nada disso. Mas aquelas meninas legal.
Catorze anos, cinqenta marcos apenas. 
Realmente, a mais jovem das Tinas tinha s catorze
anos.
Os estrangeiros sujos permaneciam impassveis.
No fundo eu os compreendia. As Tinas, em crise, no
eram nada apetitosas. Voltei para o lado delas para
lhes dizer que nada feito. Depois o Diabo me assoprou
qualquer coisa ao ouvido. Chamei Stella de lado:  No
estado em que esto, as Tinas no encontraro
cliente. Vamos ns duas. Vamos excit-los, e as Tinas
faro o resto. De qualquer forma, elas trepam com os
clientes. Vamos pedir cem marcos e comprar meio
grama.
Stella no se fez de rogada, mas tanto para ela
como para mim os estrangeiros sujos eram o que
havia de pior. Ao menos nenhuma de ns duas
confessaria  outra ter tido algo com um estrangeiro
sujo.
Voltei para falar com os dois turcos. Minha
proposta foi aceita na hora. Detlef, com nojo, disse: 
Tudo bem, voc recomea a se prostituir.  Eu: 
No fale bobagem, eu no farei nada. Voc bem v
que somos quatro meninas.
 Na verdade, disse-lhe que o faria unicamente
por pena das Tinas. Talvez houvesse um pouco disso,
mas inconscientemente procurava, sem dvida, um
meio tortuoso de voltar  droga.
Expliquei s outras que precisaramos ir ao Hotel
Norma, onde eles tinham grandes quartos. Em outro
lugar nunca nos deixariam subir em seis, para um
quarto. Bem, a caminho. De repente, um outro
estrangeiro sujo se juntou a ns. Os outros dois
disseram:  Ele amigo. Tambm hotel.
Na hora no falamos nada: contentamo-nos em
receber nossos cem marcos. Stella partiu com um
deles para comprar herona. Ela conhecia um
fornecedor que oferecia meio grama bem pesado. O
que havia de melhor no pedao. Esperamos a volta de
Stella para continuarmos nosso caminho. Os oito: as
quatro meninas e Detlef na frente, de braos dados,
ocupando a calada toda, e atrs os trs estrangeiros
sujos.
Mas o clima estava tenso. As duas Tinas queriam
a herona imediatamente. Stella recusou com medo de
que as meninas nos deixassem na mo. Por outro
lado, era preciso encontrar um meio de se desfazer do
terceiro estrangeiro sujo, pois ele no estava includo
em nosso acordo.
Stella virou para trs, apontou com o dedo e disse
num tom categrico:  Se este estrangeiro sujo vier,
ns nada fazer.  Ela teve a audcia de tratar o turco
de estrangeiro sujo!
Mas os trs caras de mos dadas no se deixaram
impressionar. Stella props simplesmente se desfazer
deles. Minha primeira reao foi:  Boa idia!  Tinha
saltos baixos e pela primeira vez, depois de uns trs
anos, poderia correr. Mas, pensando bem, o negcio
com eles no me parecia to mal:  Eles acabaro
nos encontrando, e nesse dia nem quero saber o que
vai acontecer...  Esqueci completamente que, em
princpio, no freqentava mais a "cena" e no me
virava mais.
Stella no estava contente. Ela ficou para trs e
recomeou a discusso com os estrangeiros sujos.
Chegamos  passagem subterrnea do Europa Center.
No ouvindo mais nada atrs de ns, virei-me. Nada
de Stella. . . Ela havia desaparecido da face da Terra
com toda a herona. Os estrangeiros sujos, que
tambm perceberam a sua ausncia, pareciam bem
agitados.
Isso era bem ao estilo de Stella. Fiquei furiosa.
Achava que ela s podia estar no Europa Center. Corri,
com Detlef atrs de mim. As duas Tinas dormiram no
ponto e os estrangeiros sujos caram em cima delas.
Dei a volta ao centro comercial correndo como uma
louca. Detlef foi pela esquerda e eu, pela direita.
Nenhum sinal de Stella e, alm disso, tinha a
conscincia pesada por causa das duas Tinas. Vi os
turcos arrastarem as duas para um hotel. Esperamos
v-las sair depois do seu trabalho sujo. Isso levou
horas. Agora elas bem mereciam sua picada! Sabia
onde encontrar Stella. As duas meninas e eu fomos 
Estao Kurfrstenstrasse. Estava quase deserto
porque quela hora a "cena" se transferia para a
Treibhaus, acima da Kurfrstenstrasse, mas, como
procurvamos Stella, descemos diretamente aos
banheiros da estao do metr. Mal entrei, ouvi sua
voz. Em plena ao, gritando com algum. Havia um
monte de compartimentos, mas localizei
imediatamente o de Stella. Bati com os dois punhos na
porta e gritei:  Stella, abra imediatamente, seno
vou te deixar em pedaos. . .
A porta se abriu. Stella apareceu. A pequena Tina
lhe deu uma bofetada magistral. Stella,
completamente drogada, falou:  Peguem... eu lhes
deixo toda a herona... eu no quero.  E se mandou.
Evidentemente, era uma grossa mentira. Ela
havia se picado com mais da metade do meio grama,
s para no dividir. As duas Tinas e eu misturamos o
resto do saquinho e mais a dose que acabvamos de
comprar e a dividimos em trs partes iguais.
Para mim, que no tinha tomado nada h tanto
tempo, foi mais que suficiente. Minhas pernas mal
agentaram. Fomos  Treibhaus. Stella estava l,
servindo de intermediria a um fornecedor. Camos em
cima dela:  Puxa vida, voc ainda nos deve um
quarto.  Ela no criou caso. Ainda lhe restava um
pouco de conscincia.
Eu lhe disse:  Voc  uma safada. No falo mais
com voc.  Depois fui me picar com a minha parte.
Peguei uma Coca. Sentei a um canto, sozinha. Eram
os meus primeiros minutos de calma desde o incio da
tarde. Por um momento aguardei ansiosamente a
chegada de Detlef. E ento me pus a pensar.
No comeo ainda dava. Fiz um balano:
''Primeiro, seu melhor amigo a deixa; em seguida, sua
melhor amiga lhe faz uma sacanagem. Escute o que
eu digo: amizade entre viciados no existe. Voc est
absolutamente s. Para sempre. Todo o resto 
besteira. E este pesadelo esta tarde, tudo isso por
uma picada!" Mas, no final das contas, no era nada
de extraordinrio, pois o pesadelo era coisa de todos
os dias.
Tive um momento de lucidez. Isso s vezes
acontecia, mas sempre quando estava drogada. Em
jejum, fazia tudo, era totalmente irresponsvel. Nesse
dia ficou provado.
Mergulhei nas minhas reflexes. Muito calma, pois
tinha herona suficiente no meu sangue. No voltaria
ao hospital. Alis, j passava das onze horas.
De qualquer maneira, eles teriam me posto fora,
e nenhum hospital me aceitaria. O mdico advertira
minha me: meu fgado estava  beira de uma cirrose.
Se eu continuasse assim, agentaria, no mximo, dois
anos. A Droga-Informaes estava perdida para mim,
e nem valia a pena procur-los, pois eles tinham
ligao com o hospital. Alis, se eles no me queriam
mais, nada mais justo: havia muitos drogados em
Berlim que gostariam de fazer terapia, havia poucos
lugares.
O normal era reservarem-nos, aos que ainda
tinham um pouco de coragem, uma chance de se
desligar. Eu, evidentemente, no fazia parte desse tipo
de gente. Provavelmente, havia comeado cedo
demais para ter chance de me safar.
Tinha as idias bem claras. Fazia meu balano
bebendo minha Coca. Sem esquecer as questes
prticas. Onde passar a noite? Na casa de minha me?
Ela certamente me bateria a porta na cara ou, ento, a
primeira coisa que faria, na manh seguinte, seria
procurar a polcia e me mandar para um centro de
reeducao. Eu faria isso em seu lugar. Meu pai estava
na Tailndia. Stella? Nem falar! Detlef? No sabia onde
ele poderia estar naquela noite. Se ele realmente
havia decidido se desligar da droga, provavelmente
estaria na casa do pai. De qualquer forma, no dia
seguinte de manh ele iria embora. No tinha sequer
uma cama. Nem por essa noite nem pelas seguintes.
Na ltima vez que refleti lucidamente sobre minha
situao, cheguei  concluso de que, para mim, s
existiam duas sadas: desligar-me totalmente ou
tomar o hot shot, a dose mortal. Infelizmente, a
primeira soluo estava excluda. Cinco ou seis
tratamentos malsucedidos eram o suficiente. No final
das contas, eu no era melhor nem pior que os outros
drogados. Ento, por que eu deveria estar entre os
poucos que se salvavam?
Fui  Kurfrstenstrasse. Nunca mais tinha
trabalhado  noite.  noite os viciados deixam o lugar
para as profissionais. Mas no tinha medo. Fiz,
rapidamente, dois clientes e voltei  Treibhaus. Tinha
cem marcos no bolso e comprei meio grama.
No queria ir ao banheiro da Treibhaus nem da
Kurfrstendamm, onde havia muita gente. Ento. . .
onde? Fui buscar uma Coca e refleti. Decidi-me ento
pelos banheiros da Bundesplatz.  noite eles estavam
desertos.
Fui  Bundesplatz a p. Sentia-me muito calma.
Os banheiros pblicos, desertos  noite, tinham algo
de estranho, angustiante, mas eu tinha um curioso
sentimento de segurana. O lugar era limpo, bem
iluminado. Eram os melhores banheiros de Berlim e
agora, s para mim. Os compartimentos eram imensos
(uma vez entramos seis), com portas at o cho. No
havia buracos nas divises. Muitos drogados j haviam
escolhido aqueles banheiros da Bundesplatz para se
suicidar: eles eram to bons!
Nada de velhotas, nada de tarados olhando pelos
buracos, nada de policiais. Nada me apressava. Fui
com calma. Lavei a cara e passei uma escova no
cabelo. Depois limpei cuidadosamente meu estojo com
a seringa que Tina me emprestara. Meio grama seria o
suficiente, estava segura. Depois dos meus ltimos
tratamentos, um quarto de grama me punha a
nocaute. Mas no momento j tinha isso ou talvez mais
no sangue, alm do que, estava debilitada pela
ictercia. Preferiria um grama. Atze fez isso com um
grama, mas me sentia incapaz de transar mais dois
clientes.
Escolhi tranqilamente o banheiro mais limpo.
Estava perfeitamente calma. Verdade. No tinha
medo. Nunca teria imaginado que um suicdio fosse
to pouco pattico. No pensava na minha vida
passada, nem em Detlef. S pensava na picada.
Como de hbito, espalhei minhas coisas em torno
da privada. Pus a herona na colher, que tambm fora
emprestada por Tina. Por um momento pensei que
estava fazendo uma sujeira com Tina, Tina, que
esperava sua seringa e sua colher. Ento, percebi que
havia esquecido o limo. Mas a herona era de boa
qualidade, ela se dissolvia mesmo sem ele.
Procurei uma veia no meu brao esquerdo. No
fundo, era uma picada como as outras. A nica
diferena: seria a ltima. Para sempre. Atingi a veia
na segunda tentativa. O sangue subiu pela seringa.
Piquei o meio grama. No tive tempo de acion-la pela
segunda vez... senti meu corao estourar, minha
caixa craniana se destacava da minha cabea.
Quando acordei j era dia. L fora, os carros
faziam um barulho infernal. Estava deitada ao lado da
privada. Retirei a seringa do brao. Tentei me
levantar. Senti, ento, que minha perna direita estava
paralisada. Podia mex-la um pouco, mas sentia dores
atrozes nas articulaes, principalmente na da coxa.
Andei alguns metros de quatro e depois consegui me
levantar e caminhei apoiando-me na parede, saltando
numa perna.
Na porta do banheiro, dois rapazes, com uns
quinze anos, jeans muito justos, bluso de cetim, duas
bichinhas, olhavam aquele fantasma saltando sobre
um p. Eles mal tiveram tempo de me agarrar no ar
antes que eu me arrebentasse no cho. Sacaram na
hora o que se passava comigo e um deles disse: 
Bem, eis uma confuso.  No os conhecia, mas eles
j me haviam visto na Estao Zoo. Colocaram-me
num banco. Fazia um frio terrvel naquela manh de
outubro. Um dos rapazes me deu um Marlboro.
Pensei: " gozado... por que essas bichas fumam
sempre Camel ou Marlboro?" No fundo, estava muito
contente de no estar morta.
Contei o que se passara. Stella fizera uma sujeira
comigo, e eu me picara com meio grama. Aqueles dois
jovens foram muito bonzinhos: se eu quisesse ir a
algum lugar, eles me levariam. A coisa me irritou, no
tinha vontade de refletir. Pedi-lhes que me deixassem
no banco, mas eu tremia de frio e era incapaz de
andar. Eles propuseram levar-me a um mdico.
No queria saber de mdico. Eles disseram que
conheciam um, um cara muito legal, um pederasta.
Um mdico bicha me deu segurana; na situao em
que me encontrava, eu me sentiria mais segura. Eles
foram chamar um txi e me levaram  casa do amigo
deles. O cara era legal mesmo. Ele me instalou em sua
prpria cama e ento me examinou. Tentou fazer-me
falar de droga e tudo o mais, mas eu no tinha
vontade de falar com ningum. Pedi-lhe um sonfero.
Ele me deu um, juntamente com outros remdios.
Comecei a ter febre e a sangrar pelo nariz. Dormi
durante dois dias quase sem parar. No terceiro dia,
quando minha cabea comeou a funcionar mais ou
menos bem, no agentei mais. No queria pensar.
Esforcei-me para no refletir. Ruminava duas idias
sem parar: "O bom Deus no quis que voc batesse as
botas desta vez; da prxima, voc toma um grama
completo".
Tive vontade de sair, de ir  "cena", de me picar,
de voar e, principalmente, no pensar. At a hora da
dose mortal bem-sucedida. Ainda andava com
dificuldade. O mdico pederasta, atencioso, me deu
uma bengala. Fugi com ela, mas joguei-a fora no meio
do caminho, pois no queria fazer minha reapario
apoiada em bengala. Cerrando os dentes, podia
dispens-la.
Cambaleando, cheguei  corrida pelo dinheiro na
Estao Zoo. Fiz muitos clientes. Havia entre eles at
mesmo um estrangeiro sujo. O contrato que Babsi,
Stella e eu fizramos era gozado. Combinramos
nunca fazer nada com um estrangeiro sujo. De
qualquer forma, agora nada mais me importava. Dava
tudo no mesmo.
Talvez ainda tivesse a esperana de que minha
me viesse me buscar. Se ela resolvesse me procurar,
iria  Estao Zoo. Era por isso que eu no ia 
Kurfrstenstrasse. Mas eu sentia que ningum mais
estava  minha procura. Bons eram os tempos em que
minha me esperava pacientemente pela minha volta.
Comprei uma dose, piquei-me e voltei ao
trabalho. Tinha necessidade de dinheiro para o caso de
no encontrar cliente em cuja casa eu pudesse dormir.
Deveria ir ento ao hotel.
De repente, encontrei Rolf, antigo cliente de
Detlef. Detlef tinha voltado nos ltimos tempos a
dormir em casa dele. Mas Rolf no era mais um
cliente, pois ele se entregara  herona e agora estava
do outro lado da barreira. Ele tinha dificuldade para
encontrar clientes, pois j tinha vinte e seis anos! Eu
lhe perguntei se tinha notcias de Detlef. Ele se
derreteu em lgrimas. Sim, Detlef estava em terapia.
Sem ele a vida era uma merda, alis, a vida no tinha
sentido, ele gostaria de se desligar, ele amava Detlef e
queria suicidar-se. Em resumo, ele me saiu com toda a
ladainha dos viciados. Todas essas besteiras sobre
Detlef irritaram-me. Eu no compreendia por que Rolf,
esta bicha miservel, pensava ter direitos sobre ele.
Detlef deveria deixar sua terapia e voltar. Nada mais
que isso. Ele chegou at a lhe dar uma chave do seu
apartamento. Ouvindo isso, estourei:  Voc  um
filho da puta, um nojento! Voc deixa a chave com
Detlef e assim ele saber que conta com um ponto de
retorno quando a terapia estiver lhe enchendo o saco.
Se voc o amasse verdadeiramente, faria tudo para
que ele se desligasse da droga. Mas voc no passa de
um pederasta sujo.
Rolf estava de bode, e no tive nenhuma
dificuldade em deix-lo furioso. Mas, de repente, me
ocorreu uma idia: e se eu fosse dormir em sua casa?
Eu me acalmei e lhe propus, em troca de sua
hospitalidade, fazer um cliente e comprar uma dose
para ele. Rolf ficou todo feliz com a idia de eu dormir
em sua casa. Exceto eu e Detlef, ele no conhecia
ningum.
Dormimos juntos na cama grande. Na ausncia de
Detlef, eu me entendia melhor com ele. No gostava
dele, mas aquele infeliz era digno de pena.
Eis os dois grandes amores de Detlef na mesma
cama de casal. E todas as noites era o mesmo teatro:
Rolf me repetia que amava Detlef e dava uma boa
chorada antes de dormir. Meus nervos ficavam em
polvorosa, mas calava a boca, pois tinha necessidade
daquele lugar na cama de Rolf. Eu me revoltei quando
ele me disse que, depois da sua desintoxicao, Detlef
iria viver com ele num belo apartamento. Alis, dava
tudo na mesma. Alm do mais, pensava que, de certa
forma, Rolf nos pesava na conscincia, minha e de
Detlef: se ele no nos tivesse encontrado, teria continuado
um simples operrio pederasta e solitrio, que
tomava de vez em quando um fogo para esquecer
suas misrias, e nada mais.
E assim, durante uma semana, a corrida pela
grana e uma picada, a corrida pela grana e uma
picada... e  noite, as lamentaes de Rolf. Uma
manh, acordei com algum abrindo a porta do
apartamento e se agitando no corredor. Sem dvida
era Rolf. Gritei:  No faa tanto barulho, tenho sono.
 Era Detlef.
Nos beijamos, nos abraamos. Alegria dos
reencontros. De repente, percebi:  Voc fugiu!
Ele me explicou. Como a todos os novatos, o
encarregaram, por trs semanas, de tocar o
despertador. Exigir a pontualidade de um viciado ,
mais ou menos, pedir-lhe o impossvel. Pedir que se
levante todas as manhs na mesma hora e passe
imediatamente  ao, ou seja, acordar os outros, 
impor-lhe uma terrvel prova. Essa era praticamente
uma forma de seleo: reservavam as raras vagas de
que dispunham para os que ainda tinham fora de
vontade. Detlef no agentou a barra, no acordou
trs vezes, e eles o mandaram embora.
Detlef me contou que a terapia era legal. Bem, foi
duro, mas da prxima vez ele conseguiria. Enquanto
esperava, ele tentaria permanecer limpo  alis,
comearia a procurar, logo, uma outra vaga para
terapia. Contou tambm que havia encontrado l
muitos dos nossos velhos conhecidos. Frank, por
exemplo, que tentava desligar-se depois da morte de
seu amigo Ingo. Aos catorze anos, como Babsi.
Perguntei a Detlef o que ele iria fazer. "Antes de
mais nada, uma picada." Eu lhe pedi que me trouxesse
um excitante. Ele estava de volta duas horas mais
tarde em companhia de um certo Piko, um antigo
cliente. Piko tirou um saco plstico de seu bolso e o
colocou na mesa. No acreditei no que vi: ele estava
cheio de herona  dez gramas. Nunca tinha visto
aquela quantidade. Depois de ter passado o susto,
disse a Detlef:  Voc ficou louco de trazer dez
gramas para casa?
 A partir de hoje sou fornecedor.
 Voc pensou nos tiras? Se eles te pegam, voc
volta para a priso, e por muitos anos.
Detlef se irritou:  No tenho tempo de pensar
nos tiras. E pare de me podar.
Ele comeou a dividir imediatamente quadrados
de papel de alumnio. Eles me pareciam muito
pequenos e lhe disse:  Ateno, meu velho. O que
conta  a aparncia.
 preciso fazer pacotes maiores, com a mesma
quantidade de mercadoria; pense no sabo em p 
enormes pacotes com apenas trs quartos de
contedo.
 Voc comea a me deixar para trs. Fao
grandes doses. As pessoas percebero imediatamente.
Logo sabero que comigo so bem servidas.
Ento me ocorreu a idia de perguntar a quem
pertencia toda aquela herona. A Piko, naturalmente.
Que safado! Antigamente ele roubava os escritrios.
Nem bem sara da cana  ele estava em liberdade
condicional  j queria ficar numa boa s custas do
pobre e inexperiente Detlef. Ele comprara a
mercadoria, ao preo de fornecedor, de cafetes da
Potsdamerstrasse, que ele havia conhecido na priso.
Mas ele mesmo no queria vender. Alis, no passava
de um bbado, que faria Detlef trabalhar para ele.
Quando Detlef terminou seus pacotinhos, ns os
contamos. Havia os de um grama, de meio e de um
quarto. Eu nunca fui forte em matemtica, mas vi
imediatamente que o total dava s oito gramas, pois
ele havia feito doses muito grandes. Se no
tivssemos verificado, teramos que pagar os dois
gramas de nosso prprio bolso. Bem, recomeamos
tudo. Como sempre, sobrava um pouco de p colado
no papel e eu o aproveitava para meu uso pessoal.
Detlef decidiu fazer pacotinhos maiores e esticou
sua mercadoria com uma garrafa de cerveja; isso dava
a impresso de que havia mais. Dessa vez, ele s fez
pacotinhos de um quarto; chegamos, finalmente, a um
total de vinte e cinco doses.
Consumimos duas imediatamente. Era preciso
testar a mercadoria. Era herona de boa qualidade. 
noite levamos nosso estoque para a Treibhaus.
Enterramos a maior parte atrs do estabelecimento,
ao lado do lixo. Nunca ficvamos com mais de trs
saquinhos conosco. Assim, em caso de batida, no
seramos imediatamente fichados como fornecedores.
Tudo comeou bem. Desde a primeira noite liquidamos
cinco gramas. Souberam imediatamente que tnhamos
herona da boa e bem-servida. Apenas uma pessoa
falava mal de nossa mercadoria: Stella, evidentemente
 o que no a impediu de nos propor seus servios de
intermediria. Eu, pobre imbecil, aceitei. Ela teria um
quarto, por cinco vendidos. Concluso: no nos sobrou
nada. Tinha sido combinado com Piko que, por dez
gramas vendidos, teramos um e meio. Uma vez pagos
os intermedirios, nossa atividade de fornecedores s
nos permitia satisfazer nossas necessidades cotidianas
de herona.
Piko vinha fazer as contas todas as manhs. 
noite, ns tnhamos geralmente dois mil marcos em
caixa, e isso representava mil marcos de lucro para
Piko. E para ns, um grama e meio de herona. Piko
no corria praticamente nenhum risco, a no ser que
ns o denuncissemos.
Ele tomou mais precaues. Imediatamente nos
explicou que, se fssemos presos e o entregssemos 
polcia, seria bom encomendarmos o caixo, pois seus
amigos da Potsdamerstrasse se encarregariam do
"servio". No tnhamos como escapar, pois, mesmo
em cana, tinha seus capangas por todo canto. Ele nos
ameaou, tambm, de faz-los intervir no caso de
saber que tentamos falsificar as contas. Ns
acreditamos no que disse. Ainda mais que eu tinha um
medo louco dos proxenetas, principalmente depois que
eles torturaram Babsi.
Detlef no queria reconhecer que Piko nos
explorava.  O que voc quer?  ele me disse. 
Primeiro, e  o essencial, voc no faz trottoir. No
quero mais que voc se prostitua. Eu tambm no
quero mais faz-lo. Ento, temos que passar por isso.
A maior parte dos pequenos fornecedores estava
na mesma situao que ns. Nunca teramos o
dinheiro suficiente para comprar os dez gramas
diretamente do intermedirio. Alis, no conhecamos
a hierarquia. Como poderamos entrar em contato com
os proxenetas da Potsdamerstrasse? Os pequenos
fornecedores de rua, eles prprios viciados, tinham
geralmente necessidade de um vendedor que lhes
pagasse em mercadoria. Mas eram aqueles pobres
drogados que iam em cana. Os tipos como Piko
estavam praticamente fora do alcance dos tiras, e no
tinham dificuldade para substituir um fornecedor que
fosse em cana. Por duas picadas ao dia, quase todos
os viciados estavam dispostos a fazer esse trabalho.
Depois de alguns dias ns no sentamos mais
segurana nas proximidades da Treibhaus. Estava
cheio de policiais  paisana. Alis, era muita tenso
para mim. Organizamo-nos de outra maneira: eu
servia de intermediria na Treibhaus e mandava os
clientes para Detlef, que ficava escondido um pouco
mais adiante.
Mais ou menos uma semana mais tarde, num dia
em que Detlef imprudentemente passeava ao lado da
Treibhaus com os bolsos cheios de herona, um carro
parou ao seu lado. O motorista perguntou-lhe a
direo da Estao Zoo. Detlef entrou em pnico e
saiu correndo, jogando seu estoque no primeiro
arbusto que encontrou.
Detlef me explicou que aquele cara era,
seguramente, um tira. Pois ningum ignorava onde
era a Estao Zoo.
A coisa ia mal. Vamos um tira em cada
automobilista, em cada transeunte que andava no
Kudamm. Nem sequer ousvamos tentar recuperar
nossa herona: e se os tiras nos esperassem?
Estvamos na merda. No dia seguinte no
poderamos acertar as contas com Piko. Dizer-lhe a
verdade? Ele no acreditaria em ns. Tive uma idia:
contaramos que framos roubados por estrangeiros
sujos... eles pegaram tudo, droga e dinheiro.  De
qualquer forma, a coisa vai esquentar, ento  melhor
gastar o que temos. Alm disso,  nojento, pois este
filho da puta ganha mil marcos por dia nas nossas
costas, e ns nunca temos nada. Eu preciso comprar
roupas, no tenho uma roupa de inverno. No posso
passar todo o inverno com o que vestia quando fugi do
hospital.
Detlef acabou compreendendo que no faria
grande diferena se dssemos a Piko duzentos marcos
ou nada.
Na manh do dia seguinte, bem cedinho, fomos 
feira de coisas usadas. Quando via qualquer coisa que
me agradava, Detlef experimentava primeiro e eu, em
seguida. S queramos roupas que servissem em ns
dois. Eu me decidi por um velho casaco de pele de
coelho, preto. Ele caa bem em Detlef. Ele ficava muito
bonito com o casaco. Depois compramos perfume,
uma caixa de msica e outras miudezas. Mas no
gastamos todo o nosso dinheiro, no ramos capazes
de comprar uma coisa s pelo prazer de comprar.
Escondemos o que sobrou.
Mal chegamos  casa de Rolf, Piko chegou. Detlef
disse que ainda no havia tomado a sua picada, e que
precisava faz-lo antes de fechar as contas. Claro que
no era verdade, pois j tnhamos nos picado, como
sempre, logo depois de acordar. Mas Detlef tinha
medo do que iria acontecer com Piko...
Piko disse:  Est bem  e mergulhou em um de
seus romances de terror. Detlef se picou com mais um
quarto e dormiu antes de ter retirado a agulha do
brao.
Pensei: "Bem, no  nada anormal que ele tenha
vontade de dormir depois de duas picadas como essas,
mas  preciso retirar a seringa do brao, seno o
sangue vai se coagular na agulha e ser difcil retirla.
Alm disso, no temos outra". Limpei a picada do
brao de Detlef com lcool e um pedao de algodo.
Eu o achei estranho. Ergui o seu brao e ele caiu todo
mole. Sacudi Detlef para acord-lo e ele escorregou da
poltrona. Sua cara estava toda cinzenta. Seus lbios
estavam azuis. Abri sua camisa para ouvir as batidas
do seu corao. Nada.
Corri para a casa da vizinha, uma aposentada, e
lhe pedi licena para usar o telefone. Era um caso de
urgncia. Liguei para o pronto-socorro da polcia. 
Meu amigo no respira mais.  uma overdose.  Deilhes
o endereo. A apareceu Piko gritando:  Pare,
ele voltou a si!  Falei ao tira:  No, obrigada, no
precisa se incomodar. Alarme falso.  E desliguei.
Detlef estava deitado, reabriu os olhos. Piko me
perguntou se eu havia falado de droga aos tiras e se
eu lhes havia dado o endereo.  No, diretamente
no. Acho que eles no pegaram na hora.
Piko me chamou de imbecil histrica. Deu uma
bofetada em Detlef, mandando que se levantasse
imediatamente. Eu lhe disse para deixar Detlef em
paz. Ele gritou:  Cale a boca, imbecil! V buscar
gua.  Voltando da cozinha, encontrei Detlef em p e
Piko lhe passando um sermo. Toda feliz de ver Detlef
em p, fui beij-lo, mas ele me empurrou. Piko jogou
gua na cara dele e disse:  Venha, meu caro, vamos
nos mandar.
Detlef ainda tinha a cara toda cinzenta e mal se
mantinha de p. Supliquei-lhe que voltasse a se
deitar. Piko comeou a gritar:  Cale a boca!  e
Detlef disse:  No tenho tempo.  Eles partiram,
com Piko sustentando Detlef.
Fiquei completamente perdida. Tremia todinha.
Achei, por um momento, que Detlef estava morto.
Joguei-me na cama e tentei me concentrar num
romance de terror. Tocou a campainha. Olhei pelo olho
mgico. Os tiras.
Perdi completamente o controle. Em vez de me
mandar pela janela, abri a porta. Com muita
dificuldade inventei uma explicao: o apartamento
pertencia a um pederasta que estava viajando e o
emprestara a mim. Hoje de manh dois jovens
apareceram no meu quarto, tomaram uma picada no
brao e um deles se apagou, ento chamei a polcia.
Os tiras perguntaram-me o nome dos caras; se
eu poderia descrev-los, etc. Inventei um monte de
coisas. Eles verificaram minha identidade. O resultado
no demorou:  Bem, voc vem conosco.
Comunicaram-nos seu desaparecimento.
Eles foram bonzinhos comigo. Deixaram-me
colocar dois livros no meu saco plstico e escrever
uma carta para Detlef: "Caro Detlef, como voc deve
ter percebido, me embarcaram. Outras notcias
seguem na primeira oportunidade. Eu te beijo
ternamente. Tua, Christiane". Colei a carta com um
pedao de durex na porta do apartamento.
Fui levada primeiro  delegacia da
Friedrichstrasse e depois  priso onde estavam
recolhidos os presos de passagem, onde me meteram
numa cela que me lembrava uma cena de banguebangue:
uma parede toda de grades e, quando a porta
se abria ou fechava, fazia o mesmo barulho que na
priso do xerife de Dodge City. Eu me grudei na grade,
subindo nas barras. Era muito deprimente. Ento
deitei no jirau e, como estava ainda drogada, dormi.
Trouxeram um recipiente para que eu mijasse dentro,
fariam uma anlise da urina. Veio, tambm, um balde,
para aparar o resto da urina. Qualquer pessoa que
passasse por ali poderia me ver mijando. No me
deram nada para comer nem para beber durante todo
o dia.
No fim da tarde, minha me apareceu. Ela passou
diante da grade, dando-me uma olhadinha. Tinha que
acertar alguma coisa com os tiras. Depois abriram a
porta e minha me me disse boa-noite e me segurou
pelo brao com muita fora. Um carro nos esperava l
fora. Klaus, o companheiro de minha me, estava ao
volante. Minha me me enfiou com fora no banco
traseiro e sentou-se a meu lado. Ningum falou nada.
Klaus parecia estar perdido. . . rodamos por Berlim.
Pensei: eles esto  completamente gags. Esto to
perdidos que nem acham a estrada para Kreuzberg.
Paramos para pr gasolina. Disse  minha me
que estava com fome e que queria chocolate. Ela me
comprou trs. No fim do segundo eu me sentia mal.
Klaus foi obrigado a estacionar, pois eu precisava sair
para vomitar. Estvamos na auto-estrada. Aonde eles
me levavam? Talvez a uma casa de correo. Eu
fugirei. Ento vi a placa: "Aeroporto Tegel". Esta era a
maior! Eles queriam me expulsar de Berlim.
Descemos do carro. Minha me, sem perder
nenhum segundo sequer, me segurou to firmemente
quanto antes. Ento pronunciei a segunda frase da
noite:  Voc poderia me soltar, por favor?  Falei
lentamente, ressaltando cada palavra. Ela me deixou,
mas ficou vigilante. Klaus parou.
Ele tambm estava atento. Eu estava indiferente.
Que fizessem o que quisessem, pois de qualquer
maneira eles no tirariam nada de mim. Quando
minha me me empurrou para a porta marcada
"Hamburgo", dei uma olhadinha ao redor, para ver se
havia uma maneira de me mandar. Mas estava muito
arrasada para tentar.
Hamburgo! Que azar! Tinha uma av, uma tia,
um tio e um primo que moravam num vilarejo a
cinqenta quilmetros de Hamburgo. Nada mais
burgus. A casa deles era mantida to
impecavelmente que dava vontade de vomitar. Nem
um s gro de p. Certa vez andara descala durante
horas, pela casa, e  noite no tive nem necessidade
de lavar os ps...
No avio fingi estar absorvida em um romance de
terror. Alis, li algumas pginas. Minha me seguia
muda como um peixe. Ela nem mesmo disse aonde
iramos.
Quando a aeromoa falou seu blablabl habitual,
tipo viagem agradvel.. . prazer em rev-los em
breve, etc., percebi que minha me chorava. E ento
ela comeou a falar como uma metralhadora. Ela
sempre s quisera o meu bem. Ela sonhara, nestes
ltimos dias, que tinham me encontrado morta no
banheiro, com as pernas tortas, com sangue por todo
canto. Assassinada por um fornecedor. E a polcia lhe
pedia para ir identificar-me.
Eu sempre pensei que minha me tinha uma forte
intuio. Se uma noite ela me dizia:  No saia, meu
bem, tenho uma estranha impresso , sempre me
acontecia algo: priso numa batida, roubo, em
resumo, uma histria suja. Ouvindo-a contar este
sonho, pensei em Piko, em suas ameaas e em seus
amigos proxenetas. Talvez minha me tivesse acabado
de salvar minha vida. No pensei em nada alm disso.
Eu me proibi. Desde que fora mal sucedida na minha
"sada", no queria mais refletir.
Minha tia nos esperava no aeroporto. Almoamos
com minha me, que partia no avio seguinte. Pedi
um Florida-Boy: eles no o tinham naquele
restaurante superluxuoso. Hamburgo era
verdadeiramente um buraco perdido, onde no havia
nem mesmo Florida-Boy. No bebi nada e, no entanto,
morria de sede.
Minha me e minha tia fizeram um discurso. As
duas, em meia hora, traaram o programa dos meus
prximos anos: iria  escola, faria novos amigos,
aprenderia uma profisso interessante e retornaria a
Berlim com uma qualifica- o profissional. Como era
simples. Minha me chorou ao se despedir. Eu me
recusei a sentir qualquer coisa. Estvamos em 13 de
novembro de 1977.
A me de Christiane
A jornada foi dura. Sozinha, sem ter com quem
dividir minha angstia, estava muito tensa. Finalmente
pude chorar durante o vo de volta. Estava triste e
aliviada ao mesmo tempo: triste pela separao de
Christiane, aliviada por t-la finalmente arrancado da
herona.
Dessa vez estava certa de ter tomado a deciso
correta. O fracasso da experincia com a Narconon
deu-me a certeza de que a nica soluo era levar
Christiane a um lugar onde ela no encontrasse
herona. Era a sua nica chance de sobrevivncia.
Quando seu pai a tomou sob sua responsabilidade,
abriu-me a possibilidade de julgar, tomando certa
distncia. Cheguei  concluso de que, se ela ficasse
em Berlim, estaria condenada. Meu ex-marido estava
enganado ao me assegurar que ela tinha se
desintoxicado, e eu no acreditava. H muito tempo
temia pela vida de Christiane e nunca teria pensado
que isto ainda poderia ser pior. Depois da morte de
Babsi no tive nenhum minuto de tranqilidade.
Queria enviar Christiane para junto de minha
famlia, mas seu pai no quis. Como Christiane vivia
sob seu teto, ele tinha obtido sua guarda temporria.
No consegui convenc-lo. Ele no chegava a
compreender. Talvez porque ele no tivesse minha
experincia ou fosse incapaz de reconhecer seu
fracasso.
Alm disso, recebi notificao da condenao de
Christiane por infrao  lei sobre estupefacientes. A
Sra. Schipke, da brigada de estupefacientes, me
advertiu por telefone. Segundo ela, no devia me
sentir culpada:  O que voc quer? Quando algum
quer se picar, se pica.  Ela conhece muitos drogados
de boa famlia que tambm foram chamados como
Christiane a comparecer diante do tribunal.  
preciso no se apavorar  assegurou-me.
Fiquei chocada, ao ver entre as provas contra
minha filha um saquinho de herona encontrado em
seu quarto. Fui eu que o achei, e, na afobao,
telefonei  Sra. Schipke. Quando ela me pediu, a
hipcrita, para fazer uma anlise do material, eu no
pensava que minha descoberta seria um dia utilizada
contra minha filha. Ela tinha me dito:  No indique o
expedidor, e dessa forma nada poder ser provado.
No  justo condenar jovens como Christiane por
toxicomania. Christiane no fez mal a ningum. Ela se
autodestruiu. Quem pode julg-la? Alm do mais, que
eu saiba, nenhuma priso curou um toxicmano.
A leitura dessa pea de acusao reforou ainda
mais a minha deciso. Juntei toda a minha coragem e
fui procurar o Servio de Tutelas. Expliquei-lhes toda a
situao. Pela primeira vez, desde que freqento os
escritrios dos servios pblicos, me ouviram
atentamente. O assistente social que me atendeu, Sr.
Tillmann, julgava igualmente prefervel afastar
Christiane de Berlim. Esperando que me dessem a
guarda de Christiane  poderia demorar certo tempo
 ele iria tentar encontrar lugar em um centro de
terapia. Meu ex-marido concordaria mais facilmente
com isso.  seguro. Eu sentia que por uma nica vez
no se tratava de promessas no ar. O Sr. Tillmann
assumia verdadeiramente o caso de Christiane.
Uma tarde, um pouco depois dessa entrevista,
tocou a campainha. Era Christiane, que estava de
volta da consulta antidroga. Ela estava esgotada, cheia
de herona, falava de suicdio e de overdose. Eu a
acalmei e a fiz dormir. Em seguida, chamei o Sr.
Tillmann. Ele chegou logo em seguida. E ns trs, com
Christiane, traamos um plano de ao. Primeiro ela
iria passar alguns dias no hospital psiquitrico, para se
desintoxicar fisicamente. Em seguida, ela iria diretamente
para uma comunidade teraputica (at l,
encontraramos um lugar para Christiane, fosse
atravs da consulta antidroga, fosse atravs do Sr.
Tillmann).
Christiane se mostrou cheia de boa vontade. O Sr.
Tillmann se ocupou das formalidades, e tudo caminhou
rapidamente. Conseguimos uma entrevista com o
psiquiatra e com o mdico da Previdncia Social.
Munido de atestado mdico, o Sr. Tillmann foi ver meu
ex-marido e o convenceu a assinar o pedido de
internao voluntria. Eu podia, enfim, levar
Christiane  clnica.
Quinze dias mais tarde ela era transferida para o
Hospital Rudolf-Virchow, para tratamento de sua
micose. Eu estava convencida de que as pessoas do
Bonnies Ranch no deixariam uma menina toxicmana
livre, que a vigiariam durante a viagem e continuariam
a se ocupar dela em Rudolf-Virchow. Mas eles se
limitaram a lev-la. Depois no era mais seu
problema. Ela no teve nenhuma dificuldade em fugir.
Que negligncia! Com isso, perdi o ltimo resto de
confiana nas instituies. Eu pensei: "No posso
contar com ningum a no ser comigo mesma". O Sr.
Tillmann tentou me levantar o moral.
Felizmente, a fuga de Christiane foi de curta
durao. No outro dia  noite ela veio chorar nos meus
braos. Ela pedia perdo. Ela havia se picado mais
uma vez. Eu no gritei com ela. Antes eu descarregava
minha raiva sobre ela, desesperada pela minha
incapacidade de ajud-la. Agora minha agressividade
se extinguira. Eu a tomei nos meus braos e
conversamos. Calmamente.
Christiane queria seguir o plano de ao traado.
Eu lhe disse:  De acordo.  Mas deixando bem claro
que, na primeira besteira, ela partiria para a casa da
av. Sem discusso. Ela me deu sua palavra de honra.
Durante muitos dias ela foi regularmente s
consultas antidroga. Ela se tornara persistente, chegou
a esperar pela sua vez horas e horas. Em casa,
sentava-se  mesa, e redigia seu curriculum vitae para
preencher as formalidades de admisso.
Eu enxergava o fim do tnel. Tinha-se encontrado
uma vaga em uma comunidade teraputica  era
praticamente certo. Conversvamos sobre as festas de
Natal: ela no poderia pass-las em casa, pois
estvamos no incio de novembro.
Nesse meio tempo, meu ex-marido tinha
compreendido a inutilidade dos seus esforos e
renunciado a se opor aos nossos projetos. Voltvamos
a pisar em terra firme.
Foi ento que Christiane teve ictercia pela
segunda vez. Uma noite, bruscamente, ela teve
quarenta e um graus de febre. No dia seguinte eu a
levei  Clnica Steglitz. Ela estava amarela como um
marmelo e no conseguia manter-se de p. A doutora
que a examinou disse-me:  Ela tem o fgado
congestionado por causa da droga.  Infelizmente no
poderiam intern-la, pois a clnica no tinha servio de
isolamento, disseram. Era uma mentira. Depois eu me
informei: a Clnica Steglitz tem um servio de
isolamento de vinte e cinco leitos. Na realidade, eles
no querem drogados: a clnica  muito "boa" para
isso. Resumindo, a doutora fez um pedido de admisso
ao Hospital Rudolf-Virchow.
O estado de Christiane melhorou em alguns dias,
ela reencontrou seu dinamismo e se preparou para
fazer uma terapia. O conselheiro do Centro Antidroga
da Universidade Tcnica veio v-la. Todos cuidavam
dela. H muito tempo que no tinha estado to
otimista.
At o dia em que sua amiga Stella veio v-la. Eu
tinha pedido  enfermeira que no deixasse ningum
entrar durante minha ausncia  com exceo, 
claro, do conselheiro do Centro Antidroga.
Mas cometi uma falta imperdovel: levei Detlef
comigo para v-la. Ela tinha muita vontade de v-lo.
Detlef tinha acabado de ser solto e tinha sido posto em
liberdade vigiada. Tinha sido admitido em um centro
de terapia. Eu no tinha coragem de impedi-los de se
rever: os dois se amam. Pensava que talvez eles se
encorajassem mutuamente. Um ficaria contente com o
fato de saber que o outro tambm estaria fazendo
terapia. Como pude me mostrar to ingnua?
Christiane comeou por desaparecer durante
algumas horas. Uma noite, aps meu trabalho, fui vla
como habitualmente, e percebi que ela tinha se
picado. Ela tinha voltado alguns minutos antes da
minha chegada. A coisa em si no me parecia grave.
Quando ela se ps a me contar mentirinhas, dizendo
que ia  cidade comer macarro, quando recomeou a
mentir, senti minhas pernas bambas.
Pedi autorizao para passar a noite com
Christiane. Pagando, naturalmente. A enfermeira me
explicou que infelizmente isso no era possvel.  Mas
de agora em diante vigiaremos Christiane.  Trs dias
mais tarde, a enfermeira veio ao meu encontro na
porta do meu servio e me disse:  Sua filha no est
mais no hospital.
 Ah, ? Voc pode me dizer onde ela est?
 Ns no sabemos. Ela conseguiu autorizao
para passear no parque e no voltou mais.
O que senti ouvindo tais palavras no posso
descrever. Voltei para casa e sentei-me ao lado do
telefone.  noite, s onze e vinte, telefonaram do
hospital dizendo: ela voltou. A indiferena da
enfermeira me abalou.  Se fugiu, fugiu. O problema
 seu. Os drogados esto acostumados a fugir. Todos
fogem.  Eis o que me responderam quando fiz
reclamaes  enfermeira.
A doutora parece tambm no ter-se comovido.
Disse-me pura e simplesmente que ela no podia fazer
nada. Se Christiane cometesse uma nova infrao ao
regulamento, eles seriam obrigados a mand-la
embora por indisciplina. Alm do mais, "temos agora o
resultado das anlises biolgicas: se ela continuar
assim, no passar dos vinte anos. Vamos tentar
conversar racionalmente com ela. Infelizmente  tudo
o que podemos fazer".
Na noite seguinte, novo telefonema do hospital.
Christiane fugira novamente. Passei a noite no sof, ao
lado do telefone. Christiane no voltou. Ela
desaparecera durante duas semanas inteiras sem dar
notcias.
Nos dois ou trs primeiros dias eu e meu
companheiro partimos  procura de Christiane.
Percorremos as discotecas e as estaes de metr. O
hospital me pediu que eu fosse buscar as coisas de
Christiane. Quando cheguei a casa com sua mala, seus
livros, decidi, pela primeira vez, lavar as mos. Que
ela se danasse.
Pensei: "Bem, se  isso que ela quer, que siga o
caminho para ver aonde vai dar". Cansei de procurla.
Estava ferida, e esta no era mera figura
lingstica. Queria mostrar-lhe que minha pacincia
tinha-se esgotado. Agora penso que no sabia quanto
tempo teria sido capaz de perseverar nesta atitude.
Comuniquei seu desaparecimento  polcia e
deixei-lhe sua foto. Eles acabariam pegando-a,
possivelmente por ocasio de uma batida. "Depois
disso, meto-a no primeiro avio e levo-a para longe de
Berlim", pensei.
Ao fim de quinze dias, numa manh de segundafeira,
recebo o esperado telefonema: Christiane estava
na delegacia da Friedrichstrasse. Meu interlocutor
mostrou-se extraordinariamente compreensivo. Apesar
de Christiane estar aprontando a maior confuso,
pedi-lhe que a mantivesse sob sua guarda at o
comeo da tarde, e ns deixaramos, em seguida, a
cidade de avio.
Fui comprar as passagens. Uma de ida e volta
para mim e outra apenas de ida para Christiane.
Quando pedi as passagens me senti mal, ao
pronunciar: "Uma s de volta". Em seguida, telefonei
para minha famlia.
Pedi a Klaus que me acompanhasse ao
recolhimento de menores. Eu sabia que ns dois
poderamos impedir sua fuga.
Christiane no disse nada. Eu tambm no. No
me sentia capaz. Enquanto cumpramos as
formalidades para o embarque, sentia minhas pernas
tremerem e meu corao disparar. Christiane
mantinha-se calada. Nem sequer me olhava. At a
partida do avio ficou em silncio, imvel, no sof,
roendo as unhas ou lendo um romance que ela tinha
trazido. No tentou fugir.
Quando o aparelho ganhou altura, ela comeou a
olhar pela janela. Caa a noite. Disse  minha filha: 
Bem, terminou. O captulo droga terminou. Voc vai
para a casa da sua tia Evelyne. Comear uma vida
nova.
***
Passei meus quatro primeiros dias na casa de
minha av em crise. Quando consegui ficar em p, me
vesti de drogada: casaco de pele de coelho e botas de
salto altssimo. Em seguida, fui passear no bosque
com o cachorro de minha tia.
Todas as manhs era a mesma coisa: eu me
vestia e me maquilava como se fosse  Estao Zoo e
partia para o passeio na floresta. Meus saltos altos
afundavam na terra, eu caa a cada dez metros e tinha
os joelhos roxos devido aos tombos, mas quando
minha av queria me dar "sapatos para caminhadas",
recusava horrorizada, pois s o termo "sapato para
caminhadas" me repugnava.
Pouco a pouco me dei conta de que minha tia,
com trinta anos exatos, era uma pessoa com quem se
podia conversar, mesmo que eu no ousasse abordar
com ela meus verdadeiros problemas. Alis, eu no
queria nem falar nem pensar neles. Meu verdadeiro
problema chamava-se herona e tudo o que se
relacionava a ela: Detlef, a "cena", o Kudamm, o
embalo, no ser obrigada a pensar, ser livre. Tentei
no pensar muito, mesmo sem droga. Na verdade, eu
s pensava numa coisa: voc vai se mandar logo,
logo. Mas, ao contrrio das outras vezes, no fiz
planos de fuga. Era s uma idia: um dia voc vai se
mandar. Acho que no tinha muita vontade. Tinha
muito medo do que, nesses dois ltimos anos, chamei
liberdade.
Minha tia me cercava com um monte de
proibies. Eu tinha quinze anos e se, por acaso, me
dessem autorizao para sair, deveria voltar s nove e
meia em ponto. No sabia o que era isso desde os
onze anos. Isso me desesperava, mas,
estranhamente, quase sempre obedecia.
Fomos fazer as compras de Natal em Hamburgo.
Partimos de manh cedinho. E fomos para as grandes
lojas. Horroroso! Horas tentando encontrar caminho
numa multido de burgueses miserveis pescando
mercadorias ou mexendo nas suas carteiras
recheadas. Minha av, minha tia, meu tio e meu primo
experimentavam roupas. No encontramos presentes
para tia Edwige, para tia Ida, Joaquim e nem para o
Sr. e Sra. Fulano de Tal. Meu tio precisava encontrar
um par de palmilhas para ele e mais um troo para o
carro que era melhor comprar numa grande loja, pois
era mais barato.
Minha av, to pequena, fuava com tanto gosto
que toda hora se perdia no meio da multido. Depois,
era preciso procur-la. s vezes ficava sozinha e,
ento,  claro que eu pensava em me mandar. J
havia descoberto uma "cena" em Hamburgo. Bastava
sair para a rua, conversar com dois ou trs tipos com
cara de viciado e tudo continuaria como antes. Mas eu
no me decidia, pois no sabia o que queria
exatamente.  claro que pensava: veja s essas
pessoas, a nica coisa que as faz voar  percorrer as
grandes lojas e comprar. Melhor morrer num banheiro
imundo que ficar como eles. E, sinceramente, se um
viciado tivesse me abordado, eu teria partido.
Mas no fundo no queria partir. E por vrias vezes
pedi-lhes que me levassem para casa:  No agento
mais. Voltemos. Vocs voltaro para fazer as compras
sem mim.  Mas eles me olhavam como se eu
estivesse ficando louca de repente, pois, para eles,
fazer as compras de Natal era, sem dvida, o
momento mais excitante do ano.
 noite, no encontramos o carro. Andamos de
estacionamento em estacionamento e nada de carro.
Eu gostava da situao, pois, de repente, nos
tornamos uma comunidade. Todo mundo falava ao
mesmo tempo, cada um tinha uma idia, mas
tnhamos, no final das contas, um fim comum:
encontrar o maldito carro. Eu achava a histria toda
muito engraada e no parava de rir, enquanto os
outros estavam cada vez mais afobados. O frio
aumentava, todo mundo estava morrendo de frio,
menos eu, pois meu organismo j havia enfrentado
coisas piores.
E, para finalizar, minha tia se plantou sob a
corrente de ar quente na entrada de Karstadt e se
recusava a sair do lugar. Meu tio foi obrigado a puxar
 fora aquela gorda balofa. Acabamos encontrando o
carro, e a histria terminou com um estouro de riso
geral. Na viagem de volta o ambiente era legal. Eu me
sentia bem. Tinha a impresso de fazer parte de uma
famlia.
Eu me adaptei um pouco. Ao menos tentava. Era
difcil. Precisava tomar cuidado com a minha
linguagem, com cada frase, com cada palavra. Quando
deixava escapar um "merda", minha av me
repreendia na hora:  Uma palavra to feia numa
boca to linda.  Como isso me irritava, tinha vontade
de discutir, mas era melhor no... sempre acabava
tendo um acesso de raiva.
Chegou o Natal. Meu primeiro rveillon em
famlia, sob o pinheiro, depois de dois anos: no ano
passado e no anterior passara a noite de Natal na
"cena". No sabia se ficava contente ou no. Decidi,
em todo caso, fazer um esforo para parecer contente,
ao menos no momento dos presentes. Na hora, no
precisei me esforar, pois realmente senti prazer. Era
a primeira vez que ganhava tantos presentes de Natal.
Num certo momento me surpreendi calculando quanto
custara tudo aquilo e quantas doses de herona representava.
Meu pai veio passar o Natal conosco. Como
sempre, ele no ficava l. Nos dois feriados de Natal
ele me levou a uma discoteca. Nas duas vezes tomei
seis ou sete cuba-libres e depois dormi no banquinho
do bar. Meu pai estava de uma certa forma feliz de me
ver beber lcool. Eu pensava que iria acabar me
habituando com aquele lugar, com aqueles goiabas e
com a msica da discoteca.
No dia seguinte meu pai voltou a Berlim: iria a
um jogo de hquei no gelo que no queria perder. Era
a sua nova paixo.
Depois das frias de fim de ano, recomecei meus
estudos. Stima srie. Isso me dava medo, pois no
havia feito praticamente nada nos ltimos trs anos,
e, alm disso, no ano anterior faltara muito  doena,
desintoxicao ou simplesmente cabulava a aula. Mas,
desde o primeiro dia, minha nova escola me agradou.
Naquela manh nos mandaram fazer um grande
desenho cobrindo uma parede inteira da sala de aula,
e eles logo permitiram que eu participasse daquele
trabalho coletivo. Desenhamos casas, belas casas antigas.
Exatamente iguais quelas em que eu gostaria
de morar. Pusemos nas ruas gente sorrindo, e
pusemos um camelo amarrado numa palmeira. Um
desenho genial. E escrevemos embaixo: "Sob a
calada, a praia".
Depois eu me dei conta: havia um desenho quase
idntico no Centro de Jovens. Mas l a legenda dizia:
"No seja um choro, no seja um beberro, pegue a
foice e o martelo". No Centro, os politizados eram os
dominadores.
Logo constatei que os jovens do campo, mesmo
os das cidadezinhas prximas ao nosso vilarejo,
tambm no eram felizes. Era certo que exteriormente
existiam grandes diferenas com relao a Berlim:
muito menos confuso na escola, a maior parte dos
professores ainda tinha autoridade. Tnhamos at um
outro aspecto: a maioria dos jovens se vestia ainda
como se deve.
Meus conhecimentos deixavam muito a desejar,
mas queria vencer: ao menos, conseguir meu diploma.
Desde a escola primria, era a primeira vez que fazia
os deveres escolares. Depois de trs semanas estava
mais ou menos integrada na classe e achava que
estava no bom caminho. Um dia, quando estvamos
tendo aula de cozinha, recebi uma convocao do
diretor. Ele estava sentado no seu escritrio e folheava
nervosamente um dossi. Compreendi: era o meu
dossi que ele acabava de receber de Berlim. Eu sabia
que meu dossi no escondia nada das minhas
atividades extra-escolares. A Ajuda  Infncia
informou a direo da minha escola.
O diretor tossiu baixo por alguns instantes e
depois me disse que sentia muito, mas no poderia
me deixar no seu estabelecimento. Eu no preenchia
as condies para ser admitida em um colgio de
ensino secundrio. Acho que meu dossi o
traumatizara verdadeiramente, pois ele nem mesmo
esperou o fim das aulas e mandou chamar-me em
plena aula para me expulsar.
No disse nada. Fui incapaz de falar qualquer
coisa. No me queriam nem por uma hora mais. Devia
me apresentar no prximo intervalo ao diretor do
curso complementar. Obedeci como um autmato.
Uma vez no escritrio do diretor do curso
complementar, tive uma crise de choro. Ele me disse
que tudo aquilo no era to grave. Quem quer mesmo
estudar pode faz-lo em qualquer escola: o importante
era ser aplicada e ter o diploma.
Quando sa, tentei refletir  havia muito que no
o fazia. Eu no fiquei com pena de mim mesma. Era
preciso pagar meus pecados. Eu me dei conta muito
bem. Percebi, de repente, que todos os meus sonhos
de vida nova, quando estivesse afastada da droga,
eram besteiras. Os outros no me viam tal como eu
me achava ento, eles me julgavam pelo meu
passado. Todos os outros: minha me, minha tia, o
diretor.
Descobri tambm que era impossvel mudar um
pouco e me tornar uma outra Christiane, de um dia
para outro. Meu corpo e meu esprito no paravam de
me lembrar o meu passado. Meu fgado estuporado
me cobrava pelo que eu o fizera sofrer. E a vida com
minha tia no era to tranqila todos os dias. Ficava
nervosa por um sim ou por um no, e brigvamos o
tempo todo. O menor stress me deixava doente e eu
no agentava nenhuma contrariedade. Nos momentos
de grande depresso, pensava que uma boa
picada resolveria tudo!
Depois da minha expulso da escola secundria,
perdi toda a confiana no meu sucesso escolar. Nem
ousava tentar mais. Uma vez mais eu me sentia sem
vontade. Fui expulsa sem poder defender-me e, no
entanto, aquele diretor no poderia saber, em trs
semanas, se iria acompanhar o curso ou no. No
fazia projetos para o futuro. Bem, podia voltar a uma
escola polivalente (havia uma por perto, bastava pegar
um nibus) e ento provar a minha inteligncia. Mas
tinha muito medo de fraquejar, medo de um novo
fracasso.
Compreendi aos poucos  precisava de certo
tempo  o que significava a "descida aos cursos
complementares". Naquele lugar havia duas
discotecas, espcie de clube de jovens. Um era
freqentado quase unicamente por ginasianos e alunos
da escola secundria e o outro, pelos aprendizes e
alunos dos cursos complementares. No princpio eu ia
ao clube dos ginasianos. Depois da minha expulso,
logo tive a impresso de que me olhavam
atravessado. E ento fui ao outro.
Para mim, era uma nova experincia. Em Berlim
esse tipo de segregao no existia. Nem na escola
polivalente nem, com maior razo, entre os viciados.
Ali a coisa comeava no ptio de recreio, dividido em
dois por uma grande faixa branca que era proibido
ultrapassar. De um lado os alunos da escola
secundria e do outro os do curso complementar. Se
queria conversar com os meus ex-colegas, devamos
ficar cada um de um lado da faixa. Separavam-se cuidadosamente
os jovens com futuro promissor dos que
j estavam para trs, ns, do curso complementar.
Essa era ento a sociedade  qual me pediam
para me adaptar? "Adaptar-se" era o termo favorito de
minha av. Isso no a impediu de me aconselhar,
depois da minha expulso da escola secundria, a
evitar a companhia dos jovens do curso complementar
fora das horas de aula e fazer amigos entre os
ginasianos e alunos do colgio. Eu lhe respondi: 
Voc precisa encontrar uma razo, sua netinha est no
curso complementar. Eu me adapto e farei amigos no
curso complementar.  Isso deu uma briga daquelas!
Minha primeira reao tinha sido a de me
desinteressar completamente pelo trabalho escolar,
mas percebi que o professor orientador era um tipo
muito legal. Ele tinha uma idade avanada e idias
totalmente atrasadas  um verdadeiro fascista. s
vezes tinha a impresso de que ele no fora
"desnazificado" cem por cento. Mas ele tinha autoridade
e sabia fazer-se respeitar sem gritar. Quando ele
entrava na sala, todo mundo se levantava.
Espontaneamente. Ele era o nico por quem fazamos
isso. Ele nunca tinha aspecto cansado e se ocupava
individualmente de cada um de ns. De mim tambm.
Muitos de nossos jovens professores eram certamente
superidealistas, s que eles tinham trabalho demais.
Por uma srie de motivos eles no eram mais
avanados do que ns, alunos. s vezes eles no
ligavam e depois, vendo que era uma baguna total,
davam uma bronca. Principalmente quando eles no
tinham respostas claras aos problemas que nos
preocupavam. Eles apelavam sempre para os "se" e os
"mas"  estavam to desnorteados quanto ns.
Nosso orientador no nos deixava nenhuma iluso
sobre o futuro reservado aos alunos de um curso
complementar. Ele no escondia que seria muito duro.
Segundo ele, poderamos, sendo um pouco aplicados,
ser mais fortes que os ginasianos em certo nmero de
matrias. Por exemplo, em ortografia  hoje os
diplomados no conheciam mais a ortografia. O fato
de saber redigir corretamente e sem erros um pedido
de emprego nos daria um trunfo suplementar. Ele
tentava nos ensinar a maneira de nos comportarmos
com pessoas que se achavam superiores. E ele tinha
sempre uma citao a fazer. Geralmente do sculo
passado. Podamos rir  alis, a maior parte dos
alunos o fazia , mas eu achava que elas tinham um
pequeno fundo de verdade. No concordava sempre
com as opinies dos professores, longe disso. Mas o
que agradava nele era que parecia saber ainda
distinguir o branco do preto.
A grande maioria dos alunos no gostava muito
dele. Achavam-no muito exigente e ficavam irritados
de ouvi-lo o tempo todo fazendo discursos. De
qualquer forma, a maior parte dos meus colegas no
se interessava por nada. Alguns se esforavam para
ter um bom boletim, na esperana de que isso lhes
permitisse arrumar um trabalho, mesmo saindo de um
curso complementar. Eles faziam os seus deveres
aplicadamente  exatamente o que era pedido. No
lhes ocorria ler um verdadeiro livro, se interessar por
alguma coisa alm do programa, isso no lhes passava
pela cabea.
Quando, por acaso, o orientador ou um dos
jovens professores lanava uma discusso, s
conseguiam gozaes estpidas. O pessoal da minha
sala no tinha mais projetos que eu; alis, como um
aluno do curso complementar poderia fazer projetos?
Se ele tivesse a chance de encontrar uma vaga de
aprendiz, seria obrigado a peg-la, quer o trabalho lhe
agradasse ou no.
Muitos, na realidade, estavam pouco ligando para
o que fariam mais tarde. Seu raciocnio era o seguinte:
de qualquer forma, ningum morre de fome neste
pas. No tnhamos nenhuma chance de vencer na
vida quando saamos de um curso complementar;
ento, por que nos preocuparmos? Alguns daqueles
caras seriam futuros gngsteres  percebia-se , e
outros j comeavam a beber. Quanto s meninas,
elas no quebrariam a cabea: um dia ou outro,
encontrariam um cara para satisfazer suas
necessidades e enquanto isso podiam sempre ser
vendedoras, operrias nas fbricas, se necessrio,
trabalhando at na linha de produo, ou ainda ficar
em casa  toa.
Nem todos eram assim, mas aquele era o
ambiente geral da escola. Nada de iluses e,
principalmente, nenhum ideal. Estava desmoralizada:
no era assim que eu imaginava minha vida psdroga.
Tenho me perguntado por que os jovens esto to
indispostos consigo mesmos. Nada mais lhes d
prazer, uma Mobilete aos dezesseis anos, um carro
aos dezoito, vai por si s. E quando no temos,
sentimo-nos miserveis. Eu tambm, em todos os
meus sonhos, imagino-me com um apartamento e um
carro,  evidente. Matar-se, como minha me, por um
apartamento ou um sof novo,  coisa de dbil. Era
bom para nossos pais, com suas teorias ultrapassadas.
Para mim, e acho que para muitos dos da minha
gerao, essas coisas materiais, esse pequeno
conforto  o mnimo vital. Precisamos de algo mais. O
que d um sentido para a vida. E isto no vemos em
parte alguma; mas certo nmero de jovens, e eu me
incluo entre eles, est sempre em busca do que
poder dar sentido  vida.
Quando discutamos em aula o nacionalsocialismo,
tinha sentimentos muito ambguos. Por um
lado estava profundamente chocada por todas aquelas
atrocidades. Pensar que seres humanos eram capazes
daquilo! Mas, por outro lado, pensava que outrora
existiam coisas nas quais as pessoas acreditavam. Um
dia eu mesma falei em plena aula:
 De certo ponto de vista, eu gostaria de ter
vivido no perodo nazista. Pelo menos, os jovens
sabiam onde estavam, tinham um ideal. Acho melhor
para um jovem se enganar de ideal do que no ter
nenhum.  No estava falando srio, mas havia um
pouco de verdade nisso.
Mesmo no interior, os jovens se lanavam em
qualquer tipo de viagem por estarem de tal forma
insatisfeitos com a imagem de vida oferecida pelos
adultos. O meu pequeno vilarejo no foi poupado pela
violncia: batamos em vez de amortecer os golpes. O
movimento punk (que chegou a Berlim com dois anos
de atraso) fez alguns adeptos nos dois sexos. Sempre
me escandalizou considerarem o punk uma viagem
sensacional. No passava de pura brutalidade. Mesmo
a sua msica no tinha nenhuma criatividade: no
passava de um bum-bum-bum...
Tenho um amigo que se tornou punk. Era
realmente um cara com quem se podia conversar at
o dia em que comeou a andar por a com um alfinete
espetado no rosto e um cassetete no bolso. Um belo
dia, uma senhora brigou com ele no boteco do
vilarejo: ele quebrou duas cadeiras em sua cabea e
enfiou-lhe uma garrafa quebrada na barriga. No
hospital, foi salva por um triz.
O pior, para mim, era a dureza das relaes entre
os rapazes e moas. Falavam um monte de besteiras
sobre a emancipao e a libertao da mulher. Acho
que nunca os rapazes trataram as meninas com tanta
brutalidade. Podia-se dizer que mostravam toda a sua
grosseria. Sedentos de poder e de sucesso, eles os
iam procurar junto s mulheres, pois no podiam
encontr-los em outra parte.
A maior parte dos caras que freqentavam as
discotecas do meu vilarejo me causavam um
verdadeiro terror. Talvez pelo fato de eu ser um pouco
diferente das outras garotas, eles estavam o tempo
todo atrs de mim. Aqueles assobios, aqueles "E
ento, minha cara, vamos dar uma volta?" me
irritavam mais do que as manias dos clientes da
Kurfrstenstrasse. Eles, pelo menos, quando faziam
sinais do volante de seus carros, ainda nos davam um
sorriso. Mas esses chefes de vilarejo nem isso faziam.
Acho que a maior parte dos clientes eram melhores e
mesmo mais carinhosos do que esses carinhas com
suas garotas. Eles queriam meter sem falar uma
palavra ou fazer um gesto amvel, sem a menor
manifestao de ternura e,  claro, nunca lhes
ocorrera a idia de pagar por isso.
Isso me enojava de tal forma que no suportava
mais que um rapaz me tocasse. Todas essas histrias
de paquera me pareciam uma nojeira; por que um
rapaz se arrogava, automaticamente, o direito de, no
mximo, na segunda vez que saa com uma menina,
comear a bolin-la? E a menina deixava, mesmo que
no tivesse vontade. Simplesmente, era a regra do
jogo. E ela tinha muito medo que o tipo a deixasse e
contasse aos outros, em caso de recusa: era uma
idiota frgida.
Eu no aceitava. Mesmo quando gostava muito de
um rapaz e tinha vontade de sair com ele, comeava
pondo os pingos nos is:  No tente me tocar. Se
deve haver algo entre ns, sou eu quem toma as
iniciativas.  Mas havia seis meses, desde que havia
deixado Berlim, que no transava. Quando o rapaz
queria trepar comigo, eu sempre rompia.
Isso tambm,  claro, fazia parte da fatura a
pagar pelo meu passado. Era difcil considerar a
prostituio um efeito secundrio, inevitvel, da droga,
no afetando o meu verdadeiro eu, pois isso afetou a
minha relao com os rapazes. Tinha a impresso,
muitas vezes, ao ver o comportamento dos caras, de
que eles queriam explorar-me mais uma vez.
Tentei fazer com que as meninas de minha classe
aproveitassem minha experincia com os homens,
sem poder dizer exatamente como a adquirira. Mas
minha mensagem nunca foi entendida de fato.  certo
que me tornei, na minha sala, uma espcie de "Sra.
Correio Sentimental'', a quem elas vinham contar
todos os seus problemas com os rapazes e pedir
conselhos  elas sentiram que eu tinha maior experincia
, mas no pude faz-las compreender o que
gostaria verdadeiramente de dizer.
A maior parte daquelas meninas vivia somente
para os rapazes e aceitava passivamente a
insensibilidade, a crueldade das suas relaes com
eles. Se um tipo deixava sua garota e saa com outra,
elas no criticavam o cara, mas sua nova namorada.
Ela era a puta, a imunda e outras coisas mais.
Freqentemente, os caras mais brutos eram os mais
admirados.
Tudo isso eu s compreendi durante a viagem de
nossa classe ao Palatinat. Estvamos alojados perto de
uma discoteca, e a maior parte das meninas queria ir
l desde a primeira noite. Quando voltavam, elas no
paravam de falar de uns caras barulhentos com
mquinas terrveis  motoqueiros. Os motoqueiros,
para elas, eram deuses.
Fui dar uma olhadinha na famosa discoteca. A
coisa era simples: os tipos das redondezas chegavam
com suas mobiletes, motos e carros, para paquerar as
meninas em excurso escolar.
Tentei explicar s meninas da minha classe que
aqueles caras s queriam explor-las. No valeu a
pena. Ao menos uma hora antes da abertura da
discoteca, eis as meninas em posio diante do
espelho, se maquilando e enrolando os cabelos. Depois
elas no ousavam mais se mexer, de medo de
estragar seu belo penteado.
Diante do espelho elas perdiam toda a
personalidade. Elas no eram nada mais que sua
prpria mscara, encarregadas de agradar aos
cavalheiros de muita potncia. Ficava louca ao ver
aquilo. Eu tambm, h bem pouco tempo, me
maquilava e me fantasiava para agradar aos caras:
primeiro aos fumantes de maconha e em seguida, aos
viciados. Eu tambm estava desprovida de minha
personalidade por no ser mais "a drogada".
Durante a viagem s se falava daqueles
miserveis paqueradores. No entanto, a maior parte
das meninas tinha namoradinho em casa. Elke, que
dividia o quarto comigo, at passou a primeira noite
escrevendo para o seu. No dia seguinte, ela foi 
discoteca e voltou toda deprimida. Ela me contou que
um cara tinha passado a mo nela. Acho que foi s
para mostrar s outras que um daqueles caras
terrveis tinham se interessado por ela. Atormentada
pelo remorso, ela chorava como uma Madalena
arrependida, mas na verdade acreditava estar
apaixonada pelo motoqueiro  seu namoradinho ainda
no tinha moto. Na noite seguinte, ela estava na
fossa, totalmente arrasada, e chorou a noite toda.
Aquele cara havia perguntado a uma outra menina da
classe:  Fala pra mim, aquela menina trepa?  Para
uma outra menina, Rosie, foi catastrfico. Um
professor a surpreendeu quando estava trepando, num
carro. A infeliz estava completamente bbada, pois o
cara a tinha feito beber cuba-libre aos montes.
Rosie era virgem. E agora,  claro, estava em
plena depresso. As outras meninas convocaram uma
assemblia geral para decidir que castigo aplicar: a
sua volta para casa foi pedida por unanimidade. No
pensaram um s instante em censurar o cara que a
tinha feito beber e depois a tinha, mais ou menos,
violentado. Fui a nica a votar contra. Tudo o que elas
conseguiram entender foi que, por causa dessa
histria, nossos professores nos proibiram de ir 
discoteca.
Aquela falta total de solidariedade entre as
meninas me enojava. Desde que se tratasse de
problemas com rapazes, os laos de amizade eram
esquecidos. Exatamente como entre mim, Babsi e
Stella, quando se tratava de herona.
Apesar de tudo, estava decidida a me acomodar
com o mundo tal qual ele . No pensava mais em me
mandar. Sabia muito bem que isso significaria ir
buscar novamente refgio na droga. O que, percebia
cada vez mais claramente, no era uma soluo.
Pensava que devia haver um meio-termo entre fugir
dessa sociedade podre e me adaptar totalmente.
Encontrei um apoio: um amigo. Ele me trouxe
uma grande serenidade. Com ele podia-se falar. Ele
sempre sabia colocar as coisas no devido lugar. Era
capaz de sonhar, mas tambm era prtico. Ele
tambm pensava que alguma coisa estava podre.
Achava que batalhando poderamos um dia recuperar,
por assim dizer, a sociedade. Pretendia trabalhar no
comrcio, se encher de dinheiro. Depois, compraria
uma casa de madeira no Canad, em plena floresta, e
seria l que viveria. Detlef tambm sonhava com o
Canad.
Meu amigo era ginasiano e me passou o seu gosto
pelos estudos. Percebi que mesmo os cursos
complementares poderiam dar-me algumas coisas se
eu trabalhasse por mim mesma e no pelas notas.
Comecei a ler muito. Sem critrio. O Werther, de
Goethe; as obras do escritor da Alemanha Oriental,
Plenzdorf; livros de Hermann Hesse e, principalmente,
de Eric Fromm. Seu livro A arte de amar tornara-se a
minha Bblia. De tanto reler pginas inteiras, acabei
decorando-as. Copiei tambm passagens para
pendurar sobre a minha cama. Esse Fromm  um cara
legal, um esprito extraordinariamente penetrante. Se
aplicssemos suas idias, a vida deveria ter um
sentido. Agentaramos a barra. Mas era muito difcil
observar estas regras de vida, pois os outros no as
conheciam. Gostaria de perguntar a Erich Fromm
como ele faz para viver segundo os seus princpios em
nosso mundo. Eu, em todo caso, constatei que,
quando queremos nos servir deles para enfrentar a
realidade, nunca funcionam.
Seja l o que for, esse livro deveria ser leitura
obrigatria em todas as escolas. Eu acho. Mas nem
sequer ousava falar em aula, pois os outros pediriam a
minha cabea com gozaes. Uma vez eu o abri
durante a aula. Pensava encontrar a uma resposta ao
problema que acabava de ser levantado. O professor
olhou o ttulo do livro e imediatamente o confiscou.
Quando fui reclam-lo, aps as aulas, ele recusou,
dizendo-me:  Ah... a senhorita l obras pornogrficas
durante as aulas!  ... No duro! O nome
Fromm no lhe sugeria nada, e como esse ttulo, A
arte de amar, no poderia ser outra coisa que
pornografia, forosamente, a pequena puta drogada
trouxera literatura pornogrfica para corromper os
alunos.
No dia seguinte, ele me devolveu o livro,
elogiando-o. No entanto, era melhor no lev-lo 
escola, pois o ttulo se prestava a confuses.
Tive aborrecimentos muito mais graves, com o
diretor. Era uma cara que no tinha confiana em si.
Mais um frustrado. Apesar das suas funes, ele no
tinha nenhuma autoridade. Ento, tentava compensar
conduzindo-nos com rigor. Quando tnhamos aula na
primeira hora com ele, o dito cujo nos fazia cantar e
fazer ginstica. Para nos enquadrar. A nica maneira
de ter boa nota com ele era repetir exatamente o que
ele dizia.
Ele era tambm professor de msica. Um dia quis
nos agradar e nos falou da msica que nos
interessava. No parava de falar do "jazz de hoje". Eu
realmente no compreendia o que ele queria dizer com
isso. Talvez a msica pop? Perguntei:  O que quer
dizer com "jazz de hoje"? O pop e o rock so muito
diferentes do jazz.  Acho que no percebi o que
tinha feito. Nem imaginava as conseqncias das
minhas palavras. O diretor ficou fulo de raiva e me
expulsou da classe, gritando como um condenado.
Antes mesmo de fechar a porta, tentei me
desculpar:  Temo que tenhamos nos compreendido
mal.  Ento ele me chamou. Mas eu no queria
perder a parada e passei o resto da aula no corredor.
Mas no perdi totalmente o controle sobre mim
mesma: no me mandei.
No final daquela manh, convocao ao escritrio
do diretor. Ele tinha um dossi na mo. O meu, 
claro. Ele o folheava e fingia ler. Depois ele disse que
ali no era Berlim. Ele me havia concedido
hospitalidade na sua escola e me pedia para que
agisse bem, em considerao  sua boa vontade.
Levando em conta as circunstncias, ele tinha direito
de me mandar embora de um dia para o outro.
Com essa, perdi completamente o rumo. No
queria mais voltar  escola. Estava sem foras para
enfrentar a situao. Era muito para mim que coisas
to pouco graves fossem suficientes para me
desorientar.
Eu me fechei como uma ostra. Antes, em parte
sob influncia de meu amigo, tinha prometido a mim
mesma trabalhar bem para tentar, apesar das
dificuldades que tnhamos que enfrentar quando
saamos de um curso complementar, voltar ao colegial
e preparar meu vestibular. No o faria mais. Sabia que
no conseguiria nunca. Precisaria passar por exames
psicolgicos, obter uma autorizao especial do
inspetor da academia, etc. Sabia muito bem que meu
dossi iria me preceder.
Restava-me meu amigo, aquele rapaz to
razovel. E depois, pouco a pouco, relacionei-me com
os jovens do vilarejo. Pessoas muito diferentes de
mim, mas muito simpticas. No geral, eles estavam
melhor consigo mesmos que os jovens do vilarejo
vizinho. Formavam uma verdadeira comunidade.
Tinham at seu prprio clube. Um clube sem
paqueradores. Ali ainda reinava certa ordem  moda
antiga. Bem, s vezes os rapazes bebiam muito. A
maior parte dos rapazes e meninas me aceitaram
apesar de eu ser muito diferente deles.
Acreditei, durante certo tempo, que poderia
tornar-me um deles ou como o meu amigo. Mas isso
no durou muito. Rompi com o cara quando, depois de
muito tempo, ele quis dormir comigo. No podia. No
podia dormir com ningum, a no ser Detlef. Nem
pensava. Ainda o amava. Pensava muito nele, mesmo
que me esforasse para no faz-lo. s vezes eu lhe
escrevia para o endereo de Rolf. Mas era bastante
sensata para nunca enviar a carta.
Soube que ele estava de novo em cana. Stella
tambm.
Encontrei alguns jovens das redondezas pelos
quais me sentia particularmente atrada. Podia falarlhes
livremente dos meus problemas. Junto a eles eu
me sentia respeitada e no tinha medo de que eles
descobrissem o meu passado. Eles tinham mais ou
menos as mesmas idias que eu sobre o mundo. Era
intil representar o papel de "se adaptar": estvamos
na mesma onda. Entretanto, no incio tentei guardar
minhas distncias porque todos, mais ou menos,
mexiam com droga.
Minha me, minha tia e eu pensvamos que ali a
droga fosse desconhecida. Pelo menos as drogas
pesadas. Quando a imprensa falava de herona, isso
era sempre em Berlim e, no mximo, em Frankfurt.
Alis, eu estava convencida de ser a nica ex-viciada
num raio de cem lguas.
Na primeira vez que sa para fazer compras com a
minha tia, me desenganei. Era o incio de 1978. Fomos
fazer compras em Norderstedt, uma cidade planejada,
uma espcie de cidade-dormitrio no subrbio de
Hamburgo. Como sempre, primeiro percebi os caras
com um ar desligado. Perguntei a mim mesma: "Eles
fumam, se picam ou so simplesmente estudantes?"
Entramos em um bar. Um grupo de estrangeiros sujos
estava sentado a uma mesa. Dois deles se levantaram
bruscamente e foram sentar-se a outra mesa. No
entendi por qu, mas senti imediatamente no ar
trfico de herona. Disse  minha tia que queria sair
daquele bar sem lhe dar explicaes.
Cem metros mais longe, diante de uma butique
de jeans, aterrissamos em plena "cena". Localizei
imediatamente os viciados. Imaginei que eles me
haviam reconhecido. . . eles reconheceram a drogada.
Fiquei apavorada. Peguei minha tia pelo brao e disselhe
que precisvamos sair dali imediatamente. Ela
desconfiou de alguma coisa e tentou me acalmar: 
Voc no tem nada mais a ver com isso.  Eu lhe
disse:  Eu ainda no sou capaz de enfrentar isso.
Mal cheguei a casa, troquei de roupa e tirei a
maquilagem. Nunca mais pus minhas botas de salto
alto. Desde ento, tentei assemelhar-me, ao menos
fisicamente, s meninas de minha classe.
Mas, no clube, ficava cada vez mais em
companhia de pessoas que fumavam maconha e
voavam. Uma vez fumei maconha e outra encontrei
pretexto para recusar.
Depois, entrei numa turma formidvel. Jovens dos
vilarejos vizinhos, quase todos aprendizes, que tinham
muitas coisas na cabea. Pessoas que pensavam e que
se questionavam. Quando discutia com eles, isso me
trazia alguma coisa e, principalmente, eles no eram
nem brutos nem agressivos. Havia um ambiente muito
tranqilo naquela turma.
Um dia fiz uma pergunta idiota:  Por que
sempre esta necessidade de voar um pouco?  Eles
me responderam:   evidente. . .  preciso se
desligar de toda a merda da jornada...
Todos eles eram muito frustrados em seu
trabalho. Com exceo de um: ele era sindicalista e
encarregado em sua empresa dos problemas dos
jovens trabalhadores. Encontrava um sentido no que
fazia em toda a jornada. A maior parte do tempo no
tinha necessidade de maconha para se sentir bem. Ele
se contentava em beber alguns goles de vinho tinto.
Os outros saam sempre to frustrados e
agressivos de seu trabalho, que ele lhes parecia
totalmente destitudo de sentido. Eles falavam o
tempo todo em deix-lo. Quando nos encontrvamos,
sempre havia um para contar suas confuses com o
mestre de aprendizado ou um outro problema
qualquer. Os outros ento lhes diziam:  No
pensemos mais no trabalho.  A noite s comeava
de verdade quando o baseado comeava a circular.
Por outro lado, tinha mais chance que eles: s
vezes, meu trabalho escolar me agradava. Mas
estvamos no mesmo barco: eu tambm no sabia
para que aquilo tudo ia servir. Para que serviria todo
aquele stress? Agora eu havia compreendido que no
poderia fazer meu vestibular, nem mesmo conseguiria
meu diploma. Alm disso, eu me dei conta de que,
mesmo com um excelente ttulo de concluso da
escolaridade, uma ex-viciada no tinha nenhuma
chance de encontrar um trabalho interessante.
A propsito, meu certificado de concluso de
escolaridade era excelente. Mas nada de aprendizado.
Deram-me um emprego temporrio em virtude de
uma lei destinada a impedir os jovens desempregados
de andar  toa pelas ruas. Havia quase um ano que
no me picava mais. Sabia,  claro, que era preciso
muitos anos para ficar totalmente desintoxicada. Por
enquanto, aquilo no me causava grandes problemas.
 noite, quando nos encontrvamos, todos os
rapazes e meninas da turma, em volta de um
cachimbo de maconha e de uma garrafa de vinho
tinto, os problemas dirios eram esquecidos.
Falvamos dos livros que acabramos de ler. Ns nos
interessvamos pela magia negra, pela parapsicologia
e pelo budismo. Andvamos em busca de pessoas
ligadas a uma boa viagem na esperana de que elas
nos ensinassem algo, porque ns estivemos em
viagens sem graa. Uma das meninas da turma, uma
aluna de enfermagem, trouxe plulas. Durante certo
tempo, retornei ao Valium. No toquei em LSD, pois
tinha muito medo de fazer uma m viagem. Os outros,
no geral, foram bem.
Em nosso vilarejo no vamos pessoas
baratinadas com drogas pesadas. Se algum quisesse,
que fosse voar em Hamburgo. Tambm no havia
fornecedor de herona, o que tornava as coisas mais
difceis que em Berlim, Hamburgo ou mesmo
Norderstedt.
Mas, se quisssemos, de fato, no era difcil
achar. Os caras tinham contato. s vezes fornecedores
passavam pelo pedao com um bom sortimento.
Bastava pedir qualquer coisa para voar e eles
respondiam: "O que voc quer? Valium, Valeron,
maconha, LSD, cocana, herona?"
Em nossa turma, todo mundo pensava ser capaz
de se controlar, de no se arriscar a ficar dependente
da droga. Em todo caso, a situao era diferente em
muitos pontos do que era h trs ou quatro anos, no
conjunto Gropius.
Se a droga nos dava certa liberdade, ela no era
absolutamente a mesma coisa. No tnhamos
necessidade do Sound, de msica atordoante. As
cintilaes dos luminosos da Kurfrstendamm no
tinham nenhum charme para os nossos olhos. Todos
os fins de semana, partamos para a aventura no
Schleswig-Holstein. Deixvamos o carro em qualquer
lugar e continuvamos a p at que encontrvamos
um lugar superlegal. Passevamos constantemente no
pntano, onde estvamos certos de no encontrar
ningum.
Mas o mais fantstico era a nossa pedreira de
gesso. Um buraco gigantesco no meio da mata. Quase
um quilmetro de comprimento sobre duzentos de
largura e cerca de cem metros de profundidade.
Paredes verticais. Embaixo, no fundo, era agradvel,
no havia vento. E nasciam plantas que no vamos
em nenhuma outra parte. Este vale das maravilhas era
cortado por riachos cristalinos, cascatas brotavam da
muralha. A gua escura enferrujava as rochas
brancas. O cho estava coberto de pedaos de pedra
branca que pareciam ossos de animais pr-histricos. .
. e olhe l se no eram verdadeiros ossos de mamute.
Essas escavadoras gigantescas, e os tapetes rolantes
que faziam durante toda a semana uma confuso
geral, pareciam, no domingo, imveis e silenciosos h
sculos. O gesso os vestira de branco.
Estvamos absolutamente ss. Separados do
mundo exterior por abruptas muralhas brancas.
Nenhum barulho chegava at ns. No ouvamos
nenhum barulho a no ser o das cascatas.
Decidimos comprar a pedreira no dia em que ela
no estivesse mais sendo explorada. Ns nos
instalaramos no fundo. Construiramos cabanas,
plantaramos um imenso jardim, criaramos animais. E
dinamitaramos o nico caminho que leva  superfcie.
De qualquer forma, no tnhamos nenhuma
vontade de voltar l para cima.
* * * (Leia o adendo no final do livro) * * *
O AUTOR E SUA OBRA
Kai Hermann e Horst Rieck, jornalistas alemes,
colaboradores da famosa revista "Stern", realizaram
uma pesquisa sria e corajosa ao entrevistarem
Christiane F. e as pessoas ligadas intimamente  sua
vida, como, por exemplo, sua me e o Pastor Jurgen
Quandt, responsvel pelo Centro de Jovens, onde
Christiane iniciou sua dramtica experincia com
drogas.
Eles resumem seu trabalho de forma incisiva e
simples: "Quando, no incio de 1978, encontramos
Christiane F.  ento com quinze anos , ela
depunha como testemunha num tribunal de Berlim.
Pedimos-lhe uma entrevista que faria parte de uma
pesquisa que realizaramos sobre os problemas da
juventude.
Tnhamos previsto duas horas para a entrevista, e
elas se transformaram em dois meses. De
entrevistadores passamos a ouvintes apaixonados e
profundamente emocionados.
Este livro nasceu da gravao desse depoimento
de Christiane F.  nossa opinio que esta histria
ensina mais do que o mais bem documentado relatrio
sobre a situao de grande parte da juventude.
Christiane F. quis que este livro surgisse. Como
quase todos os viciados em drogas, desejava romper o
silncio opressivo que cerca os problemas dos txicos
entre os adolescentes.
Todos os sobreviventes de sua turma, bem como
os pais, apoiaram o nosso projeto e concordaram,
para reforar a autenticidade deste documento, com a
publicao de seus nomes.
Ao depoimento de Christiane F. juntamos
declaraes de sua me e de outras pessoas que se
ocuparam dela, assim completando a anlise com uma
perspectiva diferente".
Adaptado para o cinema, o relato de Christiane F.
repetiu o mesmo sucesso que o livro havia feito.
Quanto ao mais importante, o destino da prpria
Christiane, aconteceu uma grande transformao. Ela
abandonou as drogas e assumiu sua identidade
completa, em meados de 1982, ao revelar o seu
sobrenome: Felscherinow. Trabalhou em livrarias de
Berlim, incursionou pelo jornalismo. Mais
recentemente, decidiu profissionalizar-se como cantora
e gravou um disco com canes punk.
Adendo da Digital izadora
Aps 30 anos, Christiane F. ainda
luta contra vcio
14 de Janeiro de 2006
Christiane Vera Felscherinow ainda no se livrou
da guerra particular iniciada em 1975 contra as
drogas. Aos 43 anos, a alem chegou a um estado que
alguns mdicos consideram "irreversvel": sofre de
hepatite tipo C e de graves problemas circulatrios. A
senhora Felscherinow , para o mundo, Christiane F.,
drogada e prostituda aos 13 anos. Seu drama de vcio
da herona virou best seller e filme cultuado na dcada
de 80. Hoje, 27 anos depois do livro, Christiane  um
retrato, ainda vivo, do poder destruidor das drogas.
Apenas em dezembro de 2005, o servio pblico de
sade alemo registrou duas internaes da paciente,
que h anos passa por inmeros tratamentos de
desintoxicao. Todos, invariavelmente, no a livraram
do uso de herona. A iminncia de um "colapso
circulatrio com potencial risco s funes vitais" 
descrita em pelo menos um relatrio mdico.
Christiane tem de passar regularmente por sesses de
hemodilise. Mas alm das agulhas e injees
hospitalares, ela sempre recorreu ao "pico" da herona.
Sem emprego fixo, Christiane sobrevive dos royalties
das obras s quais empresta sua histria. A vendagem
de livros e a exibio do filme, porm, tm sido cada
vez mais escassos. Sua situao financeira  limtrofe:
vive com dois tios e o filho de 9 anos, Jan-Nicklas,
num apartamento modesto em Berlim.  seu stimo
endereo em 15 anos. Desde que se tornou famosa ao
ser "descoberta" por dois jornalistas alemes, que
publicaram suas memrias em srie na prestigiosa
revista Stern, em 1979, Christiane tentou reconstruir a
vida, sem sucesso. Chegou a anunciar que estava
"limpa", livre das drogas. Anos depois, admitiu que
isso nunca ocorreu, a no ser por um perodo mximo
de cinco meses. Fez curso de contabilidade, mas
quando comeou a trabalhar num escritrio acabou
presa por posse de droga, em 1983. Depois, tentou
ser vendedora de livros: durou trs semanas na
profisso. Christiane brincou de atriz (interpretou uma
danarina de boate num filme B) e foi cantora de
banda punk. Nada srio. Convicta, ela sempre diz que
no se considera uma vtima das drogas. Pelo
contrrio, garante que faz tudo de forma
absolutamente consciente. Em entrevista ao
semanrio holands De Limburger, em 2005,
Christiane deu um recado s milhares de pessoas que
se chocam (mas que tambm admiram) com a sua
histria. "Eu nunca quis ser exemplo de nada a
ningum, acho que cada um deve saber o que est
fazendo. Eu, pelo menos, sei o que fao".
O inferno de Christiane Vera Felscherinow
comeou em 1973, quando seus pais se divorciaram.
Freqentadora da discoteca Sound, conheceu Detlef,
que se tornaria seu namorado. Viciado em herona e
garoto de programa, Detlef introduz Christiane na
"gangue do Zo", grupo de jovens berlinenses que
usavam drogas numa famosa estao de metr da
cidade alem. No local, ela se prostituiu dos 13 aos 15
anos, necessitando de trs "picos" (doses da droga)
por dia na reta final. No incio, fazia programas para
completar o valor do "pico". Ela dizia que s admitia
sexo oral ou masturbao nos clientes. Dizia ser
"seletiva", repelia os "nojentos", levava uma tarde
inteira pra aceitar um cliente. Depois, mudou, aceitava
o primeiro que aparecia, tinha relaes dentro de
carros. Os jornalistas Kai Herman e Horst Rieck, da
revista Stern, notaram a presena da garota durante
uma reportagem e escreveram uma srie de
reportagens na publicao. Foi a origem do livro. O exnamorado
Detlef ainda est vivo e mora em Berlim.
Com filho e mulher, ele se diz limpo.
Reportagem extrada do site:
WWW.ARCALITERARIA.ORG - Notcias
